segunda-feira, 20 de abril de 2009

ContAR(TE) II - 10ºAno

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III
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Cinzento
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Eram já cinco da tarde e as nuvens plúmbeas tinham-se reunido em conselho e, berrando umas com as outras, rasgavam o ar com raios e violavam o som na terra. O palácio pugnava contra as intempéries do vento que assobiava por entre os galhos das árvores nuas, flagelando os seus troncos. Os telhados de colmo eram esfolados pela tormenta e pelo granizo que os queimava, e por todo o lado cheirava a medo.
“ É a morte”- pensou o Czar - “ Estranhamente cheira a morte”. Estava naquela sala há já duas horas, pálido, nervoso, deambulando sem rumo, bêbado de ansiedade, à espera do filho que estava para nascer.
Ouvia, ao longe, gritos lancinantes e quase que podia sentir a respiração das criadas que corriam de um lado para o outro, transportando consigo toalhas e água quente. A parteira havia chegado duas horas antes, vestindo chuva, carregando nas suas mãos esperança. Tinha-lhe comunicado que seria uma entrega difícil, que Natasha, apesar de bela e jovem, não tinha corpo de mãe, mas que tentaria fazer tudo ao seu alcance. E depois partira em direcção ao quarto senhorial.
Inesperadamente, silêncio. O Czar sentia os seus melífluos tentáculos a agarrarem a atmosfera à sua volta, a agarrarem o palácio de surpresa. Tossiu e os tentáculos recuaram. Só então se atreveu a sair da sala e ir ter com a sua esposa. A porta estava entreaberta e deixava escapar para o corredor sombrio, luzes bailarinas, diáfanas.
Entrou e inalou um odor acre, adocicado, a sangue. Na cama, com os lençóis ensopados em dor e seiva rubra, estava Natasha. Suada, segurava nos braços um pedaço de si que a faria imortal. E sorria. Sentiu-se a sorrir também e correu para junto dela, beijando-a levemente na fronte (com cuidado), afastando-lhe, com ternura, os cabelos escorregadios e húmidos.
“ É uma menina” - disse-lhe numa voz cansada, feliz. O Czar afastou então a manta que cobria a criança e aflorou-lhe aos lábios um sorriso. Era bela!
“ Chama-lhe Bella, Alexei. Chama-lhe Bella”- pediu-lhe Natasha, antes de adormecer, derrotada pela perda de algo seu, pelo ganho de algo também seu. Alexei tomou Bella nos braços sem nunca deixar de sentir aquela essência de morte, de infortúnio. Mas estava feliz, desafiava a tormenta a derrotá-lo! Mas ele não sabia (não podia saber) que, um mês depois, iria ser derrotado e a sua alma apunhalada e enterrada juntamente com o cadáver frio da sua esposa, enquanto o seu corpo permaneceria sentado no trono, a governar. Foi nesse mesmo dia que, tomado de um ciúme louco, impôs a lei da clausura à felicidade que proibia todas as formas de alegria, cor e música. A partir desse dia, Minsk seria uma cidade difusa, cinzenta e morta, tal como a sua Imperatriz.

Bella corria, fugia da sua aia Irina que lhe vinha infligir (como sempre) duas horas de serviço religioso. Estava cansada disso e por isso fugia. Ouvia os seus passos ecoarem solitários nas galerias pardacentas do palácio, apressados, perdidos, e acabou por entrar na biblioteca. Parou para respirar. Ali Irina não a encontraria. E respirou, apoiando as mãos nos joelhos. A pele alva polvilhada de sardas estava agora tingida de um rosa tímido e o cabelo, em desalinho, formava uma auréola ruiva em redor do seu rosto. Ali, Irina não entrava, pensou. A biblioteca era um local sinistro, envolto em faúlhas de mistério e lendas proibidas.
Estava já mergulhada num mundo quimérico, quando ouviu passos (vazios) e, sobressaltada, pousou o livro. Estava alguém ali, estava alguém na biblioteca e esse alguém estava a vir na sua direcção. Esperou em suspenso até que, virando a esquina, esse alguém se revelou. Vestia cinzento, como todos, e vinha de cabeça baixa.
“ É só um funcionário” pensou, respirando fundo. Foi então que o funcionário ergueu a cabeça e cravou os olhos nos dela, sorrindo.
Eram os olhos mais bonitos que Bella tinha visto! Castanhos, com pinceladas de ouro e brilho, olhos que sorriam, olhos que transbordavam luz e calor: vida. Nunca tinha visto uns olhos assim tão humanos, tão quentes (pareciam que queimavam), estava habituada a olhos empertigados, ausentes, nostálgicos, frios. E o sorriso era lindo, também, limpo, sincero como nunca tinha visto. Era contagiante e deu por si a sorrir tolamente.
“ Olá…” - disse-lhe ele - “ estás perdida?”
“ N…não” - conseguiu articular. Aclarou a voz - “ vim só consultar um livro”
“ Sabes ler?” - inquiriu espantado. Mas rapidamente o seu olhar se desviou para o monograma que estava gravado no vestido cinzento de Bella “ Oh! Sua alteza, não tinha percebido, desculpai!” e fazendo uma leve vénia levou a mão da princesa aos lábios.
“ Não faz mal. Nunca te tinha visto, quem és?”. O rapaz olhou para cima, endireitando-se, no entanto, a sua mão acariciou a dela antes de a largar, ao de leve. “ Guiseppe de Génova. Ao seu serviço, senhora”.
Não sabia bem porquê, mas Bella simpatizou imediatamente com o rapaz, talvez por causa do brilho do seu olhar, talvez pela sua voz doce.
E a partir desse dia, desse encontro fortuito, encontravam-se sempre os dois na biblioteca e Guiseppe levantava-lhe do coração o véu soturno que o oprimia e falava-lhe do mundo para lá das fronteiras de Minsk. Sem se darem conta, como o rio que segue o seu curso natural, foram entregando um ao outro a amizade e mais tarde o amor.

