domingo, 25 de setembro de 2011

Livro do mês - setembro


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Clicar na próxima imagem, para aceder à descrição da obra, feita pelo próprio autor, Valter Hugo Mãe:

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Inédito de Saramago publicado em outubro


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A clarabóia, romance de juventude de José Saramago, chega às livrarias no dia 15 de outubro. Aqui fica, através da FJS, um pequeno excerto com as primeiras linhas:

domingo, 18 de setembro de 2011

António Lobo Antunes no Teatro São Luiz





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"Deste viver aqui neste palco escrito"
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Foram três dias (de 15 a 17 de setembro) de festa literária, com um programa multifacetado e preenchido: o espetáculo de Maria de Medeiros; o filme de Solveig Nordlund; a leitura posta em som por José Neves; o lançamento de Facts and Fictions of António Lobo Antunes, do centro de Cultura e Estudos Portugueses da Universidade de Massachussetts, e uma mesa redonda, moderada por Maria Alzira Seixo e que contou com a participação de João Lobo Antunes e Eduardo Lourenço.

O jardim de inverno do São Luiz, mergulhado na poalha de luz do crepúsculo, encheu-se de mesas atentas e de um silêncio nervoso e suspenso. Num ambiente intimista e informal, que contou com a presença do escritor homenageado, Maria Alzira Seixo conduziu a conversa sobre a obra e os temas antonianos.



Phillip Rothwell referiu-se, na sua intervenção, à importância da memória nas crónicas e nos romances de Lobo Antunes. Segundo este investigador, a imaginação do autor é uma forma de organização da própria memória. De facto, embora parta de um campo referencial autobiográfico, o escritor parece despersonalizar-se e apagar a noção de individualidade da escrita, desconstruindo-se, numa temporalidade íntima que se converte em intemporalidade e desejo de posteridade. Um dos aspetos mais interessantes que o especialista fez notar prende-se com a omnipresença da imagem do relógio, numa intrigante reconfiguração do próprio texto e confirmando a suspeita de que a memória é a principal matéria da narração.


Seguiu-se João Lobo Antunes, irmão do escritor, que se deteve especialmente sobre o caráter autopatográfico do livro Sôbolos rios que vão. É uma narrativa, quase tchekhoviana, da doença que enfrentou em 2009, urdida ao longo de uma diacronia caótica, de coerência tensa, abundante em personagens e em alusões autobiográficas. O herói é o narrador que se refugia nas memórias da infância, nos fragmentos do património familiar. Neles encontra a principal matéria para a rede metafórica sobre a qual se funda a linguagem do romance. João Lobo Antunes, o médico, ressalta o poder de imagens como a do "ouriço", a que o autor recorre para se referir ao "cancro", ou a da "peça teatral" para designar a doença, ou ainda a do "nevoeiro" para a anestesia. Metáforas biológicas inusitadas e inaugurais. Conclui, comparando António, o irmão mais velho, a Ulisses e a D.Quixote, e a doença à viagem. Depois de errar durante muito tempo, Ulisses regressa a Ítaca e a Penélope, encontrando finalmente o porto tranquilo...





Maria Alzira Seixo, por seu turno, centrou-se na exegese literária, desenvolvendo o topos da vacilação/proliferação. De ressonância camiliana, a linguagem antoniana é um terreno fértil em mutação, em hesitação. O discurso abre brechas, a sintaxe afetiva é notória: frases curtas, suspensas, cortadas, apenas completadas nas páginas seguintes; um labirinto que requer a paciência e sageza do leitor. A investigadora e especialista destaca, como obra-prima, Boa tarde às coisas aqui em baixo, a prova de que Lobo Antunes soube ler bem os clássicos e reinterpretá-los, inovando.

Por fim, Eduardo Lourenço, numa intervenção mitogónica e filosófica, apontou As Naus como obra de eleição. Nela diz ter o autor naufragado no luto do império perdido, convertendo essa memória épica em farsa burlesca. Os heróis perdidos são reciclados e o mundo surge sem os fumos da Índia. Já nas suas crónicas, Lobo Antunes, em laivos surrealizantes, constrói imagens como a de uma nuvem com raízes sempre a partir, ou a de um comboio mágico, que refletem um exercício de autocompreensão do seu próprio outro. A infância é o seu paraíso. E, mais uma vez, o papel da memória: o escritor tem o gesto de um deus que se suicidou na sua criação e que, como Deucalião, está em cada fragmento desse caos. O filósofo e ensaísta concluiu descrevendo a escrita de António Lobo Antunes como um "exercício épico da memória numa navegação sem bússola pelo arquipélago da desolação (...), entre o êxtase e o aniquilamento (...), até voltar a um nada de que não nasceu".
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Acordo ortográfico




