domingo, 24 de abril de 2011

Ainda o Dia Mundial do Livro

Campanha publicitária da DGLB:





E da Bertrand: "Somos Livros"






sábado, 23 de abril de 2011

Dia Mundial do Livro

Uma sugestão televisiva. Uma homenagem aos (grandes) livros. Clicar na imagem para aceder ao vídeo:



segunda-feira, 18 de abril de 2011

LeV- Literatura em Viagem

Clique na imagem para aceder a mais informação sobre o LeV, em Matosinhos:

sábado, 9 de abril de 2011

A felicidade - reflexão pessoal

Esgueiramo-nos por entre os becos, abalroamos segundos e travamos uma guerra fria contra o próprio “eu”, na ânsia de tocar no âmago dessa luz que almejamos. Abraçamos o mundo, tornamo-nos invisíveis e damos passos de gigante na corrida desenfreada a uma felicidade que nos foge. Fazemos questão de a colocar no mais alto pedestal que tão facilmente nos escorre pelos dedos, nos abandona a alma para o mais feérico esconderijo. O que é que nos falta? Qual a mais clara concepção que lhe podemos dar? Nada mais relevante que a sua própria simplicidade: meros instantes roubados ao tempo que fazem com que balas de sorrisos nos trespassem o peito e nos permitam tocar no infinito, ínfimos retalhos de alma, pedaços de caminho, profecias de vida que nos movem, nos sustentam, nos ressuscitam. E desacredite-se aquele que se limita a si mesmo por qualquer condição exterior. Esqueça-se o papel de cada casa, de cada emprego, realidades que nos sufocam numa angústia alienante. Lembremo-nos que o olhar com que as encaramos é a base de toda a existência, o motor de euforia ou depressão profunda. O limite que traçamos como nosso é passível de toda e qualquer superação e os imensos instantes de felicidade que agarramos, sem cessar, permitem-nos rasgar pedaços de céu.

Joana Nunes, nº6, 12º A

(Enviado por Auxília Ramos)

domingo, 3 de abril de 2011

domingo, 27 de março de 2011

Sem nome de guerra



Hoje vejo as pessoas, na rua, vestidas em muralhas de pedras altas e impenetráveis. Seguem percursos, sozinhas ou em grupo, (e, desculpem-me a ironia, a diferença não há-de ser muita), o cerco posto, a vigia em sentinela, e o conforto da situação é tal que nem dão pelo peso da artilharia, ao pousar o pé no passeio e ao sorrir de leve num “até amanhã” que se lança de alívio.

É uma batalha sem campo próprio nem lugar. E, pior do que isso, é uma batalha invisível e sem nome de guerra. Se se combate é em nome do “Eu”, os aliados perdem força numa sociedade em que de cada um é exigido um individualismo extremo, um culturismo do espaço próprio e pessoal. Que se culpe o egoísmo que alimenta tudo isto e ensina que o “eu” vale sempre mais do que o “vós” (só tenho pena que se esqueça que no “vós” estamos “nós”). Que se culpe esta pressão de “ter de ser o melhor”, de entrar na faculdade, de arranjar emprego, um bom ordenado… A exclusividade torna-nos armas de combate, a abundância leva-nos à mais pura das infâncias. Hoje, vejo as bibliotecas tornarem-se em livros, as salas de estudo em carteiras… vejo a decadência das praças, dos largos, de todos os espaços públicos deitados ao abandono a que o individualismo incita. As pessoas fecham-se nos quartos, de tal modo que o que era das salas deixa de o ser, numa tentativa doentia de aperfeiçoar o espaço pessoal, próprio e fechado. Uma vénia ao “EU”, uma vénia ao “EU”. E pouco importa a Pátria ou a bandeira, pois esta guerra sem nome de guerra afecta o mundo sem darmos conta.

Hoje vejo as pessoas, na rua, vestidas em muralhas de pedras altas e impenetráveis. Procuro um rasto de sangue que justifique tudo isto, uma espada caída por alguém que perdeu o disfarce, procuro rastos de um Iraque e de um campo de batalha. Depois penso: a sociedade está doente e esta é a guerra da modernidade, de seu nome: COMPETIÇÃO.

Teresa Stingl, 12ºAno

segunda-feira, 21 de março de 2011

Dia Mundial da Poesia

Sobre um Poema

Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
- a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.

- Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
- E o poema faz-se contra o tempo e a carne.
Herberto Helder
...

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Coisas, Pequenas Coisas

Fazer das coisas fracas um poema.

Uma árvore está quieta,
murcha, desprezada.
Mas se o poeta a levanta pelos cabelos
e lhe sopra os dedos,
ela volta a empertigar-se, renovada.
E tu, que não sabias o segredo,
perdes a vaidade.
Fora de ti há o mundo
e nele há tudo
que em ti não cabe.

Homem, até o barro tem poesia!
Olha as coisas com humildade.
Fernando Namora, in "Mar de Sargaços”
...

...
Do Poema


O problema não é
meter o mundo no poema; alimentá-lo
de luz, planetas, vegetação. Nem
tão-pouco
enriquecê-lo, ornamentá-lo
com palavras delicadas, abertas
ao amor e à morte, ao sol, ao vício,
aos corpos nus dos amantes —

o problema é torná-lo habitável, indispensável
a quem seja mais pobre, a quem esteja
mais só
do que as palavras
acompanhadas
no poema.
Casimiro de Brito, in "Canto Adolescente”

quinta-feira, 17 de março de 2011

João Manuel Ribeiro apresenta livro no CLF




No dia 2 de Março, os alunos do 1º e do 2º anos do 1º ciclo receberam o escritor João Manuel Ribeiro e a ilustradora Sónia Borges, que vieram apresentar o seu novo livro “Senhor Ato, o camaleão”.

A conversa com o escritor e com a ilustradora foi muito animada e os alunos adoraram ouvir a história do Senhor Camaleão e a “brincadeira” feita pelo escritor à volta do novo Acordo Ortográfico.


Isabel Maia

segunda-feira, 14 de março de 2011

Sobre a actualidade de Eça de Queiroz

A VIDA DOS LIVROS
De 14 a 20 de Março de 2011
(Texto retirado da página do Centro Nacional de Cultura)


José Maria Eça de Queirós (1845-1900) mantém-se presente nos tempos que correm. A palavra presente substitui actual, para que não haja simplificações abusivas. Não se trata, porém, de dizer que tudo se manteve inalterável (com Dâmaso Salcede ou Tomás de Alencar ao virar da esquina) e que a actualidade se mantém tal e qual. Houve mudanças significativas no país, mas há elementos duráveis na análise do autor de “Os Maias” (1888) ou de “O Conde de Abranhos” (1925). Eça desenha uma sociedade em transição, assente nos empregos públicos e nos favores do Estado. É o naturalismo em acção, aqui ou ali polvilhado por um humor fino que procura representar uma sociedade distante e periférica, relativamente aos grandes centros. E quando hoje assistimos à crise da dívida pública soberana, vêm à baila as conversas do banqueiro Cohen relativamente ao dinheiro e aos seus enredos…