Foi num dia de trovoada que o Czar a chamou. A sala do trono estava afogada em desespero e angústia, com um rei de pedra erguendo-se no meio dela, contemplando a única réstia fugaz de cor do palácio, um quadro da sua tão amada esposa que agora, um pútrido cadáver gélido, o arrastava para o abismo dos loucos. Fazia dezassete anos desde a morte da Imperatriz e era por isso que tinha sido chamada, era por isso que falava com seu pai.
“ Pai” - perguntou-lhe - “Porque é que tudo tem de ser tão triste?”
O Czar virou-se, furioso, e a sua postura impávida tinha desaparecido - “ Isto é assim porque tem de ser, isto é assim porque eu quero e tu não és ninguém, não és nada, para questionares! Agora sai!”
E ela saiu, com as lágrimas pugnando contra as pestanas, desejosas de cair.
Motivados por isto, Bella e Guiseppe, uma semana de pois, saíram para as ruas de Minsk com um bandolim e dançando, rindo e cantando (de mãos dadas) com o espírito tolo de quem está apaixonado, dirigiram-se para o centro da cidade.
Das estreitas veias por onde passavam, assomavam caras pálidas à janela, rostos surpreendidos, assustados, felizes. Mas cedo esse gáudio foi ensombrado pelos soldados que, como bestas cegas, perseguiram os dois amantes até os encurralarem na praça pública. À princesa, com fria indiferença, agarraram-lhe o braço, mas a Guiseppe rasgaram-lhe a camisa quando o apanharam, socando sucessivamente, num fluxo louco, o rosto e o torso do rapaz, abrindo-lhe (a navalha) caminhos de dor no corpo, rios rúbeos de violência e no fim (já saciados) levaram-no para a forca. Passaram-lhe a corda pelo pescoço viscoso de sangue e, sem lhe darem tempo, abriram o alçapão sob o seu corpo.
Os segundos que se seguiram, aos olhos de Bella, demoraram séculos. O peso morto, que de repente se viu sem chão, a cair no nada; as vestes cinzentas, esquecidas a planarem à volta do corpo violado. Um esticão repentino, a corda tesa, dura, e o som horripilante da coluna a quebrar-se como quem quebra um copo, assim, facilmente. No fim, do rosto escorrido em sangue, o olhar vítreo, apagado, fixado, um olhar de medo e de espanto.
Correu para junto dele. Correu para junto dele fugindo dos soldados que a aprisionavam. Sem pensar, guiada por tudo aquilo que tinha escondido no seu coração, Bella passou uma corda áspera à volta do pescoço e saltou para o vazio.
O mesmo som. O mesmo arrepio. A mesma morte.
E assim acabaram dois rebentos livres, mortos na praça pública, ele de vermelho pintado e ela de cinzento vestida com uma única rosa rubra adormecida nos cabelos. Um foco de cor e de dor para o mundo ver. Dois seres tenros, prematuramente ceifados, tão próximos um do outro (quase que se tocam, quando o vento os leva numa dança nupcial), mas ao mesmo tempo tão longe. Morreram por aquilo em que acreditavam.
Ana Cristina Graça, 10E
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IV
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Máxima Urgência
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Sentado na cadeira de rodas observava as sombras que via. Para ele o Mundo tinha-se tornado nisso: um conjunto de sombras e sons.
Rui tinha dezasseis anos, nasceu em Évora e lá viveu, até lhe ter sido diagnosticada uma doença degenerativa que lhe afectava o sistema nervoso. Todos os dias, pensava no dia em que veio a Lisboa pela primeira vez. Foi, talvez, o dia mais importante da sua vida ou, pelo menos, o mais decisivo. Nessa altura, tinha doze anos e tinha vindo a Lisboa para fazer uns exames que o Dr. Saraiva tinha pedido. Lembrava-se que tinha ficado confuso. Ouvia as senhoras de Évora a queixarem-se que demorava muito tempo a receber os resultados dos exames, mas Rui tinha recebido os resultados dos seus, poucas horas depois. Mal receberam os resultados, os pais quiseram regressar imediatamente a Évora, apesar da vontade do filho em querer ficar mais tempo para visitar a capital. Nesse mesmo dia, o Dr. Saraiva anunciou à família que Rui teria de voltar rapidamente a Lisboa para começar com tratamentos. Sofria de uma doença incurável, cujos sintomas poderiam ser minimizados com medicação. Agora percebia a pressa com que foram feitos os tratamentos, pois, a partir desse dia, tudo o que fazia, todos os exames e tratamentos tinham uma etiquetazinha vermelha que dizia “Máxima Urgência”.
Dias depois voltou para Lisboa, foi viver para casa de uma tia, D. Ana, dona de um hotel, numa movimentada rua da cidade. Apesar de todos os tratamentos, poucos meses depois, começou a deixar de sentir algumas partes do corpo. Foi brutalmente atirado para uma cadeira de rodas e, mais tarde, perdeu parte da visão, passando a ver sombras. Dois anos depois do diagnóstico, parou com os tratamentos.
A partir daí nunca mais voltou a sair do hotel da tia. Ao longo dos anos, as visitas de amigos e familiares foram-se tornando cada vez mais espaçadas até que deixaram de existir. Até os pais raramente o vinham visitar. Da varanda do seu quarto sabia o que se passava no Mundo e relembrava como era a sensação de se sentir vivo.
Acordava cedo e, com a ajuda da tia, sentava-se na cadeira de rodas e ia até à varanda. Ficava lá sentado até altas horas da madrugada. Ao longo do dia, ouvia o formigueiro de pessoas que passava na rua, fechava os olhos, inclinava a cara para receber o calor do Sol e ouvia… Ouvia a campainha da loja de fotografia, cada vez que entrava um cliente; ouvia os risos dos grupos de jovens sentados na esplanada do café; ouvia o barulho das árvores e dos pássaros; ouvia as pessoas a correrem de um lado para o outro, apressadas nas suas vidas citadinas. E aqueles momentos de calma em que ouvia faziam-no sentir um pouco mais próximo da vida que tinha em Évora, uma vida calma e em paz…
Rui odiava Lisboa. Odiava aquela pressa, a obsessão pelo tempo (ou pela falta dele); odiava etiquetazinhas vermelhas coladas nos cantos superiores direitos de processos e de documentos; odiava o modo como as pessoas tratavam os assuntos...todos com “Máxima Urgência”!
Para Rui a “Máxima Urgência” só destruía a vida das pessoas mais rápido. Se não fosse a “Máxima Urgência”, os exames demorariam mais tempo a chegar. Se não fosse a “Máxima Urgência”, ele teria vivido mais tempo em Évora. Se não fosse a “Máxima Urgência”, teria passado mais tempo com os seus pais. Se não fosse a “Máxima Urgência” teria conhecido Lisboa e o Mundo. A pressa do Mundo roubou-lhe tempo, roubou-lhe vida.
A ânsia com que as pessoas viviam a vida, a rapidez com que as pessoas passavam umas pelas outras na rua, sem prestarem atenção aos que as rodeiam, revoltavam -no.
Aquelas pessoas tinham tudo. Podiam ver, podiam movimentar-se, a maior parte delas tinha família e amigos que ainda se preocupavam com elas, mas viviam a vida a correr sem repararem no mundo em seu redor. Ele que, ainda jovem, tinha perdido parte da visão e não se conseguia mover, mesmo com essas dificuldades, ouvia e aproveitava o mundo, o máximo possível.
Aproveitava o mundo como podia: de manhã aproveitava o cheiro de pão quente, à hora de ponta aproveitava os risos apressados das crianças a correrem para a escola, no Inverno aproveitava o vento frio que lhe arrefecia o corpo… Aproveitava cada pedacinho de mundo como podia, porque o seu mundo tinha-lhe sido roubado, e tudo por culpa das etiquetazinhas vermelhas de “Máxima Urgência”.
Detestava quando a tia o obrigava a vir mais cedo para dentro, no Inverno, porque achava que o frio lhe fazia mal, pois, para Rui, a melhor coisa que ele podia aproveitar era a madrugada. A madrugada trazia-lhe recordações inesquecíveis de Évora, de quando se levantava cedo (ou seria deitar tarde?) para ir jogar futebol com os colegas da escola. Nessa altura, não havia pressa, nem “Máxima Urgência”, as coisas demoravam o tempo que fosse preciso e ninguém se preocupava com isso. Demorasse o tempo que demorasse. Não havia obsessões com o tempo, ou com etiquetas inúteis, a vida demorava o tempo que a própria vida decidisse, e não o tempo que o Homem decidia que a vida tinha de demorar.
Um dia, o rapaz que sonhava com Évora e odiava o tempo e Lisboa deixou de aparecer na varanda. Ao fim de quatro anos de exames e tratamentos, todos com “Máxima Urgência”, a doença levou a melhor, e Rui morreu.
Mas a agitada rua de Lisboa nem notou o seu desaparecimento. Todos estavam demasiado ocupados nas suas vidas citadinas para reparar que, todos os dias, durante quatro anos, um rapaz ficava a sentir a rua da sua varanda, e muito mais ocupados estavam para reparar que esse rapaz nunca mais aparecera à janela.
Apesar de ninguém reparar no rapaz ou na rua, a rua continuava ali com as suas qualidades, à espera que alguém a descobrisse, como Rui a descobriu, porque, apesar de estar quase submersa pela cidade e pelo seu estilo de vida agitado e turbulento, a rua pode ser um sítio calmo e pacífico.

Rita calisto, 10A
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V
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O velho silêncio
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Aquela rua era provavelmente a mais movimentada, mas o que a enchia não eram os velhos cambaleantes, nem as velhas caprichosas, era antes aquele eco de silêncio que se difundia e passava incólume pelas casas. Apareceu de repente à minha frente Joaquim Albernaz da padaria, dois ou três dias depois da tragédia, contando tudo o que se tinha passado na minha ausência.
– Foi o Faustino que fez luz! Que aquele velho nunca foi muito de grandes conversas aqui com a gente da padaria, isso já eu sabia. Agora que o velho era mágico… Ele até podia ter dito, que aposto que muita gente pagava para assistir àquelas maluquices. Este velho vai morrer sozinho, que não há maneira de conversar com ele, menina. Então, depois da morte da mulher é que piorou. Nem o dom que Deus lhe deu soube partilhar com a gente.
Era uma das poucas raparigas daquela rua e sempre achei os velhos seres enigmáticos por fazerem segredo das coisas mais insignificantes, talvez pelo receio de que os liberte daquela solidão a que, a pouco e pouco, se vão habituando. O senhor Albernaz foi trabalhar e eu continuei então pela rua abaixo. Ao longe, lá estava o velho Faustino, ali, quieto, enquanto o silêncio se sentava à sua frente. Parecia que a dor o consumia e os segredos o sufocavam ao longo dos dias que ali permanecia, sem nunca conversar com ninguém.
No dia seguinte, já o sol tinha nascido, quando olhei através da janela. Lá estava o velho, outra vez, imóvel e tranquilo. Desci as escadas e arrisquei tentar falar com ele, na esperança de que, sem querer, algum segredo fosse revelado naquele momento. Da sua boca saíam palavras doces, mas o tom de voz denunciava a amargura que sentia e que o remetia para a sua solidão. Perguntei-lhe então se sabia alguma coisa sobre uma luz que tinha aparecido há alguns dias atrás.
Faustino apenas afirmou:
– Desde que a Laurentina morreu que já não trovoava nesta cidade… E ela sempre dizia que a trovoada é ira dos mortos.
Com medo que mais alguma palavra lhe escoasse pela boca, o velho fechou-se, de novo, no seu silêncio. De súbito, o arco--íris revelou-se no horizonte e uma lágrima brotou da sua face enrugada. Neste momento, os seus olhos falavam. Faustino parecia perder-se no amor que ainda sentia pela vida e, vendo a amargura a arder, afastou-se e caminhou, caminhou numa ida sem fim.

