terça-feira, 30 de outubro de 2012

Lobo Antunes na Escritaria 2012



Vale a pena ouvir a entrevista à TSF, sobre a homenagem, em Penafiel (clicar na imagem):

 
Sugestão enviada por Auxília Ramos e Lina Soares.









 



segunda-feira, 29 de outubro de 2012

terça-feira, 23 de outubro de 2012

90 anos de Saramago em Nova Iorque



















Os 90 anos do nascimento de José Saramago, falecido em 2010 aos 87 anos, vão ser assinalados entre 25 de outubro e 1 de novembro pelo Art Institute de Nova Iorque, numa iniciativa realizada em colaboração com a Fundação José Saramago e o patrocínio de várias entidades.
Para mais informações:

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Ainda Manuel António Pina...

O blogue O Mar Parece Azeite (clicar) presta (justa e poética) homenagem.

Sugestão enviada por Auxília Ramos.

domingo, 21 de outubro de 2012

Ainda Manuel António Pina...

Manuel António Pina e Fernando Pessoa: o fingimento poético
(retirado de http://www.educaremportugues.com/)

   "Eterna criança, o homem é naturalmente atraído pelo carácter fundamentalmente lúdico que anima todas as formas de arte, pelos jogos de palavras, pelo misterioso poder que têm as palavras, não só para designar o  mundo, mas também para criar o mundo. De facto, a literatura é, sobretudo, uma arte de fazer de conta; é, como Blanchot diz, ilusão; ou fingimento, como, por sua vez, diz Pessoa. Quando lemos um livro, suspendemos a incredulidade. À porta de qualquer obra literária está sempre a inscrição: “Para aqui entrares, tens que fazer de conta que acreditas”.

   O poeta [a poesia é o campo de observação por excelência da literatura pois a poesia é, talvez, literatura em estado puro] o poeta, dizia eu, escreve, ou faz de conta, com a mesma seriedade com que uma criança  brinca. As fronteiras teóricas entre literatura e verdade, entre Dichtung e Wharheit, são, como nos jogos infantis, hesitantes e imprecisas. Para os românticos [e românticos, ou seus herdeiros, todos nós somos, ou ainda menos] a dor é a mãe de toda a verdadeira poesia. Mas a dor e o sofrimento sinceros, isto é, sem fingimento, são a mãe [e o pai, e a família toda] da maior parte da má poesia que se escreve. Muita da grande poesia pode ter nascido da dor, mas o que a autonomiza da dor e a diferencia do mero espasmo doloroso é o fingimento, a capacidade de o poeta fingir “a dor que deveras sente” tornando-a poeticamente verdadeira. A poesia é forma, e essa é a sua verdade. Se a dor do poeta que eventualmente terá gerado o poema é “verdadeira” ou “falsa”, a sua verdade por assim dizer “vivida”, é assunto, como diz Jacobson, com interesse apenas para a Medicina Legal. (...)

   Na poesia, as palavras e as suas relações são as formas que os nossos sentimentos ou a memória deles tomam. Com elas, o poeta, como a criança brincando, cria, escrevendo, uma verdade outra, tão ou mais verdadeira. Uma verdade autónoma, cuja autenticidade não depende da verdade ou  da não-verdade do sentimento [e quem diz sentimento diz pensamento ou mera impressão ou emoção] que eventualmente lhe terá estado na origem. "
 
Texto completo aqui.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Homenagem a Manuel António Pina

O que não pode ser dito
guarda um silêncio
feito de primeiras palavras
diante do poema, que chega sempre demasiadamente tarde,

quando já a incerteza
e o medo se consomem
em metros alexandrinos.
Na biblioteca, em cada livro,

em cada página sobre si
recolhida, às horas mortas em que
a casa se recolheu também
virada para o lado de dentro,

as palavras dormem talvez,
sílaba a sílaba,
o sono cego que dormiram as coisas
antes da chegada dos deuses.

Aí, onde não alcançam nem o poeta
nem a leitura,
o poema está só.
‘E, incapaz de suportar sozinho a vida, canta.’

Manuel António Pina

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

França condecora a escritora Dulce Maria Cardoso

A edição dos livros Campo de Sangue (2002), Os Meus Sentimentos (2005) e Até Nós (2008), já traduzidos em França e noutras línguas, valeu à escritora Dulce Maria Cardoso (n. 1964) a condecoração francesa de Cavaleira da Ordem das Artes e Letras.
 
O Ministério da Cultura francês justifica a distinção pelo papel que a obra da escritora tem na "irradiação da cultura em França e no mundo".
 
Criada em 1957, a condecoração da Ordem das Artes e das Letras corresponde a uma das mais altas distinções honoríficas da República Francesa e homenageia personalidades que se destacaram pela sua contribuição na difusão da cultura em França.
 
