segunda-feira, 28 de setembro de 2009

26 de Setembro - Dia Europeu das Línguas

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“Falar com outras pessoas na sua própria língua ajuda a ultrapassar barreiras linguísticas e culturais”, afirmou a coordenadora do Conselho da Europa para o Diálogo Intercultural, Gabriella Battaini-Dragoni, por ocasião da 9.ª edição do Dia Europeu das Línguas. “Aprender línguas estimula a nossa sensibilidade para culturas diferentes, podendo contribuir para nos distanciarmos e olharmos a nossa própria cultura de uma outra perspectiva.”
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Battaini-Dragoni lembrou que o Livro Branco do Conselho da Europa para o Diálogo Intercultural ‘Viver juntos – iguais em dignidade’ sublinha a importância da aprendizagem de línguas como um meio de desenvolver a curiosidade e a abertura ao Outro, evitando os estereótipos e descobrindo como pode ser enriquecedora a interacção com os outros. A compreensão intercultural é a base para um diálogo profícuo.
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O Dia Europeu das Línguas foi instituído pelo Conselho da Europa em 2001, Ano Europeu das Línguas, para celebrar a diversidade linguística e cultural.
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O Colégio Luso-Francês, através do Departamento de Línguas, associa-se a esta efeméride, assinalando-a com várias actividades, nos diferentes ciclos de ensino. Todos estão convidados a participar nos eventos de celebração deste ano, a mobilizar as suas competências linguísticas e a ouvir /falar / ler com prazer as diferentes línguas utilizadas em seu redor. Durante toda a semana, poderão encontrar outras línguas e culturas mesmo ao virar da esquina…
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Informações e iniciativas acerca do Dia Europeu das Línguas disponíveis em:
www.coe.int/EDL

"Diáspora", de José Rui Teixeira


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Na última sexta (25 de Novembro), o poeta, amigo e colega José Rui Teixeira apresentou Diáspora, testemunho de uma década de poesia. Não pude estar presente num momento que considero decisivo para a sua poética, uma vez que marca um separador temporal importante, fixando, no fundo, a legitimidade da sua periodização e a sua afirmação enquanto "poesia pós-moderna" (não que as classificações hermenêuticas tenham muita importância...). Sei que o Zé Rui contou com a presença dos amigos mais cúmplices e de todos os que caminham com ele, sei que foi um instante único de cumplicidade e de partilha. E, embora não estivesse lá, sei que a noite tocou o inefável no seu manto intimista de carinho e de amizade profundos.
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Deixo as palavras da Drª Auxília Ramos, que teve o privilégio de estar presente:
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Sexta-feira, à noite, a capela de Fradelos, no Porto, voltou a ser “abrigo” para um grande número de amigos que se reuniram em volta do trabalho poético de José Rui Teixeira. A apresentação da sua mais recente publicação “Diáspora” esteve a cargo de Fernando de Castro Branco que, engenhosamente, urdiu um discurso em torno da vida e morte, de lugares, de caminhos, de imagens e metáforas, da sobreposição de memórias, de incursões bíblicas, de terra, água, ar e fogo, de jardins com magnólias, da figura materna, de tessituras verbais que resistem à tentação da ausência de luz, do vazio semântico...
Para mim, bastava-me “um coração cheio de milagres”…
“Diáspora” reúne, de forma depurada, o trabalho poético de uma década, mas inova com “Ataúde”, um inédito trabalhado entre 2008-2009 – “ Fala-me secretamente das magnólias, do modo/como caem as pétalas sobre a terra nos últimos dias”…
Uma década, assinalou José Rui, acrescentando que a História se faz por décadas. Uma década desde a primeira publicação do seu trabalho poético. Não sei se a noite de sexta, na capela de Fradelos, foi um acontecimento histórico, mas foi, certamente, um momento especial para muitos. Ao ouvir a palavra “década” na boca do Zé Rui, recuei vertiginosamente no tempo e revisitei vários momentos passados: a biblioteca do CLF no dia em que homenageamos o poeta/colega pela publicação de “Vestígios” (a primeira), a primeira apresentação pública em Fradelos, “um lugar que habitamos juntos”, talvez não tão povoado como sexta-feira, mas, seguramente, tão ou mais cúmplice de um amigo, de um poeta, de um peregrino que assume que “partimos sempre mais do que chegamos.", a inclusão em manuais escolares de alguns dos seus poemas, a “encomenda” de um inédito para ilustrar, poeticamente, os pensamentos de Maria Bárbara, a princesa de “Memorial do Convento”…
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“Nasceste numa manhã como se fosse um lugar branco
e as mãos entranharam-se em ti para te dar à luz.
mas não te deram asas no dia em que nasceste.
nem te deram luz. Deram-te uma ferida e um coração
de carne e tiveste que aprender a ver através das
superfícies. (…)”
(inédito, 16 de Dezembro de 2004)

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Foi um serão de memórias. De gratidão. Um serão em que, uma vez mais, a poesia do José Rui nos desinstalou, nos fez protagonistas de uma diáspora, nos convidou a partir em busca dessa “essencialidade”, apenas pressentida nas páginas dos seus livros: Vestígios, Quando o verão acabar, Para morrer, Melopeia, O fogo e outros utensílios da luz, Assim na terra, Oráculo e Zerbino.
"Começa o tempo onde se une a vida/ à nossa gratidão." - Herberto Hélder
Auxília Ramos

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

O regresso de Sena

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Jorge de Sena regressou finalmente a Portugal, no dia 11 de Setembro.
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PintARTE - entre a palavra e a arte

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Ontem recebemos no Colégio o Professor e Pintor contemporâneo Carlos Carreiro, um dos fundadores do grupo Puzzle. É sem dúvida um dos mais notáveis e reconhecidos pintores da sua geração, destacando-se a sua obra por uma certa rebeldia inconformada e por uma criatividade prodigiosa. As suas pinturas estão povoadas de seres oníricos, num cenário de contornos surreais que ultrapassam os limites da imaginação e da genialidade.
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A propósito do estudo da poesia de Fernando Pessoa e do Modernismo, os alunos de 12ºAno assistiram a uma palestra entusiasmada sobre a arte e sobre os -ismos de vanguarda. Com o auditório repleto, o Professor Carlos Carreiro iniciou uma viagem que atravessaria vários séculos (e até milénios), desde as gravuras rupestres ao Renascimento, do Barroco ao Impressionismo e terminando no Modernismo e nas suas diferentes manifestações. A sua análise desvelou pormenores que passariam despercebidos a qualquer leigo e mostrou aos alunos a matriz do Modernismo, curiosamente latente em algumas correntes ainda anteriores ao início do século XX.
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Foi uma tarde de (re)descoberta da pintura e da sua irrefutável ligação à literatura e, em concreto, à poesia. Sem dúvida, uma experiência única de intermedialidade, de combinação entre imagem e palavra, entre pintura e poesia.
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Deixo dois links para quem quiser aprofundar os conhecimentos sobre a pintura de Carlos Carreiro:
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quinta-feira, 17 de setembro de 2009