Maria Santos, 10A
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VI...
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Parada
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- Senhoras e senhores, convosco, o incrível, o inigualável, o soberano Bernard.
Cigarro na boca, sentada ao espelho. Cigarro não já na boca, no cinzeiro. A mão na gaveta, à procura do seu bigode. Uns segundos, uns minutos.
- Senhoras e senhores, o fantástico domador de bestas.
Uma ponta de pincel, um risco na pestana direita, um retoque nas bochechas.
- Madame Sullimann, minha bela, estará surda? Chamei Bernard, o magnífico… Mas vejo que está pronta, ou deveria dizer pronto?
Deu um sorriso escondido no chapéu que tinha na cabeça. Levantou-se, cigarro na boca, cigarro não já na boca, outro mais no cinzeiro. Ouviu.
- Senhoras e senhores, Bernard, o soberbo.
Abriu a cortina e atirou a mão para a sua pose. Olhou em volta, os focos impediam-na de ver a plateia, mas conseguia sentir-lhe o cheiro a êxtase, os sons de espanto ao abrir da jaula. Um som de temor, um atenuar da lucidez ao abrir da jaula. As cortinas tornaram-se negras, os palhaços borraram os sorrisos. A Fera, quieta, num jogo de paciência, com um riso abafado. A Fera numa luxúria e esplendor que levam um homem à loucura.
Um movimento após outro, uma resposta atrás de outra. Os olhares, silenciosos, provocadores. O crepúsculo já no horizonte e a plateia num alvoroço. Os olhos dele a desvanecerem, os da Fera, incansáveis.
(Um brinquedo no palco, uma marioneta quase destruída, então!)
Uns segundos, uns minutos e o chicote no chão, a fronteira a ruir. Um sopro gélido que só se sente no último susto, no último momento. A Fera, permanecia altiva, confiante, desejante de o ver rebaixar-se; e os olhos dele não podiam mais desviar-se daquele poço de loucura. Assim, caiu como quem flutua na água, à espera de um salvamento apertado, arriscado, submetendo-se a todo o seu poder. E os palhaços invadiram o palco, e, com eles, as bailarinas, trapezistas, contorcionistas, numa algaraviada. O público gritava e dançava com a parada. Deleitava-se com o espectáculo e contorcia-se de prazer. E Bernard deitado, e a Fera, de olhos encantadores, oferecia a face aos seus lábios.

Ana Luísa Gomes, 10E
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VI

VII
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Uma retrospectiva do sentido da vida
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-"Sabes que as luzes acabarão por te levar a casa!"
-"Que dizes, irmão?"
-"Nada."
-"Nunca dizes nada."
-"Não tenho tempo para o fazer."
-"Eu arranjo-te."
-"Não pode ser, estou ocupado."
-"A fazer o quê, irmão?"
-"Observando as pessoas. Procurando um sentido para a vida."
-"Oh meu velho amigo, não te preocupes com isso... Eu ofereço-te um pouco do meu, queres?"
-"Do teu quê? Do teu sentido de vida? Não quero, aposto que é cá um cliché..."
-"Que dizes?"
-"Nada."
-"Ai não, desta vez disseste alguma coisa!"
Caminham clandestinos do tempo, passeiam-se aqueles que procuram algo para fazer e não percebem que a beleza daquele lugar é suspender os problemas do quotidiano. Onde tudo resplandece no infinito.
-"Olha-me aqueles dois?!"
-"Que tem, irmão?"
-"Esses não andam à procura do sentido da vida de certeza..."
-"Se calhar já o encontraram."
-"Porque é que eu não encontro o meu? Já estive mais perto, sabes... Estive tão perto, que pensei até tê-lo encontrado."
-"O que aconteceu irmão?"
-"Fugiu."
-"Para onde?"
-"Não sei!"
-"Por que fugiu?"
-"Deixei-o escapar."
-"Porquê, irmão? Era algum pássaro?"
-"Não, meu pateta. Era platónico."
-"E por isso fugiu?"
-"Não, fugiu, porque eu não me entreguei por completo. Porque o ignorei e assumi como garantido."
Outros vão passando. Garantindo a sua presença num jardim que acolhe quem precisa de um pouco de paz e harmonia. De luz na sua vida. De esperança.
-"E aqueles, irmão?"
-"Quais?"
-"Os que se abraçam e caminham de mãos dadas."
-"O que é que tem?"
-"O que é que achas, irmão?"
-"Não sei, diz-me tu."
-"Eu cá acho que descobriram a alegria do mundo. "O sabor das amoras."
-"E o que é isso?"
-"O que é isso, irmão?"
-"Sim, o que significa?"
-"Para mim?"
-"Pode ser..."
-"Para mim, irmão, transmite-me o sentido da vida."
Depois desse dia, escreveste-me uma carta, irmão. Tinhas encontrado o sentido da vida. Tinhas finalmente encontrado a alegria do mundo, "o sabor das amoras" que há tanto aguardavas por saborear. Não a li. Ainda.
Faz hoje um ano que me fugiste, irmão. Um ano que deixámos de ensinar a nossa perspectiva de vida um ao outro. Que deixámos de nos abraçar, de caminhar de mãos dadas, em espírito que fosse. Ainda o faço, sabes?"
"Meu amigo, descobri a alegria do mundo. E esteve sempre tão perto.
Obrigada por seres o sentido da minha vida."
Obrigada, irmão, por me teres demonstrado o bem que as pessoas fazem. A paz que elas transmitem. A ajuda que prestam. Obrigada.
As luzes acabaram por me guiar a casa, irmão.
Ana Catarina Monteiro, 10E

quarta-feira, 15 de abril de 2009

"Frei Luís de Sousa" nos dias de hoje



Em Oficina de Escrita, os alunos adaptaram textos do domínio transaccional e funcional, nomeadamente a reclamação, ao contexto e à acção da obra de Almeida Garrett. Pedia-se sobretudo criatividade. Eis alguns exemplos:
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1.
............................................Manuel de Sousa Coutinho
............................................R. Luís de Camões
............................................2003-743 Almada

28 de Agosto de 1599

Exmº Sr. Dr. Anastácio Barbosa
Director Geral da Companhia de Seguros Paz De Alma
Companhia de Seguros Paz De Alma
1990-503 Lisboa


Venho por este meio proceder ao relato de uma situação profundamente desagradável ocorrida no meu Palácio, em Almada. Neste sentido, procederei de forma sucinta à descrição dos factos:

1) No dia 28 de Julho deste ano, decorreu um terrível incêndio na minha residência, tornando-a inabitável para mim e para a minha família;
2) Após este facto, desloquei-me à vossa companhia, no mesmo dia, no sentido de dar ocorrência do sucedido. O vosso funcionário Anacleto Lopes da Silva prometeu-me enviar um avaliador para constatar os danos causados pelo incêndio, o mais rápido possível;
3) Desde esta data (28/07/1599) não compareceu ninguém para a supracitada avaliação, nem voltei a ser contactado pela vossa companhia para justificação de tal facto;
4) Ontem, dia 28 de Agosto, um mês depois do ocorrido, tomei a iniciativa de me voltar a deslocar a Lisboa para assegurar os vossos serviços, uma vez que achei estranho não me terem voltado a contactar;
5) Já na companhia, fui atendido pelo funcionário Armindo Meireles que me alertou para o facto de não existir um registo da ocorrência.
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Face à exposição dos factos supracitados, importa proceder à seguinte análise:
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1) Considero o vosso comportamento e procedimento utilizados de uma inqualificável incompetência e desrespeito pelo vosso leal cliente;
2) O procedimento correcto da vossa parte seria terem enviado de imediato um avaliador para que se procedesse à realização das burocracias necessárias para a indemnização, além de que deveriam ter disponibilizado alojamento temporário para mim e para a minha família;
3) Os danos causados pelo vosso procedimento incorrecto são significativos e profundamente penalizantes:
a) Despesas causadas pela deslocação à Companhia, em Lisboa;
b) Perda de valores incalculáveis (jóias de família, obras de arte, vasta biblioteca e todas as posses de um passado na Ordem de Malta);
c) Profundo transtorno pessoal e monetário em termos de alojamento, numa casa antiga, há muito não habitada e com uma renda consideravelmente elevada;

Dada a incorrecção verificada e a profunda falta de respeito pelos interesses envolvidos, exijo uma indemnização não só pelo incêndio que devastou o meu lar, mas também pelos danos referidos em 3).