Dulce Maria Cardoso, que em 2009 recebeu o Prémio Europeu de Literatura pelo romance Os Meus Sentimentos, é autora do livro de contos Até Nós e do romance O Chão dos Pardais publicado em Portugal em 2009. Em 2011 publicou O retorno, sobre a experiência dos retornados, da descolonização de Angola (de onde saiu na infância, via Ponte Aérea), do fim do Império e das suas consequências no Portugal contemporâneo. O romance foi considerado pela crítica como o melhor do ano e venceu ainda o prémio especial da crítica nos Prémios LER/Booktailors 2011.
 
A escritora nasceu em Trás-os-Montes em 1964, passou a infância em Angola e vive agora em Lisboa. Formou-se na Faculdade de Direito de Lisboa e o seu primeiro romance Campo de Sangue recebeu o Grande Prémio Acontece de Romance.
 
in "Ípsilon", revista cultural do Público, aqui.
 


 


terça-feira, 16 de outubro de 2012

CCB no CCB

 

        Consultar o programa aqui.

sábado, 13 de outubro de 2012

Prémio Nobel da Literatura para Mo Yan

Direitos de autor: WOOK. Clicar na imagem para aceder à bibliografia do autor.
 
A Academia Sueca atribuiu nesta quinta-feira o Prémio Nobel da Literatura ao escritor chinês Mo Yan.
Um dos mais celebrados escritores no seu país, embora não isento de polémica, Mo Yan faz habitar a sua obra de um humanismo compassivo, habitualmente centrado na ruralidade da localidade em que nasceu a 5 de Março de 1955, Gaomi, na província de Shandong. O escritor, que lançou o seu primeiro romance, Falling Rain On a Spring Night, em 1981, mereceu a mais nobre distinção do mundo da literatura por ser, segundo comunicado pelo comité do Nobel, um autor "cujo realismo alucinatório funde contos tradicionais, História e contemporaneidade". A sua escrita, como é aliás reconhecido pelo próprio, é grandemente influenciada por William Faulkner, Gabriel Garcia Marquez.
in Público, 11 de outubro de 2012. Ver artigo completo aqui.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Conto inédito de Sophia

A notícia foi publicada no Jornal de Letras:
 
"Os Ciganos", conto inédito de Sophia
 
 
É sabido que quem conta um conto, acrescenta-lhe um ponto. Mas não é esse o caso de Os Ciganos. Trata-se antes de uma história a quatro mãos, quase um pergaminho ou uma 'jóia de família'. É um conto inédito e inacabado de Sophia de Mello Breynner Andresen e concluído pelo neto, o jornalista Pedro Sousa Tavares. Vai ser lançado pela Porto Editora, com uma sessão de apresentação, a 16, às 19, na livraria Bertrand Chiado. A Porto Editora, como o JL pode adiantar, adquiriu, de resto, todos os direitos de publicação da obra em prosa de Sophia. A 6 de novembro, data de aniversário da escritora, serão lançados os primeiros títulos com a chancela: A Menina do Mar, com ilustrações de Fernanda Fragateiro, A Fada Oriana, com ilustrações de Teresa Calem, e Quatro Contos Dispersos, ilustrados por João Caetano. Os Ciganos, em pré-lançamento nas livrarias virtuais, tem ilustrações de Danuta Wojsiechowske.
 
Foi na Primavera de 2009 que Maria Andresen, poetisa e professora universitária, a filha de Sophia que tem cuidado do seu espólio, se deparou, entre outros inéditos, com um conto enunciado, iniciado e intitulado Os Ciganos, que surpreendeu desde logo pela "singularidade" no universo das suas obras para crianças. "Há algo de inesperado neste início de uma história, quer por aquilo que conta, quer por aquilo que não chega a contar", escreve Maria Andresen no prefácio. "Em vários contos, há semelhanças com o que aqui chega a ser contado, mas ao mesmo tempo, muitas dissemelhanças".
Embora não estivesse datado, nomeadamente por comparação caligráfica, deduz-se que tenha sido escrita em meados dos anos 60. E parece vocacionado para o público juvenil. Curiosamente, termina no preciso momento da narrativa em que o personagem Ruy, que "já não era um rapaz pequeno, mas ainda não era um rapaz crescido", como escreve Sophia, e "pensava na liberdade", saltava o muro para descobrir o mundo do outro lado, na senda de um grupo de ciganos. "Neste conto, o muro foi saltado, o jovem partiu, mas é aí que a narradora emudece, como que tão perturbada quanto Ruy pelo que se poderá seguir", escreve ainda Maria Andresen.
 
