sábado, 18 de junho de 2011
segunda-feira, 13 de junho de 2011
domingo, 12 de junho de 2011
David Mourão-Ferreira
quinta-feira, 2 de junho de 2011
domingo, 22 de maio de 2011
Diário(s) - 10ºAno
Três das características fundamentais dos diários escritos sem perspectiva de publicação são a fragmentaridade, a espontaneidade do discurso e transgenerecidade. Tendo em conta estes três aspectos, propus aos alunos que assumissem, através da escrita, identidades fictícias, e que lhes dessem corpo através da escrita de uma entrada de diário (que poderia ser mais ou menos narrativo, mais ou menos intimista). Visava-se apenas o eco de uma voz sem corpo, consumado na página como um clarão; como uma parcela de uma vida apenas imaginada.
Os textos apresentados primam pela diversidade de propostas oferecidas, mesmo quando a identidade fictícia é a mesma. Tudo resulta da capacidade de abandonarmos momentaneamente a nossa linguagem, para sermos, momentaneamente, outros – e assim crescermos em compreensão daqueles que nos rodeiam.
Os textos apresentados primam pela diversidade de propostas oferecidas, mesmo quando a identidade fictícia é a mesma. Tudo resulta da capacidade de abandonarmos momentaneamente a nossa linguagem, para sermos, momentaneamente, outros – e assim crescermos em compreensão daqueles que nos rodeiam.
Hélder Moreira
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1.
30 de Fevereiro de 1999
Querido Diário,
Tenho andado aos encontros e pisadelas por cima de mim mesmo. As palavras já não me respondem. E, sabes, as pessoas também são as palavras que usam. Por isso, de que me serve elaborar uma longa e inútil lista do que eu sou ou do que julgo ser? Eu sou eu embora já não seja eu, porque o que fui foi. Mas… São as palavras que me servem de espelho. Só nelas posso desvendar a minha face. Voltem! Falem comigo! Abracem-me! Façam-me feliz! Levem-me onde quiserem. Quero-vos! Por agora, o meu único trabalho é não entristecer. Finjo. Sou poeta e só sei fingir. Onde estará o valor das palavras que se dizem leais e, depois, se traduzem em traição?
Possivelmente, este episódio sorumbático da minha vida justifica-se pelo facto de ter brincado com ela e depois a ter perseguido. Cheguei a atirá-la ao ar e depois transformei-a, deixa-a escapar e voltei a capturá-la, cobria-a de fantasia e dei-lhe asas de paradoxo.
Quero voltar ao tempo em que os meus dedos se sentiam cansados (de tanto escrever) e só lhes apetecia viver – o cérebro desligava-se e eu gozava a vida exclusivamente pelos sentidos.
Sabes que mais? A minha prioridade é ser e não parecer. Aqui está a minha alma preta, a minha alma escrita.
Diana Balbino, 10ºD
Querido Diário,
Tenho andado aos encontros e pisadelas por cima de mim mesmo. As palavras já não me respondem. E, sabes, as pessoas também são as palavras que usam. Por isso, de que me serve elaborar uma longa e inútil lista do que eu sou ou do que julgo ser? Eu sou eu embora já não seja eu, porque o que fui foi. Mas… São as palavras que me servem de espelho. Só nelas posso desvendar a minha face. Voltem! Falem comigo! Abracem-me! Façam-me feliz! Levem-me onde quiserem. Quero-vos! Por agora, o meu único trabalho é não entristecer. Finjo. Sou poeta e só sei fingir. Onde estará o valor das palavras que se dizem leais e, depois, se traduzem em traição?
Possivelmente, este episódio sorumbático da minha vida justifica-se pelo facto de ter brincado com ela e depois a ter perseguido. Cheguei a atirá-la ao ar e depois transformei-a, deixa-a escapar e voltei a capturá-la, cobria-a de fantasia e dei-lhe asas de paradoxo.
Quero voltar ao tempo em que os meus dedos se sentiam cansados (de tanto escrever) e só lhes apetecia viver – o cérebro desligava-se e eu gozava a vida exclusivamente pelos sentidos.
Sabes que mais? A minha prioridade é ser e não parecer. Aqui está a minha alma preta, a minha alma escrita.
Diana Balbino, 10ºD
2.
12 de Julho de 1974
Acordei, mas sentia-me leve. Muito leve. Como se não tivesse alma que me suportasse. Olhei pela janela e apenas vi nuvens. Nuvens brancas. Naquele momento, não senti qualquer tipo de motivação. Sentia-me morto. Não me desperta particular curiosidade o que outrora fui. Preocupa-me, sim, o que vivo e sou agora, o que consigo seleccionar melhor da minha escrita. Essa escrita que me deixou. Sem querer ser voluntariamente irónico, a vida que me é proporcionada hoje não me oferece muitos momentos de inércia e a sensação de “deserto” aparente não existe. A rotina, os hábitos implementados, as relações interpessoais e as suas envolvências, as obrigações que me exigem, os problemas e a rapidez com que tudo tem de ser executado, estão a absorver a minha capacidade de interiorização. Talvez.
Sinto que, hoje, as trevas estão comigo e me levaram o que de melhor tenho. Como quem me arranca o coração, a minha inspiração esvaiu-se em sangue. Que dor esta… Sem qualquer propósito, encontro-me num espaço amplo sem oásis à vista. Estático no tempo. Entristeço-me como folhear das páginas brancas da minha criatividade. Sem justificação aparente, identifico-me com esse isolamento fictício em que vivo. No meu deserto preenchido. Que as intempéries me desviem de caminhos tortuosos e me conduzam a bons portos. Que os ventos me agitem e me acordem quando a minha imaginação for assolada por pesadelos. E que as estrelas, na noite silenciosa, me acompanhem e sejam a minha inspiração para dar corpo a estas folhas puras.
Filipa Barbosa, 10ºE
Sinto que, hoje, as trevas estão comigo e me levaram o que de melhor tenho. Como quem me arranca o coração, a minha inspiração esvaiu-se em sangue. Que dor esta… Sem qualquer propósito, encontro-me num espaço amplo sem oásis à vista. Estático no tempo. Entristeço-me como folhear das páginas brancas da minha criatividade. Sem justificação aparente, identifico-me com esse isolamento fictício em que vivo. No meu deserto preenchido. Que as intempéries me desviem de caminhos tortuosos e me conduzam a bons portos. Que os ventos me agitem e me acordem quando a minha imaginação for assolada por pesadelos. E que as estrelas, na noite silenciosa, me acompanhem e sejam a minha inspiração para dar corpo a estas folhas puras.
Filipa Barbosa, 10ºE
3.
Póvoa, 16 de Março (Quinta-feira)
Já passaram quase três semanas e eu lembro-me de todos os pormenores como se tudo tivesse ocorrido há apenas 5 minutos. É como se desde então desperdiçasse todos os meus segundos a reviver aquele momento, aquele exíguo momento que transformou a minha vida. É terrível!
O pânico que senti enquanto rasgava o ar, a insegurança após o acordar, o pudor que todos aqueles olhares atribulados causaram em mim ao me verem prostrada no chão. São agora instantes enclausurados em mim. E o medo de adormecer, de mergulhar mais uma vez nestas recordações, permanece, assíduo e inalterável, todas as noites, sem excepção.
Mas hoje, pela primeira vez, arrisquei. Arrisquei voltar a fazer aquilo de que mais gosto, na esperança de recuperar o meu mundo e terminar com este pesadelo. Porém, enquanto elevava, vagarosamente, o meu corpo do solo, aquelas imagens reapareciam na minha mente, o meu coração acelerava e o terror invadia-me. Fracassei. Mais uma vez. E começo a acreditar que se torna cada vez mais inatingível a reconquista da minha vida. Sinto o meu mundo a converter-se numa utopia. E tudo isto está a desmoronar-me e a conduzir-me a um universo de questões para as quais não encontro resposta.
O que será de mim se não conseguir superar este drama? O que farei o resto do meu tempo? Longe daquele trapézio, sinto-me envolta num vácuo que me consome. Serei capaz de alguma vez voar sobre este nefasto episódio que se interpôs entre mim e a minha verdadeira vida? Ou terá sido esta queda algo mais do que um pavoroso sobressalto?
Daniela Santos, 10ºC
Já passaram quase três semanas e eu lembro-me de todos os pormenores como se tudo tivesse ocorrido há apenas 5 minutos. É como se desde então desperdiçasse todos os meus segundos a reviver aquele momento, aquele exíguo momento que transformou a minha vida. É terrível!
O pânico que senti enquanto rasgava o ar, a insegurança após o acordar, o pudor que todos aqueles olhares atribulados causaram em mim ao me verem prostrada no chão. São agora instantes enclausurados em mim. E o medo de adormecer, de mergulhar mais uma vez nestas recordações, permanece, assíduo e inalterável, todas as noites, sem excepção.
Mas hoje, pela primeira vez, arrisquei. Arrisquei voltar a fazer aquilo de que mais gosto, na esperança de recuperar o meu mundo e terminar com este pesadelo. Porém, enquanto elevava, vagarosamente, o meu corpo do solo, aquelas imagens reapareciam na minha mente, o meu coração acelerava e o terror invadia-me. Fracassei. Mais uma vez. E começo a acreditar que se torna cada vez mais inatingível a reconquista da minha vida. Sinto o meu mundo a converter-se numa utopia. E tudo isto está a desmoronar-me e a conduzir-me a um universo de questões para as quais não encontro resposta.
O que será de mim se não conseguir superar este drama? O que farei o resto do meu tempo? Longe daquele trapézio, sinto-me envolta num vácuo que me consome. Serei capaz de alguma vez voar sobre este nefasto episódio que se interpôs entre mim e a minha verdadeira vida? Ou terá sido esta queda algo mais do que um pavoroso sobressalto?
Daniela Santos, 10ºC
4.
Pequim, 8 de Janeiro de 2002
Para quem escrevo? Ou melhor… Porque escrevo sobre mim, quando tenho a perfeita noção de que não sou tema para um bestseller?
No entanto, escrevo. Escrevo para ninguém… Escrevo da mesma forma que falo, com o único objectivo de me expressar e com uma única diferença: quando falo, as quatro paredes que me rodeiam ouvem-me. Escrevo, porque quero passar o mais velozmente possível o pouco tempo que ainda me resta… Não vale a pena poupar os segundos ou fazê-los render, porque é inútil e só tornaria esta espera ainda mais sofrida e miserável.