Espero que para a segurança e a justiça em Portugal, a vossa companhia, como uma das mais prestigiadas no país, melhore os serviços que prestam aos cidadãos.
Sem outro assunto de momento, subscrevo-me com elevada consideração,
.....................................................................................................................Manuel de Sousa Coutinho
Sara Guedes e Maria Gaspar
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2.
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.......................................................Telmo Pais
.......................................................Casa da Doroteia
.......................................................1934-503 Almada
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Exmº Sr. Romeiro (D. João de Portugal)
Cavaleiro da batalha de Alcácer Quibir
5907-541 Alcácer Quibir
África
Email: jojoport@alcacerquibir.com
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Venho por este meio expor uma situação, profundamente desagradável, da qual fui vítima, ocorrida no Acto III, cena V. Deste modo, procederei de forma sucinta à descrição pormenorizada dos factos:
1) No dia 25 de Novembro deste mesmo ano, fui surpreendido por um vulto, que se identificou como “Ninguém”;
2) Quando finalmente demonstrou a sua verdadeira identidade, como sendo o meu amo, apesar de surpreso e feliz, não consegui esconder a minha perplexidade perante o acontecido;
3) Na passada segunda feira, dia 2 de Dezembro, decidi visitá-lo para demonstrar a minha insatisfação perante o sucedido;
4) Nesta visita, apesar da vossa afectividade no princípio da nossa conversa, este sentimento foi-se convertendo num rancor e desejo de vingança sob a família Coutinho.
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Face à exposição dos factos apresentados:
1) Considero o vosso comportamento e procedimento de um desrespeito inqualificável pela minha pessoa e por D. Madalena, uma vez que podia ter recorrido aos meios de comunicação existentes para alertar a sua chegada;
2) Deveria ter tido mais consideração pela moral da família Coutinho, principalmente por D. Maria, uma vez que se encontrava débil;
3) Não deveria culpar D. Madalena pelo seu segundo casamento, pois ela esperou muito tempo pela sua chegada e nunca o julgou morto;
4) Já que não deu sinal de vida, podia ao menos ter a decência de nos mandar recursos monetários para saldar as várias dívidas inerentes à manutenção da sua casa.
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Os danos causados pelo vosso procedimento são significativos e profundamente penalizantes:
1) Morte de Maria;
2) O meu despedimento;
3) Morte espiritual de D. Madalena e Manuel de Sousa Coutinho;
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Tendo em conta o sucedido, gostava de deixar claro que tomarei as seguintes atitudes:
1) Envio de uma queixa detalhada e devidamente sustentada para a Associação de Desaparecidos de Almada;
2) Envio de uma queixa detalhada e devidamente sustentada ao Prior de Benfica;
3) Envio de uma queixa detalhada e devidamente sustentada à Segurança social;
4) Divulgação deste assunto no Jornal Medieval;
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Agradeço desde já a atenção disponibilizada. Com elevada consideração,
..................................................................................................................Telmo Pais
Ana Rodrigues e Cláudia Chaves
...
3.
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............................................Madalena de Vilhena
............................................Rua dos Agouros, 13
............................................1013 – 130 Almada
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Exmº Sr Constantino Aldegundes
Director da Polícia do Reino
Polícia do Reino
Rua da Tapada, 1
1990 – 503 Lisboa
Reino de Portugal
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Venho por este meio proceder ao relato de uma situação profundamente lamentável e irreparável, que derivou da incompetência dos vossos serviços. Neste sentido, procederei de forma sucinta à descrição dos factos:
1) No dia 4 de Agosto de 1578 travou-se a Batalha de Alcácer Quibir, no continente africano, na qual o meu primeiro esposo, D. João de Portugal, participou.
2) Nessa Batalha, D. João de Portugal foi dado como desaparecido.
3) Assim, recorri aos serviços de V. Ex.ª, com o intuito de o encontrar.
4) Foi-me então dada a certeza de que iriam fazer o necessário para o encontrar.
5) Ao fim de sete anos (ano de 1585), V. Ex.ª mandou suspender as buscas, ordenando que os seus colaboradores regressassem ao Reino, apesar de não terem cumprido a sua missão.
6) Contrapus a vossa decisão, contudo, não obtive resposta por parte de V. Ex.ª.
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Face à exposição dos factos supracitados, importa proceder à seguinte análise:
1) Considero a vossa atitude e procedimentos utilizados de uma inqualificável incompetência e desrespeito pela minha pessoa.
2) Os danos causados pelo vosso procedimento incorrecto revelaram-se significativos e profundamente trágicos:
a) Após os sete anos de espera e consequente mentalização da possibilidade do falecimento de D. João de Portugal, decidi refazer a minha vida e casei-me com o Exm. Manuel de Sousa Coutinho.
b) Em 1586, tivemos a nossa primeira filha.
c) No dia 4 de Agosto de 1599, ano que corre, apareceu na minha residência D. João de Portugal.
d) Após este episódio, a nossa vida ficou arruinada e tanto eu como Manuel de Sousa Coutinho nos vimos na obrigação da tomada do hábito.
Assim, concluo que tudo isto se deveu à falta de empenho e de competência de V. Ex.ª.
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Espero que, para o bem do Reino, V. Ex.ª e os seus assessores melhorem a qualidade dos serviços que prestam.
Sem outro assunto de momento, subscrevo-me com elevada consideração,
................................................................................. Madalena de Vilhena (Setembro de 1599)
Marcelo Guedes e Teresa Andrade
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4.
...
.....................................................D. João de Portugal
.
....................................................Lisboa
...
Lisboa 13 de Fevereiro de 1585

...
Ex. Mo Senhor Arsénio Mattos
Director geral dos serviços administrativos do reino de Portugal
Lisboa
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Venho por este meio proceder ao relato do que considero ser uma grave falha dos serviços administrativos do reino, a que V. Ex. preside e coordena. Neste sentido procederei de forma breve, mas rigorosa à exposição dos factos:
1. No dia 4 de Agosto do ano de 1578, com a Graça de Deus e por amor à pátria, combati ao lado d’El Rei D. Sebastião na batalha de Alcácer Quibir;
2. Nesta baralha, fui feito prisioneiro, tendo permanecido em cativeiro durante vinte anos;
3. No final deste período, constatei para minha surpresa que tinha sido dado como morto nos serviços administrativos que V. Ex. preside e coordena.
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Face ao exposto importa proceder à seguinte análise:
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1. Considero a vossa actuação e todos os procedimentos utilizados insuficientes e pouco rigorosos;
2. O procedimento correcto da vossa parte seria averiguar com todos os meios ao alcance de V. Ex. a existência de um corpo, ou a prova da morte através de relatos de testemunhas;
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Dada a incorrecção cometida e profunda falta de respeito, informo, para os devidos efeitos, que procederei da seguinte forma
a) Envio de queixa detalhada e devidamente fundamentada para o Rei;
b) Envio de queixa detalhada e fundamentada para as mais altas instâncias da igreja cristã / católica de Roma;
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Espero que, para o bem da nação, os serviços prestados por V. Exas. melhorem de forma significativa.
Não tendo outro assunto a tratar, no memento, subscrevo-me em cordiais saudações:
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......................................................................................................D. João de Portugal