DESENTRANHAR O PORTUGAL QUE ESPERA…
Eduardo Lourenço afirmou que “não é susceptível de discussão o amor (e o fervor) com que a Geração de 70 tentou desentranhar do Portugal quotidiano, mesquinho e decepcionante, um outro, sob ele soterrado, à espera de irromper à luz do sol” (“Labirinto da Saudade, ed. 2000, p. 93). Ora, ao lermos Eça de Queirós, impõe-se a pergunta – o que se mantém actual na sua obra? E que país existe por «desentranhar», ao abrigo desse «criticismo patriótico», em que Eduardo Lourenço vem insistindo, como voz clamando no deserto. Não podemos cair na conclusão fácil de que o país é o mesmo ou radicalmente diferente. Qualquer simplificação será sempre caricatural. De facto, Portugal é diferente hoje do que era no final do século XIX. Mas, quando lemos os principais intelectuais e críticos desse tempo assaltam-nos as semelhanças, que têm de ser vistas com as cautelosas distâncias. A chamada Geração de 1870 obriga, porém, a uma especial correcção crítica: de facto, estamos perante analistas de raríssimo talento, com uma inteligência de indiscutível evidência, que souberam colocar-se no lugar da intelectualidade europeia mais avançada e lúcida do seu tempo. A perspectiva crítica deu-lhes uma distância que hoje permite compreendermos melhor o que disseram, concedendo essa reserva uma curiosíssima garantia de actualidade. Se virmos bem, Antero, Oliveira Martins e Eça de Queirós não são portugueses comuns do seu tempo. Viram mais longe e largo, e é isso mesmo que lhes permitiu alcançar um especial sentido de pertinência presente, que nos leva à ilusão de julgar que o país é o mesmo, sem o ser exactamente. No entanto, temos a nítida sensação de encontrar nesses argutos textos algo de familiar ou próximo. E isso não acontece por acaso. De facto, há diferenças e coincidências na sociedade. O país rural não existe já, a distância enorme entre a cidade e as serras reduziu-se, o atraso social endémico mudou de natureza, os dualismos profundos, se se mantêm, tornaram-se diferentes, e as desigualdades que persistem reportam-se a termos de comparação que se transformaram muito. Ainda por cima, não podemos esquecer que as referências queirosianas se enraizaram bastante no mundo português letrado e culto (ou por leitura ou por reminiscência). É difícil de encontrar o Conselheiro Acácio, mas o seu espírito e os seus óculos fumados persistem onde menos se espera. O mesmo se diga de Eusebiozinho, de Palma Cavalão, de Gouvarinho, de Dâmaso ou de Alencar – mas sobretudo de João da Ega, de Carlos da Maia, de Zé Fernandes, de Jacinto, de Gonçalo Mendes Ramires ou de Fradique e do inefável Pacheco. Os ecos dos quadros queirosianos chegam-nos ainda hoje como as análises cortantes das “Histórias” de Oliveira Martins, sendo “Os Maias” a genial tradução romanesca do “Portugal Contemporâneo”. E diga-se que, se alguns criticam a dispersão de personagens e de temas na saga de Eça, a verdade é que essa é uma riqueza da obra que magistralmente contribuiu para o repositório de personagens representado caricaturalmente por João Abel Manta.
A MATÉRIA-PRIMA DE EÇA
Apesar das distâncias, o certo é que há algo na matéria-prima utilizada por Eça que permanece e que mantém actualidade: a ciclotimia portuguesa, o peso do Estado omnipresente com o seu funcionalismo (o “comunismo burocrático”) e a dependência do exterior. Quanto à ciclotimia, eis-nos a oscilar entre a invocação das glórias passadas com um orgulho histórico, tantas vezes desajustado, e a consideração da mediocridade contemporânea (que não é pior nem melhor que a de muitos dos nossos vizinhos, mas que se torna mais evidente quando se insere na tal oscilação entre a glória e a decadência). A verdade é que essa alternância entre nos considerarmos os melhores e os piores do mundo agrava as comparações e as ilusões – o que leva à ambiguidade essencial de “A Ilustre Casa de Ramires” – ainda tão incompreendido… Já quanto ao peso do Estado, devemos referir que o nosso centralismo ancestral resulta da precedência do Estado relativamente à nação, com a inevitável concentração de poderes e o inexorável formalismo destituído de responsabilidade prática. É essa rígida centralização de poderes do Estado que leva à dependência relativamente à Arcada e S. Bento, que tão nitidamente se encontra na análise de Eça, desde Artur Curvelo até ao Conde de Abranhos – e que se prolonga até aos nossos dias no nosso Estado. Essa lógica de dependência, com sequente dificuldade de mobilização dos cidadãos e dos poderes locais (para além do caciquismo) liga-se a outra dependência que a vida económica (sobretudo num tempo de globalização) revela e que tem a ver com as vicissitudes do endividamento. Se recordarmos o jantar do Hotel Central em «Os Maias», depressa compreenderemos que aquilo que preocupa aqueles convivas é, a um tempo, a evolução da mentalidade literária e das escolas de pensamento, tema muito sentido pelo próprio autor (representado, de algum modo, por um alter ego, «sui generis» e complexo, que começa em João da Ega, mas que não existe só, uma vez está vive em ligação com Carlos da Maia, como se se tratasse de um tandem), bem como as repercussões da incerteza financeira e económica, em razão da significativa dependência de Portugal relativamente à economia europeia, em especial através do crédito, já que a história portuguesa oitocentista se confundiu amiúde com a dívida pública e as crises bancárias.

O JANTAR DO HOTEL CENTRAL

«O Cohen colocou uma pitada de sal à beira do prato, e respondeu, com autoridade, que o empréstimo tinha de se realizar ‘absolutamente’. Os empréstimos em Portugal constituíam hoje uma das fontes de receita, tão regular, tão indispensável, tão sabida como o imposto. Lembramo-nos bem da passagem. E depois: « – A bancarrota é tão certa, as coisas estão tão dispostas para ela – continuava Cohen – que seria mais fácil a qualquer, em dois ou três anos, fazer falir o país»… Isto, enquanto Ega e, surpreendentemente, Alencar, sonhavam com uma revolução. A história económica portuguesa do século XIX foi longamente dominada pelas crises bancárias (1827, 1846, 1876 e 1891) e pela evolução da dívida pública. As guerras civis contribuíram para essa instabilidade até 1851. Já em 1876 tudo se concentrou na bolha especulativa gerada pela proliferação de entidades bancárias; enquanto em 1891 foi a bancarrota argentina que quebrou a casa Baring de Londres, ligando-se à redução da remessa dos emigrantes do Brasil por causa do fim da escravatura e da implantação da República. E a dívida pública explodiu. Assim, a profecia de Cohen cumpriu-se, houve o convénio dos credores externos de 1902 (com o empréstimo de 99 anos, ao juro de 3 por cento) e um longo purgatório português nos mercados financeiros. Entende-se que a pergunta sobre a actualidade de Eça obriga não a ressuscitar Abranhos ou Dâmaso, mas a desentranhá-los… O que reclama, antes de tudo, exigência crítica.

