segunda-feira, 26 de abril de 2010
quarta-feira, 14 de abril de 2010
Outros mundos, outras leituras...
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sexta-feira, 2 de abril de 2010
Tempo para ler...
Embora este blogue se destine aos alunos do 3ºCiclo e Secundário, não resisti a assinalar o dia Internacional do Livro Infantil. Até porque o mundo em que "tudo era possível", no dizer de Ruy Belo, é um labirinto percorrido logo na infância. Os leitores ávidos foram também crianças que leram avidamente, crianças que conheceram a magia dos livros precocemente, crianças que construíram castelos, subiram longas tranças loiras, lutaram contra dragões e bruxas más, choraram com medo do lobo mau ou vibraram com aventuras de outras crianças, heróis à/da sua medida.....

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Musicografias
quinta-feira, 1 de abril de 2010
domingo, 28 de março de 2010
terça-feira, 23 de março de 2010
Dia da Poesia II
Lembrei-me de trazer o assunto para o almoço, iríamos discutir Poetas, iríamos discutir a quantidade infindável de veias poéticas existentes em Portugal. Iríamos percorrer as prateleiras corridas das livrarias, nomeando, destacando, citando versos, palavras intrinsecamente ligadas, adjectivos desconhecidos, mensagens descodificáveis. Parece fácil, parece fácil ser Poeta. Talvez porque a generalização de o ser tirou o protagonismo aos que verdadeiramente o são. Tornou a capacidade banal, desculpem, não foi a capacidade que se tornou banal, mas sim os leitores menos exigentes, arrisco dizer quase mais ignorantes, apreciando a beleza de uma obra poética numa série de palavras, algemadas com correntes de aço, a única forma de não caírem por entre os versos, de não fugirem da página, de não se esconderem de vergonha. Além disso, com a taxa de desemprego em níveis elevadíssimos, os senhores compreendem, que, entre jardineiros, economistas, porteiros, cabeleireiros, há-de ser mais fácil ser artista, ser Poeta. Há-de ser mais fácil não se submeter a critérios rigorosos, a rendimentos ao fim do mês, a percentagens numéricas, a lucros; enfim, a todos os dados de natureza matemática. Há-de ser mais fácil reger-se por critérios subjectivos. Porquê? Sim, por critérios subjectivos, com sorte ainda passamos por intelectuais, com sorte a nossa escrita (que escrita?) ainda surge aos olhos dos editores como uma revolução literária, um novo género de poesia.
Depois, somos lançados no “mercado”, já nem me custa chamar mercado às livrarias, já tão fragmentadas em sectores (não de temas, que a abundância destes torna difícil a distinção), mas de cores (variando com a capa), com a edição, com o protagonista da história. Se falta o nome artístico, não faz mal, arranja-se, acrescenta-se algo de estrangeiro, as pessoas gostam, vai ver que lhe dá outro status. Fica composto, arranje-se para a fotografia, as peças estão unidas, as palavras algemadas, a única forma de não caírem por entre os versos, de não fugirem da página, de não se esconderem de vergonha… Parabéns, é “Poeta”!
Teresa Stingl, 11 A
segunda-feira, 22 de março de 2010
Dia Mundial da Poesia - 21/03



A meio deste inverno começaram
O problema não é
O poema é
A leitora abre o espaço num sopro subtil.
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DOM
17H00
NorteShopping
Valter Hugo Mãe é escritor, músico e artista plástico. Publicou recentemente o romance A Máquina de Fazer Espanhóis, um livro bastante aclamado pela critica. José Rui Teixeira é editor da Cosmorama e poeta com obra publicada. Esta tarde a Prosa e a Poesia são o mote para uma conversa com o público.
quarta-feira, 17 de março de 2010
Ajude-(n)os a Acreditar!
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Todos os anos aparecem em hospitais, como o IPO do Porto, 350 novos casos de vítimas de doenças oncológicas. Instituições de voluntariado são fundamentais no apoio a estas pessoas e às respectivas famílias.