Por si, esse início pareceu-lhe ter uma unidade e fazer sentido trazê-lo à "luz do dia". Mas mais tarde, quando se pensou na sua publicação, pôs a hipótese de esse início funcionar como um "motivo literário aberto a ser continuado por outras mãos". E pensou no irmão, Miguel Sousa Tavares, atendendo à circunstância de ter publicado também livros infanto-juvenis. Porém, o escritor quis ouvir os filhos. A questão que se impunha era mesmo saber da pertinência da publicação deste conto. "Criminoso" seria não o fazer, não hesitou responder Pedro Sousa Tavares. É que achou tão "bom" o que leu que seria pena não o divulgar. "Era um início quase como um guião. Estavam lá todos os sinais do que iria ser a história", adianta o jornalista ao JL. "Corresponde a cerca de um terço do livro e, de alguma maneira, acabava no momento em que ia começar a desenvolver-se". Pensa, aliás, compreender as razões por que a avó deixou de lado esse original: "É uma história que tem sentidos distintos dos seus livros infantis. A relação entre o rapaz e a rapariga é diferente e são de mundos diferentes. Talvez isso tivesse criado algumas dificuldades na continuação da história", salienta. Pedro Sousa Tavares não se limitou portanto a pugnar pela sua publicação, teve algumas ideias para dar continuidade a essa narrativa que a avó deixara interrompida há tanto tempo. O mesmo é dizer que encontrou o fio da meada ficcional. Avançou essas ideias ainda sem pensar concretizá-las. A sua escrita é outra, ainda que secretamente tenha os seus escritos literários na gaveta. Talvez haja mesmo um qualquer gene responsável pela predisposição literária. E a questão se pode ser de ADN, tornou-se sem dúvida de família, já que a tia, Maria Andresen, acolheu bem as sugestões e disse-lhe que acabasse então a história da avó. Houve uma espécie de coincidências do destino, pois tinha acabado de nascer o seu segundo filho e a licença de paternidade permitiu-lhe mais tempo disponível para escrever. Tudo se conjugou para um final feliz.
 
Dar seguimento a uma narrativa de Sophia não é tarefa fácil, mesmo sendo no caso a avó, que lhe havia contado muitas e até explicado como as começara a escrever para os filhos, por achar que as existentes não a satisfaziam. Pedro Sousa Tavares não ignorava as "implicações", as possíveis consequências ou desconfianças. Mas confessa que nem pensou duas vezes: "Era uma oportunidade que não poderia recusar. Se o fizesse, passaria o resto da vida a pensar o que poderia ter feito daquela história", adianta. E se teve medo, espantou-o com uma certeza tranquilizadora: "Seria absurdo tentar imitar a minha avó, o que resultaria numa caricatura. Pensei sobretudo respeitar o que era essencial na sua escrita: a simplicidade". Dito de outra maneira: Não iria nem tentar escrever como Sophia, mas nunca a perderia de vista na memória, enquanto escrevesse. E assim fez. "A verdade é que Sophia está em todo o livro, num excerto que ela escreveu e aparece na minha parte, nas descrições de personagens que têm as características dela", diz ainda. Seguiu o seu rumo, a "mensagem que a história tinha inscrita nas primeiras linhas". Espera agora que Os Ciganos sejam lidos como um "todo". As partes de Sophia e de Pedro Sousa Tavares estão devidamente diferenciadas, mas os leitores por certo, mesmo dando pelas diferenças, vão seguir a leitura sem sobressaltos. "A minha esperança é que, ao fim de algumas páginas, esqueçam as diferenças e sigam apenas a história e a apreciem como tal. Se isso acontecer, já fico satisfeito".
 
E se a avó Sophia, de algum modo, lhe legou este "presente", também lhe transmitiu um ensinamento que agora, porventura como nunca antes, faz sentido: "As histórias têm que merecer ser lidas e cativar os leitores", diz. "Espero ter continuado o que ela estava a fazer bem, nesta história". Tanto mais que vinda do passado, pode falar ao presente. "É um livro sobre a transcendência, sobre a vontade de ir além do que os outros esperam. E sobre a importância de ter sonhos e não desistir deles. Também por isso acreditei que era uma história que fazia sentido nos tempos que correm, sobretudo para os mais novos", sublinha. "Isto além do próprio tema, os ciganos, que é pouco tratado, ainda menos na literatura infantil e juvenil. E curiosamente esta história chegou-me numa altura em que os ciganos estavam a ser expulsos de França. Parece mesmo que estava destinada a ser contada".
Maria Leonor Nunes, 2 de outubro de 2012 

sábado, 29 de setembro de 2012

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Jorge Amado: 100 anos a escrever o Brasil

   O Lusografias celebra, hoje, o centenário do nascimento do escritor Jorge Amado.  São várias as iniciativas que assinalam a data, entre as quais destacamos a exposição da Biblioteca Nacional ("Jorge Amado em Portugal"), sobre a receção (polémica) da sua obra, nos anos trinta, no nosso país.  




 A Fundação José Saramago propõe um dia de festa, com exibições de capoeira, leituras públicas e comida brasileira (nos restaurantes vizinhos) - uma explosão de alegria para homenagear o escritor que festejava a vida em todos os seus romances.