Não quero tornar a minha escrita enfadonha, mas as circunstâncias forçam-me a contar-vos como cheguei até aqui. Prometo que serei breve nos relatos. – Meu Deus! Sinto-me como se tivesse enlouquecido. Afinal de contas, é como se estivesse a conversar com um amigo imaginário. – Mas prosseguindo: Há um ano, eu e um grande amigo meu, Jack Smith, chefiávamos um escritório de advogados quando nos surgiu um novo cliente, pedindo que o ilibássemos de umas acusações graves que o identificavam como cabecilha de uma rede de tráfico de órgãos (como era óbvio, as acusações eram verdadeiras) e, infelizmente, o Jack envolveu-se demasiado no caso, acabando morto e eu incriminado pela sua morte.
Tal como o meu pai havia dito, nunca devia ter partido de Los Angeles.
No entanto, e para vos ser sincero, não me sinto revoltado ou deprimido por estar aqui sozinho, por não ter notícias da minha família, por me sentir injustiçado, ou por saber que vou morrer amanhã… Esse tempo de fúria e de tumulto já lá vai; há muito que me conformei com a morte. Já passei por todas as fases que possam imaginar: já questionei a minha existência; já me perguntei porque estudei tantos anos para defender outros seres humanos, se ninguém se deu ao trabalho de acreditar na minha inocência; e também passei dias e dias a pensar: “Porquê eu?” Com tantas pessoas no mundo, porque tenho de ser eu a sofrer?
Pensei em tudo, porque tive tempo… muito tempo! Mas agora já nada me afecta, as minhas lágrimas secaram, congelaram, simplesmente deixaram de cair.
Confesso-vos: só existe um pensamento que é capaz de derreter todo o frio em que me transformei, e só existe uma lembrança capaz de me manter nesta condição de ser humano. É ao lembrar-me dela, da minha noiva, que o meu coração dispara. Era capaz de passar as últimas horas da minha vida a pensar no sorriso, na voz e nos olhos dela… Se pelo menos amanhã eu pudesse ter a oportunidade de só por mais uma vez, uma só vez, tentar decifrar todo o mistério nos seus olhos, eu seria feliz.
Aqui, sozinho, sem ela, eu congelei.
O meu nome é William Parker e, sem ela, morrerei amanhã.
Bianca de Magalhães, 10ºD
Para quem escrevo? Ou melhor… Porque escrevo sobre mim, quando tenho a perfeita noção de que não sou tema para um bestseller?
No entanto, escrevo. Escrevo para ninguém… Escrevo da mesma forma que falo, com o único objectivo de me expressar e com uma única diferença: quando falo, as quatro paredes que me rodeiam ouvem-me. Escrevo, porque quero passar o mais velozmente possível o pouco tempo que ainda me resta… Não vale a pena poupar os segundos ou fazê-los render, porque é inútil e só tornaria esta espera ainda mais sofrida e miserável.
Não quero tornar a minha escrita enfadonha, mas as circunstâncias forçam-me a contar-vos como cheguei até aqui. Prometo que serei breve nos relatos. – Meu Deus! Sinto-me como se tivesse enlouquecido. Afinal de contas, é como se estivesse a conversar com um amigo imaginário. – Mas prosseguindo: Há um ano, eu e um grande amigo meu, Jack Smith, chefiávamos um escritório de advogados quando nos surgiu um novo cliente, pedindo que o ilibássemos de umas acusações graves que o identificavam como cabecilha de uma rede de tráfico de órgãos (como era óbvio, as acusações eram verdadeiras) e, infelizmente, o Jack envolveu-se demasiado no caso, acabando morto e eu incriminado pela sua morte.
Tal como o meu pai havia dito, nunca devia ter partido de Los Angeles.
No entanto, e para vos ser sincero, não me sinto revoltado ou deprimido por estar aqui sozinho, por não ter notícias da minha família, por me sentir injustiçado, ou por saber que vou morrer amanhã… Esse tempo de fúria e de tumulto já lá vai; há muito que me conformei com a morte. Já passei por todas as fases que possam imaginar: já questionei a minha existência; já me perguntei porque estudei tantos anos para defender outros seres humanos, se ninguém se deu ao trabalho de acreditar na minha inocência; e também passei dias e dias a pensar: “Porquê eu?” Com tantas pessoas no mundo, porque tenho de ser eu a sofrer?
Pensei em tudo, porque tive tempo… muito tempo! Mas agora já nada me afecta, as minhas lágrimas secaram, congelaram, simplesmente deixaram de cair.
Confesso-vos: só existe um pensamento que é capaz de derreter todo o frio em que me transformei, e só existe uma lembrança capaz de me manter nesta condição de ser humano. É ao lembrar-me dela, da minha noiva, que o meu coração dispara. Era capaz de passar as últimas horas da minha vida a pensar no sorriso, na voz e nos olhos dela… Se pelo menos amanhã eu pudesse ter a oportunidade de só por mais uma vez, uma só vez, tentar decifrar todo o mistério nos seus olhos, eu seria feliz.
Aqui, sozinho, sem ela, eu congelei.
O meu nome é William Parker e, sem ela, morrerei amanhã.
Bianca de Magalhães, 10ºD
(Textos enviados por Hélder Moreira)
segunda-feira, 9 de maio de 2011
terça-feira, 3 de maio de 2011
Matilde - "Felizmente há luar!"

Na voz de Matilde habitam as ideias e os valores do General Gomes Freire de Andrade, mas delimitados pelos contornos a que o próprio amor obriga. A voz de Matilde é o eco de uma voz ausente que protagoniza toda a peça. É na voz de Matilde que se partilha os ideais do General Gomes Freire de Andrade e é também na voz de Matilde que nasce o carácter heróico do general.
Esboça-se assim uma personagem que reúne fragmentos de coragem, de justiça, que deseja um movimento inquietantemente sincero e grita liberdade. Uma personagem a quem o amor por amor ilude, e faz dos ideais nobremente defendidos, vigaristas que balançam ora para lá, ora para cá - " Não seria mais humano, (...), ensiná-los, de pequeninos, a viverem em paz com a hipocrisia do Mundo". Perde (por momentos) a vontade de acreditar em valores honrosos, porque foram eles que fecharam as portas da cela em S.Julião da Barra. Mas não é por isso que perde a voz e grita: " O meu homem, o meu homem". Perde a vergonha, para que outros governadores do reino a utilizem contra ela, e suplica clemência. Mas continua: " O meu homem, o meu homem". Desafia o Deus que a terra criou "pois que vá abrir as do forte de S.Julião da Barra, se é capaz", dispõe-se a mendigar, pede ao povo o que um dia o povo lhe pediu a ela, chora. Mas continua: " O meu homem, o meu homem". Ouviu chamarem-lhe amante. Assistiu à morte aproximar-se e aprendeu que ela não lhe trazia o fim, mas lhe dava o braço do General, um olhar à saia verde, e um início de mudança.
Matilde de Melo, mulher do General Gomes Freire de Andrade, perdeu quase tudo (e não foi na guerra), mas entre a violência dos homens.
Teresa Stingl
Esboça-se assim uma personagem que reúne fragmentos de coragem, de justiça, que deseja um movimento inquietantemente sincero e grita liberdade. Uma personagem a quem o amor por amor ilude, e faz dos ideais nobremente defendidos, vigaristas que balançam ora para lá, ora para cá - " Não seria mais humano, (...), ensiná-los, de pequeninos, a viverem em paz com a hipocrisia do Mundo". Perde (por momentos) a vontade de acreditar em valores honrosos, porque foram eles que fecharam as portas da cela em S.Julião da Barra. Mas não é por isso que perde a voz e grita: " O meu homem, o meu homem". Perde a vergonha, para que outros governadores do reino a utilizem contra ela, e suplica clemência. Mas continua: " O meu homem, o meu homem". Desafia o Deus que a terra criou "pois que vá abrir as do forte de S.Julião da Barra, se é capaz", dispõe-se a mendigar, pede ao povo o que um dia o povo lhe pediu a ela, chora. Mas continua: " O meu homem, o meu homem". Ouviu chamarem-lhe amante. Assistiu à morte aproximar-se e aprendeu que ela não lhe trazia o fim, mas lhe dava o braço do General, um olhar à saia verde, e um início de mudança.
Matilde de Melo, mulher do General Gomes Freire de Andrade, perdeu quase tudo (e não foi na guerra), mas entre a violência dos homens.
Teresa Stingl
domingo, 24 de abril de 2011
sábado, 23 de abril de 2011
segunda-feira, 18 de abril de 2011
sábado, 9 de abril de 2011
A felicidade - reflexão pessoal
Esgueiramo-nos por entre os becos, abalroamos segundos e travamos uma guerra fria contra o próprio “eu”, na ânsia de tocar no âmago dessa luz que almejamos. Abraçamos o mundo, tornamo-nos invisíveis e damos passos de gigante na corrida desenfreada a uma felicidade que nos foge. Fazemos questão de a colocar no mais alto pedestal que tão facilmente nos escorre pelos dedos, nos abandona a alma para o mais feérico esconderijo. O que é que nos falta? Qual a mais clara concepção que lhe podemos dar? Nada mais relevante que a sua própria simplicidade: meros instantes roubados ao tempo que fazem com que balas de sorrisos nos trespassem o peito e nos permitam tocar no infinito, ínfimos retalhos de alma, pedaços de caminho, profecias de vida que nos movem, nos sustentam, nos ressuscitam. E desacredite-se aquele que se limita a si mesmo por qualquer condição exterior. Esqueça-se o papel de cada casa, de cada emprego, realidades que nos sufocam numa angústia alienante. Lembremo-nos que o olhar com que as encaramos é a base de toda a existência, o motor de euforia ou depressão profunda. O limite que traçamos como nosso é passível de toda e qualquer superação e os imensos instantes de felicidade que agarramos, sem cessar, permitem-nos rasgar pedaços de céu.
Joana Nunes, nº6, 12º A
(Enviado por Auxília Ramos)
domingo, 3 de abril de 2011
domingo, 27 de março de 2011
Sem nome de guerra
Hoje vejo as pessoas, na rua, vestidas em muralhas de pedras altas e impenetráveis. Seguem percursos, sozinhas ou em grupo, (e, desculpem-me a ironia, a diferença não há-de ser muita), o cerco posto, a vigia em sentinela, e o conforto da situação é tal que nem dão pelo peso da artilharia, ao pousar o pé no passeio e ao sorrir de leve num “até amanhã” que se lança de alívio.