António Duarte e Francisco Pereira

domingo, 12 de abril de 2009

ContAR(TE) I - 10ºAno

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Recebi alguns contos produzidos a partir de obras de Juan Muñoz, após a exposição no Museu de Serralves - JUAN MUÑOZ, UMA RETROSPECTIVA - que os alunos de 10º ano visitaram. O desafio foi lançado a partir do mote - Muñoz, "um contador de histórias" - e os alunos contaram, com palavras, histórias que o artista contou com as suas esculturas.
Dado que se tratam de textos mais longos, publicá-los-ei gradualmente, dois a dois. Aqui ficam os primeiros:
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I
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Um Ventríloquo em busca de companhia
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Mais um dia de montagem de obras-primas no Museu de Serralves, no Porto. Desta vez, Juan Moñoz. Uma noite típica de Verão faz o sol desvanecer, as estrelas aparecer, juntamente com as luzes da cidade e alguma neblina que começa a pairar nos jardins. Chega a hora do segurança do Museu dar a sua volta, fazendo-se acompanhar de uma grande lanterna que lhe ilumina o caminho, apontando-a para todos aqueles objectos sem cor, sem expressão, mas todos com forma humana. Todos lhe pareciam imóveis, sem vida, de olhos “cosidos”, no entanto, o senhor sentia-se observado. Todas as noites, tentava fazer a sua ronda com um passo precipitado até à porta de saída, pois aquelas esculturas intimidavam-no bastante, principalmente quando o Museu se encontrava sem ninguém.
Bem, de facto, o vigilante tinha razão para se sentir apavorado junto das obras de arte, uma vez que, quando todos saíam e as luzes do museu se apagavam, os pequenos homenzinhos de Juan Muñoz esticavam as pernas, terminavam com os gestos suspensos, desciam dos pedestais, tiravam as máscaras, pousavam os tambores e tomavam conta das salas desertas. Creio eu que se sentavam em círculos para jogarem às cartas, corriam pelos corredores, faziam equilibrismo nos cabos que sustentam as duas figuras suspensas e jogavam às escondidas. Alguns chinesinhos cinzentos de Many Times continuavam juntos em pequenos grupos, provavelmente conspirando sobre graves revoluções, e o anão, com ar de boneco de ventríloquo, saltava da prateleira de Wasteland e ficava ensaiando minúsculos passos de dança no pavimento geométrico, esperando que Muñoz lhe oferecesse o conforto de um par, pois era ele quem mais se sentia só. Diante das visitas sorria, demonstrava o seu ar maroto, chegando até a parecer que estava a fazer troça dos visitantes, uma vez que, devido ao pavimento da sala onde este se encontrava, era criada uma ilusão de óptica que fazia com que a escultura não aumentasse à medida que dela se aproximavam. Durante o dia, exibia a sua faceta de escultura feliz, no entanto, à noite, era excluído das brincadeiras e tentava, por isso, divertir-se sozinho a imaginar o dia em que Juan Muñoz criaria uma companheira para si, também com aspecto de boneca de ventríloquo, pois, na sua opinião, na estante em que se encontrava, ainda cabia mais uma escultura.
Numa dessas noites, o ventríloquo tentou, mais uma vez, arranjar companhia para uma dança, ou para uma brincadeira, mas estavam todos demasiado ocupados para lhe prestarem atençao. Todos tinham já os seus amigos escolhidos e ninguém estava interessado em ter mais uma companhia. Isto deixou, mais uma vez, o Boneco muito melancólico e abandonado, e, por isso, durante a noite, tomou uma decisão: na noite seguinte, iria fugir do Museu de Serralves em busca do seu criador, Juan Muñoz.
E assim foi. Após a saída do vigilante, o ventríloquo pôs os pés ao caminho, com um destino desconhecido, uma vez que não sabia do paradeiro do seu criador. A última vez que o viu tinha sido em 1987, data em que foi criado Wasteland, obra de arte da qual ele fazia parte.
Após vários e longos dias a andar a pé ou apanhando boleia, sorrateiramente, em carros, carroças, aviões e até bicicletas, chegou a Ibiza, pois tinha ouvido os seus colegas da sala ao lado comentarem qualquer coisa sobre Juan Muñoz ter ido lá passar umas férias. Cada vez estava mais perto de encontrar o seu criador, e por isso aumentava também a excitação de lhe conseguir pedir uma companhia para si...
Quando o ventríloquo passeava pelas ruas de Santa Eulária des Riu, durante uma noite escura, um jornal já velho e gasto pelos sapatinhados das pessoas voou na sua direcção e o boneco leu a notícia da primeira página: “Juan Muñoz morre com 48 anos, de ataque cardíaco, na sua casa de Verão em Santa Eulária”. Após esta breve leitura, uma lágrima escorreu pelo seu rosto (sim, as esculturas também choram), caindo sobre a folha de jornal. A sua oportunidade de ter alguém para lhe fazer companhia tinha ido por água abaixo... mas não foi só por isso que o Boneco estava triste, ele não era assim tão egocêntrico. Ele chorou, pois o seu pai, aquele que lhe dera vida, acabara de falecer. O seu mundo parecia ter desabado, tudo à sua volta parecia agora estagnado.
Mas logo pensou que os seus colegas ainda não deveriam saber desta novidade e, muito triste, tentou regressar a Portugal. Demorou vários dias... Desta vez, o caminho de volta ao Museu parecia-lhe mais comprido e mais cansativo, pois agora transportava consigo a angústia de ter perdido para sempre o seu criador.
Ao chegar a Serralves, os seus amigos abraçaram-no e beijaram-no, pois tinham sentido a falta dele. Embora ele nunca estivesse com ninguém, aquele museu sem ele perdia alguma da sua vida, perdia algum encanto, perdia alguma da magia...E, por isso, todos, muito preocupados, perguntavam, em uníssono, por onde tinha andado aquele tempo todo. O Boneco explicou-lhes a razão da sua ausência, sem avisar ninguém, e contou-lhes o que tinha descoberto durante essa longa viagem...
Dizem que a principal característica das esculturas de Juan Muñoz é a maior parte delas não ter uma expressão facial, mas, naquele momento, todas as faces pálidas se tornaram frias e carregadas de tristeza pela morte do “pai”... todas ganharam naquele momento a mesma expressão de melancolia. Todos se abraçaram e se apoiaram mutuamente.
Daí em diante, à noite, depois da visita do vigilante, juntam-se todos, sem excluírem ninguém, e, assim, o ventríloquo nunca mais pensou em arranjar uma companheira de estante.
Ana Margarida Ferreira Rodrigues, 10ºD
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II
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Viragem
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Pousei o primeiro pé, respirei pela primeira vez aquele ar, quente, pesado, meio empoeirado, e vi à minha volta as imagens dos postais e dos livros do turismo. Era igual, parecia um cenário, pronto para a representação e para acolher as palmas no final, um cenário do qual eu fazia parte.
Estava em Herat, no longínquo Afeganistão.
Percorri as ruas da cidade, eram grandes as avenidas e não havia contraste entre as cores do passeio e da estrada, era tudo feito de terra, dum pó cinzento, sombrio e sujo.
Á medida que continuava, crescia dentro de mim um desconforto, uma saudade de casa, uma lágrima no canto do olho, que disfarçava com um sorriso de curiosidade, e me roía por dentro. Cada vez mais me sentia um estranho, um turista de saco às costas e máquina na mão, à espera dum momento perfeito para guardar.
Continuei o caminho até entrar numa espécie de mercado ou de bazar, um túnel coberto por um tecto em arco, pintado por uma cor sem nome e por um laranja já envelhecido, que fazia um padrão. Para o iluminar, havia candeeiros, suspensos por uma só corda, que nos passavam tangentes à cabeça e produziam uma luz ténue e amolecida. Os vendedores de turbantes balbuciavam palavras estranhas numa voz grave e forte que me fazia estremecer e trocar os passos, que pareciam querer parar, ficar imóveis, não queriam ultrapassar a barreira do diferente.
Os meus olhos prendiam-se entre as mulheres cobertas por trapos escuros, normalmente pretos ou cinzentos carregados, cores de noite. Eram vultos, figuras fantasmagóricas que circulavam sem cara, sem identidade. Já me ia esquecer dos cânticos, gritos ofegantes, desesperados, que ressoavam em toda a cidade, indo até ao mais íntimo recanto e que serviam de aviso para a hora de culto na mesquita.
O sol começava a esconder-se e a cidade ia-se enfeitando de sombras, que me atacavam. Eram dirigidas a mim, eu sei que eram.
Acelerei o passo para deixar de ver o que me rodeava, para que todo aquele espaço passasse por mim como um filme em que eu não era o protagonista.
De repente, choquei com um velho, de barbas grisalhas, mais esbranquiçadas, com uma pele morena marcada pelas rugas que se acentuavam principalmente no contorno dos olhos e no limiar dos lábios, marcas de riso com certeza, que ainda agora não escondia
Parei, fiquei imóvel, não tive coragem de desenhar um “ desculpe” ou um “está tudo bem” - e mesmo que a tivesse não o saberia dizer. O homem percebeu, notou logo que eu era estrangeiro, e não hesitou em lançar um sorriso acompanhado por um quase fechar dos olhos que lhe enrugava todo o rosto.
Meio envergonhado, arrisquei um passo para trás, virei-me lentamente, aproveitando todo o conforto que um sorriso pode dar, e continuei a caminhar… senti os passos guiarem-me e não mais o mapa que levava na mão. E a terra que pisava já não era cinzenta, mas sim de um tom entre o amarelo e o laranja, as vozes dos comerciantes já não me magoavam, e às mulheres já lhes via os olhos…
Voltei a percorrer o bazar e já não era eu o estranho, já não era eu o turista da máquina na mão, esse eram os outros, que por ali passavam uma primeira vez.
Teresa Freitas, 10ºA

sábado, 11 de abril de 2009

Do mundo dos livros II: tradição e revolução

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Uma nova livraria em Lisboa. O espaço de uma antiga padaria, na Rua do Século, transformou-se na Livraria Alêtheia, de Zita Seabra.
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E, sinais dos tempos, há cada vez mais adeptos dos e-books. A Google disponibiliza já grandes clássicos para download, a custo zero, no sítio www.books.google.com.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Roteiro Queirosiano: visita de estudo - 11ºAno










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Tomei a liberdade de retirar as imagens do Grémio Literário do sítio on-line dedicado a esta instituição. As restantes fotografias foram-me enviadas pela Drª Isabel Maia. Aguardo com expectativa as fotoreportagens dos alunos, que aqui espero vir a publicar.
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“Lisboa é Portugal. Fora de Lisboa não há nada. O país está todo entre a Arcada e S. Bento.”
Eça de Queiroz, Os Maias
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Visita de Estudo - 11A, 11B, 11C e 11D/E (25 e 26 de Março de 2009)
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Percorrer a Lisboa queirosiana é percorrer o espaço simultâneo da fantasia e da realidade. Encontrámos Eça no Chiado, ouvimos a sua voz inconfundível, deliciámo-nos com os traços impressivos das suas personagens. Perseguimos Carlos da Maia pela Rua Ivens, assistimos ao seu desencanto e ao marasmo nacional. Olhámos a janela de Maria Eduarda e passámos pelo Teatro da Trindade. Em cada esquina, em cada rua, um eco de Os Maias, o grito feérico da ficção e do sonho.
Trajámo-nos a preceito para um sarau moderno, descemos a São Carlos. Passeámos na Pena, saboreámos as queijadas que Cruges esquecera. Rimos de Dâmaso e do seu "chique a valer". Fomos aos Restauradores e ao Rossio. O mesmo azul-ferrete da obra, o mesmo clima suave, o mesmo sol macio a bater no lajedo faiscante. Descansámos sob o olhar cansado e secular de Camões. E, finalmente, penetrámos na atmosfera culta e silenciosa do Grémio Literário. Fomos recebidos aí pelos vultos de Garrett e Herculano, que nos esperavam no jardim. Despedimo-nos. E, de monóculo em riste, Eça murmurou-nos: Sobre a nudez forte da verdade, o manto diáfano da fantasia.