Guilherme d'Oliveira Martins
(Enviado por Isabel Moreno)

domingo, 13 de março de 2011

quinta-feira, 3 de março de 2011

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Ainda Moacyr...

Os livros
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E a página oficial do escritor (clicar na imagem para aceder):

Moacyr Scliar




A notícia é do Público:


Moacyr Scliar nasceu em Porto Alegre, a 23 de Março de 1937, e, apesar da sua formação em medicina, deixa um legado de mais de 70 livros. Em 2003 foi eleito para a Academia Brasileira de Letras. O escritor foi galardoado três vezes com o prémio Jabuti, em 1988, em 1993 e em 2009. Em 1989 recebeu o prémio da Associação Paulista de Críticos de Arte e, nesse mesmo ano, a distinção da Casa de las Americas.

Em Fevereiro de 2009, Moacyr Scliar esteve em Portugal para participar no Correntes d'Escritas, o encontro literário da Póvoa de Varzim onde se cruzam vários sotaques e línguas e cuja edição de 2011 terminou precisamente ontem. João Paulo Cuenca, que está em Portugal a lançar o seu último romance e esteve a participar este sábado no encontro de escritores de expressão ibérica esteve com Moacyr Scliar há pouco tempo. Os dois participaram num festival literário em Minas Gerais e estiveram juntos numa mesa com um moderador.

"Fiquei impressionado, como é que um escritor com dezenas de livros publicados, ele dizia que eram 80, continuava com tanta vitalidade a escrever, a publicar e participar de debates e mesas com a paciência e com a generosidade que ele tinha com novatos como eu", disse ao PÚBLICO o escritor carioca. Nessa altura os dois jantaram juntos e ficaram amigos. "Moacyr parecia muito mais saudável do que eu mesmo, por isso é chocante ele ter morrido".

A banana de Porto Alegre

No encontro da Póvoa de 2009 Scliar, também autor de “A mulher que escreveu a Bíblia” (ed. Livros de Seda), contou que o seu pai emigrou para um país desconhecido quando tinha dez anos. Saiu da Rússia no período da guerra civil que se seguiu a 1917, meteu-se num navio em direcção ao Brasil, atravessou o oceano e foi parar ao Rio Grande do Sul.

Não fazia a mínima ideia do que o esperava. Chegou a um país completamente desconhecido mas isso não o impedia de ver o Brasil como uma coisa maravilhosa.

Sonhava com o clima ameno, com um país de gente amável e com as frutas. Nunca tinha visto um abacaxi, nunca tinha visto uma manga, nunca tinha visto uma banana. E foi apresentado a uma banana, exactamente no dia em que chegou a Porto Alegre.

Quando embarcou, o pai de Moacyr já era “um menino magrinho”. No barco passou fome, ficou um esqueleto. E quando finalmente o navio atracou na cidade, desembarcou. A população inteira de Porto Alegre estava no cais à espera do barco que trazia os europeus e um gaúcho percebeu que o pai de Moacyr tinha fome e ofereceu-lhe uma banana. “O meu pai imaginou que era uma coisa para comer. Mas não tinha sido treinado para comer banana e, como não falava português, ficou com perplexidade a mexer na banana”, disse o também médico Moacyr Scliar.

Descobriu então que a banana se descascava, tal como a laranja. Imaginou que seria igual e que teria também casca e caroços. “Ao descascar a banana apareceu uma coisa que ele pensou que era o caroço da banana. E jogou fora o caroço. Comeu a casca de banana até ao fim para surpresa do gaúcho”, continuou o escritor a quem até morrer, já depois dos 80 anos, o pai disse sempre: “Casca de banana não é tão ruim como a gente pensa”. Para Moacyr Scliar, o escritor é “o emigrante que vê a banana e que come a casca” e a tarefa da literatura é “transformar o desconhecido em magia”.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

XII Edição Correntes d' Escrita



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De 23 a 26 de Fevereiro. Póvoa de Varzim.
Eis o Programa:
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Dia 23 (quarta)

17h00 – 1.ª MESA: «Falta futuro a quem tem no presente as ambições/passadas»
- Aida Gomes
- Almeida Faria
- Eduardo Lourenço
- Fernando Pinto do Amaral
- Maria Teresa Horta
- Ricardo Menéndez Salmón
Moderador: José Carlos de Vasconcelos

Dia 24

10h30 2.ª MESA: «Eu começo depois da escrita»
- Ignacio del Valle
- João Paulo Cuenca
- Júlio Conrado
- Karla Suarez
- Maria João Martins
- Miguel Miranda
Moderador: Carlos Vaz Marques

15h00 3.ª MESA: «A minha arte é uma espécie de pacto»
- David Toscana
- Juva Batella
- Luís Represas
- Manuel Jorge Marmelo
- Mário Lúcio Sousa
- Ricardo Romero
Moderador: Rui Zink

17h30 4.ª MESA: «Nua de símbolos e alusões é a poesia»
- Ana Luísa Amaral
- Carmen Yáñez
- Conceição Lima
- Gastão Cruz
- Ivo Machado
- Uberto Stabile
Moderador: Francisco José Viegas

Dia 25

10h30 5.ª MESA: «As palavras são apenas uma memória»
- César Ibáñez París
- Ignacio Martínez de Pisón
- João Paulo Borges Coelho
- Mário Zambujal
- Nuno Júdice
- Rui Zink
Moderador: João Gobern

15h00 6.ª MESA: «Espalho sobre a página a tinta do passado»
- Alberto Torres Blandina
- António Figueira
- Francisco José Viegas
- Inês Pedrosa
- Maria Manuel Viana
- Paulo Ferreira
Moderador: José Mário Silva

17h30 7.ª MESA: «A obra que faço é minha»
- Álvaro Magalhães
- David Machado
- Francisco Duarte Mangas
- João Manuel Ribeiro
- José Jorge Letria
- Vergílio Alberto Vieira
Moderador: Ivo Machado

Dia 26

10h30 8.ª MESA: «Não há palavras exactas»
- José Manuel Fajardo
- Kirmen Uribe
- Nuno Crato
- Pedro Vieira
- Raquel Ochoa
- valter hugo mãe
Moderador: Onésimo Teotónio Almeida

16h00 9.ª MESA: «Nada no mundo deve ser subestimado»
- António Victorino d’Almeida
- Luis Sepúlveda
- Manuel Rui
- Mário Delgado Aparaín
- Onésimo Teotónio Almeida
- Yvette K. Centeno
Moderadora: Maria Flor Pedroso

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Ainda Sophia...