É uma batalha sem campo próprio nem lugar. E, pior do que isso, é uma batalha invisível e sem nome de guerra. Se se combate é em nome do “Eu”, os aliados perdem força numa sociedade em que de cada um é exigido um individualismo extremo, um culturismo do espaço próprio e pessoal. Que se culpe o egoísmo que alimenta tudo isto e ensina que o “eu” vale sempre mais do que o “vós” (só tenho pena que se esqueça que no “vós” estamos “nós”). Que se culpe esta pressão de “ter de ser o melhor”, de entrar na faculdade, de arranjar emprego, um bom ordenado… A exclusividade torna-nos armas de combate, a abundância leva-nos à mais pura das infâncias. Hoje, vejo as bibliotecas tornarem-se em livros, as salas de estudo em carteiras… vejo a decadência das praças, dos largos, de todos os espaços públicos deitados ao abandono a que o individualismo incita. As pessoas fecham-se nos quartos, de tal modo que o que era das salas deixa de o ser, numa tentativa doentia de aperfeiçoar o espaço pessoal, próprio e fechado. Uma vénia ao “EU”, uma vénia ao “EU”. E pouco importa a Pátria ou a bandeira, pois esta guerra sem nome de guerra afecta o mundo sem darmos conta.
Hoje vejo as pessoas, na rua, vestidas em muralhas de pedras altas e impenetráveis. Procuro um rasto de sangue que justifique tudo isto, uma espada caída por alguém que perdeu o disfarce, procuro rastos de um Iraque e de um campo de batalha. Depois penso: a sociedade está doente e esta é a guerra da modernidade, de seu nome: COMPETIÇÃO.
Teresa Stingl, 12ºAno
segunda-feira, 21 de março de 2011
Dia Mundial da Poesia
Sobre um Poema
Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.
Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
- a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.
E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.
- Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
- E o poema faz-se contra o tempo e a carne.
Herberto Helder
...
...
Coisas, Pequenas Coisas
Fazer das coisas fracas um poema.
Uma árvore está quieta,
murcha, desprezada.
Mas se o poeta a levanta pelos cabelos
e lhe sopra os dedos,
ela volta a empertigar-se, renovada.
E tu, que não sabias o segredo,
perdes a vaidade.
Fora de ti há o mundo
e nele há tudo
que em ti não cabe.
Homem, até o barro tem poesia!
Olha as coisas com humildade.
Fernando Namora, in "Mar de Sargaços”
...
...
Do Poema
O problema não é
meter o mundo no poema; alimentá-lo
de luz, planetas, vegetação. Nem
tão-pouco
enriquecê-lo, ornamentá-lo
com palavras delicadas, abertas
ao amor e à morte, ao sol, ao vício,
aos corpos nus dos amantes —
o problema é torná-lo habitável, indispensável
a quem seja mais pobre, a quem esteja
mais só
do que as palavras
acompanhadas
no poema.
Casimiro de Brito, in "Canto Adolescente”
Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.
Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
- a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.
E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.
- Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
- E o poema faz-se contra o tempo e a carne.
Herberto Helder
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Coisas, Pequenas Coisas
Fazer das coisas fracas um poema.
Uma árvore está quieta,
murcha, desprezada.
Mas se o poeta a levanta pelos cabelos
e lhe sopra os dedos,
ela volta a empertigar-se, renovada.
E tu, que não sabias o segredo,
perdes a vaidade.
Fora de ti há o mundo
e nele há tudo
que em ti não cabe.
Homem, até o barro tem poesia!
Olha as coisas com humildade.
Fernando Namora, in "Mar de Sargaços”
...
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Do Poema
O problema não é
meter o mundo no poema; alimentá-lo
de luz, planetas, vegetação. Nem
tão-pouco
enriquecê-lo, ornamentá-lo
com palavras delicadas, abertas
ao amor e à morte, ao sol, ao vício,
aos corpos nus dos amantes —
o problema é torná-lo habitável, indispensável
a quem seja mais pobre, a quem esteja
mais só
do que as palavras
acompanhadas
no poema.
Casimiro de Brito, in "Canto Adolescente”
quinta-feira, 17 de março de 2011
João Manuel Ribeiro apresenta livro no CLF


No dia 2 de Março, os alunos do 1º e do 2º anos do 1º ciclo receberam o escritor João Manuel Ribeiro e a ilustradora Sónia Borges, que vieram apresentar o seu novo livro “Senhor Ato, o camaleão”.
A conversa com o escritor e com a ilustradora foi muito animada e os alunos adoraram ouvir a história do Senhor Camaleão e a “brincadeira” feita pelo escritor à volta do novo Acordo Ortográfico.
Isabel Maia
A conversa com o escritor e com a ilustradora foi muito animada e os alunos adoraram ouvir a história do Senhor Camaleão e a “brincadeira” feita pelo escritor à volta do novo Acordo Ortográfico.
Isabel Maia
segunda-feira, 14 de março de 2011
Sobre a actualidade de Eça de Queiroz
A VIDA DOS LIVROS
De 14 a 20 de Março de 2011
José Maria Eça de Queirós (1845-1900) mantém-se presente nos tempos que correm. A palavra presente substitui actual, para que não haja simplificações abusivas. Não se trata, porém, de dizer que tudo se manteve inalterável (com Dâmaso Salcede ou Tomás de Alencar ao virar da esquina) e que a actualidade se mantém tal e qual. Houve mudanças significativas no país, mas há elementos duráveis na análise do autor de “Os Maias” (1888) ou de “O Conde de Abranhos” (1925). Eça desenha uma sociedade em transição, assente nos empregos públicos e nos favores do Estado. É o naturalismo em acção, aqui ou ali polvilhado por um humor fino que procura representar uma sociedade distante e periférica, relativamente aos grandes centros. E quando hoje assistimos à crise da dívida pública soberana, vêm à baila as conversas do banqueiro Cohen relativamente ao dinheiro e aos seus enredos…
DESENTRANHAR O PORTUGAL QUE ESPERA…
Eduardo Lourenço afirmou que “não é susceptível de discussão o amor (e o fervor) com que a Geração de 70 tentou desentranhar do Portugal quotidiano, mesquinho e decepcionante, um outro, sob ele soterrado, à espera de irromper à luz do sol” (“Labirinto da Saudade, ed. 2000, p. 93). Ora, ao lermos Eça de Queirós, impõe-se a pergunta – o que se mantém actual na sua obra? E que país existe por «desentranhar», ao abrigo desse «criticismo patriótico», em que Eduardo Lourenço vem insistindo, como voz clamando no deserto. Não podemos cair na conclusão fácil de que o país é o mesmo ou radicalmente diferente. Qualquer simplificação será sempre caricatural. De facto, Portugal é diferente hoje do que era no final do século XIX. Mas, quando lemos os principais intelectuais e críticos desse tempo assaltam-nos as semelhanças, que têm de ser vistas com as cautelosas distâncias. A chamada Geração de 1870 obriga, porém, a uma especial correcção crítica: de facto, estamos perante analistas de raríssimo talento, com uma inteligência de indiscutível evidência, que souberam colocar-se no lugar da intelectualidade europeia mais avançada e lúcida do seu tempo. A perspectiva crítica deu-lhes uma distância que hoje permite compreendermos melhor o que disseram, concedendo essa reserva uma curiosíssima garantia de actualidade. Se virmos bem, Antero, Oliveira Martins e Eça de Queirós não são portugueses comuns do seu tempo. Viram mais longe e largo, e é isso mesmo que lhes permitiu alcançar um especial sentido de pertinência presente, que nos leva à ilusão de julgar que o país é o mesmo, sem o ser exactamente. No entanto, temos a nítida sensação de encontrar nesses argutos textos algo de familiar ou próximo. E isso não acontece por acaso. De facto, há diferenças e coincidências na sociedade. O país rural não existe já, a distância enorme entre a cidade e as serras reduziu-se, o atraso social endémico mudou de natureza, os dualismos profundos, se se mantêm, tornaram-se diferentes, e as desigualdades que persistem reportam-se a termos de comparação que se transformaram muito. Ainda por cima, não podemos esquecer que as referências queirosianas se enraizaram bastante no mundo português letrado e culto (ou por leitura ou por reminiscência). É difícil de encontrar o Conselheiro Acácio, mas o seu espírito e os seus óculos fumados persistem onde menos se espera. O mesmo se diga de Eusebiozinho, de Palma Cavalão, de Gouvarinho, de Dâmaso ou de Alencar – mas sobretudo de João da Ega, de Carlos da Maia, de Zé Fernandes, de Jacinto, de Gonçalo Mendes Ramires ou de Fradique e do inefável Pacheco. Os ecos dos quadros queirosianos chegam-nos ainda hoje como as análises cortantes das “Histórias” de Oliveira Martins, sendo “Os Maias” a genial tradução romanesca do “Portugal Contemporâneo”. E diga-se que, se alguns criticam a dispersão de personagens e de temas na saga de Eça, a verdade é que essa é uma riqueza da obra que magistralmente contribuiu para o repositório de personagens representado caricaturalmente por João Abel Manta.