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A causa sensibiliza-nos, toca-nos e obriga-nos a não desistir… Como tal, no próximo dia 27 de Março, primeiro sábado de férias de Páscoa, pelas 17h, até às 20h, realizar-se-á um leilão de peças de arte, em que todos os fundos angariados reverterão a favor da instituição Acreditar.
Contamos ainda com a presença, em palco, de Avenue Blues Band e de Pedro Abrunhosa.
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Precisamos da sua ajuda!
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Podemos contar consigo?
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Vale a pena Acreditar!
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segunda-feira, 15 de março de 2010
Poetas e Poéticas II
Por José Rui Teixeira...
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Caminhante nocturno, erma figura,
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quinta-feira, 11 de março de 2010
Última aula de José Gil
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O português revê-se no pequeno, vive no pequeno, abriga-se e reconforta-se no pequeno: pequenos prazeres, pequenos amores, pequenas viagens, pequenas ideias. (…) Pequenos mundos: daí a visão curta, a repulsa instintiva pelos projectos a médio e longo prazo, a territorialização gregária.
Mas como em muitos outros domínios, estamos a viver tempos de mudança.
(…)
De que tamanho somos? Que se levante a questão significa que ainda não ajustámos a nossa estatura real à imagem que dela possuímos.
(…)
Deixaremos finalmente de perguntar «de que tamanho somos nós, portugueses?», porque deixaremos de ter problemas de identidade.
José Gil, Portugal, Hoje – O Medo de existir, ed. Relógio d´Água, 2004
quarta-feira, 10 de março de 2010
Ordem do Desassossego

A sessão incluirá um debate sobre a importância de Fernando Pessoa no Brasil, com a participação das homenageadas e do poeta e filósofo Antônio Cícero, bem como a gravação vídeo de poemas de Pessoa ditos por mais de 30 figuras da cultura brasileira (Adriana Calcanhotto, Caetano Veloso, Chico Buarque, Fernanda Montenegro, Gilberto Gil, João Ubaldo Ribeiro, Luís Fernando Veríssimo, Malu Mader, Tony Bellotto, Zuenir Ventura, entre muitos outros).
Acordo ortográfico
Dizem que se trata de uma versão de demonstração e que não apresenta todas as funcionalidades do conversor incluído no FLiP 7, o software que a empresa vende com ferramentas linguísticas. Mas já é uma ajuda. Avisam que os critérios do FLiP relativamente ao Acordo Ortográfico estão disponíveis para consulta e que quem quiser pode ir à secção online sobre o Acordo Ortográfico de 1990 e a sua aplicação. Aí podemos ficar a saber várias coisas sobre os ditongos, por exemplo: “Os ditongos orais, que tanto podem ser tónicos/tônicos como átonos, distribuem-se por dois grupos gráficos principais, conforme o segundo elemento do ditongo é representado por i ou u: ai, ei, éi, ui; au, eu, éu, iu, ou; braçais, caixote, deveis, eirado, farnéis (mas farneizinhos), goivo, goivar, lençóis (mas lençoizinhos)1, tafuis, uivar; cacau, cacaueiro, deu, endeusar, ilhéu (mas ilheuzito), mediu, passou, regougar.” E outras coisas mais.
Fizemos uma experiência. Fomos buscar uma crónica de Alexandre O’Neill publicada no livro “Já cá não está quem falou” da Assírio & Alvim que tem por título “Senhor conde, estarei a sumir em português de lei?” e colocámos no Conversor para o Acordo Ortográfico.“O policiamento da língua é uma bonita actividade; a denúncia das transgressões cometidas à Sociedade de Língua Portuguesa é o cúmulo do zelo. Agora que o senhor conde chame às histórias de quadrinhos uma praga é que é insuportável. As histórias de quadrinhos têm ajudado muita gente a aprender português, senhor! Mais ainda: têm ajudado muito homem a aprender a ’ser’ português!” E lá veio o texto corrigido: “O policiamento da língua é uma bonita (actividade) atividade (…)” e por aí fora.