O Lusografias escreve, a partir de hoje, de acordo com a nova norma ortográfica.

domingo, 11 de setembro de 2011

In memoriam



"Bartolomeu Lourenço de Gusmão - o padre inventor"




“Três, se não quatro, vidas diferentes tem o padre Bartolomeu Lourenço, e uma só apenas quando dorme, que mesmo no sonho foi o padre que sobe ao altar e diz canonicamente a missa, se o académico tão estimado que vai incógnito el-rei ouvir-lhe a oração por trás do reposteiro, no vão da porta, se o inventor da máquina de voar ou dos vários modos esgotar sem gente as naus que fazem água, se esse outro homem conjunto, mordido de sustos e dúvidas, que é pregador na igreja, erudito na academia, cortesão no paço, visionário e irmão de gente mecânica e plebeia em S. Sebastião da Pedreira, e que torna ansiosamente ao sonho para reconstruir uma frágil, precária unidade, estilhaçada mal os olhos se lhe abrem, nem precisa estar em jejum como Blimunda.” (Memorial do Convento, 33ª edição, Caminho).

É assim que, em Memorial do Convento, Saramago nos apresenta a figura de Bartolomeu Lourenço de Gusmão como o “padre voador” que, apesar de ser considerado louco (e “de louco todos temos um pouco”), não abandonou o seu sonho de voar – “Tenho sido a risada da corte e dos poetas, um deles, Tomás Pinto Brandão, chamou ao meu invento coisa de vento que se há-de acabar cedo, se não fosse a protecção de el-rei não sei o que seria de mim, mas el-rei acreditou na minha máquina e tem consentido que, na quinta do duque Aveiro, a S. Sebastião da Pedreira, eu faça os meus experimentos” (Memorial do Convento, 33ª edição, Caminho, p.64). Mais adiante, no romance, o narrador recria o real, através da sua imaginação criadora e relembra o voo experimental da passarola, ao mesmo tempo que se apropria da voz do seu inventor – “e assim pôde ver afastar-se a terra a uma velocidade incrível, já mal se distinguia a quinta, logo perdida entre colinas, e aquilo além, que é, Lisboa, claro está, e o rio, oh, o mar, aquele mar por onde eu, Bartolomeu Lourenço de Gusmão, vim por duas vezes do Brasil, o mar por onde viajei à Holanda, a que mais continentes da terra e do ar me levarás tu, máquina, o vento ruge-me aos ouvidos, nunca ave alguma subiu tão alto, se me visse el-rei, se me visse aquele Tomás Pinto Brandão que se riu de mim em verso, se o Santo Ofício me visse, saberiam todos que sou filho predilecto de Deus, eu sim, eu que estou subindo ao céu por obra do méu génio, por obra também dos olhos de Blimunda, se haverá no céu olhos como eles, por obra da mão direita de Baltasar, aqui te levo, Deus, um que também não tem a mão esquerda, Blimunda, Baltasar, venham ver, levantem-se daí, não tenham medo.” (p.198)

Foi, recentemente, lançado no Brasil o livro “Bartolomeu Lourenço de Gusmão - o padre inventor” que reúne documentação manuscrita existente na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra sobre o referido sacerdote e cientista, bem como documentos da sua própria autoria. A edição exibe fac-símiles desses vários documentos e textos sobre o notável físico português Carlos Fiolhais.
Para alargar os conhecimentos sobre a recente obra publicada e a história deste padre inventor, podem aceder ao link:

Ler | Setembro



quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Sugestões de leitura




Os lindos braços da Júlia da farmácia, Rentes de Carvalho

Foi há alguns meses que ouvi falar, pela primeira vez, de Rentes de Carvalho, em conversa com uma amiga a quem lhe tinha sido “apresentado” o escritor, pelo crítico de cinema Mário Augusto. Confesso que, na altura, fiquei curiosa com o que me contou sobre a sua prosa, mas o tempo foi meu inimigo e só em férias iniciei a descoberta do autor. Não perco tempo em apresentações. Os mais curiosos podem “googlar” o nome do escritor e facilmente acedem à sua identidade civil e literária. Interessa-me mais despertar a atenção para um conjunto de pequenas narrativas que integram a sua última publicação – “Os lindos braços da Júlia da farmácia”.