A MATÉRIA-PRIMA DE EÇA
Apesar das distâncias, o certo é que há algo na matéria-prima utilizada por Eça que permanece e que mantém actualidade: a ciclotimia portuguesa, o peso do Estado omnipresente com o seu funcionalismo (o “comunismo burocrático”) e a dependência do exterior. Quanto à ciclotimia, eis-nos a oscilar entre a invocação das glórias passadas com um orgulho histórico, tantas vezes desajustado, e a consideração da mediocridade contemporânea (que não é pior nem melhor que a de muitos dos nossos vizinhos, mas que se torna mais evidente quando se insere na tal oscilação entre a glória e a decadência). A verdade é que essa alternância entre nos considerarmos os melhores e os piores do mundo agrava as comparações e as ilusões – o que leva à ambiguidade essencial de “A Ilustre Casa de Ramires” – ainda tão incompreendido… Já quanto ao peso do Estado, devemos referir que o nosso centralismo ancestral resulta da precedência do Estado relativamente à nação, com a inevitável concentração de poderes e o inexorável formalismo destituído de responsabilidade prática. É essa rígida centralização de poderes do Estado que leva à dependência relativamente à Arcada e S. Bento, que tão nitidamente se encontra na análise de Eça, desde Artur Curvelo até ao Conde de Abranhos – e que se prolonga até aos nossos dias no nosso Estado. Essa lógica de dependência, com sequente dificuldade de mobilização dos cidadãos e dos poderes locais (para além do caciquismo) liga-se a outra dependência que a vida económica (sobretudo num tempo de globalização) revela e que tem a ver com as vicissitudes do endividamento. Se recordarmos o jantar do Hotel Central em «Os Maias», depressa compreenderemos que aquilo que preocupa aqueles convivas é, a um tempo, a evolução da mentalidade literária e das escolas de pensamento, tema muito sentido pelo próprio autor (representado, de algum modo, por um alter ego, «sui generis» e complexo, que começa em João da Ega, mas que não existe só, uma vez está vive em ligação com Carlos da Maia, como se se tratasse de um tandem), bem como as repercussões da incerteza financeira e económica, em razão da significativa dependência de Portugal relativamente à economia europeia, em especial através do crédito, já que a história portuguesa oitocentista se confundiu amiúde com a dívida pública e as crises bancárias.
A MATÉRIA-PRIMA DE EÇA
Apesar das distâncias, o certo é que há algo na matéria-prima utilizada por Eça que permanece e que mantém actualidade: a ciclotimia portuguesa, o peso do Estado omnipresente com o seu funcionalismo (o “comunismo burocrático”) e a dependência do exterior. Quanto à ciclotimia, eis-nos a oscilar entre a invocação das glórias passadas com um orgulho histórico, tantas vezes desajustado, e a consideração da mediocridade contemporânea (que não é pior nem melhor que a de muitos dos nossos vizinhos, mas que se torna mais evidente quando se insere na tal oscilação entre a glória e a decadência). A verdade é que essa alternância entre nos considerarmos os melhores e os piores do mundo agrava as comparações e as ilusões – o que leva à ambiguidade essencial de “A Ilustre Casa de Ramires” – ainda tão incompreendido… Já quanto ao peso do Estado, devemos referir que o nosso centralismo ancestral resulta da precedência do Estado relativamente à nação, com a inevitável concentração de poderes e o inexorável formalismo destituído de responsabilidade prática. É essa rígida centralização de poderes do Estado que leva à dependência relativamente à Arcada e S. Bento, que tão nitidamente se encontra na análise de Eça, desde Artur Curvelo até ao Conde de Abranhos – e que se prolonga até aos nossos dias no nosso Estado. Essa lógica de dependência, com sequente dificuldade de mobilização dos cidadãos e dos poderes locais (para além do caciquismo) liga-se a outra dependência que a vida económica (sobretudo num tempo de globalização) revela e que tem a ver com as vicissitudes do endividamento. Se recordarmos o jantar do Hotel Central em «Os Maias», depressa compreenderemos que aquilo que preocupa aqueles convivas é, a um tempo, a evolução da mentalidade literária e das escolas de pensamento, tema muito sentido pelo próprio autor (representado, de algum modo, por um alter ego, «sui generis» e complexo, que começa em João da Ega, mas que não existe só, uma vez está vive em ligação com Carlos da Maia, como se se tratasse de um tandem), bem como as repercussões da incerteza financeira e económica, em razão da significativa dependência de Portugal relativamente à economia europeia, em especial através do crédito, já que a história portuguesa oitocentista se confundiu amiúde com a dívida pública e as crises bancárias.
O JANTAR DO HOTEL CENTRAL
«O Cohen colocou uma pitada de sal à beira do prato, e respondeu, com autoridade, que o empréstimo tinha de se realizar ‘absolutamente’. Os empréstimos em Portugal constituíam hoje uma das fontes de receita, tão regular, tão indispensável, tão sabida como o imposto. Lembramo-nos bem da passagem. E depois: « – A bancarrota é tão certa, as coisas estão tão dispostas para ela – continuava Cohen – que seria mais fácil a qualquer, em dois ou três anos, fazer falir o país»… Isto, enquanto Ega e, surpreendentemente, Alencar, sonhavam com uma revolução. A história económica portuguesa do século XIX foi longamente dominada pelas crises bancárias (1827, 1846, 1876 e 1891) e pela evolução da dívida pública. As guerras civis contribuíram para essa instabilidade até 1851. Já em 1876 tudo se concentrou na bolha especulativa gerada pela proliferação de entidades bancárias; enquanto em 1891 foi a bancarrota argentina que quebrou a casa Baring de Londres, ligando-se à redução da remessa dos emigrantes do Brasil por causa do fim da escravatura e da implantação da República. E a dívida pública explodiu. Assim, a profecia de Cohen cumpriu-se, houve o convénio dos credores externos de 1902 (com o empréstimo de 99 anos, ao juro de 3 por cento) e um longo purgatório português nos mercados financeiros. Entende-se que a pergunta sobre a actualidade de Eça obriga não a ressuscitar Abranhos ou Dâmaso, mas a desentranhá-los… O que reclama, antes de tudo, exigência crítica.
Guilherme d'Oliveira Martins
(Enviado por Isabel Moreno)
domingo, 13 de março de 2011
quinta-feira, 3 de março de 2011
quarta-feira, 2 de março de 2011
segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
Moacyr Scliar

A notícia é do Público:
Moacyr Scliar nasceu em Porto Alegre, a 23 de Março de 1937, e, apesar da sua formação em medicina, deixa um legado de mais de 70 livros. Em 2003 foi eleito para a Academia Brasileira de Letras. O escritor foi galardoado três vezes com o prémio Jabuti, em 1988, em 1993 e em 2009. Em 1989 recebeu o prémio da Associação Paulista de Críticos de Arte e, nesse mesmo ano, a distinção da Casa de las Americas.
Em Fevereiro de 2009, Moacyr Scliar esteve em Portugal para participar no Correntes d'Escritas, o encontro literário da Póvoa de Varzim onde se cruzam vários sotaques e línguas e cuja edição de 2011 terminou precisamente ontem. João Paulo Cuenca, que está em Portugal a lançar o seu último romance e esteve a participar este sábado no encontro de escritores de expressão ibérica esteve com Moacyr Scliar há pouco tempo. Os dois participaram num festival literário em Minas Gerais e estiveram juntos numa mesa com um moderador.
"Fiquei impressionado, como é que um escritor com dezenas de livros publicados, ele dizia que eram 80, continuava com tanta vitalidade a escrever, a publicar e participar de debates e mesas com a paciência e com a generosidade que ele tinha com novatos como eu", disse ao PÚBLICO o escritor carioca. Nessa altura os dois jantaram juntos e ficaram amigos. "Moacyr parecia muito mais saudável do que eu mesmo, por isso é chocante ele ter morrido".
A banana de Porto Alegre
No encontro da Póvoa de 2009 Scliar, também autor de “A mulher que escreveu a Bíblia” (ed. Livros de Seda), contou que o seu pai emigrou para um país desconhecido quando tinha dez anos. Saiu da Rússia no período da guerra civil que se seguiu a 1917, meteu-se num navio em direcção ao Brasil, atravessou o oceano e foi parar ao Rio Grande do Sul.
Não fazia a mínima ideia do que o esperava. Chegou a um país completamente desconhecido mas isso não o impedia de ver o Brasil como uma coisa maravilhosa.
Sonhava com o clima ameno, com um país de gente amável e com as frutas. Nunca tinha visto um abacaxi, nunca tinha visto uma manga, nunca tinha visto uma banana. E foi apresentado a uma banana, exactamente no dia em que chegou a Porto Alegre.
Quando embarcou, o pai de Moacyr já era “um menino magrinho”. No barco passou fome, ficou um esqueleto. E quando finalmente o navio atracou na cidade, desembarcou. A população inteira de Porto Alegre estava no cais à espera do barco que trazia os europeus e um gaúcho percebeu que o pai de Moacyr tinha fome e ofereceu-lhe uma banana. “O meu pai imaginou que era uma coisa para comer. Mas não tinha sido treinado para comer banana e, como não falava português, ficou com perplexidade a mexer na banana”, disse o também médico Moacyr Scliar.
Descobriu então que a banana se descascava, tal como a laranja. Imaginou que seria igual e que teria também casca e caroços. “Ao descascar a banana apareceu uma coisa que ele pensou que era o caroço da banana. E jogou fora o caroço. Comeu a casca de banana até ao fim para surpresa do gaúcho”, continuou o escritor a quem até morrer, já depois dos 80 anos, o pai disse sempre: “Casca de banana não é tão ruim como a gente pensa”. Para Moacyr Scliar, o escritor é “o emigrante que vê a banana e que come a casca” e a tarefa da literatura é “transformar o desconhecido em magia”.
Moacyr Scliar nasceu em Porto Alegre, a 23 de Março de 1937, e, apesar da sua formação em medicina, deixa um legado de mais de 70 livros. Em 2003 foi eleito para a Academia Brasileira de Letras. O escritor foi galardoado três vezes com o prémio Jabuti, em 1988, em 1993 e em 2009. Em 1989 recebeu o prémio da Associação Paulista de Críticos de Arte e, nesse mesmo ano, a distinção da Casa de las Americas.
Em Fevereiro de 2009, Moacyr Scliar esteve em Portugal para participar no Correntes d'Escritas, o encontro literário da Póvoa de Varzim onde se cruzam vários sotaques e línguas e cuja edição de 2011 terminou precisamente ontem. João Paulo Cuenca, que está em Portugal a lançar o seu último romance e esteve a participar este sábado no encontro de escritores de expressão ibérica esteve com Moacyr Scliar há pouco tempo. Os dois participaram num festival literário em Minas Gerais e estiveram juntos numa mesa com um moderador.
"Fiquei impressionado, como é que um escritor com dezenas de livros publicados, ele dizia que eram 80, continuava com tanta vitalidade a escrever, a publicar e participar de debates e mesas com a paciência e com a generosidade que ele tinha com novatos como eu", disse ao PÚBLICO o escritor carioca. Nessa altura os dois jantaram juntos e ficaram amigos. "Moacyr parecia muito mais saudável do que eu mesmo, por isso é chocante ele ter morrido".