 O Jornal de Letras publica uma edição especial:


 Vale também a pena visitar a sua Fundação, na Baía (clicar na imagem, para aceder à página):


Deixamos um vídeo muito curioso; nele Jorge Amado atribui o seu gosto pela leitura a um professor português, o Padre Gonzaga Cabral, que anteviu no talento precoce do aluno o génio de futuro escritor...



 No seu livro de memórias, confessava, sobre a leitura:

"Se devoro livros até hoje, eu o devo ao pai Dumas, o mulato Alexandre, foi ele quem me deu o gosto de ler, o vício: aos onze anos encontrei abandonado no navio para Itaparica o exemplar de Os Três Mosqueteiros, contraí o vírus da leitura para sempre.
Devo a Rabelais e a Cervantes, deles nasci. Devo a Dickens: me ensinou que nenhum ser humano é de todo mau, a Gorki: me deu o amor aos vagabundos, aos vencidos da vida, os invencíveis. Devo a Zola, com ele desci ao fundo do poço para resgatar o miserável, a Mark Twain devo ter soltado o riso, arma de combate, a Gogol, o nariz, as botas e o capote.
Devo a Alencar o romantismo e a selva, a Manuel António de Almeida a graça da picardia, do burlesco, na praça do povo soltei o verbo com Castro Alves, denunciei a infâmia, com Gregório de Matos aprendi a generosidade do insulto, fui boca de inferno, cuspi fogo, pela sua mão descobri as ruas da Bahia, o pátio da igreja (...).
Devo ao cronista anónimo do Mercado, ao contador de casos da feira de Água dos Meninos, ao trovador devo o arroubo, a invenção ao mestre de saveiro: namorou Yemanjá nas cercanias da ilha de Itaparica, dormiu com Oxum no leito de águas mansas do rio Paraguaçu, possuiu Euá na cachoeira de Maragogipe, derrubou-a na fonte de caracóis e pétalas de rosa. É necessário saber e inventar.
Devo ao poeta de cordel, devo."
Jorge Amado, Navegação de Cabotagem


E, por fim, algumas das capas dos seus livros mais conhecidos: 





terça-feira, 31 de julho de 2012

Revista "DiVersos"


Saiu mais um número da revista DiVersos, o número 17, que celebra os 60 Anos de poesia de Albano Martins e traduz o primeiro autor norueguês, Tor Ulven, e o austríaco Georg Trakl.

     Para quem desconhece a DiVersos (Poesia e Tradução), trata-se de uma publicação criada em 1996 que, estranhamente, tem sido ignorada pelos promotores culturais em Portugal. A distribuição é uma luta permanente e as poucas livrarias que a aceitam escondem-na.

     Talvez a justificação para esta atitude se encontre no facto de não ser uma revista de poesia onde se tecem os maiores elogios a pseudopoetas que têm a sorte de terem amigos nos lugares certos ou estarem na moda. Pelo contrário, é a ausência de qualquer comentário ao texto que cria o silêncio necessário para ler alguns poetas pela primeira vez ou revisitar outros que sempre nos encantam (Hölderlin, Kaváfis, Rimbaud,Shakespeare).

     Cada número da DiVersos resulta de uma escolha criteriosa de autores, poemas e tradutores. Inclui essencialmente poetas estrangeiros das mais variadas origens: americanos, britânicos, gregos, o chinês Han Shan, entre muitos outros.

     Os seus fundadores têm em comum o gosto pela poesia e pela escrita. Vivendo longe de Portugal, juntaram-se para concretizar um projeto de divulgação boa poesia.

     Quem tiver adquirido os dezassete números possui uma belíssima antologia de poetas consagrados e contemporâneos, ou não, mas que o público português provavelmente desconhece.
Paula Raimundo

quinta-feira, 5 de julho de 2012

sexta-feira, 8 de junho de 2012

domingo, 20 de maio de 2012

Poesia e(m) companhia

Deixo o interessante trabalho de intermedialidade dos alunos de 10ºano, que associaram à poesia motivos da pintura, música, cinema e da própria poesia...


Poema 1

ANIVERSÁRIO

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui – ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça,
com mais copos,
O aparador com muitas coisas – doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

Álvaro de Campos, 1929



A Desintegração da Persistência da Memória, Salvador Dalí



Poema 2

Adeus
Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
E eu acreditava!
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os teus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os teus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...
já não se passa absolutamente nada.

E, no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos nada que dar.
Dentro de ti
Não há nada que me peça água.
O passado
é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

Eugénio de Andrade

Someone like you, Adèle

Never mind, I'll find someone like you

I wish nothing but the best for you, too

Don't forget me, I beg, I remember you said

Sometimes it lasts in love

But sometimes it hurts instead

Sometimes it lasts in love

But sometimes it hurts instead, yeah.