Curiosamente, o título da obra é o título do mais breve conto desta colectânea que se caracteriza por uma série de narrativas que revelam o essencial sobre Rentes de Carvalho – um brilhante contador de histórias. São histórias que têm por base memórias de vida, não esquecendo o seu lado ficcional. Como diz o próprio autor numa entrevista – “Mas eu minto muito. Desde miúdo que minto como o diabo, ninguém deve acreditar em mim. As minhas confissões são uma chapa de aço. De vez em quando surpreendo-me porque sei que estou a mentir a mim próprio, e acho graça.”


Verdades ou mentiras, ao lermos “Os lindos braços da Júlia da Farmácia”, viajamos por Trás-os-Montes, pelo Minho (com uma breve incursão na festa de S. Bento de Seixas!), conhecemos os meandros da vida dos amantes do jogo ou dos contrabandistas das margens do rio Minho, sorrimos com pormenores de uma infância na província, comovemo-nos com memórias nas quais se sente “o delicado equilíbrio que [ele] mantém entre a realidade e a fantasia.” , revisitamos outros romancistas (Eça de Queirós), lembramos o incêndio do Chiado, em Lisboa, aventuramo-nos por outras cidades europeias…


O restante, descubram vocês! Boa leitura!

Auxília Ramos

quarta-feira, 27 de julho de 2011

valter hugo mãe emociona-se em Paraty

valter hugo mãe no Festival Literário Internacional de Paraty, no Brasil.

Vale a pena ver até ao fim... aqui.

E, já agora, a entrevista com Judite de Sousa (clicar para aceder).

quarta-feira, 6 de julho de 2011

sábado, 18 de junho de 2011

Um ano sem Saramago...

"Mas não subiu para as estrelas, se à terra pertencia."

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Aniversário de Fernando Pessoa




Casa Aberta, na Casa Fernando Pessoa

domingo, 12 de junho de 2011

David Mourão-Ferreira

Avizinha-se o aniversário da sua morte (16 de Junho de 1996)



(Clicar na imagem para ver e ouvir a interpretação de Paulo Condessa)

"Por vezes" - "Um poema por semana", iniciativa de Paula Moura Pinheiro

quinta-feira, 2 de junho de 2011

domingo, 22 de maio de 2011

Diário(s) - 10ºAno



Três das características fundamentais dos diários escritos sem perspectiva de publicação são a fragmentaridade, a espontaneidade do discurso e transgenerecidade. Tendo em conta estes três aspectos, propus aos alunos que assumissem, através da escrita, identidades fictícias, e que lhes dessem corpo através da escrita de uma entrada de diário (que poderia ser mais ou menos narrativo, mais ou menos intimista). Visava-se apenas o eco de uma voz sem corpo, consumado na página como um clarão; como uma parcela de uma vida apenas imaginada.
Os textos apresentados primam pela diversidade de propostas oferecidas, mesmo quando a identidade fictícia é a mesma. Tudo resulta da capacidade de abandonarmos momentaneamente a nossa linguagem, para sermos, momentaneamente, outros – e assim crescermos em compreensão daqueles que nos rodeiam.


Hélder Moreira


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1.


30 de Fevereiro de 1999

Querido Diário,
Tenho andado aos encontros e pisadelas por cima de mim mesmo. As palavras já não me respondem. E, sabes, as pessoas também são as palavras que usam. Por isso, de que me serve elaborar uma longa e inútil lista do que eu sou ou do que julgo ser? Eu sou eu embora já não seja eu, porque o que fui foi. Mas… São as palavras que me servem de espelho. Só nelas posso desvendar a minha face. Voltem! Falem comigo! Abracem-me! Façam-me feliz! Levem-me onde quiserem. Quero-vos! Por agora, o meu único trabalho é não entristecer. Finjo. Sou poeta e só sei fingir. Onde estará o valor das palavras que se dizem leais e, depois, se traduzem em traição?
Possivelmente, este episódio sorumbático da minha vida justifica-se pelo facto de ter brincado com ela e depois a ter perseguido. Cheguei a atirá-la ao ar e depois transformei-a, deixa-a escapar e voltei a capturá-la, cobria-a de fantasia e dei-lhe asas de paradoxo.
Quero voltar ao tempo em que os meus dedos se sentiam cansados (de tanto escrever) e só lhes apetecia viver – o cérebro desligava-se e eu gozava a vida exclusivamente pelos sentidos.
Sabes que mais? A minha prioridade é ser e não parecer. Aqui está a minha alma preta, a minha alma escrita.
Diana Balbino, 10ºD



2.