A banana de Porto Alegre
No encontro da Póvoa de 2009 Scliar, também autor de “A mulher que escreveu a Bíblia” (ed. Livros de Seda), contou que o seu pai emigrou para um país desconhecido quando tinha dez anos. Saiu da Rússia no período da guerra civil que se seguiu a 1917, meteu-se num navio em direcção ao Brasil, atravessou o oceano e foi parar ao Rio Grande do Sul.
Não fazia a mínima ideia do que o esperava. Chegou a um país completamente desconhecido mas isso não o impedia de ver o Brasil como uma coisa maravilhosa.
Sonhava com o clima ameno, com um país de gente amável e com as frutas. Nunca tinha visto um abacaxi, nunca tinha visto uma manga, nunca tinha visto uma banana. E foi apresentado a uma banana, exactamente no dia em que chegou a Porto Alegre.
Quando embarcou, o pai de Moacyr já era “um menino magrinho”. No barco passou fome, ficou um esqueleto. E quando finalmente o navio atracou na cidade, desembarcou. A população inteira de Porto Alegre estava no cais à espera do barco que trazia os europeus e um gaúcho percebeu que o pai de Moacyr tinha fome e ofereceu-lhe uma banana. “O meu pai imaginou que era uma coisa para comer. Mas não tinha sido treinado para comer banana e, como não falava português, ficou com perplexidade a mexer na banana”, disse o também médico Moacyr Scliar.
Descobriu então que a banana se descascava, tal como a laranja. Imaginou que seria igual e que teria também casca e caroços. “Ao descascar a banana apareceu uma coisa que ele pensou que era o caroço da banana. E jogou fora o caroço. Comeu a casca de banana até ao fim para surpresa do gaúcho”, continuou o escritor a quem até morrer, já depois dos 80 anos, o pai disse sempre: “Casca de banana não é tão ruim como a gente pensa”. Para Moacyr Scliar, o escritor é “o emigrante que vê a banana e que come a casca” e a tarefa da literatura é “transformar o desconhecido em magia”.
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011
XII Edição Correntes d' Escrita

...
De 23 a 26 de Fevereiro. Póvoa de Varzim.
Eis o Programa:
...
Dia 23 (quarta)
17h00 – 1.ª MESA: «Falta futuro a quem tem no presente as ambições/passadas»
- Aida Gomes
- Almeida Faria
- Eduardo Lourenço
- Fernando Pinto do Amaral
- Maria Teresa Horta
- Ricardo Menéndez Salmón
Moderador: José Carlos de Vasconcelos
Dia 24
10h30 2.ª MESA: «Eu começo depois da escrita»
- Ignacio del Valle
- João Paulo Cuenca
- Júlio Conrado
- Karla Suarez
- Maria João Martins
- Miguel Miranda
Moderador: Carlos Vaz Marques
15h00 3.ª MESA: «A minha arte é uma espécie de pacto»
- David Toscana
- Juva Batella
- Luís Represas
- Manuel Jorge Marmelo
- Mário Lúcio Sousa
- Ricardo Romero
Moderador: Rui Zink
17h30 4.ª MESA: «Nua de símbolos e alusões é a poesia»
- Ana Luísa Amaral
- Carmen Yáñez
- Conceição Lima
- Gastão Cruz
- Ivo Machado
- Uberto Stabile
Moderador: Francisco José Viegas
Dia 25
10h30 5.ª MESA: «As palavras são apenas uma memória»
- César Ibáñez París
- Ignacio Martínez de Pisón
- João Paulo Borges Coelho
- Mário Zambujal
- Nuno Júdice
- Rui Zink
Moderador: João Gobern
15h00 6.ª MESA: «Espalho sobre a página a tinta do passado»
- Alberto Torres Blandina
- António Figueira
- Francisco José Viegas
- Inês Pedrosa
- Maria Manuel Viana
- Paulo Ferreira
Moderador: José Mário Silva
17h30 7.ª MESA: «A obra que faço é minha»
- Álvaro Magalhães
- David Machado
- Francisco Duarte Mangas
- João Manuel Ribeiro
- José Jorge Letria
- Vergílio Alberto Vieira
Moderador: Ivo Machado
Dia 26
10h30 8.ª MESA: «Não há palavras exactas»
- José Manuel Fajardo
- Kirmen Uribe
- Nuno Crato
- Pedro Vieira
- Raquel Ochoa
- valter hugo mãe
Moderador: Onésimo Teotónio Almeida
16h00 9.ª MESA: «Nada no mundo deve ser subestimado»
- António Victorino d’Almeida
- Luis Sepúlveda
- Manuel Rui
- Mário Delgado Aparaín
- Onésimo Teotónio Almeida
- Yvette K. Centeno
Moderadora: Maria Flor Pedroso
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
Ainda Sophia...
Via "Horas Extraordinárias":
...
"Os Patos de Sophia"
...
"Este vai ser o ano de Sophia de Mello Breyner e as comemorações iniciaram-se com a entrega do seu espólio à Biblioteca Nacional. Os jornais divulgaram bastante o acontecimento e um deles revelou uma história genial que os filhos quiseram partilhar com os presentes na cerimónia e que também eu não resisto a partilhar com os leitores deste blogue. Ao que parece, terão dado um dia a Sophia dois patinhos amorosos, a que ela achou imensa graça – enquanto foram pequeninos, claro, porque entretanto cresceram e ela ficou sem saber o que fazer com eles. Como mulher pragmática que era, telefonou mesmo assim para o então presidente da Gulbenkian, Azeredo Perdigão, propondo-lhe a oferta dos ditos patos para os belíssimos jardins da Fundação. O senhor não terá achado o facto estranho, porque marcou um dia para a entrega, convidando inclusivamente a poetisa para almoçar com ele. Sophia compareceu na data e hora marcadas com os seus patos (que, claro, ficaram a fazer parte da fauna gulbenkiana a partir desse dia) e, durante o almoço, ficou muito surpreendida quando Azeredo Perdigão a presenteou com uma medalha, tendo indagado o porquê de tal distinção (pareceu-lhe que a oferta dos patos, por certo, não o justificava). Foi nesse momento que Azeredo Perdigão lhe explicou que era a primeira vez que alguém vinha dar alguma coisa à Gulbenkian, porque normalmente só vinham pedir..."
Maria do Rosário Pedreira, no blogue "Horas Extraordinárias" (clicar para aceder)
domingo, 30 de janeiro de 2011
Colóquio Internacional Sophia de Mello Breyner


O Colóquio Internacional Sophia de Mello Breyner, promovido por iniciativa de Maria Andresen de Sousa Tavares, decorreu na Fundação Calouste Gulbenkian, nos dias 27 e 28 de Janeiro, e reuniu um elenco notável de oradores – estudiosos, investigadores, ensaístas lusófonos e estrangeiros, poetas – em torno da poesia de Sophia. Sophia – nome predestinado, no dizer de Eduardo Lourenço, significa “uma sabedoria mais funda que o próprio saber”.
O meu testemunho, enquanto participante, não pretende esgotar a apreciação de todas as intervenções, nem avaliar o conteúdo e o valor científico e académico das mesmas, mas, tão somente, partilhar o que mais me tocou na intensidade destes dois dias. Acima de tudo, pretendo assinalar que o grande número de participantes neste colóquio é um manifesto sinal de esperança para todos nós, portugueses. Num momento em que, cíclica e fatalmente, o país parece mergulhado numa “austera, apagada e vil tristeza”, a voz poética e ética de Sophia fala mais alto, mostrando a grandeza de uma língua e a capacidade transfiguradora e criadora da poesia. Essa manifestação de esperança foi reconhecida por Eduardo Lourenço que, num discurso emotivo e lúcido, encerrou esta notável homenagem à poesia de Sophia, que, segundo ele, aconteceu ainda “a tempo”.
Partilho, então, convosco, os olhares e as leituras sobre/da palavra poética de Sophia, adoptando um critério assumidamente subjectivo, porque convergente com o meu modo de ler e interpretar Sophia.
Richard Zenith, um dos mais notáveis estudiosos da obra poética de Fernando Pessoa, parte do poema “Ressurgiremos” para afirmar que a poesia de Sophia é “assertivamente cristã”, revestida de um catolicismo inicial, que remonta ao seu sentido primitivo, porque nada preocupada com dogmas. No entanto, no mesmo poema, são claras as alusões aos deuses pagãos que estabelecem um certo dialogismo com o universo cristão: Delphos, homóloga pagã de Jerusalém? Lugar de ressureição que substitui a própria Jerusalém?
José Manuel Mendes, representante da Associação Portuguesa de Escritores, referiu-se ao empenhamento de Sophia no ressurgir desta associação, em Julho de 1973, por ela considerada “lugar de encontro e de confronto”. O orador referiu-se ao empenhamento político-social da poetisa, à coexistência da ética e da poética e evocou uma série de considerações e palavras suas que reproduzo e que dispensam comentários: “É a poesia que me implica, que me faz ser no estar e me faz estar no ser. É a poesia que torna inteiro o meu estar na terra. E porque é a mais funda implicação do homem , no real, a poesia é necessariamente política – e fundamento da política.”; “Porque propõe ao homem a verdade e a inteireza do seu estar na terra toda a poesia é revolucionária.”; “Um provérbio Burundi diz: Uma palavra que está sempre na boca transforma-se em baba.”; “o poeta busca a relação verdadeira com os outros homens”, “a política não pode nunca programar a poesia”…
Isabel Almeida, Professora da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, iniciou a sua comunicação intitulada “Sophia e Camões – se nenhum amor pode ser perdido”, partindo do pressuposto de que a poesia também se faz de poesia. Lembrando os poemas de Sophia que evocam a figura de Camões – “Gruta de Camões”, “Soneto à maneira de Camões”, “Camões e a tença” – a oradora recriou um singular diálogo entre os dois poetas que se estendeu à epopeia camoniana, reconhecendo que há na poesia de Sophia ecos de epopeia. Sublinhou que é em Macau, em 1977, aquando da Celebração do Dia de Camões, que Sophia, no seu discurso de participação, nos desvenda a sua descoberta de antiquíssimos ideais que ela partilha com o grande poeta. Ele é e será, então, o vate com quem aprende a ver.