Poema 3

Eu me perdi na sordidez de um mundo
Onde era preciso ser
Policia agiota fariseu
Ou cocote

Eu me perdi na sordidez do mundo
Eu me salvei na limpidez da terra


Eu me busquei no vento e me encontrei no mar
E nunca
Um navio da costa se afastou
Sem me levar

Sophia de Mello Breyner











Poema 4
Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ei-lo que avança
De costas resguardadas pela minha esperança
Não sei quem é. Leva consigo
Além de sob o braço o jornal,
A sedução de ser seja quem for,
Aquele que não sou.
E vai não sei onde
Visitar não sei quem
Sinto saudades de alguém
Lido ou sonhado por mim
Em sítios onde não estive
Há uma parte de mim que me abandona
e me edifica nesse vulto que
cheio de ser visto por mim
é o maior acontecimento
da tarde de domingo

Ei-lo que avança e desaparece
E estou de novo comigo
sobre o asfalto onde quero estar

Ruy Belo

“Ela Canta Pobre Ceifeira”

Ela canta, pobre ceifeira
Julgando-se feliz talvez;
Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia
De alegre e anónima viuvez,

Ondula como um canto de ave
No ar limpo como um limiar,
E há curvas no enredo suave
Do som que ela tem a cantar.

Ouvi-la alegra e entristece,
Na sua voz à o campo e a lida,
E canta como se tivesse
Mais razões p'ra cantar que a vida.

Ah! canta, canta sem razão!
O que em mim sente 'stá pensando.
Derrama no meu coração
A tua incerta voz ondeando!

Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência disso! Ó céu!
Ó campo! Ó canção! A ciência
Pesa tanto e a vida é tão breve!
Entrai por mim dentro! Tornai
Minha alma a vossa sombra leve!
Depois, levando-me, passai!

Fernando Pessoa, Cancioneiro


Poema 5
De mansinho ela entrou, a minha filha.
A madrugada entrava como ela, mas não
tão de mansinho. Os pés descalços,
de ruído menor que o do meu lápis
e um riso bem maior que o dos meus versos.
Sentou-se no meu colo, de mansinho.
O poema invadia como ela, mas não
tão mansamente, não com esta exigência
tão mansinha. Como um ladrão furtivo,
a minha filha roubou-me a inspiração,
versos quase chegados, quase meus.
E mansamente aqui adormeceu,
feliz pelo seu crime.

Ana Luísa Amaral, “Às Vezes o Paraíso” (1998)

Filme “Crianças Invisíveis”: “Song Song and Little Cat” de John Woo.



Enviado por Auxília Ramos

Ler - maio

terça-feira, 1 de maio de 2012

O poema


Ouvir o poema para poder falar dele. – Nuno Júdice

"Um poema, um verdadeiro poema, no qual todas as palavras estão carregadas de significado, os versos fluem musicalmente e a mensagem se solta numa leitura que privilegia a perceção sensorial, não necessita de auxiliares de leitura, pois tudo o que há a dizer está dito, no que foi efetivamente dito e no que não foi." – Duarte Magano

“Para uma composição ser verdadeiramente um poema, o recetor tem de compreender o que o poeta inscreveu nessa composição, sem que haja necessidade de o discutir, de o comparar.” – Maria Francisca Cunha

“Um poema, na sua essência, não precisa que ninguém o complemente, pois já transmite tudo o que é realmente necessário saber.” – Ana Figueiredo

"Um poema, quando executado na perfeição, é capaz de nos revelar todos os segredos pela palavra, desvendando a sua mensagem oculta." – João Sousa

“Um poema é espelho da alma do leitor. Mas, ao invés de vermos apenas um reflexo, conseguimos observar e explorar, sem desvios, todos os recantos até ao mais ínfimo pormenor. “ – António Pedro


Congresso Internacional Vergílio Ferreira

(Clicar na imagem para aceder à página oficial)

quarta-feira, 25 de abril de 2012

25 de abril

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo

Sophia de Mello Breyner Andresen

segunda-feira, 23 de abril de 2012

domingo, 22 de abril de 2012

Livro(s) do mês - abril



Atração da Flip este ano, a portuguesa lança no Brasil o aclamado romance ‘O retorno’, sobre as perdas de uma família que, como a sua, foi obrigada a deixar Angola em 1975.
O Rui da infância de Dulce Maria Cardoso teve os dois irmãos assassinados durante a guerra de independência de Angola, os nomes citados entre os desaparecidos que todas as noites a rádio listava antes da novela “Simplesmente Maria”. O Rui da literatura de Dulce Maria Cardoso imaginava se o pai, que ficara em Luanda e do qual não tinha notícias, estaria um dia naquela lista que sua irmã ouvia impacientemente todas as noites, antes de “Simplesmente Maria”, na sala de convívio de um hotel cinco estrelas em Estoril, Portugal. O Rui da literatura foi batizado em homenagem ao Rui da infância da escritora portuguesa, que, depois de viver dos 6 meses aos quase 11 anos em Angola, foi obrigada — ela e meio milhão de moradores das colônias de Portugal — a voltar para uma terra onde praticamente não havia estado. Era 1975, fim da guerra de independência de Angola, e uma nova guerra civil estava por vir. Foi nessa época que, a inventar histórias para fazer a vida mais suportável, Dulce decidiu que um dia seria escritora.