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Musicografias

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Quando era pequenino, a minha família não tinha o hábito de fazer férias fora de casa. Tinha (quase) três meses de férias passadas maioritariamente na praia, com um ou outro fim de semana a ir conhecer o país. Lembro-me bem do fascínio que sentia ao regressar a casa, pela ponte D. Luís I (depois de descer a Avenida da República cheia de árvores frondosas) e sentir "finalmente estou em casa". Só muito mais tarde conheci bem este "velho casario", calcorreando a pé as "vielas e calçadas" nos tempos de caloiro. Mais tarde ainda conheci a vista da Serra do Pilar, aonde ainda vou de vez em quando matar saudades.Escolhi esta música por ser uma música de saudades: saudades das férias, saudades de casa, saudades de um tempo... Mas é inextricavelmente uma música de alegria, de formigueiro: da alegria do regresso, do entrar no porto, entrar em casa...O Carlos Tê usa as palavras como eu não conseguiria. Deixo-vos com o vídeo do Rui Veloso a cantá-lo, no concerto comemorativo dos seus vinte anos de carreira.

Bom regresso!

Joaquim Silva

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terça-feira, 1 de setembro de 2009

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Eduardo Prado Coelho - 2 anos

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Eduardo Prado Coelho nasceu em Lisboa, a 29 de Março de 1944, e faleceu na mesma cidade a 25 de Agosto de 2007.
Licenciou-se em Filologia Românica, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e doutorou-se em 1983, na mesma Universidade.
Em 1984, passou para a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Em 1988, foi para Paris ensinar no Departamento de Estudos Ibéricos da Sorbonne - Paris 3.
Entre 1989 e 1998 foi conselheiro-cultural na Embaixada de Portugal em Paris e, em 1997, director do Instituto Camões, nesta cidade.
Colaborou sempre em jornais e revistas, nomeadamente no suplemento literário do Público, Mil Folhas, que saía ao sábado, escrevendo também uma crónica diária, mais pessoal, no mesmo jornal.
Autor de uma ampla bibliografia universitária e ensaística, onde se destacam um longo estudo de teoria literária, "Os Universos da Crítica", vários livros de ensaios "O Reino Flutuante", "A Palavra sobre a Palavra", "A Letra Litoral", "A Mecânica dos Fluídos", "A Noite do Mundo", ganha o Grande Prémio de Literatura Autobiográfica da Associação Portuguesa de Escritores, em 1996, com o diário, em dois volumes, "Tudo o Que Não Escrevi". Em 2004, foi-lhe também atribuído o Grande Prémio de Crónica João Carreira Bom. "Nacional e Transmissível" foi o último livro que publicou.

Ler - Setembro

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"A maior flor do mundo", de Saramago

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Segue-se o link para a curta metragem A Maior Flor do Mundo, baseada na obra homónima para crianças escrita por José Saramago e narrada apelo autor. Trata-se de um filme que ganhou um prémio no festival de cinema ecológico de Tenerife. Para os nossos meninos e meninas.
http://flocos.tv/curta/a-flor-mais-grande-do-mundo/
Auxília Ramos

sábado, 22 de agosto de 2009

Ilhas de bruma

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S.Miguel ergue-se na bruma, adormecido sobre as águas do Atlântico. Sinto sempre o mesmo deslumbramento quando sobrevoo a ilha encoberta e vislumbro a costa que se precipita no mar, depois de percorrer uma manta imensa de retalhos verdejantes. Ignorados por tanta gente, os Açores são caravelas perdidas que se transformaram em ilhas místicas pintadas de verde e semeadas no imenso oceano azul .
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Desço do avião e um bafo intenso, uma humidade impiedosa, invade-me e consome-me a pele e as entranhas... Percorrer toda a ilha é atravessar séculos de povoamento e sentir um silêncio avassalador e ancestral. O litoral acidentado derrama-se pelo mar, invadindo o infinito em abruptos rendilhados. Cachalotes brancos esfarelam-se pelos céus e repousam nos picos. As lagoas mágicas guardam enigmas indecifráveis e a terra transpira vapores fortes e inóspitos.
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A natureza brota em todo o seu esplendor nas nascentes férreas, nas poças transparentes, nos campos fecundos, na vegetação pletórica e luxuriante. O verde sufocante apodera-se dos trilhos limpos e acertados e das manadas lentas que pastam dolentemente pelas encostas.
Já subi vezes sem conta à lagoa do fogo; de cada vez o mesmo êxtase e o mesmo arrepio de descobrimento. O tempo pára e paira sobre este gigante intocado que parece ter derramado lágrimas inconsoláveis no seu regaço solitário.
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O Nordeste é uma peregrinação obrigatória; pelo silêncio e pela calma que desce dos céus e emana da terra fértil. É o santuário do priolo, um pássaro em vias de extinção que fez da Tronqueira o seu derradeiro lar.
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Nas Furnas, ouço a respiração da terra, expelindo furiosamente enxofre do seu ventre. Dos miradouros vislumbra-se o vale salpicado de casas modestas, esquecidas no longe, alvejando na distância. Sigo para a lagoa. A Igreja de José do Canto é o guardião sombrio das margens. Melancólicos chalets contemplam as águas cristalizadas que mimetizam os céus. É uma moldura onírica, como se pertencesse ao tempo dos gnomos, das fadas e dos duendes...
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Filas de hortênsias limitam as fronteiras dos campos retalhados, são soldados floridos que guardam as portas do paraíso. O exército alinha-se: as gigantes criptomérias, as perfumadas conteiras e os informes fetos pontilham os caminhos rurais.
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No regresso pelo litoral, as casas roubadas aos penhascos rochosos, em equilíbrio sobre o mar. O lastro da pobreza acentua-se no falar carregado e acentuado das gentes do mar. Famílias inteiras na soleira da porta, vendo o dia passear na rua; as barbearias carregadas de calendários e troféus desportivos, as tascas, as lojas, com o álcool e a imagem do Senhor Santo Cristo lado a lado, as mercearias esquecidas, os putos nas bicicletas, vociferando brutamente, os cavalos das arribas cultivadas clandestinamente, os burros abandonados a pastar o crepúsculo... Esta gente dura, disforme, bruta e feia... Esta gente genuína que enfrenta o mar e a ausência, a morte e a pobreza...
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E lembro-me por fim que foi essa gente dura, disforme, bruta e feia; essa gente genuína, que a literatura açoriana tão bem reproduziu nas obras de Vitorino Nemésio ou de João de Melo. Lembro-me que é esta paisagem que inspira o erotismo e a força de Natália Correia. Lembro-me que é esta melancolia que perpassa a poesia de Antero de Quental. E tantas outras vozes ecoam esquecidas por este arquipélago abençoado pela mão de Deus...
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Todas as imagens foram retiradas de www.olhares.com

sábado, 15 de agosto de 2009

i - Os livros que os "famosos" levam na mala...