Está também on-line um corrector ortográfico e o corrector sintáctico (apenas com sugestões, sem explicação gramatical dos erros) para português europeu, para português do Brasil e para espanhol (em ambas as variedades da língua portuguesa é possível usar as versões com e sem o Acordo Ortográfico de 1990).
Outro dos sites imprescindíveis é o Ciberdúvidas da Língua Portuguesa da equipa de José Mário Costa.O cibernauta pode escolher no canto superior direito se quer ler o texto de acordo com a ortografia de 1945 ou de acordo com a de 1990, seleccionando a opção correspondente. O Ciberdúvidas está a publicar os textos em dupla grafia desde 15 Janeiro. Contam que o escritor José Eduardo Agualusa está a escrever um romance cuja “história passa pelos diferentes países de língua oficial portuguesa, e o pano de fundo é o Acordo Ortográfico”.“Este Acordo dava um romance”, escrevem. Pois dava."
(crónica publicada no suplemento ípsilon do jornal PÚBLICO de 26 de Fevereiro de 2010)
Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Alda do Espírito Santo
Desde a juventude que Alda Graça do Espírito Santo viv[ia] na mesma residência na Chácara, arredores da capital São Tomé. Segundo ela, só deixa[ria] aquele lugar quando fo[sse] chamada para o eterno descanso no cemitério do alto São João.
Foi professora da geração de são-tomenses que gritou pela independência nacional.
Criou a primeira geração de jornalistas do país, e como poetisa imortalizou o massacre de 1953 no poema TRINDADE, que, desde a independência nacional, é recitado todos os anos e de forma arrepiante por uma voz feminina.
A poder poético de Alda está presente todos os dias, e em todos os momentos de São Tomé e Príncipe. O grito pela independência nacional, a unidade do povo no coro da esperança é reflectido na letra do hino nacional de que ela é autora.
Membro do Governo de transição, como Ministra da Educação, Alda do Espírito Santo foi também ministra da informação e cultura. Fez dois mandatos como Presidente da Assembleia Nacional Popular.
Criou a União dos Escritores e Artistas são-tomenses, onde continua a trabalhar na criação de novos valores para cultura literária.
Abel Veiga
domingo, 7 de março de 2010
Musicografias
quarta-feira, 3 de março de 2010
segunda-feira, 1 de março de 2010
Correntes de Escrita 2010

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Fonte: Pelouro da Cultura, Câmara Municipal da Póvoa de Varzim
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Ir às “Correntes” também é reencontrar velhos amigos, cumprimentar alguns mais recentes conhecidos e deambular pela feira do livro. A última publicação do jornalista brasileiro Zuénir Ventura - “Inveja, mal secreto” - chamou a minha atenção pelo seu destaque. A curiosidade levou-me a pegar no livro, a folheá-lo, a ler apressadamente os textos das abas e da contracapa e, mais pausadamente, o texto assinado por Miguel Sousa Tavares que abre o livro – “Porque é jornalista, repórter, cronista (autor de uma indispensável crónica semanal n’ O Globo) e, aos factos das histórias, alia sabiamente os factos da imaginação próprios do escritor, Zuenir Ventura lançou-se, nesta viagem às profundezas da inveja, numa incrível peregrinação por psicanalistas, antropólogos, meninas perdidas no Rio, terreiro de mãe-de-santo e hospitais onde «me cuidavam da doença, enquanto eu cuidava da inveja». Pela mão de Kátia, a sua personagem-muleta, caminhamos com ele, dois passos atrás dela, e vamos entrando onde ela entra e ele espreita, como se caminhássemos atrás de uma câmara de filmar, com o realizador à frente. E assim vamos desfiando o novelo, seguindo o filme, devassando os labirintos da inveja.”