Via "Horas Extraordinárias":
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"Os Patos de Sophia"
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"Este vai ser o ano de Sophia de Mello Breyner e as comemorações iniciaram-se com a entrega do seu espólio à Biblioteca Nacional. Os jornais divulgaram bastante o acontecimento e um deles revelou uma história genial que os filhos quiseram partilhar com os presentes na cerimónia e que também eu não resisto a partilhar com os leitores deste blogue. Ao que parece, terão dado um dia a Sophia dois patinhos amorosos, a que ela achou imensa graça – enquanto foram pequeninos, claro, porque entretanto cresceram e ela ficou sem saber o que fazer com eles. Como mulher pragmática que era, telefonou mesmo assim para o então presidente da Gulbenkian, Azeredo Perdigão, propondo-lhe a oferta dos ditos patos para os belíssimos jardins da Fundação. O senhor não terá achado o facto estranho, porque marcou um dia para a entrega, convidando inclusivamente a poetisa para almoçar com ele. Sophia compareceu na data e hora marcadas com os seus patos (que, claro, ficaram a fazer parte da fauna gulbenkiana a partir desse dia) e, durante o almoço, ficou muito surpreendida quando Azeredo Perdigão a presenteou com uma medalha, tendo indagado o porquê de tal distinção (pareceu-lhe que a oferta dos patos, por certo, não o justificava). Foi nesse momento que Azeredo Perdigão lhe explicou que era a primeira vez que alguém vinha dar alguma coisa à Gulbenkian, porque normalmente só vinham pedir..."
Maria do Rosário Pedreira, no blogue "Horas Extraordinárias" (clicar para aceder)

domingo, 30 de janeiro de 2011

Colóquio Internacional Sophia de Mello Breyner






O Colóquio Internacional Sophia de Mello Breyner, promovido por iniciativa de Maria Andresen de Sousa Tavares, decorreu na Fundação Calouste Gulbenkian, nos dias 27 e 28 de Janeiro, e reuniu um elenco notável de oradores – estudiosos, investigadores, ensaístas lusófonos e estrangeiros, poetas – em torno da poesia de Sophia. Sophia – nome predestinado, no dizer de Eduardo Lourenço, significa “uma sabedoria mais funda que o próprio saber”.

O meu testemunho, enquanto participante, não pretende esgotar a apreciação de todas as intervenções, nem avaliar o conteúdo e o valor científico e académico das mesmas, mas, tão somente, partilhar o que mais me tocou na intensidade destes dois dias. Acima de tudo, pretendo assinalar que o grande número de participantes neste colóquio é um manifesto sinal de esperança para todos nós, portugueses. Num momento em que, cíclica e fatalmente, o país parece mergulhado numa “austera, apagada e vil tristeza”, a voz poética e ética de Sophia fala mais alto, mostrando a grandeza de uma língua e a capacidade transfiguradora e criadora da poesia. Essa manifestação de esperança foi reconhecida por Eduardo Lourenço que, num discurso emotivo e lúcido, encerrou esta notável homenagem à poesia de Sophia, que, segundo ele, aconteceu ainda “a tempo”.
Partilho, então, convosco, os olhares e as leituras sobre/da palavra poética de Sophia, adoptando um critério assumidamente subjectivo, porque convergente com o meu modo de ler e interpretar Sophia.

Richard Zenith, um dos mais notáveis estudiosos da obra poética de Fernando Pessoa, parte do poema “Ressurgiremos” para afirmar que a poesia de Sophia é “assertivamente cristã”, revestida de um catolicismo inicial, que remonta ao seu sentido primitivo, porque nada preocupada com dogmas. No entanto, no mesmo poema, são claras as alusões aos deuses pagãos que estabelecem um certo dialogismo com o universo cristão: Delphos, homóloga pagã de Jerusalém? Lugar de ressureição que substitui a própria Jerusalém?

José Manuel Mendes, representante da Associação Portuguesa de Escritores, referiu-se ao empenhamento de Sophia no ressurgir desta associação, em Julho de 1973, por ela considerada “lugar de encontro e de confronto”. O orador referiu-se ao empenhamento político-social da poetisa, à coexistência da ética e da poética e evocou uma série de considerações e palavras suas que reproduzo e que dispensam comentários: “É a poesia que me implica, que me faz ser no estar e me faz estar no ser. É a poesia que torna inteiro o meu estar na terra. E porque é a mais funda implicação do homem , no real, a poesia é necessariamente política – e fundamento da política.”; “Porque propõe ao homem a verdade e a inteireza do seu estar na terra toda a poesia é revolucionária.”; “Um provérbio Burundi diz: Uma palavra que está sempre na boca transforma-se em baba.”; “o poeta busca a relação verdadeira com os outros homens”, “a política não pode nunca programar a poesia”…

Isabel Almeida, Professora da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, iniciou a sua comunicação intitulada “Sophia e Camões – se nenhum amor pode ser perdido”, partindo do pressuposto de que a poesia também se faz de poesia. Lembrando os poemas de Sophia que evocam a figura de Camões – “Gruta de Camões”, “Soneto à maneira de Camões”, “Camões e a tença” – a oradora recriou um singular diálogo entre os dois poetas que se estendeu à epopeia camoniana, reconhecendo que há na poesia de Sophia ecos de epopeia. Sublinhou que é em Macau, em 1977, aquando da Celebração do Dia de Camões, que Sophia, no seu discurso de participação, nos desvenda a sua descoberta de antiquíssimos ideais que ela partilha com o grande poeta. Ele é e será, então, o vate com quem aprende a ver.

Com António Tabucchi, escritor italiano de Literatura Portuguesa na Universidade de Pisa, embarcámos numa viagem à Grécia – Delphos, Knossos – onde, segundo confessa, a evocação de Sophia não aconteceu logo à chegada, mas onde a geometria, o rigor e a ética dos lugares em tudo se assemelhavam à “elegância” que emanava da figura de Sophia. Curiosamente, o orador explica-nos que, ao viver a aventura atlântica, Portugal esqueceu a baía mediterrânica, onde se localizava a Grécia, lugar de exacta geometria. Para o orador, foi Sophia quem se lembrou da Grécia e foi aí que ela “descobriu” que o que acontecia ao seu país já tinha acontecido na Grécia – consciência de uma tragédia, da qual Salazar – Creonte – é figura central. Sophia percebera Portugal em Delphos.

Clara Rocha, na qualidade de herdeira do espólio do pai, Miguel Torga, interpreta, de forma comovente e comovida, as vozes de Torga e Sofia que se elevam de excertos da correspondência entre ambos trocada, assinalando, sobretudo, o modo como um viu, no outro, o rosto da poesia. Nessa sua interpretação, atrever-me-ei a dizer, nessa sua narração dramática, a professora universitária, dirigindo-se a toda a plateia, mas com o olhar inequivocamente centrado em Maria Andresen, recordou vários episódios e circunstâncias que marcaram esta sólida relação dos dois poetas e amigos: a sintonia de uma poesia de inflexões pessoais, a valorização da dicção clara e rigorosa da palavra poética, a imprescindibilidade da figura do outro na formação da sua própria identidade, mas também a necessidade da obra de cada um na formação da identidade colectiva.