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LÍDIA JORGE Está a ler Love De Toni Morrison
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"É uma história poderosa sobre a vida de várias mulheres em torno de um homem. Apresenta muito bem o mundo das mulheres negras dos EUA, com os seus problemas de ascensão. Tem um fundo de humanidade muito profundo." Para além deste aconselha outros três "que tem em cima da secretária": Golpe de Misericórdia, de Marguerite Yourcenar, Nada, de Carmen Laforet, e O Amante, de Marguerite Duras.
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INÊS CASTEL-BRANCO Está a ler Criadores De Paul Johnson
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Criadores é uma compilação de várias biografias de artistas, como Picasso, Verdi ou Shakespeare, e estou a gostar muito.” Para as férias, a actriz aconselha Sputnik, Meu Amor, de Haruki Murakami: “Foi o livro que li antes deste. Gostei muito, é uma história de amor não correspondido, com um desaparecimento pelo meio, e passa-se na Grécia. É engraçado ver a visão que um japonês tem da Europa.”
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MÁRIO CRESPO Está a ler O Homem de Sampetersburgo De Ken Follett
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Estas férias já deram para o jornalista ler dois livros: Diário de Um Mau Ano, de Coetzee, e Waiting for the Barbarians, do mesmo autor. “Recomendo o Diário de um Mau Ano, porque é um livro belíssimo. Tornou-se um dos livros da minha vida. É daqueles livros que, mesmo quando fazia uma pausa, estava sempre a pensar nele e desejoso de voltar à leitura. O final é absolutamente sublime.”
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JÚLIA PINHEIRO Está a ler Afastado De Sadie Jones
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A apresentadora lê vários livros por semana e ao mesmo tempo. Na semana passada leu Leite Derramado, de Chico Buarque, o policial A Semelhança, de Tana French, e O Regresso, de Bernhard Schlink, que recomenda: “É um livro extraordinário, que traz as questões relacionadas com a guerra e o pós-guerra, a culpa alemã que leva pessoas a perderem-se de outras, o ter de lidar com aquele legado fortíssimo.”
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CINHA JARDIM Está a ler Enquanto Salazar Dormia De Domingos Amaral
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Cinha tem sempre um livro à mão. Para além deste, que “é um livro belíssimo, aconselho a toda a gente, é fantástico”, já tem na mala de viagem Buyology – A Ciência do Neuromarketing, de Martin Lindstrom. “Já dei uma vista de olhos e é um livro muito actual, muito prático. Denuncia as estatísticas, diz que elas mentem e explica o que é que nos leva a comprar: que no fundo é o cérebro.”
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TERESA CAEIRO Está a ler Diário de Um Ano Mau De J. M. Coetzee
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A deputada do CDS/PP gosta de ler vários livros ao mesmo tempo. Para além de Coetzee, está a ler My Name is Red de Orhan Pamuk. “É um mistério que gira em torno da morte de uma pessoa. É magnífico e emocionante. É um livro de ficção muito cativante. Ele descreve Istambul de uma forma soberba e como estive lá há pouco tempo estou a gostar muito de ler as descrições. Recomendo vivamente.”
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MÁRIO LAGINHA Está a ler Leite Derramado De Chico Buarque
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Este não é o primeiro livro que o pianista lê do músico brasileiro: “Já tinha lido o Budapeste e gostei muito. Acho que ele é um genial escritor de letras de canções, mas não só.” Para as férias recomenda policiais de duas escritoras: Patricia Highsmith e Agatha Crhistie. “Os amigos com quem estou de férias trouxeram policiais para ler e fiquei a pensar que também devia ter trazido. Divirto-me sempre com o suspense.”
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JOAQUIM LETRIA Está a ler Murder of Quality De John Le Carré
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Joaquim Letria não está de férias, mas nem por isso deixa de ler: “Estou a reler dois livrinhos do John Le Carré que me dão o prazer único de reencontrar quem escreve maravilhosamente. São eles: The Looking Glass War e, muito especialmente, o Murder of Quality. Recomendo-lhes! Além do mais, dão-me a sensação de estar de férias e refrescam o meu inglês que, graças a Deus, nada tem de técnico!”
in jornal i

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Livro(s) do mês

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Deixo uma sugestão de leitura para quem gosta de narrativas curtas e fantásticas: "O Visconde cortado ao meio" de Italo Calvino. Li o livro no último fim-de-semana, muito rapidamente, não só porque o "roubei" das mãos de um amigo, mas também pelo misterioso enredo que logo me "apanhou".Mais do que uma narrativa de ficção, utilizando uma linguagem simples e inocente, por vezes muito próxima da dos tradicionais contos de fadas, "O Visconde cortado ao meio" é uma espécie de alegoria sobre a natureza humana. O protagonista do romance, Visconde Medardo de Terralba, atingido num campo de batalha por uma bala de canhão que o corta verticalmente a meio, representa a dualidade da natureza humana: as suas duas metades, a "boa" e a "má" sobrevivem independentes uma da outra e regressam, cada uma a seu tempo, à sua terra natal. O regresso das duas metades do Visconde dá origem a uma série de acontecimentos e peripécias que ultrapassam o limiar da realidade e envolvem outras personagens que se vêem divididas entre "a malvadez e a virtude igualmente desumanas" (palavras do narrador).O desenlace desta narrativa histórica, fantástica, ingénua e, subtilmente, filosófica fica para quem se aventurar na leitura de "O Visconde cortado ao meio".
Auxília Ramos

domingo, 9 de agosto de 2009

O primeiro voo foi há 300 anos

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A 8 de Agosto de 1709, o primeiro balão de ar quente subiu até ao tecto da Casa de Índia, no Paço da Ribeira, em Lisboa. O feito marca o ano zero da aeronáutica. Foi há 300 anos.

Padre Bartolomeu Gusmão, luso-brasileiro, decidiu oferecer o invento a D.João V. Numa petição apresentada quatro meses antes, descrevera a sua mítica "Passarola" como um salto para os transportes, útil ao comércio e para novos descobrimentos.

Em Portugal, Gusmão ficou à época conhecido como "burlão e feiticeiro", diz Joaquim Fernandes, autor do livro Os Grandes Portugueses Esquecidos e que vai agora publicar uma biografia inédita do primeiro homem a pensar no céu como um caminho.