12 de Julho de 1974


Acordei, mas sentia-me leve. Muito leve. Como se não tivesse alma que me suportasse. Olhei pela janela e apenas vi nuvens. Nuvens brancas. Naquele momento, não senti qualquer tipo de motivação. Sentia-me morto. Não me desperta particular curiosidade o que outrora fui. Preocupa-me, sim, o que vivo e sou agora, o que consigo seleccionar melhor da minha escrita. Essa escrita que me deixou. Sem querer ser voluntariamente irónico, a vida que me é proporcionada hoje não me oferece muitos momentos de inércia e a sensação de “deserto” aparente não existe. A rotina, os hábitos implementados, as relações interpessoais e as suas envolvências, as obrigações que me exigem, os problemas e a rapidez com que tudo tem de ser executado, estão a absorver a minha capacidade de interiorização. Talvez.
Sinto que, hoje, as trevas estão comigo e me levaram o que de melhor tenho. Como quem me arranca o coração, a minha inspiração esvaiu-se em sangue. Que dor esta… Sem qualquer propósito, encontro-me num espaço amplo sem oásis à vista. Estático no tempo. Entristeço-me como folhear das páginas brancas da minha criatividade. Sem justificação aparente, identifico-me com esse isolamento fictício em que vivo. No meu deserto preenchido. Que as intempéries me desviem de caminhos tortuosos e me conduzam a bons portos. Que os ventos me agitem e me acordem quando a minha imaginação for assolada por pesadelos. E que as estrelas, na noite silenciosa, me acompanhem e sejam a minha inspiração para dar corpo a estas folhas puras.
Filipa Barbosa, 10ºE



3.




Póvoa, 16 de Março (Quinta-feira)

Já passaram quase três semanas e eu lembro-me de todos os pormenores como se tudo tivesse ocorrido há apenas 5 minutos. É como se desde então desperdiçasse todos os meus segundos a reviver aquele momento, aquele exíguo momento que transformou a minha vida. É terrível!
O pânico que senti enquanto rasgava o ar, a insegurança após o acordar, o pudor que todos aqueles olhares atribulados causaram em mim ao me verem prostrada no chão. São agora instantes enclausurados em mim. E o medo de adormecer, de mergulhar mais uma vez nestas recordações, permanece, assíduo e inalterável, todas as noites, sem excepção.
Mas hoje, pela primeira vez, arrisquei. Arrisquei voltar a fazer aquilo de que mais gosto, na esperança de recuperar o meu mundo e terminar com este pesadelo. Porém, enquanto elevava, vagarosamente, o meu corpo do solo, aquelas imagens reapareciam na minha mente, o meu coração acelerava e o terror invadia-me. Fracassei. Mais uma vez. E começo a acreditar que se torna cada vez mais inatingível a reconquista da minha vida. Sinto o meu mundo a converter-se numa utopia. E tudo isto está a desmoronar-me e a conduzir-me a um universo de questões para as quais não encontro resposta.
O que será de mim se não conseguir superar este drama? O que farei o resto do meu tempo? Longe daquele trapézio, sinto-me envolta num vácuo que me consome. Serei capaz de alguma vez voar sobre este nefasto episódio que se interpôs entre mim e a minha verdadeira vida? Ou terá sido esta queda algo mais do que um pavoroso sobressalto?
Daniela Santos, 10ºC



4.