Para concluir esta partilha, não poderia deixar de referir a “Mesa dos Poetas”, moderada por Miguel Sousa Tavares, que também testemunhou o valor que a palavra poética dita tinha para Sophia, ao recordar um episódio da sua infância: a sua actuação de “diseur”, num sarau do colégio que frequentava, levou a mãe a abandonar a sala… Obviamente que esta íntima memória animou o auditório, mas destaco, do conjunto dos poetas que o rodeavam, as figuras de Nuno Júdice e Ana Luísa Amaral. O primeiro testemunhou que a sua especial atenção ao som da palavra e da sílaba poéticas a deve a Sophia. A segunda recorda que, na sua infância, no seu angustiado “exílio” no Porto, descobriu Sophia, nas páginas de “O Cavaleiro da Dinamarca”. O título do livro de Sophia prometia-lhe a aventura de um possível regresso ao seu espaço natal, resgatada por um cavaleiro que ela iria, certamente, encontrar à medida que a leitura do livro avançasse. Ficou, também, a promessa de Ana Luísa de me enviar o seu poético texto.

Finalmente, deixo o convite para visitarem a exposição patente na Biblioteca Nacional até 30 de Abril e cuja apresentação está aqui: http://www.bnportugal.pt/ ou consultarem o número de Janeiro da Revista Colóquio/Letras em parte dedicada a Sophia de Mello Breyner Andresen.
Fica também a reportagem da SIC:



Auxília Ramos

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

"La Cathédrale Engloutie"


Para ler com banda sonora (aqui)
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O silêncio é profundo, espesso e já ensurdecedor. O silêncio torna-se leve, pouco a pouco, e tudo o que nos parecia ensurdecedor se transforma. Aqui, os peixes são como murmúrios de tempos outrora felizes. Caminham entre os corais de mil cores esverdeadas, e entendo-lhes o sorriso de um mundo fascinante de calma aquática. Mais longe, no céu, uma espécie de grande pérola ilumina este ilusório abismo, e cresce, cresce. Na tona da água, um velho risonho, de remos enrugados, segue a sua viagem, sem destino concreto, sem qualquer outros sonhos a desejar, como se a vida já não lhe chegasse. Cerca com os olhos gastos de tantas tristezas do mundo os peixes e os seus sorrisos. Talvez pense que podia ser um deles, não um homem outrora feliz, mas um peixe agora feliz.
O silêncio é profundo, espesso e já ensurdecedor. É leve, pouco a pouco. Os peixes caminham entre destroços de um lugar de murmúrios de tempos outrora felizes. Iluminam-se primeiro alguns pináculos, aparecendo do abismo, depois o pigmento de um mundo inteiro. A Catedral submersa! Toda a vida oceânica se enche de um manancial de abundância, numa explosão colorida de breves feixes de luz, um arco-íris desordenado e marítimo. A terra move-se, em torno, e cresce, cresce. Os rochedos rasgam-se, as plantas esvoaçam, os crustáceos rangem e as baleias embalam o ritmo. A agitação das águas afaga o barco do pequeno velho. Este, sem mais demoras, rema tanto quando pode como se adivinhasse o seu destino. Do seu bote avistam-se já esses pináculos, e toda a Catedral se ergue do mar, trazendo consigo a agitação aquática que a envolve. A Catedral Submersa regressa ao sítio onde outrora fora feliz. E o velho pára, olha em redor, sorri… e regressa aos tempos outrora felizes. E o velho pára, uma vez mais, e reconhece os tempos em que outrora fora feliz. Num breve segundo que ficou suspenso, a Catedral envolve-se no seu próprio canto e retorna ao mar como que sugada rapidamente. O velho risonho, entre as ondas, torna a si e tenta, num último esforço, remar. Para um homem de olhos gastos, as ondas são fortes rivais. E depois, num momento de lucidez, deixa-se ficar, permanece quieto. Pensa em tanto quanto pode, fecha os olhos e levanta-se. O mar engole tudo.
Uns dias mais tarde o corpo dá à costa e ninguém dá pela sua falta.
Os amigos haviam já sofrido o mesmo fim. O velho sozinho e risonho tornara-se o que desejara, um peixe feliz, como nunca fora, num lugar feliz, onde nunca estivera. “O mundo devia ser feliz” murmurou, lá do fundo.
A Catedral não voltou a aparecer durante anos, talvez porque ninguém precisava dela, ou talvez porque ninguém podia abdicar das pessoas que sentem a nossa falta. De qualquer modo, quando a Catedral regressou, foi por tão pouco tempo, que apenas aqueles que se aperceberam da calma e da paz que ressoavam por esses dias repararam nela.
Ana Luísa, 12E
(Enviado por Auxília Ramos)

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Um cê a mais

Quando eu escrevo a palavra ação, por magia ou pirraça, o computador retira automaticamente o c na pretensão de me ensinar a nova grafia. De forma que, aos poucos, sem precisar de ajuda, eu próprio vou tirando as consoantes que, ao que parece, estavam a mais na língua portuguesa. Custa-me despedir-me daquelas letras que tanto fizeram por mim. São muitos anos de convívio. Lembro-me da forma discreta e silenciosa como todos estes cês e pês me acompanharam em tantos textos e livros desde a infância. Na primária, por vezes gritavam ofendidos na caneta vermelha da professora: não te esqueças de mim! Com o tempo, fui-me habituando à sua existência muda, como quem diz, sei que não falas, mas ainda bem que estás aí. E agora as palavras já nem parecem as mesmas. O que é ser proativo? Custa-me admitir que, de um dia para o outro, passei a trabalhar numa redação, que há espetadores nos espetáculos e alguns também nos frangos, que os atores atuam e que, ao segundo ato, eu ato os meus sapatos.
Depois há os intrusos, sobretudo o erre, que tornou algumas palavras arrevesadas e arranhadas, como neorrealismo ou autorretrato. Caíram hifenes e entraram erres que andavam errantes. É uma união de facto, para não errar tenho a obrigação de os acolher como se fossem família. Em 'há de' há um divórcio, não vale a pena criar uma linha entre eles, porque já não se entendem. Em veem e leem, por uma questão de fraternidade, os és passaram a ser gémeos, nenhum usa chapéu. E os meses perderam importância e dignidade, não havia motivo para terem privilégios, janeiro, fevereiro, março são tão importantes como peixe, flor, avião. Não sei se estou a ser suscetível, mas sem p algumas palavras são uma autêntica deceção, mas por outro lado é ótimo que já não tenham.
As palavras transformam-nos. Como um menino que muda de escola, sei que vou ter saudades, mas é tempo de crescer e encontrar novos amigos. Sei que tudo vai correr bem, espero que a ausência do cê não me faça perder a direção, nem me fracione, nem quero tropeçar em algum objeto abjeto. Porque, verdade seja dita, hoje em dia, não se pode ser atual nem atuante com um cê a atrapalhar.
Manuel Halpern, jornalista e crítico do Jornal de Letras, Artes e Ideias
(Enviado por Auxília Ramos)

sábado, 8 de janeiro de 2011

Receita de Ano Novo



Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)


Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.


Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.