"Portugal, o país escolhido para tão heterodoxo desafio ao impossível, não soube valorizar a ousadia, desprezando-a e cedendo a outros europeus - os irmãos Montgolfier, mais de sete décadas depois, a primazia no voo humano", lê-se num excerto da obra.
in jornal i

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Musicografias

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Desde sempre, para mim, o Verão, mais do que um tempo de festas e andanças, sempre foi um tempo de paragem. De dias grandes, de noites maiores, incrivelmente maiores, quase intermináveis de serenidade. A música que proponho, "A Lua Partida ao Meio", cantada pela Maria João, foi editada num álbum de 2000, chamado "Chorinho Feliz" e deixa-me deitado num relvado fresco, a olhar para o céu. Naqueles dias em que a Lua está tão próxima que queremos mesmo ficar "sentado nela, espiando a terra". Sinto que perdemos esta capacidade quase pueril de olhar para a Lua, olhar para o Céu, por andarmos tão cabisbaixos. Hoje vou avisar os homens altos para terem cuidado...Boas Férias!
Joaquim Silva

Maria João & Mário Laginha - Lua Partida ao Meio

sábado, 1 de agosto de 2009

Livro(s) do mês - Agosto

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Há muito tempo que não "devorava" um livro assim...
Toda a história se desenvolve em torno de um misterioso e raríssimo livro hebraico, um códice do século XV, salvo da Inquisição, que surge cinco séculos depois, em Sarajevo, em plena guerra.
Geraldine Brooks, correspondente do Wall Street Journal na Bósnia e no Médio Oriente, recebeu por esta obra um Prémio Pulitzer. A autora constrói um intricado novelo que percorre os cinco séculos e caminhos distantes, desde a Espanha de 1492, a Veneza de 1609, Viena de 1894, Sidney, Boston, Londres e Sarajevo de 1996. Uma narrativa de tirar o fôlego e o sono... Entre estas datas e estes lugares tão díspares, um livro e uma conservadora, Hanna. Um fragmento de uma asa de insecto, manchas de vinho, pedras de sal, um cabelo branco - são estes os elementos que conduzirão Hanna até aos mistérios ancestrais que envolvem o livro e que revelarão as histórias dramáticas daqueles que lutaram para o salvar.
Baseado em factos verídicos, é uma viagem pela história da Europa e pelas suas feridas seculares: a Inquisição e as duas Grandes Guerras, o Nazismo, o anti-semistismo, o conflito na ex-Jugoslávia.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Chegada à lua - foi há 40 anos

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Os passos de uns...
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As palavras de outros...
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Há quarenta anos ainda não tinha aparelho de televisão em casa. Só o comprei, pequeníssimo, cinco anos depois, em 1974, para seguir as notícias dessa outra espécie de descida na Lua que foi para nós a revolução de Abril. Recorri portanto a amigos mais adiantados em tecnologias de ponta, e assim, bebendo talvez uma cerveja e mastigando uns frutos secos, assisti à alunagem e ao desembarque. Por essas alturas andava eu escrevendo umas crónicas no recém-recuperado jornal da tarde “A Capital”, tempo depois reunidas num livro com o título de “Deste mundo e do outro”. Dois desses textos dediquei-os a comentar a proeza dos norte-americanos num tom nem ditirâmbico nem céptico como não tardaria muito a tornar-se moda. Reli-os agora para chegar à desconsolada conclusão de que afinal nenhum grande passo para a humanidade foi dado e que o nosso futuro não está nas estrelas, mas sempre e somente na terra em que assentamos os pés. Como já dizia na primeira dessas crónicas: “Não percamos nós a terra, que ainda será a única maneira de não perdermos a lua”. Na segunda crónica, a que chamei “Um salto no tempo”, imaginando a terra futura como a lua é agora, comecei por escrever que “Tudo aquilo me aparecera como um simples episódio de filme de ficção científica tecnicamente primário. Os próprios movimentos dos astronautas tinham flagrante semelhança com os gestos das marionetas, como se braços e pernas fossem puxados por invisíveis fios, uns fios longuíssimos presos aos dedos dos técnicos de Houston e que, através do espaço, moviam lá em cima os gestos necessários. Tudo estava cronometrado até o perigo se incluía no esquema. Na maior aventura da história não houve lugar para a aventura”.
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E foi aí que a imaginação me apanhou em cheio. Decidiu ela que a viagem à lua não havia sido um salto no espaço, mas um salto no tempo. Segundo ela, os astronautas, lançados no seu voo, haviam caminhado ao longo de uma linha temporal e pousado outra vez na terra, não esta que conhecemos, branca, verde, morena e azul, mas na terra futura, um terra que ocupará ainda a mesma órbita, circulando à volta de um sol apagado, morta ela também, deserta de homens, de aves, de flores, sem um riso, sem uma palavra de amor. Um planeta inútil, com uma história antiga e sem ninguém para a contar. A terra morrerá, será o que a lua é hoje, dizia eu para terminar. Ao menos que não seja para todo o sempre o estendal de misérias, guerras, fome e torturas que veio sendo até agora. Para que não comecemos a dizer, já hoje, que o homem, afinal, não mereceu a pena.
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O leitor concordará que, para o bem e para o mal, não pareço ter mudado muito de ideias em quarenta anos. Sinceramente, não sei se me deverei felicitar ou corrigir.
José Saramago; in Caderno de Saramago
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Os livros visionários...
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Júlio Verne e Da terra à lua
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H.G. Wells e Os primeiros homens na lua
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Uma Antologia Comemorativa
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E a música clássica...
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domingo, 19 de julho de 2009

Beirute: Capital Mundial do Livro 2009

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Soube pela CNN que Beirute é até 23 de Abril de 2010 a capital mundial do livro, reunindo ministérios, embaixadas, intelectuais, ONG'S, institutos culturais... Fica o link: http://www.beirutworldbookcapital.com/
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sexta-feira, 17 de julho de 2009

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Plano Nacional de Leitura


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As listas do Plano Nacional de Leitura foram actualizadas agora em Julho. Destaco a existência de uma lista de obras para alunos do Secundário:
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E deixo as sugestões de leitura para o 3ºCiclo:
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domingo, 12 de julho de 2009

Ainda Amin Maalouf...