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E, como no passado dia 11, não pude estar na Biblioteca Almeida Garrett para assistir ao lançamento do último livro do valter hugo mãe, o romance “a máquina de fazer espanhóis” também me fez companhia na viagem de regresso a casa, debaixo de um temporal capaz de desfazer espanhóis e portugueses…
Auxília Ramos
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010
O livro do desassossego na Casa da Música
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
Homenagem a Sebastião da Gama

Pois o Romão quis ler Uma Corrida em Salvaterra, e eu invejei a leitura de que foi capaz. Ouvi-o com gosto, se não com entusiasmo. E mais ainda quando, não aproveitando do trecho senão o facto de apresentar um português valente, dos que dantes havia, improvisa um discurso tão correctamente conduzido, tão bonito e tão rico de frases felizes, que parecia preparado. Mas não era: o Poeta estava a falar. E o Poeta tinha o coração nas mãos (já sei porque é que ele põe as mãos num gesto que eu a princípio não percebia).
Dizia ele que «a alma portuguesa foi sempre grande». Invencível sempre, foi antigamente, no entanto, «mais firme, mais impetuosa». Hoje deixaríamos morrer afogado, junto de nós, quem quer que não fosse da nossa família (pai, mãe, irmão…) porque a morte nos aterroriza; porque (como a ordem das palavras é já de Poeta nesta frase!) «hoje o medo de morrer é grande».
E etc. Neste etc. ia um apelo do Poeta — do mais fundo, dos mais humanamente bonitos do Poeta: «Devíamos ser todos irmãos.»
A lição de gramática fora pensada, pelo menos parte dela, em casa: Os espanholismos do vocabulário do toureio e a sua justificação; a partir daí falei-lhes de anglicismos e francesismos, de italianismos e respectivos, mais frequentes, domínios vocabulares.
Outra coisa em que toquei, a propósito das palavras, foi no eufemismo. Perceberam. O maroto do Artur, quando eu lembrei que a pessoa a quem morre um parente muito querido diz de preferência ele faleceu, descobriu logo: «Ah! Por isso é que no jornal nunca vem morrimentos; vem sempre falecimentos.»
Se eu não risse era um palerma. Se eu o mandasse para a rua (há quem faça isso, por causa disto, sim, senhor!) era uma dúzia de palermas."
Musicografias
Mas, também como no fado, toda a história é intelectualização acessória de algo que nasce do fundo do autor. O essencial é o que nos diz. Ou o que nos faz. E a mim, faz-me partir para Cabo Verde e deitar-me na praia de uma noite quente...
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010
Ainda Rosa Lobato Faria



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“Sento-me abraçada aos joelhos, pousando o queixo no conforto dos jeans e penso na avó Júlia, na sua estranha aparição no meu sonho de véspera. Vi o seu sorriso, ouvi a sua voz, a sua gargalhada, eu que não a conheci. Quererá dizer-me alguma coisa, ajudar-me a encarar com simplicidade a minha nova situação, a aceitar a vida como ela vem?” – in O Sétimo Véu
“Acordámos de manhã com o cantar alvoroçado dos pássaros, pensámos que tínhamos sonhado, mas o salgueiro lá estava com um ramo partido e do chão apanhei uma meia-lua de prata que até hoje nunca mais larguei de usar comigo, tanto que a minha filha nasceu com um sinal em forma de meia-lua no rosto e por isso lhe chamámos Luna de Santa Maria – in Romance de Cordélia
“ Não era raro, nas nossas deslocações na carroça do tio Zebra, a Diamantina pedir-lhe que parasse, atraída por um matiz surpreendente, uma corola impudica, uns estames sedutores. Passava-lhes de leve o dedo, estudava-lhes a forma e o aroma, analisava as folhas e decidia se queria levá-las. Hesitava muitas vezes. Para mim uma flor é uma flor, mas para a Diamantina uma flor era um motivo, uma obra de arte geradora de mais arte e não as colhia indiscriminadamente, respeitava-as demasiado para se permitir uma abordagem leviana.” – in Os Pássaros de Seda
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
Um rasto de hortelã...