Seu Rui inventado tem 15 anos e é o narrador de “O retorno”. O romance, celebrado por jornais de Portugal como um dos melhores de 2011, chega ao Brasil no fim deste mês pela Tinta-da-china, editora portuguesa que acaba de aportar por aqui, e que em junho lançará “Os meus sentimentos”, também de Dulce. A autora, que no início de julho participará da décima edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), sempre soube que um dia escreveria sobre a experiência de “retornada”, mas não queria que seus leitores fossem como “aquelas pessoas que abrandam para verem um acidente e se emocionarem”. Após uma antologia de contos e três romances — o primeiro, “Campo de sangue”, foi publicado no Brasil pela Companhia das Letras — ela achou as palavras.

— Costumo dizer que me tornei escritora por causa dos acontecimentos que narro neste livro, mas não queria utilizar essa matéria sem mais. Demorei muito tempo até encontrar uma proposta de reflexão sobre o que ocorreu. E a proposta foi um livro sobre a perda e sobre todas as fases que uma perda tem — conta Dulce, por telefone, de Lisboa.


“Rui é o imperativo do verbo ruir”

Rui perde a casa com roseira, a cadela Pirata, as pitangas e o mar quente, as roupas coloridas, os amigos que vão para o Brasil e a África do Sul. E o pai, que não sabe se volta. Rui ganha o crepúsculo sem fim, um mar tão azul porém gelado, um casaco branco e largo para suportar o frio de sangrar os lábios e o estigma de retornado, compartilhado com outros que vivem um tanto amontoados, fazendo filas para comer, num hotel cinco estrelas pago pelo Instituto de Apoio ao Retorno dos Nacionais. Ali — “o império estava ali, naquela sala, um império cansado, a precisar de casa e de comida, um império derrotado e humilhado, um império de que ninguém queria saber” — fica à espera de outra vida por mais de um ano, dormindo com a irmã e a mãe e repetindo, para ver se acredita: “um quarto pode ser uma casa e este quarto e esta varanda de onde se vê o mar é a nossa casa”:

— Quando estava a escrever percebi que Rui é o imperativo do verbo ruir. Esse era o nome certo. Porque o que eu assisti foi o império ruir. Eu assisti ao monstro em seu movimento de queda final.

‘Portugal nunca exorcizou o império’

Escritora vê seu país sem rumos e cria protagonista adolescente como alguém capaz de redefinir o futuro

Dulce Maria Cardoso nega que tenha escolhido um personagem masculino para fugir do tom autobiográfico. Sabia que de todo modo se procurariam as semelhanças entre o romance e sua própria história — como acontece mesmo quando não há relação alguma. Além de ter crescido “assombrada” pela história do Rui de sua infância — que reencontrou há pouco tempo, por conta de uma entrevista na televisão —, era para ela um desafio pensar na diferença de gênero, que é mais marcante na adolescência, sobretudo quase 40 anos atrás.

O narrador adolescente ainda lhe servia ao propósito de pensar na possibilidade de reconstrução do que ruiu. Rui vai buscando palavras para os silêncios a sua volta, como os da doença da mãe e da ausência do pai. Angola é “lá”, Portugal é “cá”, e a política e a guerra que estão por trás de todas as mudanças em sua vida são “isto”. “Desde que isto começou”, repete o narrador.

— Os países em crise ou em convulsões são como os adolescentes, podem redefinir o que querem para seu futuro. E portanto um país em crise como Portugal foi em 1975, e como infelizmente está a ser outra vez agora, é um país sempre adolescente, porque pode fazer escolhas, haja vontade e sabedoria suficientes, o que neste caso parece não ter havido — afirma Dulce, com uma amargura recorrente em relação à história de Portugal. — Nunca exorcizamos o império. Não pensamos sobre o que fomos, estamos quase sem referências, então dificilmente sabemos do nosso lugar no futuro.


Brasil como lugar mítico, na vida e no romance

Dulce passou muito tempo assim, sem saber de seu lugar no futuro. Saiu de Angola na ponte aérea que durou até 11 de novembro de 1975, dia da independência, para viver com os avós de que não tinha memória em Trás-os-Montes, região onde nascera, no Norte de Portugal. Depois viveu dois anos com os pais, a irmã e outros retornados num hotel em Estoril. Não tem como saber se teria se tornado uma escritora fosse outra sua história, mas acredita que não.