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A "Visão" desta semana traz uma breve entrevista com este escritor contemporâneo que, em tom de desafio, afirma "Estamos a viver o fim da Pré-História da Humanidade", ao mesmo tempo que sublinha a premência de um debate sobre a identidade da Europa e a necessidade de "uma civilização global". Uma boa motivação para a descoberta do mundo literário de Amin Maalouf, que nasceu árabe e vive numa sociedade ocidental - dupla condição que o leva a afirmar: «O Ocidente precisa de sair do excesso de confiança em si mesmo, enquanto o mundo árabe precisa de sair do poço histórico em que caiu.»
Auxília Ramos

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Amin Maalouf

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Hoje, a partir das 18h, no auditório 2 da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, um encontro com o embaixador António Monteiro, moderado por António Vitorino, tendo como ponto de partida o livro Um Mundo Sem Regras (Difel), em que o escritor Amin Maalouf «reflecte o desregramento intelectual, económico, geopolítico e ético do mundo no século XXI». (LER)
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Devo ao meu marido a paixão por este escritor libanês, cujo estilo me faz lembrar Umberto Eco. Uma excelente sugestão para leitura de férias... Intriga, suspense, acção são os ingredientes fundamentais da sua narrativa histórica. Vale mesmo a pena...

terça-feira, 7 de julho de 2009

FLIP

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Tenho assistido, via ciberescritas, aos relatos de Isabel Coutinho da 7ª Festa Literária Internacional de Paraty, que conta com a presença de variadíssimos escritores. Destaco o testemunho da jornalista sobre a conversa de António Lobo Antunes com o escritor brasileiro Humberto Werneck, no sábado à noite, e que foi publicado no P2 (Público) de hoje: "Foi aplaudido de pé, emocionou e divertiu a multidão. “Deus vos pague!”, disse o escritor no fim, para a plateia, emocionado". Trancrevo o texto completo a seguir aos videos.
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Reencontrei também, através do mesmo blogue, o escritor Milton Hatoum, que tive o privilégio de conhecer pessoalmente, numa das aulas de Literatura Brasileira com o professor Carlos Mendes.
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“A amizade é como o amor. A gente encontra um homem e fica amigo de infância. Descobre um passado comum e há um princípio de vasos comunicantes que começa ali.”
Foi assim que António Lobo Antunes iniciou a sua conversa com o jornalista e escritor brasileiro Humberto Werneck, no sábado à noite, na 7ª Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP). Primeiro ouviu sem dizer palavra a apresentação do jornalista - ignorando algumas perguntas que este lhe ia fazendo - mas quando resolveu começar a falar nunca mais parou. De tal maneira que, no final, nem houve espaço para perguntas do público.“Nós almoçámos juntos ontem e foi um encontro maravilhoso”, disse o escritor português acerca do autor do livro ‘O Santo Sujo - A vida de Jayme Ovalle’ que ali estava com a função de o apresentar e de lhe fazer perguntas. Talvez por isso foi um António Lobo Antunes em estado de graça - divertido, bem-disposto, a fazer piadas, a contar histórias de infância, a aconselhar livros - aquele que em Paraty conquistou a multidão que o aplaudiu de pé no final da palestra que decorreu na Tenda dos Autores e tinha como título Escrever é preciso. Lá fora, na Tenda do Telão, os bilhetes para a sessão também estavam esgotados. E, tal como aconteceu já em outras conferências, havia gente de pé que não conseguiu bilhete. A meio da conferência, o escritor disse para a plateia: “Se vocês continuarem aplaudindo, não vamos sair daqui nunca”.
O escritor português tinha começado a ler o livro sobre Jayme Ovalle escrito pelo seu companheiro de palestra no dia anterior e isso fez com que voltasse atrás no tempo. A leitura das primeiras páginas desse livro lembraram-lhe a descrição da Belém do Pará do século XIX que o seu avô fazia. E serviu de mote para início de conversa.“Para mim, o Brasil não é um país. São os cheiros, os sabores, os doces da minha avó e das minhas tias, a comida, uma maneira de viver e de falar e é sobretudo o meu avô, que está aqui presente em toda a parte. É a terra dele, é a terra da minha família. É a terra de onde vêm os meus nomes Lobo e Antunes”, e por isso para o escritor é “muito comovente” estar de novo no Brasil, onde - apesar de ainda aqui ter família - já não vinha desde 1983.“Os meus bisavós [que viviam em Belém do Pará] mandavam engomar a roupa à Europa e iam todos os anos a águas a Vichy. Viviam como nababos. E uma vez passaram em Lisboa e deixaram o meu avô no Colégio Militar.” Era o seu avô António Lobo Antunes, que era oficial de cavalaria e depois entrou na revolução monárquica em 1918. Foi preso, desterrado para África e acabou depois por ficar em Portugal. Este avô de Lobo Antunes falava com sotaque de Belém do Pará.Os livros que havia em casa deste avô de António eram só livros brasileiros. Machado de Assis, José de Alencar, Azevedo, Monteiro Lobato, toda essa geração. Embora o avô de Lobo Antuneslesse pouco. “Um dia, quando eu tinha doze anos, o meu avó mandou-me chamar ao escritório. Estava com um ar muito severo, muito zangado. Mandou-me sentar em frente dele e disse-me: ‘Ouvi dizer que você escreve versos’. Fez-se um silêncio. ‘Você é veado?’”, conta Lobo Antunes enquanto a plateia se ri às gargalhadas. “Para o meu avô, oficial de cavalaria, quem escrevia versos tinha que ser veado [homossexual]. Eu não sabia o que era ser veado mas disse logo que não. ‘Não, não, não’. Então fui tirar informação. E aquilo que me disseram ainda me tornou mais confuso.”
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Sonetos a Cristo
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António Lobo Antunes começou a escrever versos “por necessidade material”. O seu outro avô tinha morrido e a sua avó era uma mulher “muito piedosa, tinha um oratório em casa, estava sempre rezando”. Então, António Lobo Antunes fazia “sonetos a Cristo” que depois vendia à sua avó. “Isso foi muito bom porque me salvou de andar a pedir esmolas nas esquinas. Entregava-lhe um soneto, fazia um ar triste, ela tinha um oratório muito grande - a minha avó portuguesa - e, à frente do oratório, não sei porquê, é uma relação curiosa, tinha o cofre do dinheiro, mesmo em frente dos santos. Santos, santos, santos e por baixo, o dinheiro. Eu entregava-lhe o soneto a Cristo, que ela punha no oratório, ficava a olhar para ela com olhos de cão batido, até que ela dizia: ‘Quanto queres, filho?’.” Risos por toda a plateia.
O Prémio Camões 2007 tem seis irmãos, todos homens, e entre ele e o quarto irmão existem cinco anos de diferença. A avó do autor de Os Cus de Judas, a determinada altura, tinha uma cozinheira “muito bonita”. Os rapazes iam à missa com a avó ao domingo. A seguir, corriam para casa antes que a avó chegasse para andarem à volta da cozinheira. E, contou António Lobo Antunes, a senhora resolveu “o problema” de uma maneira muito diplomática. “Disse-nos: ‘A partir de agora, vocês têm conta aberta na pastelaria, podem comer todos os bolos que quiserem. E, como os bolos da pastelaria eram melhores que o ‘bumbum’ da criada, nós, em vez de irmos para casa, passámos a ir comer bolos para a pastelaria.”Como eram muitos irmãos com a mesma idade, quando adoecia um, adoeciam todos. “O meu pai, que era médico, era muito severo. O meu pai não queria ter filhos, queria ter campeões de karaté. Tínhamos que ser bons em tudo.” Mas foi graças ao pai que aprendeu a gostar de ler poesia, era o pai que lhes lia poesia (Manuel Bandeira, por exemplo, que está a ser homenageado nesta FLIP) quando estava doente. Ao longo de toda a conversa, António Lobo Antunes teve alguns problemas com o microfone e chegaram mesmo a enviar um bilhete aos oradores a pedir que ele aproximasse o micro da boca. Isso serviu para o escritor, durante a conferência, ir fazendo piadas sobre a sua “má relação com aqueles objectos”. E dizer: “Se o meu avô estivesse aqui, perguntaria…”, a propósito da conotação fálica do microfone. Por vezes, apesar do aparelho que tinha no ouvido, pedia a Humberto que repetisse a pergunta. Aconteceu quando o entrevistador lhe perguntou se era verdade que ele “era bom de briga”? António contou que, quando chegava a casa e estava a explicar ao pai que quem lhe tinha batido era maior do que ele, este aconselhava: “Mordias-lhes os ovos!”.
Humberto Werneck, na sua apresentação, lembrou que alguns críticos consideram que a Academia sueca “cometeu um erro grave de português”, numa referência à atribuição do Prémio Nobel a José Saramago. A meio, disse que “o outro” vinha ao Brasil mais vezes. Lobo Antunes nunca se desmanchou, ficou impávido e sereno.Por fim, Humberto lembrou que, numa entrevista que os pais de Lobo Antunes deram à jornalista espanhola Maria Luísa Blanco, o pai do escritor disse que não lia os seus livros e a mãe disse que lia mas que ficava um pouco contrariada.“Eu também pensava que ele não tinha lido. Mas depois da morte dele encontrei os meus livros todos anotados e uma carta que ele me deixou de 600 páginas. Deve ter levado uns dois anos a escrever aquela carta”, revelou o escritor, emocionando a plateia, de onde se ouviu uma exclamação de surpresa. “A minha família era engraçada. Eu acho que nós nascemos todos por causa da Alemanha. O meu pai, para se especializar na sua área da Medicina, teve que ir para a Alemanha, onde havia a escola de Anatomia Patológica e então vinha uma vez por ano a Lisboa e ficava uma semana. Cada vez que ele vinha, e, depois, quando se ia embora, a barriga da minha mãe começava a crescer. E quando ele deixou de ir para a Alemanha a barriga da minha mãe deixou de crescer. Ainda hoje não sei o que há na Alemanha que faz crescer a barriga. Pelo menos a da minha mãe.”Regresso à escrita?
Lobo Antunes, que escreveu 21 romances em 30 anos, contou como os seus primeiros livros foram recusados por várias editoras e o que passou para chegar ao reconhecimento internacional que tem agora. O seu trabalho foi elogiado pelos académicos e críticos George Steiner e Harold Bloom. “Tive a infinita sorte de ter os elogios dos dois”, disse.Lembrou a sua amizade por Jorge Amado e por João Ubaldo Ribeiro, de quem se tornou amigo quando o escritor brasileiro viveu em Lisboa. E quem chateava por não escrever, por considerar que era preguiçoso. “Íamos a casa de João às duas da manhã e lá estava ele fazendo feijoada de chinelo e calção. Ele vivia o Inverno de Lisboa, que é frio, como se estivesse no Verão da Baía. E às quatro da manhã se comia a feijoada. Depois, não escrevia. Então deu uma entrevista a um jornal, em que lhe perguntavam: ‘João Ubaldo Ribeiro, você já não escreve?’ E ele respondeu: ‘Escrevo. Meu pseudónimo é António Lobo Antunes.’”E vendo toda a paixão de Lobo Antunes a falar sobre como escreve os seus romances, Humberto disse-lhe que não percebia como é que, com toda essa paixão de artista que transparecia na sua conversa, ele estava a anunciar que ia deixar de escrever. António Lobo Antunes respondeu: “É que, às vezes, eu tenho caprichos de cocotte. Você lembra daquela bailarina francesa cheia de plumas no ‘bumbum’, Zizi Jeanmaire?! Às vezes gosto de dar uma de Zizi a abanar as plumas do ‘bumbum’. Há alturas em que se fica desesperado e se pensa que não se vai ser mais capaz. E se pensa: ‘Para quê escrever? Vou deixar de escrever’. É a nossa alegria e o nosso tormento”.No entanto, na Pousada da Marquesa onde está hospedado em Paraty, António Lobo Antunes tem escrito todos os dias...
Isabel Coutinho