Na Infância as escolas ainda não tinham fechado. Ensinavam-nos coisas inúteis como as regras da sintaxe e da ortografia, coisas traumáticas como sujeitos, predicados e complementos directos, coisas imbecis como verbos e tabuadas. Tinham a infeliz ideia de nos ensinar a pensar e a surpreendente mania de acreditar que isso era bom. Não batíamos na professora, levávamos-lhe flores.
E depois ainda havia infância para perceber o aroma do suco das maçãs trincadas com dentes novos, um rasto de hortelã nos aventais, a angustia de esperar o nascer do sol sem ter a certeza de que viria (não fosse a ousadia dos pássaros só visíveis na luz indecisa da aurora), a beleza das cantigas límpidas das camponesas, o fulgor das papoilas. E havia a praia, o mar, as bolas de Berlim. (As bolas de Berlim são uma espécie de ex-libris da Infância e nunca mais na vida houve fosse o que fosse que nos soubesse tão bem).
Aos quatro anos aprendi a ler; aos seis fazia versos, aos nove ensinaram-me inglês e pude alargar o âmbito das minhas leituras infantis. Aos treze fui, interna, para o Colégio. Ali havia muitas raparigas que cheiravam a pão, escreviam cartas às escondidas, e sonhavam com os filmes que viam nas férias. Tínhamos a certeza de que o Tyrone Power havia de vir buscar-nos, com os seus olhos morenos, depois de nos ter visto fazer uma entrada espampanante no salão de baile onde o Fred Astaire já nos teria escolhido para seu par ideal.
Chamava-se a isto Adolescência, as formas cresciam-nos como as necessidades do espírito, música, leitura, poesia, para mim sobretudo literatura, história universal, história de arte, descobrimentos e o Camões a contar aquilo tudo, e as professoras a dizerem, aplica-te, menina, que vais ser escritora.
Eram aulas gloriosas, em que a espuma do mar entrava pela janela, a música da poesia medieval ressoava nas paredes cheias de sol, ay eu coitada, como vivo em gran cuidado, e ay flores, se sabedes novas, vai-las lavar alva, e o rio corria entre as carteiras e nele molhávamos os pés e as almas.
Além de tudo isto, que sorte, ainda havia tremas e acentos graves. Mas também tínhamos a célebre aula de Economia Doméstica de onde saíamos com a sensação de que a mulher era uma merdinha frágil, sem vontade própria, sempre a obedecer ao marido, fraca de espírito que não de corpo, pois, tendo passado o dia inteiro a esfregar o chão com palha de aço, a espalhar cera, a puxar-lhe o lustro, mal ouvia a chave na porta havia de apresentar-se ao macho milagrosamente fresca, vestida de Doris Day, a mesa posta, o jantarinho rescendente, e nem uma unha partida, nem um cabelo desalinhado, lá-lá-lá, chegaste, meu amor, que felicidade! (A professora era uma solteirona, mais sonhadora do que nós, que sabia todas as receitas do mundo para tirar todas as nódoas do mundo e os melhores truques para arear os tachos de cobre que ninguém tinha na vida real).
Mas o que sabíamos nós da vida real? Aos 17 anos entrei para a Faculdade sem fazer a mínima ideia do que isso fosse. Aos 19 casei-me, ainda completamente em branco (e não me refiro só à cor do vestido). Só seis anos, três filhos e centenas de livros mais tarde é que resolvi arrumar os meus valores como quem arruma um guarda-vestidos. Isto não, isto não se usa, isto não gosto, isto sim, isto seguramente, isto talvez. Os preconceitos foram os primeiros a desandar, assim como todos os itens que à pergunta porquê só me tinham respondido porque sim, ou, pior, porque sempre foi assim. E eu, tumba, lixo, se sempre foi assim é altura de deixar de ser e começar a abrir caminho às gerações futuras (ainda não sabia que entre os meus 12 netos se contariam nove mulheres). Ouvi ontem uma jovem a dizer, a revolução que nós fizemos nos últimos anos. Não meu amor: a revolução que NÓS fizemos nos últimos 50 anos. Mas não interessa quem fez o quê. É preciso é que tenha sido feito. E que seja feito. E eu fiz tudo, quando ainda não era suposto. Quando descobri que ser livre era acreditar em mim própria, nos meus poucos, mas bons, valores pessoais.