Pequim, 8 de Janeiro de 2002

Para quem escrevo? Ou melhor… Porque escrevo sobre mim, quando tenho a perfeita noção de que não sou tema para um bestseller?
No entanto, escrevo. Escrevo para ninguém… Escrevo da mesma forma que falo, com o único objectivo de me expressar e com uma única diferença: quando falo, as quatro paredes que me rodeiam ouvem-me. Escrevo, porque quero passar o mais velozmente possível o pouco tempo que ainda me resta… Não vale a pena poupar os segundos ou fazê-los render, porque é inútil e só tornaria esta espera ainda mais sofrida e miserável.
Não quero tornar a minha escrita enfadonha, mas as circunstâncias forçam-me a contar-vos como cheguei até aqui. Prometo que serei breve nos relatos. – Meu Deus! Sinto-me como se tivesse enlouquecido. Afinal de contas, é como se estivesse a conversar com um amigo imaginário. – Mas prosseguindo: Há um ano, eu e um grande amigo meu, Jack Smith, chefiávamos um escritório de advogados quando nos surgiu um novo cliente, pedindo que o ilibássemos de umas acusações graves que o identificavam como cabecilha de uma rede de tráfico de órgãos (como era óbvio, as acusações eram verdadeiras) e, infelizmente, o Jack envolveu-se demasiado no caso, acabando morto e eu incriminado pela sua morte.
Tal como o meu pai havia dito, nunca devia ter partido de Los Angeles.
No entanto, e para vos ser sincero, não me sinto revoltado ou deprimido por estar aqui sozinho, por não ter notícias da minha família, por me sentir injustiçado, ou por saber que vou morrer amanhã… Esse tempo de fúria e de tumulto já lá vai; há muito que me conformei com a morte. Já passei por todas as fases que possam imaginar: já questionei a minha existência; já me perguntei porque estudei tantos anos para defender outros seres humanos, se ninguém se deu ao trabalho de acreditar na minha inocência; e também passei dias e dias a pensar: “Porquê eu?” Com tantas pessoas no mundo, porque tenho de ser eu a sofrer?
Pensei em tudo, porque tive tempo… muito tempo! Mas agora já nada me afecta, as minhas lágrimas secaram, congelaram, simplesmente deixaram de cair.
Confesso-vos: só existe um pensamento que é capaz de derreter todo o frio em que me transformei, e só existe uma lembrança capaz de me manter nesta condição de ser humano. É ao lembrar-me dela, da minha noiva, que o meu coração dispara. Era capaz de passar as últimas horas da minha vida a pensar no sorriso, na voz e nos olhos dela… Se pelo menos amanhã eu pudesse ter a oportunidade de só por mais uma vez, uma só vez, tentar decifrar todo o mistério nos seus olhos, eu seria feliz.
Aqui, sozinho, sem ela, eu congelei.
O meu nome é William Parker e, sem ela, morrerei amanhã.
Bianca de Magalhães, 10ºD




(Textos enviados por Hélder Moreira)

segunda-feira, 9 de maio de 2011

terça-feira, 3 de maio de 2011

Matilde - "Felizmente há luar!"







Na voz de Matilde habitam as ideias e os valores do General Gomes Freire de Andrade, mas delimitados pelos contornos a que o próprio amor obriga. A voz de Matilde é o eco de uma voz ausente que protagoniza toda a peça. É na voz de Matilde que se partilha os ideais do General Gomes Freire de Andrade e é também na voz de Matilde que nasce o carácter heróico do general.

Esboça-se assim uma personagem que reúne fragmentos de coragem, de justiça, que deseja um movimento inquietantemente sincero e grita liberdade. Uma personagem a quem o amor por amor ilude, e faz dos ideais nobremente defendidos, vigaristas que balançam ora para lá, ora para cá - " Não seria mais humano, (...), ensiná-los, de pequeninos, a viverem em paz com a hipocrisia do Mundo". Perde (por momentos) a vontade de acreditar em valores honrosos, porque foram eles que fecharam as portas da cela em S.Julião da Barra. Mas não é por isso que perde a voz e grita: " O meu homem, o meu homem". Perde a vergonha, para que outros governadores do reino a utilizem contra ela, e suplica clemência. Mas continua: " O meu homem, o meu homem". Desafia o Deus que a terra criou "pois que vá abrir as do forte de S.Julião da Barra, se é capaz", dispõe-se a mendigar, pede ao povo o que um dia o povo lhe pediu a ela, chora. Mas continua: " O meu homem, o meu homem". Ouviu chamarem-lhe amante. Assistiu à morte aproximar-se e aprendeu que ela não lhe trazia o fim, mas lhe dava o braço do General, um olhar à saia verde, e um início de mudança.

Matilde de Melo, mulher do General Gomes Freire de Andrade, perdeu quase tudo (e não foi na guerra), mas entre a violência dos homens.

Teresa Stingl

domingo, 24 de abril de 2011

Ainda o Dia Mundial do Livro

Campanha publicitária da DGLB:





E da Bertrand: "Somos Livros"






sábado, 23 de abril de 2011

Dia Mundial do Livro

Uma sugestão televisiva. Uma homenagem aos (grandes) livros. Clicar na imagem para aceder ao vídeo:



segunda-feira, 18 de abril de 2011

LeV- Literatura em Viagem

Clique na imagem para aceder a mais informação sobre o LeV, em Matosinhos:

sábado, 9 de abril de 2011

A felicidade - reflexão pessoal

Esgueiramo-nos por entre os becos, abalroamos segundos e travamos uma guerra fria contra o próprio “eu”, na ânsia de tocar no âmago dessa luz que almejamos. Abraçamos o mundo, tornamo-nos invisíveis e damos passos de gigante na corrida desenfreada a uma felicidade que nos foge. Fazemos questão de a colocar no mais alto pedestal que tão facilmente nos escorre pelos dedos, nos abandona a alma para o mais feérico esconderijo. O que é que nos falta? Qual a mais clara concepção que lhe podemos dar? Nada mais relevante que a sua própria simplicidade: meros instantes roubados ao tempo que fazem com que balas de sorrisos nos trespassem o peito e nos permitam tocar no infinito, ínfimos retalhos de alma, pedaços de caminho, profecias de vida que nos movem, nos sustentam, nos ressuscitam. E desacredite-se aquele que se limita a si mesmo por qualquer condição exterior. Esqueça-se o papel de cada casa, de cada emprego, realidades que nos sufocam numa angústia alienante. Lembremo-nos que o olhar com que as encaramos é a base de toda a existência, o motor de euforia ou depressão profunda. O limite que traçamos como nosso é passível de toda e qualquer superação e os imensos instantes de felicidade que agarramos, sem cessar, permitem-nos rasgar pedaços de céu.

Joana Nunes, nº6, 12º A

(Enviado por Auxília Ramos)

domingo, 3 de abril de 2011

domingo, 27 de março de 2011

Sem nome de guerra



Hoje vejo as pessoas, na rua, vestidas em muralhas de pedras altas e impenetráveis. Seguem percursos, sozinhas ou em grupo, (e, desculpem-me a ironia, a diferença não há-de ser muita), o cerco posto, a vigia em sentinela, e o conforto da situação é tal que nem dão pelo peso da artilharia, ao pousar o pé no passeio e ao sorrir de leve num “até amanhã” que se lança de alívio.

É uma batalha sem campo próprio nem lugar. E, pior do que isso, é uma batalha invisível e sem nome de guerra. Se se combate é em nome do “Eu”, os aliados perdem força numa sociedade em que de cada um é exigido um individualismo extremo, um culturismo do espaço próprio e pessoal. Que se culpe o egoísmo que alimenta tudo isto e ensina que o “eu” vale sempre mais do que o “vós” (só tenho pena que se esqueça que no “vós” estamos “nós”). Que se culpe esta pressão de “ter de ser o melhor”, de entrar na faculdade, de arranjar emprego, um bom ordenado… A exclusividade torna-nos armas de combate, a abundância leva-nos à mais pura das infâncias. Hoje, vejo as bibliotecas tornarem-se em livros, as salas de estudo em carteiras… vejo a decadência das praças, dos largos, de todos os espaços públicos deitados ao abandono a que o individualismo incita. As pessoas fecham-se nos quartos, de tal modo que o que era das salas deixa de o ser, numa tentativa doentia de aperfeiçoar o espaço pessoal, próprio e fechado. Uma vénia ao “EU”, uma vénia ao “EU”. E pouco importa a Pátria ou a bandeira, pois esta guerra sem nome de guerra afecta o mundo sem darmos conta.

Hoje vejo as pessoas, na rua, vestidas em muralhas de pedras altas e impenetráveis. Procuro um rasto de sangue que justifique tudo isto, uma espada caída por alguém que perdeu o disfarce, procuro rastos de um Iraque e de um campo de batalha. Depois penso: a sociedade está doente e esta é a guerra da modernidade, de seu nome: COMPETIÇÃO.

Teresa Stingl, 12ºAno

segunda-feira, 21 de março de 2011

Dia Mundial da Poesia

Sobre um Poema

Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
- a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.

- Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
- E o poema faz-se contra o tempo e a carne.
Herberto Helder
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Coisas, Pequenas Coisas

Fazer das coisas fracas um poema.

Uma árvore está quieta,
murcha, desprezada.
Mas se o poeta a levanta pelos cabelos
e lhe sopra os dedos,
ela volta a empertigar-se, renovada.
E tu, que não sabias o segredo,
perdes a vaidade.
Fora de ti há o mundo
e nele há tudo
que em ti não cabe.

Homem, até o barro tem poesia!
Olha as coisas com humildade.
Fernando Namora, in "Mar de Sargaços”
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Do Poema


O problema não é
meter o mundo no poema; alimentá-lo
de luz, planetas, vegetação. Nem
tão-pouco
enriquecê-lo, ornamentá-lo
com palavras delicadas, abertas
ao amor e à morte, ao sol, ao vício,
aos corpos nus dos amantes —

o problema é torná-lo habitável, indispensável
a quem seja mais pobre, a quem esteja
mais só
do que as palavras
acompanhadas
no poema.
Casimiro de Brito, in "Canto Adolescente”

quinta-feira, 17 de março de 2011

João Manuel Ribeiro apresenta livro no CLF




No dia 2 de Março, os alunos do 1º e do 2º anos do 1º ciclo receberam o escritor João Manuel Ribeiro e a ilustradora Sónia Borges, que vieram apresentar o seu novo livro “Senhor Ato, o camaleão”.