Os 100 melhores livros de sempre

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A lista, polémica e redutora como todas as listas, é da Newsweek. De fora ficam muitos nomes consagrados da literatura mundial e, claro, portuguesa, como Pessoa, Eça e Camões... Mas vale a pena consultar com atenção, pelo menos para escolher alguns títulos para estas férias.
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segunda-feira, 6 de julho de 2009

Livro(s) do mês - Julho

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O novo romance de Miguel Sousa Tavares e o booktrailer de Barroco Tropical, de José Eduardo Agualusa (sugestão do mês anterior):

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quinta-feira, 2 de julho de 2009

quarta-feira, 1 de julho de 2009

1 de Julho - Dia mundial das biblitecas

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E as mais belas bibliotecas do ocidente aqui.
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Enviado por Auxília Ramos



Musicografias III

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Há já muito tempo que tinha decidido levar, este mês, o musicografias ao "lado de lá" do Atlântico. Lembrei-me de muitos autores de que gosto - alguns mais conhecidos, outros menos, mas não me lembrei da Maria Bethânia. Só quando li, aqui no lusografias, o post sobre Sophia é que esta música me veio imediatamente à cabeça.Esta música chama-se "Debaixo D'Água / Agora", e está no álbum "Mar de Sophia", de 2006.Bethânia cria este CD claramente inspirada na maresia da poesia de Sophia, tal como ela sentencia logo na abertura: “Quando eu morrer voltarei para buscar os instantes que não vivi junto do mar” (in /Inscrição). /Bethânia parafraseia e toma para si os versos da Sophia: “O mar, metade da minha alma é feita de maresia”.
Neste ábum, o canto, o dizer, a alma da Bethânia... Tudo exala maresia. E os textos da poetisa funcionam como pontes que unem os vários mares contidos na essência criativa de Bethânia e que, passo a passo, texto a texto, a desvelam.
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Joaquim Silva