Com António Tabucchi, escritor italiano de Literatura Portuguesa na Universidade de Pisa, embarcámos numa viagem à Grécia – Delphos, Knossos – onde, segundo confessa, a evocação de Sophia não aconteceu logo à chegada, mas onde a geometria, o rigor e a ética dos lugares em tudo se assemelhavam à “elegância” que emanava da figura de Sophia. Curiosamente, o orador explica-nos que, ao viver a aventura atlântica, Portugal esqueceu a baía mediterrânica, onde se localizava a Grécia, lugar de exacta geometria. Para o orador, foi Sophia quem se lembrou da Grécia e foi aí que ela “descobriu” que o que acontecia ao seu país já tinha acontecido na Grécia – consciência de uma tragédia, da qual Salazar – Creonte – é figura central. Sophia percebera Portugal em Delphos.
Clara Rocha, na qualidade de herdeira do espólio do pai, Miguel Torga, interpreta, de forma comovente e comovida, as vozes de Torga e Sofia que se elevam de excertos da correspondência entre ambos trocada, assinalando, sobretudo, o modo como um viu, no outro, o rosto da poesia. Nessa sua interpretação, atrever-me-ei a dizer, nessa sua narração dramática, a professora universitária, dirigindo-se a toda a plateia, mas com o olhar inequivocamente centrado em Maria Andresen, recordou vários episódios e circunstâncias que marcaram esta sólida relação dos dois poetas e amigos: a sintonia de uma poesia de inflexões pessoais, a valorização da dicção clara e rigorosa da palavra poética, a imprescindibilidade da figura do outro na formação da sua própria identidade, mas também a necessidade da obra de cada um na formação da identidade colectiva.
Para concluir esta partilha, não poderia deixar de referir a “Mesa dos Poetas”, moderada por Miguel Sousa Tavares, que também testemunhou o valor que a palavra poética dita tinha para Sophia, ao recordar um episódio da sua infância: a sua actuação de “diseur”, num sarau do colégio que frequentava, levou a mãe a abandonar a sala… Obviamente que esta íntima memória animou o auditório, mas destaco, do conjunto dos poetas que o rodeavam, as figuras de Nuno Júdice e Ana Luísa Amaral. O primeiro testemunhou que a sua especial atenção ao som da palavra e da sílaba poéticas a deve a Sophia. A segunda recorda que, na sua infância, no seu angustiado “exílio” no Porto, descobriu Sophia, nas páginas de “O Cavaleiro da Dinamarca”. O título do livro de Sophia prometia-lhe a aventura de um possível regresso ao seu espaço natal, resgatada por um cavaleiro que ela iria, certamente, encontrar à medida que a leitura do livro avançasse. Ficou, também, a promessa de Ana Luísa de me enviar o seu poético texto.
Finalmente, deixo o convite para visitarem a exposição patente na Biblioteca Nacional até 30 de Abril e cuja apresentação está aqui: http://www.bnportugal.pt/ ou consultarem o número de Janeiro da Revista Colóquio/Letras em parte dedicada a Sophia de Mello Breyner Andresen.
Partilho, então, convosco, os olhares e as leituras sobre/da palavra poética de Sophia, adoptando um critério assumidamente subjectivo, porque convergente com o meu modo de ler e interpretar Sophia.
Richard Zenith, um dos mais notáveis estudiosos da obra poética de Fernando Pessoa, parte do poema “Ressurgiremos” para afirmar que a poesia de Sophia é “assertivamente cristã”, revestida de um catolicismo inicial, que remonta ao seu sentido primitivo, porque nada preocupada com dogmas. No entanto, no mesmo poema, são claras as alusões aos deuses pagãos que estabelecem um certo dialogismo com o universo cristão: Delphos, homóloga pagã de Jerusalém? Lugar de ressureição que substitui a própria Jerusalém?
José Manuel Mendes, representante da Associação Portuguesa de Escritores, referiu-se ao empenhamento de Sophia no ressurgir desta associação, em Julho de 1973, por ela considerada “lugar de encontro e de confronto”. O orador referiu-se ao empenhamento político-social da poetisa, à coexistência da ética e da poética e evocou uma série de considerações e palavras suas que reproduzo e que dispensam comentários: “É a poesia que me implica, que me faz ser no estar e me faz estar no ser. É a poesia que torna inteiro o meu estar na terra. E porque é a mais funda implicação do homem , no real, a poesia é necessariamente política – e fundamento da política.”; “Porque propõe ao homem a verdade e a inteireza do seu estar na terra toda a poesia é revolucionária.”; “Um provérbio Burundi diz: Uma palavra que está sempre na boca transforma-se em baba.”; “o poeta busca a relação verdadeira com os outros homens”, “a política não pode nunca programar a poesia”…
Isabel Almeida, Professora da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, iniciou a sua comunicação intitulada “Sophia e Camões – se nenhum amor pode ser perdido”, partindo do pressuposto de que a poesia também se faz de poesia. Lembrando os poemas de Sophia que evocam a figura de Camões – “Gruta de Camões”, “Soneto à maneira de Camões”, “Camões e a tença” – a oradora recriou um singular diálogo entre os dois poetas que se estendeu à epopeia camoniana, reconhecendo que há na poesia de Sophia ecos de epopeia. Sublinhou que é em Macau, em 1977, aquando da Celebração do Dia de Camões, que Sophia, no seu discurso de participação, nos desvenda a sua descoberta de antiquíssimos ideais que ela partilha com o grande poeta. Ele é e será, então, o vate com quem aprende a ver.
Com António Tabucchi, escritor italiano de Literatura Portuguesa na Universidade de Pisa, embarcámos numa viagem à Grécia – Delphos, Knossos – onde, segundo confessa, a evocação de Sophia não aconteceu logo à chegada, mas onde a geometria, o rigor e a ética dos lugares em tudo se assemelhavam à “elegância” que emanava da figura de Sophia. Curiosamente, o orador explica-nos que, ao viver a aventura atlântica, Portugal esqueceu a baía mediterrânica, onde se localizava a Grécia, lugar de exacta geometria. Para o orador, foi Sophia quem se lembrou da Grécia e foi aí que ela “descobriu” que o que acontecia ao seu país já tinha acontecido na Grécia – consciência de uma tragédia, da qual Salazar – Creonte – é figura central. Sophia percebera Portugal em Delphos.
Clara Rocha, na qualidade de herdeira do espólio do pai, Miguel Torga, interpreta, de forma comovente e comovida, as vozes de Torga e Sofia que se elevam de excertos da correspondência entre ambos trocada, assinalando, sobretudo, o modo como um viu, no outro, o rosto da poesia. Nessa sua interpretação, atrever-me-ei a dizer, nessa sua narração dramática, a professora universitária, dirigindo-se a toda a plateia, mas com o olhar inequivocamente centrado em Maria Andresen, recordou vários episódios e circunstâncias que marcaram esta sólida relação dos dois poetas e amigos: a sintonia de uma poesia de inflexões pessoais, a valorização da dicção clara e rigorosa da palavra poética, a imprescindibilidade da figura do outro na formação da sua própria identidade, mas também a necessidade da obra de cada um na formação da identidade colectiva.
Para concluir esta partilha, não poderia deixar de referir a “Mesa dos Poetas”, moderada por Miguel Sousa Tavares, que também testemunhou o valor que a palavra poética dita tinha para Sophia, ao recordar um episódio da sua infância: a sua actuação de “diseur”, num sarau do colégio que frequentava, levou a mãe a abandonar a sala… Obviamente que esta íntima memória animou o auditório, mas destaco, do conjunto dos poetas que o rodeavam, as figuras de Nuno Júdice e Ana Luísa Amaral. O primeiro testemunhou que a sua especial atenção ao som da palavra e da sílaba poéticas a deve a Sophia. A segunda recorda que, na sua infância, no seu angustiado “exílio” no Porto, descobriu Sophia, nas páginas de “O Cavaleiro da Dinamarca”. O título do livro de Sophia prometia-lhe a aventura de um possível regresso ao seu espaço natal, resgatada por um cavaleiro que ela iria, certamente, encontrar à medida que a leitura do livro avançasse. Ficou, também, a promessa de Ana Luísa de me enviar o seu poético texto.
Finalmente, deixo o convite para visitarem a exposição patente na Biblioteca Nacional até 30 de Abril e cuja apresentação está aqui: http://www.bnportugal.pt/ ou consultarem o número de Janeiro da Revista Colóquio/Letras em parte dedicada a Sophia de Mello Breyner Andresen.
Fica também a reportagem da SIC:
Auxília Ramos
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
"La Cathédrale Engloutie"

Para ler com banda sonora (aqui)
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O silêncio é profundo, espesso e já ensurdecedor. O silêncio torna-se leve, pouco a pouco, e tudo o que nos parecia ensurdecedor se transforma. Aqui, os peixes são como murmúrios de tempos outrora felizes. Caminham entre os corais de mil cores esverdeadas, e entendo-lhes o sorriso de um mundo fascinante de calma aquática. Mais longe, no céu, uma espécie de grande pérola ilumina este ilusório abismo, e cresce, cresce. Na tona da água, um velho risonho, de remos enrugados, segue a sua viagem, sem destino concreto, sem qualquer outros sonhos a desejar, como se a vida já não lhe chegasse. Cerca com os olhos gastos de tantas tristezas do mundo os peixes e os seus sorrisos. Talvez pense que podia ser um deles, não um homem outrora feliz, mas um peixe agora feliz.
O silêncio é profundo, espesso e já ensurdecedor. É leve, pouco a pouco. Os peixes caminham entre destroços de um lugar de murmúrios de tempos outrora felizes. Iluminam-se primeiro alguns pináculos, aparecendo do abismo, depois o pigmento de um mundo inteiro. A Catedral submersa! Toda a vida oceânica se enche de um manancial de abundância, numa explosão colorida de breves feixes de luz, um arco-íris desordenado e marítimo. A terra move-se, em torno, e cresce, cresce. Os rochedos rasgam-se, as plantas esvoaçam, os crustáceos rangem e as baleias embalam o ritmo. A agitação das águas afaga o barco do pequeno velho. Este, sem mais demoras, rema tanto quando pode como se adivinhasse o seu destino. Do seu bote avistam-se já esses pináculos, e toda a Catedral se ergue do mar, trazendo consigo a agitação aquática que a envolve. A Catedral Submersa regressa ao sítio onde outrora fora feliz. E o velho pára, olha em redor, sorri… e regressa aos tempos outrora felizes. E o velho pára, uma vez mais, e reconhece os tempos em que outrora fora feliz. Num breve segundo que ficou suspenso, a Catedral envolve-se no seu próprio canto e retorna ao mar como que sugada rapidamente. O velho risonho, entre as ondas, torna a si e tenta, num último esforço, remar. Para um homem de olhos gastos, as ondas são fortes rivais. E depois, num momento de lucidez, deixa-se ficar, permanece quieto. Pensa em tanto quanto pode, fecha os olhos e levanta-se. O mar engole tudo.