— A realidade foi se tornando insuportável, principalmente porque Trás-os-Montes em 1975 era uma coisa terrível em termos de isolamento. E para mim não foi só perder os amigos, o clima, todos os sabores que eu conhecia. Foi também perder a própria família nuclear — conta. — Eu tornei-me a minha primeira personagem, porque comecei a inventar histórias para meu dia a dia como se estivesse a viver aventuras. Era a única maneira de a realidade me ser suportável. Aprendi a construir personagens sendo eu a primeira, e depois percebi essa coisa maravilhosa de que as histórias iam comigo para todo lado.

Sem livros em casa, Dulce não sabia como dar forma àquelas histórias. Matriculou-se num curso de datilografia, ao lado de senhoras que queriam ser secretárias, e continuou sem saber. Então passou a frequentar bibliotecas, escolhia os livros mais grossos para não ter que ir e voltar a toda hora, e lendo “de forma caótica” descobriu Dostoiévski e estremeceu com “Madame Bovary”, imaginando se aquele enredo poderia acontecer com sua mãe e sua tia. Só depois de se formar em Direito e trabalhar cinco anos como advogada, porém, ela passou a se dedicar inteiramente à escrita.

— Sou uma improbabilidade — brinca.

Bolsas e prêmios aos poucos mudaram as probabilidades. Grande parte de “O retorno” foi escrito com uma bolsa na Alemanha. Quando voltou a Portugal, diz Dulce, o país já estava sob intervenções econômicas, e foi uma coincidência lançar um livro que fala do fim do império português justo no “fim do ciclo do sonho europeu”. Ao falar da descolonização, ela conta uma história que não costuma ser conhecida. Dulce volta e meia recebe mensagens de portugueses que nunca souberam das mais de meio milhão de pessoas que tiveram que sair das colônias de Portugal — de Moçambique, diz ela, houve retornados que já viviam lá havia três gerações.

Nem lá nem cá, os retornados eram vistos como exploradores pelos angolanos e como portugueses de segunda categoria pelos da metrópole. Alguns apoiavam a independência do “povo oprimido por cinco séculos”, como diz no livro o tio de Rui, outros consideravam os soldados portugueses traidores, mas todos, de forma geral, faziam de si mesmos uma brutal diferenciação com “os pretos”.

— Se há racismo em Lisboa em 2012, como se pode pensar que em 1975 não havia? Era uma colônia, e portanto havia uma situação desequilibrada de poder. E todos os racismos partem acima de tudo de um grande desequilíbrio. Não era ostensivo como na África do Sul, mas havia um racismo que ainda hoje há, e que talvez seja o mais difícil de combater, que é o racismo de oportunidades — diz Dulce, ressaltando que seu objetivo nunca foi prestar contas, até porque está muito mais preocupada com os racismos e exclusões de hoje do que com os de 1975, com os fins de hoje em Portugal do que com o fim do império.

Naquele tempo de infância, quando o frio de Portugal e as saudades de casa apertavam, Dulce sonhava que sua família poderia ir para o Brasil. No livro, o país aparece como esse espaço de sonho, que ela realizou ao vir ao Rio na Bienal de 2005. Volta em julho a Paraty, ainda com uma ideia mítica de país à sua frente, de um lugar onde “está tudo ainda a acontecer”, enquanto Portugal se mantém “no canto da Europa, sempre a empurrar o horizonte”.

— Toda gente achava que o Brasil era uma repetição do que tínhamos perdido, por causa do clima, da maneira de ser... Depois o Brasil veio a ter conosco através das novelas, por um tempo o Brasil tinha uma grande importância, era muito bem visto e popular por aqui. Infelizmente depois, quando começou a imigração brasileira... já não é tanto — observa.

A Angola, nunca mais voltou:

— Infelizmente, e isso é uma marca do nosso processo de descolonização, Angola ficou entregue a uma guerra civil terrível, que agora já acabou, mas ficou com um regime que não é confiável... O regime angolano faz com que eu não volte lá.
Fica também o link para uma conversa da escritora com Paula Moura Pinheiro: http://camaraclara.rtp.pt/#/arquivo/233/
(Enviado por Auxília Ramos)