Do mundo dos livros

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Todos os dias, por "higiene mental", visito alguns blogues sobre livros, leitura, edição e escrita. Sou leitora assídua de dois deles: o Ler, da revista Ler, e o Ciberescritas, de Isabel Coutinho, jornalista do Público, que assina a coluna homónima.
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Já me tinha referido ao primeiro, quando a Ler voltou às bancas sob a direcção de Francisco José Viegas. Aproveito para deixar a capa de Abril:
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Procurarei fazer o mesmo todos os meses a partir de agora.
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Quanto ao segundo, já lia com interesse a coluna que Isabel Coutinho assina desde 1996 no Público. Refiro-o hoje a propósito de um colóquio organizado pela Casa Fernando Pessoa, sobre a escritora brasileira Clarice Lispector (clique para saber mais).
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Uma das comunicações era de Carlos Mendes de Sousa, da Universidade do Minho, cuja investigação foi dedicada em grande parte a esta autora. Por coincidência, meu professor de Literatura Brasileira e responsável pela minha devoção literária por Lispector. Lembro-me bem do impacto que a primeira leitura teve em mim, ao revelar um "tipo" diferente de feminismo, rodeado por uma aura de mistério quase místico e, simultaneamente, pelo contacto feroz com realidade e a imanência da mulher.
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As minhas primeiras leituras foram Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, Maçã no escuro e A hora da estrela. Mas foi o primeiro que mais me fascinou e marcou...
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Foi através do Ciberescritas que acedi à única entrevista concedida por Clarice, em 1977, antes da morte:
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segunda-feira, 6 de abril de 2009

Livro(s) do mês - Abril

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Depois de «Bilhete de Identidade», Maria Filomena Mónica escreve «Passaporte», um livro sobre as suas viagens e incursões pelo mundo. Com «Bilhete de Identidade» (Alêtheia Editores, 2005), Maria Filomena Mónica alcançou grande sucesso e suscitou grande polémica pela forma desassombrada como descreveu o seu passado e relatou a sua vida até 1976, tendo sido a primeira a fazê-lo na sociedade portuguesa.

domingo, 5 de abril de 2009

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Livro(s) do mês - Abril

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O novo romance de Chico Buarque. E o primeiro capítulo aqui.
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Francisco Buarque de Hollanda nasceu no Rio de Janeiro, em 1944. Cantor e compositor, publicou as peças Roda viva [1968], Calabar [1973], Gota d’água [1975] e Ópera do malandro [1979]; a novela Fazenda modelo [1974] e os romances Estorvo [1991], Benjamim [1995] e Budapeste [2003]
Para mais informações:
www.chicobuarque.com.br
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quinta-feira, 2 de abril de 2009

Livro(s) do mês - Abril

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As velas ardem até ao fim, Sándor Márai

Um pequeno castelo de caça na Hungria, onde outrora se celebravam elegantes saraus e cujos salões decorados ao estilo francês se enchiam da música de Chopin, mudou radicalmente de aspecto. O esplendor de então já não existe, tudo anuncia o final de uma época. Dois homens, amigos inseparáveis na juventude, sentam-se a jantar depois de quarenta anos sem se verem. Um, passou muito tempo no Extremo Oriente, o outro, ao contrário, permaneceu na sua propriedade. Mas ambos viveram à espera deste momento, pois entre eles interpõe-se um segredo de uma força singular...
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Sándor Márai (n.1900, Hungria) passou um período de exílio voluntário na Alemanha e em França durante o regime de Horthy, nos anos 20, até que abandonou o seu país emigrando para os EUA, em 1948, com a chegada do regime comunista. A subsequente proibição da sua obra na Hungria fez cair no esquecimento quem nesse momento era considerado um dos escritores mais importantes. Foi preciso esperar até à queda do regime comunista, para que este extraordinário escritor fosse redescoberto no seu país e no mundo inteiro.

terça-feira, 31 de março de 2009

Filme do mês - Abril

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O Lusografias inaugura uma nova secção, uma proposta das professoras Auxília Ramos e Ivone Rebelo. Para este mês, a sugestão recaiu sobre um dos melhores filmes deste ano, O leitor, do premiado director de As Horas, Stephen Daldry.
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Um pormenor, um “segredo” pode condenar ou ilibar de acusação?
A verdade de cada um é ou não sentida como culpa?
Devemos julgar ou entender?
“Até que ponto podemos estar enganados?”
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São algumas das questões que o filme coloca e que, sobejamente, foram tratadas, exploradas, dissecadas pelos mais diversos especialistas em crítica de cinema, ou em juízos filosóficos e moralistas.
Não é disso que queremos falar, mas daquilo que, verdadeiramente, mais nos arrebatou e nos deixou enlevadas ao ver o filme: a força, o poder, o magnetismo, a magia da literatura, das palavras lidas ou escutadas, como se fossem uma melodia. É esse, para além de outros, um dos grandes motivos do filme: a leitura, associada ao poder redentor do “leitor”.
É esta mensagem que queremos partilhar e que o filme transmite, num cenário que evoca o holocausto nazi e com um enredo amoroso que subverte todas os padrões do convencional. Os livros, a literatura, a leitura, ganham primazia relativamente aos restantes acontecimentos e, progressivamente, vamo-nos deixando possuir por esta grande força: a leitura pode salvar, redimir, sublimar os mais reprimidos e contraditórios sentimentos.
E, então, lembrámo-nos de Jorge Luís Borges que referia, naquele seu habitual tom de provocação, que “há aqueles que não podem imaginar um mundo sem pássaros; há aqueles que não podem imaginar um mundo sem água; ao que me refere, sou incapaz de imaginar um mundo sem livros.” Ao recordá-lo, diremos: não poderíamos ficar de igual modo fascinadas pelo filme sem a presença poderosa da literatura e do seu suporte material, os livros.
No filme, eles são uma presença constante, um outro protagonista, e geram, no desenrolar da acção, forças tão contrárias como distanciar ou aproximar, salvar ou ajudar a morrer…
Auxilia Ramos, Ivone Rebelo

segunda-feira, 30 de março de 2009

"A choldra ignóbil" ou o Portugal de Eça

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Na revista Pública deste Domingo, a crónica de José Eduardo Agualusa evoca Eça e a sua obra-prima, Os Maias, através de João da Ega. Tudo a propósito do gosto dos portugueses em maldizer o seu próprio país:
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A relação dos portugueses com Portugal é um pouco assim. Desvirtuar o país, comparando-o com a suposta grandeza de outros, faz parte, desde há gerações, da cultura nacional.
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Suponho que para um estrangeiro isto possa confundir-se com desamor. Grave equívoco: para um português, maldizer a pátria é uma forma superior de patriotismo.
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Tudo isto está n' Os Maias. Aliás, o que de mais profundo sei sobre Portugal aprendi com Eça de Queiroz. Oiçamos João da Ega, cruel alter ego do autor: "Aqui importa-se tudo. Leis, ideias, filosofias, teorias, assuntos, estéticas, ciências, estilo, indústrias, modas, maneiras, pilhérias, tudo nos vem em caixotes pelo paquete. A civilização custa-nos caríssima com os direitos da alfândega: e é em segunda mão, não foi feita para nós, fica-nos curta nas mangas... Nós julgamo-nos civilizados como os negros de S. Tomé se supõem cavalheiros, se supõem mesmo brancos, por usarem com a tanga uma casaca velha do patrão... Isto é uma choldra torpe."
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Uma outra personagem vai mais longe: "Querem dizer agora que isto por fim não é pior que a Bulgária. Histórias! Nunca houve uma choldra assim no universo!"
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E no entanto, a determinada altura, o próprio Ega reconsidera, num súbito entusiasmo nacionalista: "Clamamos por aí, em botequins e livros, 'que o país é uma choldra'. Mas que diabo! Porque é que não trabalhamos para o refundir, o refazer ao nosso gosto e pelo molde perfeito das nossas ideias?... Vossa excelência não conhece este país, minha senhora. É admirável! É uma pouca de cera inerte de primeira qualidade. A questão toda está em quem a trabalha. Até aqui a cera tem estado em mãos brutas, banais, toscas, reles, rotineiras... É necessário pô-la em mãos de artistas, nas nossas. Vamos fazer disto um bijou!"
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Portugal já é um bijou. Lisboa, em particular, tem vindo a transformar-se numa das cidades mais simpáticas da Europa. Em primeiro lugar há a luz: uma matéria suave e perfumada, que apazigua o espírito. Desembarcar no aeroporto da Portela, numa manhã de Inverno, vindo de uma qualquer cidade europeia mais a norte, é como emergir de um poço de águas escuras. A mim, a luz devolve-me a respiração.
José Eduardo Agualusa, in Pública

domingo, 22 de março de 2009

21 de Março - Dia Mundial da Poesia

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Entrega os lábios ao poema. Eu nunca serei o único
pastor do teu silêncio (...).
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José Rui Teixeira, Para Morrer

sexta-feira, 6 de março de 2009

António Lobo Antunes (sobre os jornais)