Uns dias mais tarde o corpo dá à costa e ninguém dá pela sua falta.
Os amigos haviam já sofrido o mesmo fim. O velho sozinho e risonho tornara-se o que desejara, um peixe feliz, como nunca fora, num lugar feliz, onde nunca estivera. “O mundo devia ser feliz” murmurou, lá do fundo.
A Catedral não voltou a aparecer durante anos, talvez porque ninguém precisava dela, ou talvez porque ninguém podia abdicar das pessoas que sentem a nossa falta. De qualquer modo, quando a Catedral regressou, foi por tão pouco tempo, que apenas aqueles que se aperceberam da calma e da paz que ressoavam por esses dias repararam nela.
O silêncio é profundo, espesso e já ensurdecedor. É leve, pouco a pouco. Os peixes caminham entre destroços de um lugar de murmúrios de tempos outrora felizes. Iluminam-se primeiro alguns pináculos, aparecendo do abismo, depois o pigmento de um mundo inteiro. A Catedral submersa! Toda a vida oceânica se enche de um manancial de abundância, numa explosão colorida de breves feixes de luz, um arco-íris desordenado e marítimo. A terra move-se, em torno, e cresce, cresce. Os rochedos rasgam-se, as plantas esvoaçam, os crustáceos rangem e as baleias embalam o ritmo. A agitação das águas afaga o barco do pequeno velho. Este, sem mais demoras, rema tanto quando pode como se adivinhasse o seu destino. Do seu bote avistam-se já esses pináculos, e toda a Catedral se ergue do mar, trazendo consigo a agitação aquática que a envolve. A Catedral Submersa regressa ao sítio onde outrora fora feliz. E o velho pára, olha em redor, sorri… e regressa aos tempos outrora felizes. E o velho pára, uma vez mais, e reconhece os tempos em que outrora fora feliz. Num breve segundo que ficou suspenso, a Catedral envolve-se no seu próprio canto e retorna ao mar como que sugada rapidamente. O velho risonho, entre as ondas, torna a si e tenta, num último esforço, remar. Para um homem de olhos gastos, as ondas são fortes rivais. E depois, num momento de lucidez, deixa-se ficar, permanece quieto. Pensa em tanto quanto pode, fecha os olhos e levanta-se. O mar engole tudo.
Uns dias mais tarde o corpo dá à costa e ninguém dá pela sua falta.
Os amigos haviam já sofrido o mesmo fim. O velho sozinho e risonho tornara-se o que desejara, um peixe feliz, como nunca fora, num lugar feliz, onde nunca estivera. “O mundo devia ser feliz” murmurou, lá do fundo.
A Catedral não voltou a aparecer durante anos, talvez porque ninguém precisava dela, ou talvez porque ninguém podia abdicar das pessoas que sentem a nossa falta. De qualquer modo, quando a Catedral regressou, foi por tão pouco tempo, que apenas aqueles que se aperceberam da calma e da paz que ressoavam por esses dias repararam nela.
Ana Luísa, 12E
(Enviado por Auxília Ramos)
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
Um cê a mais
Quando eu escrevo a palavra ação, por magia ou pirraça, o computador retira automaticamente o c na pretensão de me ensinar a nova grafia. De forma que, aos poucos, sem precisar de ajuda, eu próprio vou tirando as consoantes que, ao que parece, estavam a mais na língua portuguesa. Custa-me despedir-me daquelas letras que tanto fizeram por mim. São muitos anos de convívio. Lembro-me da forma discreta e silenciosa como todos estes cês e pês me acompanharam em tantos textos e livros desde a infância. Na primária, por vezes gritavam ofendidos na caneta vermelha da professora: não te esqueças de mim! Com o tempo, fui-me habituando à sua existência muda, como quem diz, sei que não falas, mas ainda bem que estás aí. E agora as palavras já nem parecem as mesmas. O que é ser proativo? Custa-me admitir que, de um dia para o outro, passei a trabalhar numa redação, que há espetadores nos espetáculos e alguns também nos frangos, que os atores atuam e que, ao segundo ato, eu ato os meus sapatos.
Depois há os intrusos, sobretudo o erre, que tornou algumas palavras arrevesadas e arranhadas, como neorrealismo ou autorretrato. Caíram hifenes e entraram erres que andavam errantes. É uma união de facto, para não errar tenho a obrigação de os acolher como se fossem família. Em 'há de' há um divórcio, não vale a pena criar uma linha entre eles, porque já não se entendem. Em veem e leem, por uma questão de fraternidade, os és passaram a ser gémeos, nenhum usa chapéu. E os meses perderam importância e dignidade, não havia motivo para terem privilégios, janeiro, fevereiro, março são tão importantes como peixe, flor, avião. Não sei se estou a ser suscetível, mas sem p algumas palavras são uma autêntica deceção, mas por outro lado é ótimo que já não tenham.
As palavras transformam-nos. Como um menino que muda de escola, sei que vou ter saudades, mas é tempo de crescer e encontrar novos amigos. Sei que tudo vai correr bem, espero que a ausência do cê não me faça perder a direção, nem me fracione, nem quero tropeçar em algum objeto abjeto. Porque, verdade seja dita, hoje em dia, não se pode ser atual nem atuante com um cê a atrapalhar.
Depois há os intrusos, sobretudo o erre, que tornou algumas palavras arrevesadas e arranhadas, como neorrealismo ou autorretrato. Caíram hifenes e entraram erres que andavam errantes. É uma união de facto, para não errar tenho a obrigação de os acolher como se fossem família. Em 'há de' há um divórcio, não vale a pena criar uma linha entre eles, porque já não se entendem. Em veem e leem, por uma questão de fraternidade, os és passaram a ser gémeos, nenhum usa chapéu. E os meses perderam importância e dignidade, não havia motivo para terem privilégios, janeiro, fevereiro, março são tão importantes como peixe, flor, avião. Não sei se estou a ser suscetível, mas sem p algumas palavras são uma autêntica deceção, mas por outro lado é ótimo que já não tenham.
As palavras transformam-nos. Como um menino que muda de escola, sei que vou ter saudades, mas é tempo de crescer e encontrar novos amigos. Sei que tudo vai correr bem, espero que a ausência do cê não me faça perder a direção, nem me fracione, nem quero tropeçar em algum objeto abjeto. Porque, verdade seja dita, hoje em dia, não se pode ser atual nem atuante com um cê a atrapalhar.
Manuel Halpern, jornalista e crítico do Jornal de Letras, Artes e Ideias
(Enviado por Auxília Ramos)
sábado, 8 de janeiro de 2011
Receita de Ano Novo

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
Carlos Drummond de Andrade
(Enviado por Hélder Moreira)
quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
sábado, 25 de dezembro de 2010
É Natal no mundo...

(João Rodrigues, in www.olhares.com)
Era uma tarde do fim de Novembro, já sem nenhum Outono.
A cidade erguia as suas paredes de pedras escuras. O céu estava alto, desolado, cor de frio. Os homens caminhavam empurrando-se uns aos outros nos passeios. Os carros passavam depressa.
Deviam ser quatro horas da tarde de um dia sem sol nem chuva.
Havia muita gente na rua naquele dia. Eu caminhava no passeio, depressa. A certa altura encontrei-me atrás de um homem muito pobremente vestido que levava ao colo uma criança loira, uma daquelas crianças cuja beleza quase não se pode descrever. É a beleza de uma madrugada de Verão, a beleza de uma rosa, a beleza do orvalho, unidas à incrível beleza de uma inocência humana. Instintivamente o meu olhar ficou um momento preso na cara da criança.
Mas o homem caminhava muito devagar e eu, levada pelo movimento da cidade, passei à sua frente. Mas ao passar voltei a cabeça para trás para ver mais uma vez a criança.
Foi então que vi o homem. Imediatamente parei. Era um homem extraordinariamente belo, que devia ter trinta anos e em cujo rosto estavam inscritos a miséria, o abandono, a solidão. O seu fato, que tendo perdido a cor tinha ficado verde, deixava adivinhar um corpo comido pela fome. O cabelo era castanho-claro, apartado ao meio, ligeiramente comprido. A barba por cortar há muitos dias crescia em ponta. Estreitamente esculpida pela pobreza, a cara mostrava o belo desenho dos ossos. Mas mais belos do que tudo eram os olhos, os olhos claros, luminosos de solidão e de doçura. No próprio instante em que eu o vi, o homem levantou a cabeça para o céu.
Como contar o seu gesto?
Era um céu alto, sem resposta, cor de frio. O homem levantou a cabeça no gesto de alguém que, tendo ultrapassado um limite, já nada tem para dar e se volta para fora procurando uma resposta: A sua cara escorria sofrimento. A sua expressão era simultaneamente resignação, espanto e pergunta. Caminhava lentamente, muito lentamente, do lado de dentro do passeio, rente ao muro. Caminhava muito direito, como se todo o corpo estivesse erguido na pergunta. Com a cabeça levantada, olhava o céu. Mas o céu eram planícies e planícies de silêncio.
Tudo isto se passou num momento e, por isso, eu, que me lembro nitidamente do fato do homem, da sua cara, do seu olhar e dos seus gestos, não consigo rever com clareza o que se passou dentro de mim. Foi como se tivesse ficado vazia olhando o homem.
A multidão não parava de passar. Era o centro do centro da cidade. O homem estava sozinho, sozinho. Rios de gente -passavam sem o ver.
Só eu tinha parado, mas inutilmente. O homem não me olhava. Quis fazer alguma coisa, mas não sabia o quê. Era como se a sua solidão estivesse para além de todos os meus gestos, como se ela o envolvesse e o separasse de mim e fosse tarde de mais para qualquer palavra e já nada tivesse remédio. Era como se eu tivesse as mãos atadas. Assim às vezes nos sonhos queremos agir e não podemos.
O homem caminhava muito devagar. Eu estava parada no meio do passeio, contra o sentido da multidão.
Sentia a cidade empurrar-me e separar-me do homem. Ninguém o via caminhando lentamente, tão lentamente, com a cabeça erguida e com uma criança nos braços rente ao muro de pedra fria.