Depois foram as circunstâncias da vida. A alegria de mais um filho, erros, acertos, disparates, generosidades, ingenuidades, tudo muito bom para aprender alguma coisa. Tudo muito bom. Aprender é a palavra chave e dou por mal empregue o dia em que não aprendo nada. Ainda espero ter tempo de aprender muita coisa, agora que decidi que a Bíblia é uma metáfora da vida humana e posso glosar essa descoberta até, praticamente, ao infinito.
Pois é. Eu achava, pobre de mim, que era poetisa. Ainda não sabia que estava só a tirar apontamentos para o que havia de fazer mais tarde. A ganhar intimidade, cumplicidade com as palavras. Também escrevia crónicas e contos e recados à mulher-a-dias. E de repente, aos 63 anos, renasci. Cresceu-me uma alma de romancista e vá de escrever dez romances em 12 anos, mais um livro de contos (Os Linhos da Avó) e sete ou oito livros infantis. (Esta não é a minha área, mas não sei porquê, pedem-me livros infantis. Ainda não escrevi nenhum que me procurasse como acontece com os romances para adultos, que vêm de noite ou quando vou no comboio e se me insinuam nos interstícios do cérebro, e me atiram para outra dimensão e me fazem sorrir por dentro o tempo todo e me tornam mais disponível, mais alegre, mais nova).
Isto da idade também tem a sua graça. Por fora, realmente, nota-se muito. Mas eu pouco olho para o espelho e esqueço-me dessa história da imagem. Quando estou em processo criativo sinto-me bonita. É como se tivesse luzinhas na cabeça. Há 45 anos, com aquela soberba muito feminina, costumava dizer que o meu espelho eram os olhos dos homens. Agora são os olhos dos meus leitores, sem distinção de sexo, raça, idade ou religião. É um progresso enorme.
Se isto fosse uma autobiografia teria que dizer que, perto dos 30, comecei a dizer poesia na televisão e pelos 40 e tais pus-me a fazer umas maluqueiras em novelas, séries, etc. Também escrevi algumas destas coisas e daqui senti-me tentada a escrever para o palco, que é uma das coisas mais consoladoras que existem (outra pessoa diria gratificantes, mas eu, não sei porquê, embirro com essa palavra). Não há nada mais bonito do que ver as nossas palavras ganharem vida, e sangue, e alma, pela voz e pelo corpo e pela inteligência dos actores. Adoro actores. Mas não me atrevo a fazer teatro porque não aprendi.
Que mais? Ah, as cantigas. Já escrevi mais de mil e 500 e é uma das coisas mais divertidas que me aconteceu. Ouvir a música e perceber o que é que lá vem escrito, porque a melodia, como o vento, tem uma alma e é preciso descobrir o que ela esconde. Depois é uma lotaria. Ou me cantam maravilhosamente bem ou tristemente mal. Mas há que arriscar e, no fundo, é só uma cantiga. Irrelevante.
Se isto fosse uma autobiografia teria muitas outras coisas para contar. Mas não conto. Primeiro, porque não quero. Segundo, porque só me dão este espaço que, para 75 anos de vida, convenhamos, não é excessivo. Encontramo-nos no meu próximo romance.