Maria Bethânia - Debaixo d'Água - Agora

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Maria Filomena Mónica

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Nova edição (aumentada) da biografia de Eça de Queirós, de Maria Filomena Mónica (edição Quetzal).
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A este propósito, não posso deixar de confessar a minha admiração pela personalidade forte e inteligência femini(st)na da autora. Fica o link para "Conversas indiscretas", com a entrevista de 14 de Junho: http://www.tvi24.iol.pt/programacao-entrevista/conversa-indiscreta-tvi24-alexandralencastre/1045182-4666.html

quarta-feira, 24 de junho de 2009

No mundo de Sophia

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. Piso às quatro e meia a terra grega. Entrada maravilhosa à saída de Patras. Vamos rente ao mar entre oliveiras e ciprestes e montanhas azuladas. Calor leve, ar perfumado. As montanhas ligam a terra ao Olimpo. Paramos e vou molhar os pés, as mãos, os braços e a cara no mar. A água é maravilhosa, transparente e fresca. Bebo-a. É muito salgada. É a paisagem mais maravilhosa que vi na minha vida.
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No último domingo, o Público mergulhou no espólio de Sophia e partilhou alguns inéditos com os leitores. Vale a pena espreitar e ler aqui.

domingo, 14 de junho de 2009

Casa Fernando Pessoa

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Informações retiradas do blogue da Casa Fernando Pessoa:
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O filme Os Mistérios de Lisboa or What the Tourist Should See, que o realizador José Fonseca e Costa rodou a partir de uma obra de Fernando Pessoa, é exibido este sábado, em antestreia, em Lisboa. O filme será mostrado no cinema São Jorge no dia do 121º aniversário do nascimento de Fernando Pessoa. Escrito, adaptado e realizado por José Fonseca e Costa, o filme estrutura-se em torno de um guia que o poeta Fernando Pessoa escreveu em 1925 sobre Lisboa. O livro, descoberto apenas em 1988 no espólio do poeta, destinava-se a mostrar Lisboa aos turistas que visitassem a capital e foi redigido originalmente em inglês. No filme, mais do que mostrar monumentos, jardins, praças e ruas de Lisboa como um postal ilustrado, José Fonseca e Costa quis sobretudo prestar homenagem a Fernando Pessoa, num percurso que dá a conhecer a cidade, mas também Portugal. (fonte: DN)
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Biblioteca de Fernando Pessoa digitalizada
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O projecto era ambicioso: digitalizar integralmente a biblioteca de Fernando Pessoa. 1400 livros, digitalizados ao ritmo de 30 por dia ao longo de um ano. No site da Casa Fernando Pessoa todos vão poder folhear os livros do poeta, encontrando notas que Pessoa foi deixando nas margens. Um contributo valioso para saber mais sobre Fernando Pessoa.
(enviado por Auxília Ramos)

sábado, 13 de junho de 2009

Tempo para ler

Encontrei na revista LER:
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As sugestões do Plano Nacional de Leitura, dos 8 aos 16anos , aqui.
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E, para quem vai viajar, cidades que são cenários de grandes clássicos da literatura: visitar de livro debaixo do braço... Aqui

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Camões ou o sentido agudo da decadência - II