A conversa com o escritor e com a ilustradora foi muito animada e os alunos adoraram ouvir a história do Senhor Camaleão e a “brincadeira” feita pelo escritor à volta do novo Acordo Ortográfico.


Isabel Maia

segunda-feira, 14 de março de 2011

Sobre a actualidade de Eça de Queiroz

A VIDA DOS LIVROS
De 14 a 20 de Março de 2011
(Texto retirado da página do Centro Nacional de Cultura)


José Maria Eça de Queirós (1845-1900) mantém-se presente nos tempos que correm. A palavra presente substitui actual, para que não haja simplificações abusivas. Não se trata, porém, de dizer que tudo se manteve inalterável (com Dâmaso Salcede ou Tomás de Alencar ao virar da esquina) e que a actualidade se mantém tal e qual. Houve mudanças significativas no país, mas há elementos duráveis na análise do autor de “Os Maias” (1888) ou de “O Conde de Abranhos” (1925). Eça desenha uma sociedade em transição, assente nos empregos públicos e nos favores do Estado. É o naturalismo em acção, aqui ou ali polvilhado por um humor fino que procura representar uma sociedade distante e periférica, relativamente aos grandes centros. E quando hoje assistimos à crise da dívida pública soberana, vêm à baila as conversas do banqueiro Cohen relativamente ao dinheiro e aos seus enredos…

DESENTRANHAR O PORTUGAL QUE ESPERA…
Eduardo Lourenço afirmou que “não é susceptível de discussão o amor (e o fervor) com que a Geração de 70 tentou desentranhar do Portugal quotidiano, mesquinho e decepcionante, um outro, sob ele soterrado, à espera de irromper à luz do sol” (“Labirinto da Saudade, ed. 2000, p. 93). Ora, ao lermos Eça de Queirós, impõe-se a pergunta – o que se mantém actual na sua obra? E que país existe por «desentranhar», ao abrigo desse «criticismo patriótico», em que Eduardo Lourenço vem insistindo, como voz clamando no deserto. Não podemos cair na conclusão fácil de que o país é o mesmo ou radicalmente diferente. Qualquer simplificação será sempre caricatural. De facto, Portugal é diferente hoje do que era no final do século XIX. Mas, quando lemos os principais intelectuais e críticos desse tempo assaltam-nos as semelhanças, que têm de ser vistas com as cautelosas distâncias. A chamada Geração de 1870 obriga, porém, a uma especial correcção crítica: de facto, estamos perante analistas de raríssimo talento, com uma inteligência de indiscutível evidência, que souberam colocar-se no lugar da intelectualidade europeia mais avançada e lúcida do seu tempo. A perspectiva crítica deu-lhes uma distância que hoje permite compreendermos melhor o que disseram, concedendo essa reserva uma curiosíssima garantia de actualidade. Se virmos bem, Antero, Oliveira Martins e Eça de Queirós não são portugueses comuns do seu tempo. Viram mais longe e largo, e é isso mesmo que lhes permitiu alcançar um especial sentido de pertinência presente, que nos leva à ilusão de julgar que o país é o mesmo, sem o ser exactamente. No entanto, temos a nítida sensação de encontrar nesses argutos textos algo de familiar ou próximo. E isso não acontece por acaso. De facto, há diferenças e coincidências na sociedade. O país rural não existe já, a distância enorme entre a cidade e as serras reduziu-se, o atraso social endémico mudou de natureza, os dualismos profundos, se se mantêm, tornaram-se diferentes, e as desigualdades que persistem reportam-se a termos de comparação que se transformaram muito. Ainda por cima, não podemos esquecer que as referências queirosianas se enraizaram bastante no mundo português letrado e culto (ou por leitura ou por reminiscência). É difícil de encontrar o Conselheiro Acácio, mas o seu espírito e os seus óculos fumados persistem onde menos se espera. O mesmo se diga de Eusebiozinho, de Palma Cavalão, de Gouvarinho, de Dâmaso ou de Alencar – mas sobretudo de João da Ega, de Carlos da Maia, de Zé Fernandes, de Jacinto, de Gonçalo Mendes Ramires ou de Fradique e do inefável Pacheco. Os ecos dos quadros queirosianos chegam-nos ainda hoje como as análises cortantes das “Histórias” de Oliveira Martins, sendo “Os Maias” a genial tradução romanesca do “Portugal Contemporâneo”. E diga-se que, se alguns criticam a dispersão de personagens e de temas na saga de Eça, a verdade é que essa é uma riqueza da obra que magistralmente contribuiu para o repositório de personagens representado caricaturalmente por João Abel Manta.
A MATÉRIA-PRIMA DE EÇA
Apesar das distâncias, o certo é que há algo na matéria-prima utilizada por Eça que permanece e que mantém actualidade: a ciclotimia portuguesa, o peso do Estado omnipresente com o seu funcionalismo (o “comunismo burocrático”) e a dependência do exterior. Quanto à ciclotimia, eis-nos a oscilar entre a invocação das glórias passadas com um orgulho histórico, tantas vezes desajustado, e a consideração da mediocridade contemporânea (que não é pior nem melhor que a de muitos dos nossos vizinhos, mas que se torna mais evidente quando se insere na tal oscilação entre a glória e a decadência). A verdade é que essa alternância entre nos considerarmos os melhores e os piores do mundo agrava as comparações e as ilusões – o que leva à ambiguidade essencial de “A Ilustre Casa de Ramires” – ainda tão incompreendido… Já quanto ao peso do Estado, devemos referir que o nosso centralismo ancestral resulta da precedência do Estado relativamente à nação, com a inevitável concentração de poderes e o inexorável formalismo destituído de responsabilidade prática. É essa rígida centralização de poderes do Estado que leva à dependência relativamente à Arcada e S. Bento, que tão nitidamente se encontra na análise de Eça, desde Artur Curvelo até ao Conde de Abranhos – e que se prolonga até aos nossos dias no nosso Estado. Essa lógica de dependência, com sequente dificuldade de mobilização dos cidadãos e dos poderes locais (para além do caciquismo) liga-se a outra dependência que a vida económica (sobretudo num tempo de globalização) revela e que tem a ver com as vicissitudes do endividamento. Se recordarmos o jantar do Hotel Central em «Os Maias», depressa compreenderemos que aquilo que preocupa aqueles convivas é, a um tempo, a evolução da mentalidade literária e das escolas de pensamento, tema muito sentido pelo próprio autor (representado, de algum modo, por um alter ego, «sui generis» e complexo, que começa em João da Ega, mas que não existe só, uma vez está vive em ligação com Carlos da Maia, como se se tratasse de um tandem), bem como as repercussões da incerteza financeira e económica, em razão da significativa dependência de Portugal relativamente à economia europeia, em especial através do crédito, já que a história portuguesa oitocentista se confundiu amiúde com a dívida pública e as crises bancárias.