Carlos Drummond de Andrade

(Enviado por Hélder Moreira)

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

sábado, 25 de dezembro de 2010

É Natal no mundo...


(João Rodrigues, in www.olhares.com)

Era uma tarde do fim de Novembro, já sem nenhum Outono.
A cidade erguia as suas paredes de pedras escuras. O céu estava alto, desolado, cor de frio. Os homens caminhavam empurrando-se uns aos outros nos passeios. Os carros passavam depressa.
Deviam ser quatro horas da tarde de um dia sem sol nem chuva.
Havia muita gente na rua naquele dia. Eu caminhava no passeio, depressa. A certa altura encontrei-me atrás de um homem muito pobremente vestido que levava ao colo uma criança loira, uma daquelas crianças cuja beleza quase não se pode descrever. É a beleza de uma madrugada de Verão, a beleza de uma rosa, a beleza do orvalho, unidas à incrível beleza de uma inocência humana. Instintivamente o meu olhar ficou um momento preso na cara da criança.
Mas o homem caminhava muito devagar e eu, levada pelo movimento da cidade, passei à sua frente. Mas ao passar voltei a cabeça para trás para ver mais uma vez a criança.
Foi então que vi o homem. Imediatamente parei. Era um homem extraordinariamente belo, que devia ter trinta anos e em cujo rosto estavam inscritos a miséria, o abandono, a solidão. O seu fato, que tendo perdido a cor tinha ficado verde, deixava adivinhar um corpo comido pela fome. O cabelo era castanho-claro, apartado ao meio, ligeiramente comprido. A barba por cortar há muitos dias crescia em ponta. Estreitamente esculpida pela pobreza, a cara mostrava o belo desenho dos ossos. Mas mais belos do que tudo eram os olhos, os olhos claros, luminosos de solidão e de doçura. No próprio instante em que eu o vi, o homem levantou a cabeça para o céu.
Como contar o seu gesto?
Era um céu alto, sem resposta, cor de frio. O homem levantou a cabeça no gesto de alguém que, tendo ultrapassado um limite, já nada tem para dar e se volta para fora procurando uma resposta: A sua cara escorria sofrimento. A sua expressão era simultaneamente resignação, espanto e pergunta. Caminhava lentamente, muito lentamente, do lado de dentro do passeio, rente ao muro. Caminhava muito direito, como se todo o corpo estivesse erguido na pergunta. Com a cabeça levantada, olhava o céu. Mas o céu eram planícies e planícies de silêncio.
Tudo isto se passou num momento e, por isso, eu, que me lembro nitidamente do fato do homem, da sua cara, do seu olhar e dos seus gestos, não consigo rever com clareza o que se passou dentro de mim. Foi como se tivesse ficado vazia olhando o homem.
A multidão não parava de passar. Era o centro do centro da cidade. O homem estava sozinho, sozinho. Rios de gente -passavam sem o ver.
Só eu tinha parado, mas inutilmente. O homem não me olhava. Quis fazer alguma coisa, mas não sabia o quê. Era como se a sua solidão estivesse para além de todos os meus gestos, como se ela o envolvesse e o separasse de mim e fosse tarde de mais para qualquer palavra e já nada tivesse remédio. Era como se eu tivesse as mãos atadas. Assim às vezes nos sonhos queremos agir e não podemos.
O homem caminhava muito devagar. Eu estava parada no meio do passeio, contra o sentido da multidão.
Sentia a cidade empurrar-me e separar-me do homem. Ninguém o via caminhando lentamente, tão lentamente, com a cabeça erguida e com uma criança nos braços rente ao muro de pedra fria.
Agora eu penso no que podia ter feito. Era preciso ter decidido depressa. Mas eu tinha a alma e as mãos pesadas de indecisão. Não via bem. Só sabia hesitar e duvidar. Por isso estava ali parada, impotente, no meio do passeio. A cidade empurrava-me e um relógio bateu horas.
Lembrei-me de que tinha alguém à minha espera e que estava atrasada. As pessoas que não viam o homem começavam a ver-me a mim. Era impossível continuar parada.
_ Então, como o nadador que é apanhado numa corrente desiste de lutar e se deixa ir com a água, assim eu deixei de me opor ao movimento da cidade e me deixei levar pela onda de gente para longe do homem.
Mas enquanto seguia no passeio rodeada de ombros e cabeças, a imagem do homem continuava suspensa nos meus olhos. E nasceu em mim a sensação confusa de que nele havia alguma coisa ou alguém que eu reconhecia.
Rapidamente evoquei todos os lugares onde eu tinha vivido. Desenrolei para trás o filme do tempo. As imagens passaram oscilantes, um pouco trémulas e rápidas. Mas não encontrei nada. E tentei reunir e rever todas as memórias de quadros, de livros, de fotografias. Mas a imagem do homem continuava sozinha: a cabeça levantada que olhava o céu com uma expressão de infinita solidão, de abandono e de pergunta.
E do fundo da memória, trazidas pela imagem, muito devagar, uma por uma, inconfundíveis, apareceram as palavras:
- Pai, Pai, por que me abandonaste?
Então compreendi por que é que o homem que eu deixara para trás não era um estranho. A sua imagem era exactamente igual à outra imagem que se formara no meu espírito quando eu li:
- Pai, Pai, por que me abandonaste?
Era aquela a posição da cabeça, era aquele o olhar, era aquele o sofrimento, era aquele o abandono, aquela a solidão.
Para além da dureza e das traições dos homens, para além da agonia da carne, começa a prova do último suplício: o silêncio de Deus.
E os céus parecem desertos e vazios sobre as cidades escuras.
Voltei para trás. Subi contra a corrente o rio da multidão. Temi tê-lo perdido. Havia gente, 'gente, ombros, cabeças, ombros. Mas de repente vi-o.
Tinha parado, mas continuava a segurar a criança e a olhar o céu.
Corri, empurrando quase as pessoas. Estava já a dois passos dele. Mas nesse momento, exactamente, o homem caiu no chão. Da sua boca corria um rio de sangue e nos seus olhos havia ainda a mesma expressão de infinita paciência.
A criança caíra com ele e chorava no meio do passeio, escondendo a cara na saia do seu vestido manchado de sangue.
Então a multidão parou e formou um círculo à volta do homem. Ombros mais fortes do que os meus empurram-me para trás. Eu estava do lado de fora do círculo. Tentei atravessá-lo, mas não consegui. As pessoas apertadas umas contra as outras eram como um único corpo fechado. À minha frente estavam homens mais altos do que eu que me impediam de ver. Quis espreitar, pedi licença, tentei empurrar, mas ninguém me deixou passar. Ouvi lamenta­ções, ordens, apitos. Depois veio uma ambulância. Quando o círculo se abriu, o homem e a criança tinham desapareci­do.
Então a multidão dispersou-se e eu fiquei no meio do passeio, caminhando para a frente, levada pelo movimento da cidade.

Muitos anos passaram. O homem certamente morreu. Mas continua ao nosso lado. Pelas ruas.