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Livro do mês - abril


O livro não foi escrito para amigo, conhecidos, familiares, não foi escrito para o próprio autor, foi escrito para a solidão.
João Tordo guia-nos numa viagem de desconhecimento daquilo que pensávamos que o ser humano poderia ser. De um modo despiedado, descreve tudo aquilo que o homem intimamente é, quando se entrega aos gritos da loucura. Nestas páginas, tudo se reduz à dimensão animalesca, não como justificação para o que de desumano encontramos, mas por essa ser a verdadeira essência o mundo. Lemos o homem em estado bruto, e isso não nos ofende, não produz qualquer onda de admiração. É a constatação de uma realidade que já sabíamos existir no profundo do corpo. Apesar das negações, sempre tomámos o lugar da loucura em nós como seguro.
O homem que perdeu a família num incêndio, já conhecia bem os lugares da solidão, já havia memorizado as entranhas de uma vida desfalcada. Helena amava um homem que enlouquecera dentro de um abrigo, durante a II Guerra Mundial, e que a violava repetidamente.
O caminho para o desprendimento é mais rápido e mais fácil do que aquele que nos prende a ele. É só esperar e a solidão aparece, na maioria das vezes, premeditada para nós, desejada com os dias de sol no inverno. A solidão não é um animal autónomo, não se cria abandonada e se alimenta da vida do homem. Somos nós que lhe entregamos tudo, pomo-nos à sua disposição, sucumbimos perante a sua chegada, e depois não queremos mais sair de um purgatório mental, bem melhor do que o pesadelo que transportamos todos os dias.
O Livro dos Homens sem Luz avança nas prateleiras livre de comentários. Quem o lê sabe que se trata de uma imposição de uma parede de tijolos em redor de cada um.
Diana Falcão
(Texto enviado por Hélder Moreira)


sexta-feira, 6 de abril de 2012

segunda-feira, 26 de março de 2012

Morreu António Tabucchi



Em jeito de homenagem, o artigo de João Céu e Silva, no Diário de Notícias:

A casa onde o escritor Tabucchi morava em Lisboa fica numa rua a descer para o rio Tejo e das suas varandinhas lia-se um romance inteiro apenas com o olhar. Roupas a secar ao sol que só ilumina a rua por inteiro durante muito pouco tempo; janelas de madeira desde o rés-do-chão, de onde os mais sem vergonha podiam roubar um saco de batatas ao marçano só com o esticar do braço; portas emperradas a tapar a vida aos velhos que por ali ainda moram, de onde um pontapé certeiro amolga os carros que as entaipam; passeios tão apertados que só os lingrinhas e as misses ali cabem e uma inclinação que deixava qualquer um a arfar. Era uma casa apropriada para se escrever o romance que se via dessas varandinhas, com um número qualquer pendurado na ombreira de pedra cá em baixo, algo escura ainda no primeiro andar, cuja escadaria dava logo para a sala ampla. O chão de madeira coberto com tapetes rangia um pouco e havia que ter cuidado para não se tropeçar na decoração. O escritor Tabucchi gostava de se sentar num dos sofás e falar, sempre chegado à frente, com receio que a posição colada às costas do móvel interrompesse aquele fluxo de ideias que oferecia quando estava a gostar da conversa. De uma entrevista com ele era certo poder-se fazer duas ou três e guardar ainda umas belas frases para um dia como o de ontem em que foi anunciada a sua morte. Mas não vale a pena revolver a gaveta dos blocos para encontrar a última que me deu porque ainda está muito fresca na memória. Como o escritor Tabucchi falou! Do livro em causa, das traduções, dos outros já escritos e dos ainda por escrever; de pensar em português mas não lhe ser fácil escrever nesta língua; da cultura de Portugal, de Itália e de França; da política de cá e de lá, do processo na justiça com o primeiro-ministro cantor. A rua que agora perdeu um dos seus moradores chama-se Rua do Monte Olivete, onde morava o vizinho que ao abrir a janela lia um romance inteiro na vida que passava por aquela calçada de pedra negra.
João Céu e Silva, in Diário de Notícias

sexta-feira, 23 de março de 2012

"Alma" e dia mundial da poesia












No dia da poesia, fomos ao teatro ver a excelente adaptação cénica do Auto da Alma de Gil Vicente, da responsabilidade de Nuno Carinhas – ALMA.
E no teatro não deixamos de nos cruzar com a poesia, a poesia de Teixeira de Pascoaes, em Deslumbramento e Minha aldeia na Páscoa
Caminhamos com a Alma e assistimos ao milagre, de mundo em mundo, repetido…

Partilho convosco um olhar poético de um amigo que acredita que, enquanto fazemos poesia, caminhamos e não nos rendemos à morte antecipada:  

é muito tarde e dói-me a alma
o dia trouxe-me uma coroa que não queria, de espinhos –
mas esta alma é forte como os ventos, dura como os diamantes
esta alma não se rende, não se rende nunca
esta alma que é minha, misturada com o sol e com a lua
é como um barco feito de artérias e sangue;
correndo, correndo sempre na linha direta do horizonte
qual funâmbulo
sem medo da queda nem de afogamento
lá longe
onde se junta mar e firmamento –

esta alma não é pura não é branca nem é suja
é uma alma que acredita
e por mais que doa a alma, há sempre caminho
os pés cansados, os dedos moídos e a corrida
e por mais que doa a alma, revela que existe
que é humana e que há vida –


José Ferreira, março 2012

Enviado por Auxília Ramos