O JANTAR DO HOTEL CENTRAL

«O Cohen colocou uma pitada de sal à beira do prato, e respondeu, com autoridade, que o empréstimo tinha de se realizar ‘absolutamente’. Os empréstimos em Portugal constituíam hoje uma das fontes de receita, tão regular, tão indispensável, tão sabida como o imposto. Lembramo-nos bem da passagem. E depois: « – A bancarrota é tão certa, as coisas estão tão dispostas para ela – continuava Cohen – que seria mais fácil a qualquer, em dois ou três anos, fazer falir o país»… Isto, enquanto Ega e, surpreendentemente, Alencar, sonhavam com uma revolução. A história económica portuguesa do século XIX foi longamente dominada pelas crises bancárias (1827, 1846, 1876 e 1891) e pela evolução da dívida pública. As guerras civis contribuíram para essa instabilidade até 1851. Já em 1876 tudo se concentrou na bolha especulativa gerada pela proliferação de entidades bancárias; enquanto em 1891 foi a bancarrota argentina que quebrou a casa Baring de Londres, ligando-se à redução da remessa dos emigrantes do Brasil por causa do fim da escravatura e da implantação da República. E a dívida pública explodiu. Assim, a profecia de Cohen cumpriu-se, houve o convénio dos credores externos de 1902 (com o empréstimo de 99 anos, ao juro de 3 por cento) e um longo purgatório português nos mercados financeiros. Entende-se que a pergunta sobre a actualidade de Eça obriga não a ressuscitar Abranhos ou Dâmaso, mas a desentranhá-los… O que reclama, antes de tudo, exigência crítica.

Guilherme d'Oliveira Martins
(Enviado por Isabel Moreno)

domingo, 13 de março de 2011

quinta-feira, 3 de março de 2011

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Ainda Moacyr...

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