Sophia de Mello Breyner, in ”O Homem”, Contos Exemplares

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Livro do mês - Cabaz de Natal


José e Pilar





No dia 30 de Novembro, às 15h, as turmas do 12º ano foram ao cinema Dolce Vita, onde teve lugar uma sessão que contou com a presença do realizador, com quem os alunos tiveram a possibilidade de dialogar e debater algumas questões. “A Viagem do Elefante”, o livro em que Saramago narra as aventuras e desventuras de um paquiderme, transportado desde a corte de D. João III à do austríaco Arquiduque Maximiliano, é o ponto de partida para “José e Pilar”, o filme documentário de Miguel Gonçalves Mendes, que retrata a relação entre o Nobel José Saramago e Pilar del Río. O filme pareceu-nos, pois, um bom pretexto para os alunos conhecerem um pouco mais sobre o autor do romance “Memorial do Convento” (a estudar em aula), bem como o homem que tem uma visão muito particular sobre o mundo e que dela nos dá conta ao longo da sua produção literária.
Deixamos alguns testemunhos desta experiência didáctica:

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Vejo-te velho, cansado, pregueado por rugas, curvado… vejo-te de óculos, sentado, pasmado, incomodado, observador, observado, com vontade de saber-te “quase homem” Saramago. Ouço o som da tua voz rouca, e o som dos significados que ela transporta. Sinto que o tempo é a montanha que nos espera no topo, e não nos dá o caminho de volta. Sinto que nos deixas apenas uma falta de espaço físico, um lugar chamado anti-lugar, como se a vida (que vida?) coubesse mesmo no pico da montanha da criança.
Penso nisto: e é tudo a vontade de saber-te “quase homem”.
Teresa Stingl, 12A


Talvez tudo o que chegue tarde, não chegue tão tarde como o amor. Mas Saramago soube esperar. Esperou até encontrar Pilar, a protagonista de toda a sua vida. A imagem de Saramago transmitida pela televisão, pelos jornais e revistas, não é de todo aquela que figura no filme “José e Pilar”, realizado por Miguel Gonçalves Mendes.
José Saramago vestiu, na minha opinião, excessivas capas durante o seu “percurso humano”: a de comunista desgraçado, a de aparente recusa da própria nacionalidade ou até a de ateu em quem ninguém acreditava. Sempre foi incompreendido por toda a sociedade portuguesa, chegando a sua obra a ser repudiada por todos aqueles que gostavam de acreditar nos media. No entanto, essa não foi a imagem com que fiquei após o visionamento de “José e Pilar”. Nem eu, nem ninguém. Ninguém pode ser capaz de permanecer indiferente a tamanha história de amor ali retratada. Poderão talvez considerá-la uma exploração das vidas de José e Pilar, mas o que aconteceu durante quatro anos de filmagens, não pode nem deve ser tido como explorado ou manipulado.
Penso também ser imprescindível referir todo o trabalho cénico do filme. Desde a banda sonora, que considero soberba e inesperada, até à forma como as cenas estão montadas ou as pessoas filmadas. “José e Pilar” assume o papel de documentário sobre a vida de duas figuras públicas e da sua história de amor. No entanto, a maneira como todo o filme foi filmado surpreendeu-me imenso. Este “documentário” pode assumir o corpo até de um romance, se assim quisermos rotulá-lo.
Sempre tive a impressão de que Saramago levava uma vida fácil, sem nenhuma dedicação ou interesse. Contudo, a fugacidade com que a viveu é capaz de apavorar. Saramago habitou uma vida absoluta, inundada de compromissos, não só “literários” como também pessoais. Era em Pilar que ele se apoiava, não por conveniência, mas por vontade.
Para concluir, devo dizer que “José e Pilar” foi capaz de me despertar a reflexão em relação à vida e à forma como tratamos as pessoas, quer elas sejam próximas ou não. O Saramago insensível não existia. Quem o substituía era o Saramago apaixonado e devoto.
Luísa Santos, 12ºD
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Fomos ao cinema ver o filme "José e Pilar" e, no fim, tivemos a possibilidade de falar com o realizador Miguel Mendes.
Já tinha curiosidade de ver este filme mas, na minha opinião, o documentário excedeu todas as minhas expectativas. É como ver o outro lado de uma pessoa. O que ouvia sobre Saramago nunca era de forma completa e isenta, ou seja, nunca completamente mal, mas também nunca completamente bem. A minha opinião sobre ele não era nenhuma, pelo facto de, em mim, haver tantas discordâncias que me colocavam por fora do assunto. Este filme/documentário fez-me perceber que há uma pessoa por detrás de um escritor, uma pessoa que tem opiniões como todas as outras e que não tem medo de as admitir. Um homem forte que, com nenhuma ou quase nenhuma formação, ganhou um prémio Nobel. Um homem que ama, ama muito, que de pouco tem medo e, em pouco, existe incerteza na sua vida.
Recomendo o filme, são duas horas que, de novo, na minha opinião, não nos cansam, mas sim nos fazem perceber o que perdemos e ganhamos com este homem.
Rita Reis, 12ºE
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José e Pilar, ainda em exibição num cinema perto de si, chega ao mundo como um relato da vida de José Saramago e Pilar del Rio nos últimos anos do Nobel da Literatura. Filme realizado por Miguel Gonçalves Mendes, foi produzido com gravações do dia-a-dia do casal, enquanto Saramago lidava com a sua vida, a de Pilar, e A viagem do elefante.

O Homem

José de Sousa Saramago surge-nos, nesta longa-metragem, despojado do traje egocêntrico que sempre lhe tentaram vestir, sem presunções ou altivez. Apercebemo-nos que, de facto, a pessoa quase ignóbil e inquestionável criada pela imprensa não passava de uma máscara ignorada por Saramago. Este era, como todos nós, um ser humano, normal, e de uma simplicidade inicialmente estranha. Acima de escritor, José Saramago era um Homem, que apenas se distinguia verdadeiramente pela sua forte personalidade, vincada de fundamentados ideais.
Tal como a viagem do elefante, a vida de José Saramago também teve um fim, e, enquanto este o esperava pacientemente, sem pressas, da mesma forma que Ricardo Reis assinalava o inevitável ponto final, queria sempre viver um pouco mais, fruto de um carpe diem em que diariamente se envolvia. Em José e Pilar damos conta do célere quotidiano do escritor português, que viajava em torno do globo, retirando um pouco de si para dar aos outros, àqueles que nem sequer conhecia, durante um tortuoso processo que viria depois a acamá-lo.