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
Rosa Lobato Faria
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Rosa Lobato Faria tinha 17 anos e queria ser actriz. O pai deu-lhe a escolher. Ou ia para a faculdade em Coimbra, com tudo pago, ou para o conservatório, em Lisboa, pagando o curso com um emprego. Aceitou a vontade do pai. Foi estudar Germânicas. Isso quanto tinha 17 anos. Porque depois Rosa Lobato Faria, mulher forte e convicta, foi mesmo actriz. E poeta, escritora, argumentista e compositora. Quando questionada, respondia ser escritora. Mas, acto contínuo, acrescentava que ser actriz não era muito diferente: criar personagens e dar-lhes vida.
Rosa Lobato Faria estava a escrever um novo romance (Mário Santos/Porto Editora).
Lançando o olhar sobre a sua vida, sobressai uma presença, constante e multifacetada. Começou a divulgar poesia na RTP, durante os anos 60, em colaboração com David Mourão-Ferreira, e integrou o elenco da primeira telenovela portuguesa, Vila Faia. Foi letrista com lugar reservado na história do Festival da Canção, com Amor de Água Fresca, cantado por Dina, ou Chamar a Música, por Sara Tavares, e uma escritora que, poeta há muito, chegou tarde ao romance. Aos 62 anos, com O Pranto de Lucífer, publicado em 1995. Chegou a tempo: dez romances e um deles, O Prenúncio das Águas, distinguido em 2000 com o Prémio Máxima da Literatura.
O seu editor, Manuel Alberto Valente, lamenta a "perda de uma grande amiga" e "uma pessoa extraordinária" e recorda como o seu primeiro romance, aparecendo já numa idade madura, "trazia para a área da ficção essa marca poética muito forte em todo o trabalho dela".
"Tinha prometido entregar-nos brevemente o novo romance que queria publicar ainda este ano", revela. "Não sei em que fase estava da escrita, mas vou agora tentar saber junto da família."
Rosa Lobato Faria dizia que toda a poesia e literatura que escreveu partiu do Alentejo das suas férias de infância - daquela paisagem, dos cantares das pessoas, da força da tradição que ali pressentia. Também nisso era múltipla: mulher moderna e cosmopolita, mas que nunca escondeu um imenso fascínio pela cultura popular.
Romancista, obviamente
O realizador Lauro António, que a filmou em Paisagem Sem Barcos (1983) e Vestido Cor de Fogo (1986), recorda-a como "uma pessoa muito delicada, sensível, de uma grande elegância, mas ao mesmo tempo muito intensa ao nível das suas convicções e paixões". Destaca: "Deixa uma marca forte no mundo do espectáculo e da cultura portuguesa." E acrescenta que "não sendo uma feminista militante, tinha uma personalidade forte, ajudando a alterar a imagem da mulher em Portugal nos últimos 50 anos".
Ela, que como nos refere Herman José, "odiava que a reduzissem a "autora de letras para cantigas"", deixou-nos no ouvido alguns dos momentos mais memoráveis no humor da televisão portuguesa. Com Herman, precisamente.
São dela as letras dos genéricos de Casino Royale, Crime na Pensão Estrelinha e Humor de Perdição. O humorista recorda a participação de Lobato Faria naquele último programa, onde interpretava Dona Cândida, "senhora das avenidas novas, que alugava quartos e se apaixonava por um boçal José Esteves": "Conquistou-nos a todos com a sua alegria e a sua transbordante juventude e, na sequência da morte de Carlos Paião, acabou por ocupar o espaço deixado livre na autoria de versos humorísticos para os meus programas e canções." Porém, aponta Herman, "o seu sonho foi sempre ser aceite como romancista".
No momento da sua morte, recordamo-la pelas letras das canções que escreveu, pela presença na televisão e no cinema, pelo teatro e pela poesia compilada em volumes como Os Deuses de Pedra (1983). Recordamo-la também, obviamente, como romancista. O seu último livro, As Esquinas do Tempo, foi publicado em 2008. A sua obra, como refere em comunicado a Porto Editora, "está traduzida em Espanha, França e Alemanha e representada em várias colectâneas de contos, em Portugal e no estrangeiro". Rosa Lobato Faria cumpriu o seu sonho.
in Público

