O discurso sóbrio e realista de António Barreto:
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Senhor Presidente da República,
Senhor Presidente da Assembleia da República, Senhor Primeiro-ministro,
Senhores Embaixadores,
Senhor Presidente da Câmara de Santarém,
Senhoras e Senhores,
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Dia de Portugal... É dia de congratulação. Pode ser dia de lustro e lugares comuns. Mas também pode ser dia de simplicidade plebeia e de lucidez.
Várias vezes este dia mudou de nome. Já foi de Camões, por onde começou. Já foi de Portugal, da Raça ou das Comunidades. Agora, é de Portugal, de Camões e das Comunidades. Com ou sem tolerância, com ou sem intenção política específica, é sempre o mesmo que se festeja: os Portugueses. Onde quer que vivam.
Há mais de cem anos que se celebra Camões e Portugal. Com tonalidades diferentes, com ideias diversas de acordo com o espírito do tempo. O que se comemora é sempre o país e o seu povo. Por isso o Dia de Portugal é também sempre objecto de críticas. Iguais, no essencial, às expressas por Eça de Queirós, aquando do primeiro dia de Camões. Ele afirmava que os portugueses, mais do que colchas às varandas, precisavam de cultura.
Estranho dia este! Já foi uma "manobra republicana", como lhe chamou Jorge de Sena. Já foi "exaltação da raça", como o designaram no passado. Já foi de Camões, utilizado para louvar imperialismos que não eram os dele. Já foi das Comunidades, para seduzir os nossos emigrantes, cujas remessas nos faziam falta. E apenas de Portugal.
Os Estados gostam de comemorar e de se comemorar. Nem sempre sabem associar os povos a tal gesto. Por vezes, quando o fazem, é de modo desajeitado. "As festas decretadas, impostas por lei, nunca se tornam populares", disse também Eça de Queirós. Tinha razão. Mas devo dizer que temos a felicidade única de aliar a festa nacional a Camões. Um poeta, em vez de uma data bélica. Um poeta que nos deu a voz. Que é a nossa voz. Ou, como disse Eduardo Lourenço, um povo que se julga Camões. Que é Camões. Verdade é que os povos também prezam a comemoração, se nela não virem armadilha ou manipulação.
Comemora-se para criar ou reforçar a unidade. Para afirmar a continuidade. Para reinterpretar o passado. Para utilizar a História a favor do presente. Para invocar um herói que nos dê coesão. Para renovar a legitimidade histórica. São, podem ser, objectivos decentes. Se soubermos resistir à tentação de nos apropriarmos do passado e dos heróis, a fim de desculpar as deficiências contemporâneas.
Não é possível passar este dia sem olharmos para nós. Mas podemos fazê-lo com consciência. E simplicidade.
Garantimos com altivez que Camões é o grande escritor da língua portuguesa e um dos maiores poetas do mundo, mas talvez fosse preferível estudá-lo, dá-lo a conhecer e garantir a sua perenidade.
Afirmamos, com brio, que os portugueses navegadores descobriram os caminhos do mundo nos séculos XV e XVI e que os portugueses emigrantes os percorreram desde então. Mais vale afirmá-lo com o sentido do dever de contribuir para a solidez desta comunidade.
Dizemos, com orgulho, que o Português é uma das seis grandes línguas do mundo. Mas deveríamos talvez dizê-lo com a responsabilidade que tal facto nos confere.
Quando se escolhe um português que nos representa, que nos resume, escolhe-se um herói. Ele é Camões. Podemos festejá-lo com narcisismo. Mas também com a decência de quem nele procura o melhor.
Os nossos maiores heróis, com Camões à cabeça, ilustraram-se pela liberdade e pelo espírito insubmisso. Pela aventura e pelo esforço empreendedor. Pela sua humanidade e, algumas vezes, pela tolerância. Infelizmente, foram tantas vezes utilizados com o exacto sentido oposto: obedientes ou símbolos de uma superioridade obscena.
Ainda hoje soubemos prestar homenagem a Salgueiro Maia. Nele, festejámos a liberdade, mas também aquele homem. Que esta homenagem não se substitua, ritualmente, ao nosso dever de cuidar da democracia.
As comemorações nacionais têm a frequente tentação de sublinhar ou inventar o excepcional. O carácter único de um povo. A sua glória. Mas todos sentimos, hoje, os limites dessa receita nacionalista. Na verdade, comemorar Portugal e festejar os Portugueses pode ser acto de lucidez e consciência. No nosso passado, personificado em Camões, o que mais impressiona é a desproporção entre o povo e os feitos, entre a dimensão e a obra. Assim como esta extraordinária capacidade de
resistir, base da "persistência da nacionalidade", como disse Orlando Ribeiro. Mas que isso não apague ou esbata o resto. Festejar Camões não é partilhar o sentido épico que ele soube dar à sua obra maior, mas é perceber o homem, a sua liberdade e a sua criatividade. Como também é perceber o que fizemos de bem e o que fizemos de mal. Descobrimos mundos, mas fizemos a guerra, por vezes injusta. Civilizámos, mas também colonizámos sem humanidade. Soubemos encontrar a liberdade, mas perdemos anos com guerras e ditaduras.
Fizemos a democracia, mas não somos capazes de organizar a justiça. Alargámos a educação, mas ainda não soubemos dar uma boa instrução. Fizemos bem e mal. Soubemos abandonar a mitologia absurda do país excepcional, único, a fim de nos transformarmos num país como os outros. Mas que é o nosso. Por isso, temos de nos ocupar dele. Para que não sejam outros a fazê-lo. Há mais de trinta anos, neste dia, Jorge de Sena deixou palavras que ecoam. Trouxe-nos um Camões humano, sabedor, contraditório, irreverente, subversivo mesmo. Desde então, muito mudou. O regime democrático consolidou-se. Recheado de defeitos, é certo.
Ainda a viver com muita crispação, com certeza. Mas com regras de vida em liberdade. Evoluiu a situação das mulheres, a sua presença na sociedade. Invisíveis durante tanto tempo, submissas ainda há pouco, as mulheres já fizeram um país diferente.
Mudou até a constituição do povo. A sociedade plural em que vivemos hoje, com vários deuses e credos, com dois sexos iguais, com diversas línguas e muitos costumes, com os partidos e as associações que se queira, seria irreconhecível aos nossos próximos antepassados.
A sociedade e o país abriram-se ao mundo. No emprego, no comércio, no estudo, nas viagens, nas relações individuais e até no casamento, a sociedade aberta é uma novidade recente.
A pertença à União Europeia, timidamente desejada há três décadas, nem sequer por todos, é um acto consumado.
A estes trinta anos pertence também o Estado de protecção social, com especial relevo para o Serviço Nacional de Saúde, a segurança social universal e a escolarização da população jovem. É certamente uma das realizações maiores.
Estas transformações são motivo de regozijo. Mas este não deve iludir o que ainda precisa de mudança. O que não foi possível fazer progredir. E a mudança que correu mal.
A Sociedade e o Estado são ainda excessivamente centralizados. As desigualdades sociais persistem para além do aceitável. A injustiça é perene. A falta de justiça também. 0 favor ainda vence vezes de mais o mérito. O endividamento de todos, país, Estado, empresas e famílias é excessivo e hipoteca a próxima geração. A nossa pertença à União Europeia não é claramente discutida e não provoca um pensamento sério sobre o nosso futuro como nacionalidade independente.
Há poucos dias, a eleição europeia confirmou situações e diagnósticos conhecidos. A elevadíssima abstenção mostrou uma vez mais a permanente crise de legitimidade e de representatividade das instituições europeias. A cidadania europeia é uma noção vaga e incerta. É um conceito inventado por políticos e juristas, não é uma realidade vivida e percebida pelos povos. É um pretexto de Estado, não um sentimento dos povos. A pertença à Europa é, para os cidadãos, uma metafísica sem tradição cultural, espiritual ou política. Os Estados e os povos europeus deveriam pensar de novo, uma, duas, três vezes, antes de prosseguir caminhos sem saída ou falsos percursos que terminam mal. E nós fazemos parte desse número de Estados e povos que têm a obrigação de pensar melhor o seu futuro, o futuro dos Portugueses que vêm a seguir.
É a pensar nessas gerações que devemos aproveitar uma comemoração e um herói para melhor ligar o passado com o futuro.
Não usemos os nossos heróis para nos desculpar. Usemo-los como exemplos. Porque o exemplo tem efeitos mais duráveis do que qualquer ensino voluntarista.
Pela justiça e pela tolerância, os portugueses precisam mais de exemplo do que de lições morais.
Pela honestidade e contra a corrupção, os portugueses necessitam de exemplo, bem mais do que de sermões.
Pela eficácia, pela pontualidade, pelo atendimento público e pela civilidade dos costumes, os portugueses serão mais sensíveis ao exemplo do que à ameaça ou ao desprezo.
Pela liberdade e pelo respeito devido aos outros, os portugueses aprenderão mais com o exemplo do que com declarações solenes.
Contra a decadência moral e cívica, os portugueses terão mais a ganhar com o exemplo do que com discursos pomposos.
Pela recompensa ao mérito e a punição do favoritismo, os portugueses seguirão o exemplo com mais elevado sentido de justiça.
Mais do que tudo, os portugueses precisam de exemplo. Exemplo dos seus maiores e dos seus melhores. O exemplo dos seus heróis, mas também dos seus dirigentes. Dos afortunados, cujas responsabilidades deveriam ultrapassar os limites da sua fortuna. Dos sabedores, cuja primeira preocupação deveria ser a de divulgar o seu saber. Dos poderosos, que deveriam olhar mais para quem lhes deu o poder. Dos que têm mais responsabilidades, cujo "ethos" deveria ser o de servir.
Dê-se o exemplo e esse gesto será fértil! Não vale a pena, para usar uma frase feita, dar "sinais de esperança" ou "mensagens de confiança". Quem assim age, tem apenas a fórmula e a retórica. Dê-se o exemplo de um poder firme, mas flexível, e a democracia melhorará. Dê-se o exemplo de honestidade e verdade, e a corrupção diminuirá. Dê-se o exemplo de tratamento humano e justo e a crispação reduzir-se-á. Dê-se o exemplo de trabalho, de poupança e de investimento e a economia sentirá os seus efeitos.
Políticos, empresários, sindicalistas e funcionários: tenham consciência de que, em tempos de excesso de informação e de propaganda, as vossas palavras são cada vez mais vazias e inúteis e de que o vosso exemplo é cada vez mais decisivo. Se tiverem consideração por quem trabalha, poderão melhor atravessar as crises. Se forem verdadeiros, serão respeitados, mesmo em tempos difíceis.
Em momentos de crise económica, de abaixamento dos critérios morais no exercício de funções empresariais ou políticas, o bom exemplo pode ser a chave, não para as soluções milagrosas, mas para o esforço de recuperação do país.
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