A Mulher
Pilar del Rio é a personificação da letra capitular da palavra Mulher, uma mulher de armas que apenas parecia baixar a guarda a um homem quando este era Saramago, e ninguém mais! Dotada de um forte feminismo, a Presidenta (sem aspas) da Fundação José Saramago, foi verdadeiramente o pilar da vida do português. Na vida do Homem e do escritor a jornalista surge como pedra basilar, funcionando como força motriz para toda aquela correria desenfreada.
Aos olhos do espectador, Pilar comprova a adulteração pública de que sofreu o véu que a cobre; a personalidade forte é comprovada, mas a tirania de que a acusam é blasfémica. Por detrás de um grande homem existe sempre uma grande mulher, e era esse mesmo posto que Pilar del Rio ocupava, entregando a Saramago força para continuar quando parecia que simplesmente não dava mais. No fundo, Saramago parecia viver para Pilar e Pilar vivia para Saramago, numa relação de reciprocidade apoteótica.
O resultado de toda esta produção é bastante bom e cumpre, de forma irrepreensível, ainda que porventura indesejadamente, a função de reestruturar e renovar a imagem que o Mundo possui de José Saramago, uma imagem mais intimista e próxima do real. E, com a visibilidade que a morte do escritor recolheu, tem a possibilidade de fazer espalhar esta nova fé, com muito maior sucesso.
Está (re)descoberto o Homem por detrás da personalidade ideológica e literária.
Francisco Gomes, 12ºD
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“José e Pilar” é o mais recente filme de Miguel Gonçalves, um filme tão realista que toca o maior grau de crueldade e consciência. Um filme, no mínimo, arrepiante. José Saramago chega, assim, às salas de cinema, inteiramente a descoberto.
Miguel Gonçalves apresenta-nos uma obra que se escreveu sozinha, uma obra que, no fundo, não necessitaria de realizador, de luzes ou de câmara. Foi-nos ostentado um herói da escrita, cujos poderes o fizeram refugiar-se num país que não era o dele, numa língua que nunca foi sua. Culpando Pilar, destituímos a culpa de termos repelido um dos maiores escritores portugueses para um pedaço de terra que nunca lhe pertencera. Mas terá sido toda essa culpa atribuída em vão? Atribuída ao acaso? Não era Saramago um herói? Então, qual o porquê deste abandono quase repulsivo? Qual o porquê de não lutar contra um país que se faz de cego? Qual o porquê de não lutar contra um país que não lhe convinha, mas que nunca deixou de ser seu? Terá sido toda essa culpa atribuída em vão? Atribuída ao acaso? A Pilar, que nos foi vangloriada como salvadora de Saramago, e que pareceu esconder uma mulher cujas convicções, por vezes, se tornavam mais altas que o próprio marido. A Pilar, que nos foi vangloriada, começou a transformar-se numa mulher cujo juízos de valor em relação a Portugal quase se liam sem precisarem de ser escritos. Apontando-nos como membros de um governo que não presta, generalizando-nos como superiores em relação a tudo, conseguiu, em parte, justificar toda essa culpa que lhe fora atribuída. Porque, no fundo, o que transpareceu foi que nem Portugal nem Saramago se haviam separado, mas que os interesses políticos de Pilar del Río e de um governo que, realmente não presta, colidiam, tornando a convivência entre os dois impossível.
Miguel Gonçalves introduz-nos, então, a história de amor entre José Saramago e Pilar del Rio. E a disputa da mesma em tentar vingar-se de um país que nunca a acolheu.
Ana Catarina Tonel, 12º E
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Queria fazer um documentário sobre Saramago, talvez porque não acreditava no que diziam sobre ele, e reparou que Saramago era, em parte, Pilar. Assim nasceu este documentário de Miguel Gonçalves Mendes, acompanhando a escrita do livro “A viagem do Elefante”.
Saramago era, sem dúvida, uma figura carismática, polémica, neste país, e ainda o é. Tudo o que eu sempre ouvi sobre ele, e, provavelmente, quase tudo o que foi dito sobre os seus ideais, foram comentários negativos ou insignificantes, coisas que me pareciam realmente exageradas para um homem só. Perguntava-me se era possível existir alguém tão maldoso e fora de senso. Neste filme, Saramago aparece-nos como um homem simples, de ideias firmes, mas nada disparatadas, um homem que via o mundo de um modo diferente, mas não errado. Ao seu lado, é-nos apresentada Pilar del Río, jornalista considerada irreverente e fria, mas que, no fundo, apenas se dedicava a quem amava. A relação entre um e outro baseia-se no respeito e no dedicar das suas vidas mútuo. "A Pilar, que ainda não havia nascido, e tanto tardou a chegar", a quem José estava irremediavelmente destinado, com quem se verá noutro sítio. A ideia de alguém estar determinado a outro, não por obrigação, mas por desejo e realização de uma vida feliz, é uma das muitas formas de Saramago demonstrar a paixão inevitável que o fez viver a vida.
É importante referir Portugal, concretamente os portugueses, no meio de tudo isto. Este documentário embaraça qualquer um. De facto, ou o espectador é confrontado com a falta de atenção dada a este escritor, que tanto era cobiçado no resto do mundo, pelo nosso país, ou envergonha-se com a excessiva cretinice dos jornalistas portugueses, não generalizando, com alguns dos jornalistas portugueses.
No fundo, a imagem degradada e incoerente de Saramago é desmanchada, mostrando-nos que, apesar de todas as suas convicções, ali se encontrava apenas um homem, sem sabedorias divinas ou pretensões egocêntricas. Um homem com Pilar, com os livros e consigo próprio. Saramago era…
Ana Luísa de Matos Gomes, 12ºE
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“Eu tenho ideias para romances, ela tem ideias para a vida”
Tenho feito publicidade ao trabalho de Miguel Gonçalves Mendes, com quem tivemos a possibilidade de conversar, após assistirmos a José e Pilar. Confesso que li pouco de Saramago: apenas A Maior Flor do Mundo, quando era mais pequena. Mas também admito que era impossível não conhecer o tão irreverente, caótico, nobel, José Saramago. De Pilar, apenas conhecia o rosto, das imagens que passaram na televisão no dia da morte do marido.
A frase que tenho repetido é curta: afinal havia um ser humano por detrás do escritor. É tão simples quanto isto. Saramago podia ser muito polémico e era-o, mas só por dizer, de forma tão despreocupada, tudo o que pensava. Infelizmente, essa foi a máscara com que viveu, pelo menos no nosso país.
Miguel Mendes mostra-nos um homem diferente, que dedicou a sua vida a “Pilar, que ainda não havia nascido e tanto tardou a chegar”, cujo único medo se lia nas entrelinhas de “Subi ontem à Montanha Blanca. Lembro-me de haver pensado, enquanto subia: Se caio e aqui me mato acabou-se, não farei mais livro.”
Sara Cardoso, 12º D
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Olho-te o mais fundo retalho de alma. Vejo, como Blimunda, a “vontade” que trazes no mais íntimo do teu ser. Pareces-me caído, cansado. Um homem que suga os dias na ânsia de uma morte que não tarda. E, mesmo assim, moves-te. Aproveitas cada segundo que te é dado. Reencontras a paz que te fortalece nos pensamentos mais distantes. Recolhes cada um deles e uma história começa. Escreves e escreves, regrada mas continuamente. Transpões tudo o que és em simples palavras e uma história prossegue. O fim nada te perturba a mente. Sonhas continuar a tua arte numa qualquer outra vida. E uma história nunca acaba.
Joana Nunes, 12º A
(Enviado por Auxília Ramos)