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Deixo o editorial de Lobo Antunes, no Público, no dia do 19ºAniversário do jornal:
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"Em criança (e em adolescente, e em adulto) não havia jornais na minha casa mas havia jornais nas casas da minha família. Na do meu avô paterno lembro-me do Debate, monárquico, impossível de ler porque estava sempre dobrado e com a cinta posta. Na do meu tio Elói, aí sim, abertos, os semanários da sua terra, o Ecos de Pombal e o Notícias de Pombal.
Na secção necrológica do Ecos li uma ocasião uma notícia que começava assim: faleceu oportunamente no Brasil o senhor Fulano de Tal, tio do nosso estimado amigo Não Sei Quê Não Sei Quê. Na do meu outro avô, em Nelas, era o Diário de Notícias, que chegava no comboio da meia-noite e trazíamos, de bicicleta, da estação. O meu outro avô, de casaco de linho branco, passava horas a lê-lo na varanda para a serra. Depois do casaco de linho morrer a minha avó substituiu o Diário de Notícias pelo Almanaque da Sãozinha, cheio dos milagres da dita, relatados por crentes agradecidos. Num desses prodígios uma senhora contava que, de pobre que era, olhava em lágrimas as panelas vazias do almoço. Veio-lhe a Sãozinha à ideia, rezou com empenho, entrou-lhe de imediato uma lebre pela cozinha dentro, fechou a cozinha, matou a lebre à paulada e regalou-se a comer prodígio divino de cabidela. Confesso que esta dádiva da Sãozinha me fez um bocado de impressão, ao imaginar o assassinato do bicho. Até ao fim da sua vida a pagela da santa dos roedores ocupou um lugar importante no oratório da minha avó: uma adolescente de aspecto virtuoso, cheia de medalhas, que ofereceu a sua existência terrena em troca da conversão dos pais. Jesus fez-lhe a vontade arrebatando-a, estou a citar, ao nosso convívio, e os pais incréus descobriram o Altíssimo que, mesmo através da cabidela e do fricassé, se manifesta à gente, ou não mesmo, de preferência através da cabidela e do fricassé, misturando o Céu com o micro-ondas e os mandamentos com batatinhas salteadas.
Na ideia de entender o interesse do meu outro avô pelo Diário de Notícias comecei a folheá-lo, não era aos quadradinhos e portanto aborreceu-me. Troquei-o por pilhas antigas das Selecções do Reader's Digest em que achei nacos de prosa fascinantes: "Encontrei o Amor no Hospital Ortopédico", "Eu Sou o Testículo de João", "Ao Ficar Cega a Sua Existência Ganhou Sentido". Mais tarde A Bola e o Record, sobretudo A Bola onde trabalhavam grandes jornalistas
(Carlos Pinhão, Aurélio Márcio, Vítor Serpa, as extraordinárias reportagens da Volta à França de Carlos Miranda que bem mereciam estar reunidas em livro e nada devem às de Antoine Blodin) e quando esta geração deixou de escrever eu fui deixando de ler. Ao PÚBLICO devo o ter começado a ensaiar prosinhas em forma de crónica, graças ao convite de Vicente Jorge Silva, que eu não conhecia e me convidou para o suplemento dos domingos, salvando-me, porque a editora, à época, não pagava, de vender Bordas de Água nas pastelarias ou arrumar automóveis
- Trôça, troça
na zona do Saldanha, a coçar a magreza com o debrum preto das unhas. Agora não leio jornais: vejo o teletexto, a única coisa, aliás, que vejo na televisão desde que o futebol deixou de ser um desporto, a política uma ocupação digna e a cultura se transformou em banalidades veementes, uma estrebaria de porta aberta em que toda a gente entra, como dizia D. Francisco Manuel de Melo, autor muito do meu afecto. Vejo as capas e as primeiras páginas no quiosque frente ao restaurantezito onde como e passo à frente. As prosinhas do PÚBLICO aparecem hoje na Visão, onde sempre me trataram com extrema delicadeza. Há pouco abri um exemplar e dei com umas tantas frases acerca de mim, estúpidas, desonestas e ignorantes: fiquei curado. É pena que os jornais, como a literatura, sejam uma estrebaria de porta aberta: devia ser reservada aos profissionais sérios, como os nomes de que há pouco falei, e que decerto existem. Conheço alguns. Estes parágrafos para o PÚBLICO são uma homenagem a esses nomes. O que me assusta é o facto de qualquer pessoa estar à mercê de criaturas medíocres, sem possibilidade de rectificar a pulhice. Faleceu oportunamente no Brasil: ao menos o Ecos de Pombal era sincero. A lebre para a esfomeada com fé: ao menos o Almanaque da Sãozinha dava esperança a quem almoça um carioca e um salgado ao balcão. Ao ficar cega a sua existência ganhou sentido: ao menos as Selecções do Reader's Digest animavam os que tropeçam. Se tornar a meter o olho entre páginas e receber sinceridade, esperança e sentido com certeza que lerei. E se o testículo de João for o testículo de António, então, juro, não perco uma sílaba. Desde miúdo que me dá vontade de abrir os brinquedos, a verificar como funcionam. E tenho um par de tais apêndices de que ignoro o mecanismo e nos quais suspeito
(não estou seguro)
que não existem parafusos nem roscas. Foram um presente dos meus pais e como quase tudo em mim continuam a ser um mistério. Devíamos vir com manual de instruções, como os electrodomésticos."
António Lobo Antunes, in Público

segunda-feira, 2 de março de 2009

In Memoriam

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Um poema de Antero de Quental para assinalar as duas perdas destes últimos dias...
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Na Mão de Deus

Na mão de Deus, na sua mão direita,
Descansou afinal meu coração.
Do palácio encantado da Ilusão
Desci a passo e passo a escada estreita.
Como as flores mortais, com que se enfeita
A ignorância infantil, despojo vão,
Depois do Ideal e da Paixão
A forma transitória e imperfeita.
Como criança, em lôbrega jornada,
Que a mãe leva ao colo agasalhada
E atravessa, sorrindo vagamente,
Selvas, mares, areias do deserto...
Dorme o teu sono, coração liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente!
Antero de Quental, in "Sonetos"

Livro(s) do mês - Março

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Mês dedicado a José Eduardo Agualusa
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Nação Crioula conta a história de um amor secreto: a misteriosa ligação entre o aventureiro português Carlos Fradique Mendes - cuja correspondência Eça de Queiroz recolheu - e Ana Olímpia Vaz de Caminha, que, tenha nascido escrava, foi uma das pessoas mais ricas e poderosas de Angola. Nos finais do século XIX, em Luanda, Lisboa, Paris e Rio de Janeiro, misturam-se personalidades históricas do movimento abolicionista, escravos e escravocratas, lutadores de capoeira, pistoleiros a soldo, demiurgos, numa luta mortal por um mundo novo. (Sinopse da wook)
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Este texto parte de uma viagem que o escritor fez, entre 8 e 29 de Abril de 2001, a convite da Dra. Helena Vaz da Silva, presidente da direcção do Centro Nacional de Cultura: "percursos em busca da presença portuguesa pelo mundo". Partindo do Prefácio de Guilherme d’Oliveira Martins, como se pode ler neste texto de José Eduardo Agualusa, "mais importante do que as invocações históricas, e do que as rememorações do passado, o que deve é entender-se o país e as gentes dos dias de hoje. De nada valeria a recordação da História sem uma interrogação efectiva (e uma análise) sobre o presente. Recusaríamos as razões do diálogo espiritual e de culturas se nos satisfizéssemos com o passado - esquecendo que os mortos devem enterrar os seus mortos". Este é um belíssimo livro onde Agualusa nos leva a redescobrir uma região a que os portugueses estão unidos por muitas antigas raízes - a presença portuguesa foi efectiva por cerca de 150 anos (1512 a 1769) e a ligação a Timor manteve-se até ao século XX. (Sinopse da wook)
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domingo, 22 de fevereiro de 2009