Agora eu penso no que podia ter feito. Era preciso ter decidido depressa. Mas eu tinha a alma e as mãos pesadas de indecisão. Não via bem. Só sabia hesitar e duvidar. Por isso estava ali parada, impotente, no meio do passeio. A cidade empurrava-me e um relógio bateu horas.
Lembrei-me de que tinha alguém à minha espera e que estava atrasada. As pessoas que não viam o homem começavam a ver-me a mim. Era impossível continuar parada.
_ Então, como o nadador que é apanhado numa corrente desiste de lutar e se deixa ir com a água, assim eu deixei de me opor ao movimento da cidade e me deixei levar pela onda de gente para longe do homem.
Mas enquanto seguia no passeio rodeada de ombros e cabeças, a imagem do homem continuava suspensa nos meus olhos. E nasceu em mim a sensação confusa de que nele havia alguma coisa ou alguém que eu reconhecia.
Rapidamente evoquei todos os lugares onde eu tinha vivido. Desenrolei para trás o filme do tempo. As imagens passaram oscilantes, um pouco trémulas e rápidas. Mas não encontrei nada. E tentei reunir e rever todas as memórias de quadros, de livros, de fotografias. Mas a imagem do homem continuava sozinha: a cabeça levantada que olhava o céu com uma expressão de infinita solidão, de abandono e de pergunta.
E do fundo da memória, trazidas pela imagem, muito devagar, uma por uma, inconfundíveis, apareceram as palavras:
- Pai, Pai, por que me abandonaste?
Então compreendi por que é que o homem que eu deixara para trás não era um estranho. A sua imagem era exactamente igual à outra imagem que se formara no meu espírito quando eu li:
- Pai, Pai, por que me abandonaste?
Era aquela a posição da cabeça, era aquele o olhar, era aquele o sofrimento, era aquele o abandono, aquela a solidão.
Para além da dureza e das traições dos homens, para além da agonia da carne, começa a prova do último suplício: o silêncio de Deus.
E os céus parecem desertos e vazios sobre as cidades escuras.
Voltei para trás. Subi contra a corrente o rio da multidão. Temi tê-lo perdido. Havia gente, 'gente, ombros, cabeças, ombros. Mas de repente vi-o.
Tinha parado, mas continuava a segurar a criança e a olhar o céu.
Corri, empurrando quase as pessoas. Estava já a dois passos dele. Mas nesse momento, exactamente, o homem caiu no chão. Da sua boca corria um rio de sangue e nos seus olhos havia ainda a mesma expressão de infinita paciência.
A criança caíra com ele e chorava no meio do passeio, escondendo a cara na saia do seu vestido manchado de sangue.
Então a multidão parou e formou um círculo à volta do homem. Ombros mais fortes do que os meus empurram-me para trás. Eu estava do lado de fora do círculo. Tentei atravessá-lo, mas não consegui. As pessoas apertadas umas contra as outras eram como um único corpo fechado. À minha frente estavam homens mais altos do que eu que me impediam de ver. Quis espreitar, pedi licença, tentei empurrar, mas ninguém me deixou passar. Ouvi lamentações, ordens, apitos. Depois veio uma ambulância. Quando o círculo se abriu, o homem e a criança tinham desaparecido.
Então a multidão dispersou-se e eu fiquei no meio do passeio, caminhando para a frente, levada pelo movimento da cidade.
Muitos anos passaram. O homem certamente morreu. Mas continua ao nosso lado. Pelas ruas.
Sophia de Mello Breyner, in ”O Homem”, Contos Exemplares
Era uma tarde do fim de Novembro, já sem nenhum Outono.
A cidade erguia as suas paredes de pedras escuras. O céu estava alto, desolado, cor de frio. Os homens caminhavam empurrando-se uns aos outros nos passeios. Os carros passavam depressa.
Deviam ser quatro horas da tarde de um dia sem sol nem chuva.
Havia muita gente na rua naquele dia. Eu caminhava no passeio, depressa. A certa altura encontrei-me atrás de um homem muito pobremente vestido que levava ao colo uma criança loira, uma daquelas crianças cuja beleza quase não se pode descrever. É a beleza de uma madrugada de Verão, a beleza de uma rosa, a beleza do orvalho, unidas à incrível beleza de uma inocência humana. Instintivamente o meu olhar ficou um momento preso na cara da criança.
Mas o homem caminhava muito devagar e eu, levada pelo movimento da cidade, passei à sua frente. Mas ao passar voltei a cabeça para trás para ver mais uma vez a criança.
Foi então que vi o homem. Imediatamente parei. Era um homem extraordinariamente belo, que devia ter trinta anos e em cujo rosto estavam inscritos a miséria, o abandono, a solidão. O seu fato, que tendo perdido a cor tinha ficado verde, deixava adivinhar um corpo comido pela fome. O cabelo era castanho-claro, apartado ao meio, ligeiramente comprido. A barba por cortar há muitos dias crescia em ponta. Estreitamente esculpida pela pobreza, a cara mostrava o belo desenho dos ossos. Mas mais belos do que tudo eram os olhos, os olhos claros, luminosos de solidão e de doçura. No próprio instante em que eu o vi, o homem levantou a cabeça para o céu.
Como contar o seu gesto?
Era um céu alto, sem resposta, cor de frio. O homem levantou a cabeça no gesto de alguém que, tendo ultrapassado um limite, já nada tem para dar e se volta para fora procurando uma resposta: A sua cara escorria sofrimento. A sua expressão era simultaneamente resignação, espanto e pergunta. Caminhava lentamente, muito lentamente, do lado de dentro do passeio, rente ao muro. Caminhava muito direito, como se todo o corpo estivesse erguido na pergunta. Com a cabeça levantada, olhava o céu. Mas o céu eram planícies e planícies de silêncio.
Tudo isto se passou num momento e, por isso, eu, que me lembro nitidamente do fato do homem, da sua cara, do seu olhar e dos seus gestos, não consigo rever com clareza o que se passou dentro de mim. Foi como se tivesse ficado vazia olhando o homem.
A multidão não parava de passar. Era o centro do centro da cidade. O homem estava sozinho, sozinho. Rios de gente -passavam sem o ver.
Só eu tinha parado, mas inutilmente. O homem não me olhava. Quis fazer alguma coisa, mas não sabia o quê. Era como se a sua solidão estivesse para além de todos os meus gestos, como se ela o envolvesse e o separasse de mim e fosse tarde de mais para qualquer palavra e já nada tivesse remédio. Era como se eu tivesse as mãos atadas. Assim às vezes nos sonhos queremos agir e não podemos.
O homem caminhava muito devagar. Eu estava parada no meio do passeio, contra o sentido da multidão.
Sentia a cidade empurrar-me e separar-me do homem. Ninguém o via caminhando lentamente, tão lentamente, com a cabeça erguida e com uma criança nos braços rente ao muro de pedra fria.
Agora eu penso no que podia ter feito. Era preciso ter decidido depressa. Mas eu tinha a alma e as mãos pesadas de indecisão. Não via bem. Só sabia hesitar e duvidar. Por isso estava ali parada, impotente, no meio do passeio. A cidade empurrava-me e um relógio bateu horas.
Lembrei-me de que tinha alguém à minha espera e que estava atrasada. As pessoas que não viam o homem começavam a ver-me a mim. Era impossível continuar parada.
_ Então, como o nadador que é apanhado numa corrente desiste de lutar e se deixa ir com a água, assim eu deixei de me opor ao movimento da cidade e me deixei levar pela onda de gente para longe do homem.
Mas enquanto seguia no passeio rodeada de ombros e cabeças, a imagem do homem continuava suspensa nos meus olhos. E nasceu em mim a sensação confusa de que nele havia alguma coisa ou alguém que eu reconhecia.
Rapidamente evoquei todos os lugares onde eu tinha vivido. Desenrolei para trás o filme do tempo. As imagens passaram oscilantes, um pouco trémulas e rápidas. Mas não encontrei nada. E tentei reunir e rever todas as memórias de quadros, de livros, de fotografias. Mas a imagem do homem continuava sozinha: a cabeça levantada que olhava o céu com uma expressão de infinita solidão, de abandono e de pergunta.
E do fundo da memória, trazidas pela imagem, muito devagar, uma por uma, inconfundíveis, apareceram as palavras:
- Pai, Pai, por que me abandonaste?
Então compreendi por que é que o homem que eu deixara para trás não era um estranho. A sua imagem era exactamente igual à outra imagem que se formara no meu espírito quando eu li:
- Pai, Pai, por que me abandonaste?
Era aquela a posição da cabeça, era aquele o olhar, era aquele o sofrimento, era aquele o abandono, aquela a solidão.
Para além da dureza e das traições dos homens, para além da agonia da carne, começa a prova do último suplício: o silêncio de Deus.
E os céus parecem desertos e vazios sobre as cidades escuras.
Voltei para trás. Subi contra a corrente o rio da multidão. Temi tê-lo perdido. Havia gente, 'gente, ombros, cabeças, ombros. Mas de repente vi-o.
Tinha parado, mas continuava a segurar a criança e a olhar o céu.
Corri, empurrando quase as pessoas. Estava já a dois passos dele. Mas nesse momento, exactamente, o homem caiu no chão. Da sua boca corria um rio de sangue e nos seus olhos havia ainda a mesma expressão de infinita paciência.
A criança caíra com ele e chorava no meio do passeio, escondendo a cara na saia do seu vestido manchado de sangue.
Então a multidão parou e formou um círculo à volta do homem. Ombros mais fortes do que os meus empurram-me para trás. Eu estava do lado de fora do círculo. Tentei atravessá-lo, mas não consegui. As pessoas apertadas umas contra as outras eram como um único corpo fechado. À minha frente estavam homens mais altos do que eu que me impediam de ver. Quis espreitar, pedi licença, tentei empurrar, mas ninguém me deixou passar. Ouvi lamentações, ordens, apitos. Depois veio uma ambulância. Quando o círculo se abriu, o homem e a criança tinham desaparecido.
Então a multidão dispersou-se e eu fiquei no meio do passeio, caminhando para a frente, levada pelo movimento da cidade.
Muitos anos passaram. O homem certamente morreu. Mas continua ao nosso lado. Pelas ruas.
Sophia de Mello Breyner, in ”O Homem”, Contos Exemplares
terça-feira, 21 de dezembro de 2010
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