Memória - 10ºAno

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Anoitecia lenta e mansamente, naquela quinta-feira quente de Novembro. Não me recordo de alguma vez ter observado um crepúsculo tão límpido e intenso como aquele. Parecia que antecipava o acontecimento dessa noite. Desvanecia-se, tenuemente, no horizonte, arrastando consigo todo o frenesim urbano, para dar lugar às melodias silenciosas que se aproximavam com a luminosidade lunar.
Estava no autocarro e, por momentos, senti-me algures num campo deserto, acompanhada por um silêncio inquietante. Tinha acabado de sair do colégio, de uma aula de Português, e dirigia-me agora para a Casa da Música. Esperava-me esse edifício imponente e austero, com a porta dos artistas escancarada, para que todos os integrantes do espectáculo dessa noite (maestros, coralistas, instrumentistas e bailarinos) entrassem para pousar os seus pertences nos camarins.
Percorri atentamente o bar e, de seguida, entrei na zona reservada aos coralistas. Lá dentro, tudo se assemelhava a um labirinto com inúmeros corredores e portas imensas. Por fim, encontrei o camarim quadrangular que se destinava às raparigas. Os seus sofás cor-de-rosa e os espelhos que percorriam duas das paredes reconfortavam-me com a ideia de ir actuar naquela Sala de Espectáculos, uma das melhores da Europa. O cheiro quase imperceptível a flores frescas percorria toda a zona e, por instantes, permaneci em pé para me deliciar com a sinestesia de sensações que se apoderava de mim. As cores da sala oscilavam entre o cinzento-betão das paredes, os sofás garridos e o amarelo dourado incandescente, que provinha das séries de lâmpadas que acompanhavam verticalmente cada um dos espelhos. Havia também umas mesas em frente a estes e cadeiras individuais. Ao fundo, um bengaleiro e uma televisão mantinham-se imóveis e, por momentos, julguei estar enlevada numa utopia pueril e onírica.
Minutos depois, chegaram as minhas amigas e colegas e as suas gargalhadas sentidas e naturais acordaram-me dos meus pensamentos e mostraram-me que o que estava a viver era real. Apenas sorri - sorriso esse genuíno e rasgado que mantive ao longo de toda a noite.
Agora que tinha pousado a minha bolsa e a minha pasta, fui até ao hall principal, para ver se conseguia visitar toda a Casa. Tive alguns acompanhantes e, cerca de uma hora depois, estávamos de volta e convidámos todos os artistas para irem connosco até ao Centro Comercial Bom Sucesso para jantar qualquer refeição rápida, pois nervosos como estávamos, não tínhamos muito apetite.
Às 20h o espectáculo começou. Porém, nós só actuávamos na segunda parte e, por isso, ficámos com cerca de 45 minutos para nos arranjarmos.
Entre sedosos vestidos, brilhantes e suaves batons, rosas vermelhas e carnudas para pôr no cabelo e muitas capas pretas cheias de partituras, a boa disposição invadia a sala e alguns membros do sexo masculino também, embora aquele fosse um camarim feminino. Ajudámo-nos para fechar os vestidos umas das outras ou retocarmos a maquilhagem. No fim, o resultado foi incrível. Conseguimos, efectivamente, encarnar o papel de verdadeiras dançarinas de tango, para enfatizar a temática das obras de Astor Piazzolla que iríamos cantar.
Às 21h estávamos todos nos bastidores, prontos para subir ao temível palco. No meio de segmentos melodiosos do estudo dos violinos, acordes do acordeão, solos do saxofone, preces mudas e risos apreensivos, todos mantinham a sua expressão facial indiferente a tudo o que os rodeava e eu não era excepção. Era uma espécie de transe em que cada um entrava no seu mundo, na sua alma, nos seus sentimentos que jamais seriam revelados. É nestas alturas que vejo o quanto a música, e o conservatório em especial, influenciaram a minha vida. Onde me levaram, o que me modificaram e aquilo que me ofereceram e ainda oferecem…
O maestro chamou-nos e, quase instantaneamente, todos levantámos a cabeça e, com esta erguida, dirigimo-nos calmamente para a porta. Dali já conseguíamos ouvir os aplausos vindos de uma plateia repleta de olhares curiosos e ouvidos críticos. O chão do palco estava revestido de pétalas de rosa de um vermelho esbranquiçado, que emanavam um aroma doce e quente, que nos atrasava o passo. Tais pétalas tinham ficado esquecidas da ópera que tinha aberto o concerto. Ao percorrer o estrado, até alcançar o meu lugar, meditava silenciosamente, revolvendo a minha mente sobre quem estaria a assistir, como iria decorrer aquele quinto e último concerto desta tournée, quais seriam as reacções…Penso que me preocupava demasiado, porque já tinha passado por momentos assim antes e sabia como corriam, como teria de cantar, actuar, sentir, sorrir e, acima de tudo, concentrar. Finalmente, a primeira nota foi emitida pelo primeiro violino e tudo começou.
Estava perdida nos meus devaneios, quando começou. Naquele momento, já nada havia a fazer para remediar. Restava-me encarar o público e cantar com quanta felicidade sentisse e voz não me faltasse.
As cinco músicas foram passando mais rapidamente do que o que esperava, e parecia que ficava cada vez mais insaciada e que não podia aguentar sem mais uma melodia de tango, sem mais um passo de dança, sem mais uma rosa, sem cantar de novo nem ter mais uma vez a experiência de repetir tal concerto na Sala Suggia. Tentava saborear ao máximo cada declaração feita pelo saxofone e cada batida intensa e presente da bateria, mas, infelizmente, e com tristeza e alegria ao mesmo tempo, o concerto acabou com a arrebatadora Balada para un loco que libertou uma harmonia de calorosos e reconfortantes aplausos, que eram autênticos e únicos, fascinantes e inesquecíveis.
Depois de cerca de meia hora exclusivamente de Tango, puro e sentido, (pela qual ansiávamos todos os dias e agora só queríamos que durasse eternamente), os sorrisos cansados, mas felizes, eram imediatos e todos retribuíam as felicitações de “Parabéns”.
Sentia-me completa, mas com uma parte de mim a agarrar-se à recordação desta actuação o mais que podia.
Agora que tinha passado, restava-me a memória para guardar tal momento e o manter sempre comigo, a qualquer hora e em qualquer lugar. Ainda bem que a tenho, ainda bem que posso recordar, ainda bem que vivi, ainda bem que, no livro da minha vida, tenho esta página. Não esquecerei cada som, cada palavra, cada ensaio, cada música, cada crescendo e diminuendo, cada melodia…Não esquecerei porque não consigo. Não esquecerei porque foi demasiado importante. Essencial!


Ana Lúcia Rebelo, 10B



sábado, 21 de fevereiro de 2009

Dia Internacional da Língua Materna

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Da minha língua vê-se o mar. Na minha língua ouve-se o seu rumor como na de outros se ouvirá o da floresta ou o silêncio do deserto. Por isso a voz do mar foi em nós a da nossa inquietação. Assim o apelo que vinha dele foi o apelo que ia de nós.
Vergílio Ferreira
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Celebra-se a 21 de Fevereiro o Dia Internacional da Língua Materna. Proclamado pela Conferência Geral da Unesco em Novembro de 1999, desde Fevereiro de 2000 que se comemora este Dia Internacional, com o objectivo de promover a diversidade linguística e cultural e o plurilinguismo. Este ano, a UNESCO organiza na sua sede em Paris uma conferência internacional, tendo por tema as línguas e o ciberespaço.
Estimam-se em quase 6000 as línguas faladas no mundo, mas
cerca de metade está à beira da extinção. Neste contexto, a UNESCO propõe que a Internet contribua para a recuperação das línguas ameaçadas. Assinale-se que o português não faz parte deste conjunto, dado que se crê ocupar a 6.ª posição na lista dos idiomas mais falados no mundo.

2009 - O ano de Bartolomeu de Gusmão e da "Passarola"

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O físico Carlos Fiolhais (co-autor do blogue De Rerum Natura) escrevia, no semanário Sol, no último sábado, esta crónica que tomo a liberdade de transcrever. Para os amantes do Memorial do Covento de Saramago, do padre-inventor e da ciência em geral...
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2009 é o ano Galileu (400 anos das primeiras observações telescópicas, anunciadas em “O Mensageiro das Estrelas”) e é também o ano Darwin (200 anos do nascimento de Darwin e 150 anos de “A Origem das Espécies”). Mas é também o ano Gusmão, pois passam três séculos sobre a experiência efectuada em 8 de Agosto de 1709, diante da corte, em Lisboa, pelo padre luso-brasileiro Bartolomeu de Gusmão (1685-1724), um estudante de Cânones em Coimbra, na altura com apenas 24 anos.
Tratou-se, nada mais nada menos, da primeira ascensão de um objecto mais pesado do que o ar, precedendo de dezenas de anos a primeira ascensão humana em balão, protagonizada pelos irmãos Montgolfier. O povo haveria, jocosamente, de designar por "Passarola" a máquina voadora do padre, cuja fama foi modernamente ampliada pelo romance “Memorial do Convento”, de José Saramago.
Gusmão escreveu um “Manifesto” sobre o seu invento. Na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra guarda-se, além deste, uma cópia da petição que o padre, formado na Companhia de Jesus, dirigiu ao rei D. João V para lhe ser concedido o privilégio de só ele poder fabricar instrumentos para voar. A linguagem da petição é deliciosa valendo a pena saborear um bocado:
"Senhor, diz Bartolomeu Lourenço que ele tem descoberto um instrumento para se andar pelo ar, da mesma sorte que pela terra e pelo mar, e com muito mais brevidade, fazendo-se muitas vezes 200 e mais léguas de caminho por dia, no qual instrumento se poderão levar os avisos de mais importância aos exércitos e terras mui remotas quase no mesmo tempo em que se resolverem: o que interessa a Vossa Magestade muito mais que a nenhum dos outros Príncipes pela maior distância do seu domínio, evitando-se desta sorte os desgovernos das conquistas, que procedem em grande parte de chegar muito tarde a notícia deles a Vossa Magestade."
O despacho régio foi favorável ao pedido, que hoje designaríamos de registo de patente. O feito de Gusmão é um bom exemplo do engenho luso. Mas, como em tantos outros casos, este engenho não teve sucesso...
Carlos Fiolhais, Sol