segunda-feira, 26 de março de 2012

Morreu António Tabucchi



Em jeito de homenagem, o artigo de João Céu e Silva, no Diário de Notícias:

A casa onde o escritor Tabucchi morava em Lisboa fica numa rua a descer para o rio Tejo e das suas varandinhas lia-se um romance inteiro apenas com o olhar. Roupas a secar ao sol que só ilumina a rua por inteiro durante muito pouco tempo; janelas de madeira desde o rés-do-chão, de onde os mais sem vergonha podiam roubar um saco de batatas ao marçano só com o esticar do braço; portas emperradas a tapar a vida aos velhos que por ali ainda moram, de onde um pontapé certeiro amolga os carros que as entaipam; passeios tão apertados que só os lingrinhas e as misses ali cabem e uma inclinação que deixava qualquer um a arfar. Era uma casa apropriada para se escrever o romance que se via dessas varandinhas, com um número qualquer pendurado na ombreira de pedra cá em baixo, algo escura ainda no primeiro andar, cuja escadaria dava logo para a sala ampla. O chão de madeira coberto com tapetes rangia um pouco e havia que ter cuidado para não se tropeçar na decoração. O escritor Tabucchi gostava de se sentar num dos sofás e falar, sempre chegado à frente, com receio que a posição colada às costas do móvel interrompesse aquele fluxo de ideias que oferecia quando estava a gostar da conversa. De uma entrevista com ele era certo poder-se fazer duas ou três e guardar ainda umas belas frases para um dia como o de ontem em que foi anunciada a sua morte. Mas não vale a pena revolver a gaveta dos blocos para encontrar a última que me deu porque ainda está muito fresca na memória. Como o escritor Tabucchi falou! Do livro em causa, das traduções, dos outros já escritos e dos ainda por escrever; de pensar em português mas não lhe ser fácil escrever nesta língua; da cultura de Portugal, de Itália e de França; da política de cá e de lá, do processo na justiça com o primeiro-ministro cantor. A rua que agora perdeu um dos seus moradores chama-se Rua do Monte Olivete, onde morava o vizinho que ao abrir a janela lia um romance inteiro na vida que passava por aquela calçada de pedra negra.
João Céu e Silva, in Diário de Notícias

sexta-feira, 23 de março de 2012

"Alma" e dia mundial da poesia












No dia da poesia, fomos ao teatro ver a excelente adaptação cénica do Auto da Alma de Gil Vicente, da responsabilidade de Nuno Carinhas – ALMA.
E no teatro não deixamos de nos cruzar com a poesia, a poesia de Teixeira de Pascoaes, em Deslumbramento e Minha aldeia na Páscoa
Caminhamos com a Alma e assistimos ao milagre, de mundo em mundo, repetido…

Partilho convosco um olhar poético de um amigo que acredita que, enquanto fazemos poesia, caminhamos e não nos rendemos à morte antecipada:  

é muito tarde e dói-me a alma
o dia trouxe-me uma coroa que não queria, de espinhos –
mas esta alma é forte como os ventos, dura como os diamantes
esta alma não se rende, não se rende nunca
esta alma que é minha, misturada com o sol e com a lua
é como um barco feito de artérias e sangue;
correndo, correndo sempre na linha direta do horizonte
qual funâmbulo
sem medo da queda nem de afogamento
lá longe
onde se junta mar e firmamento –

esta alma não é pura não é branca nem é suja
é uma alma que acredita
e por mais que doa a alma, há sempre caminho
os pés cansados, os dedos moídos e a corrida
e por mais que doa a alma, revela que existe
que é humana e que há vida –


José Ferreira, março 2012

Enviado por Auxília Ramos

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Ainda as "Correntes d'escrita"

A corrente descrita (ou Portugal e os portugueses, em 2008 e depois)

«Onde estamos, afinal? Simbolicamente, não num sítio muito diverso do que era o nosso há vinte anos, mas desta vez e para sempre não sós» (Eduardo Lourenço, Vence, 23 de outubro de 2000)

Agradeço o convite para estar aqui convosco, na 13ª edição do Correntes d’Escritas, embora sinceramente algo me custe, sobretudo por mim. Com o vosso convite, só posso ganhar e ganhar muito. Significa-me um misto de oportunidade e deslocação, não geográfica, que é curta, mas pessoal, por não ser propriamente um escritor. Escritor, que para o Dicionário da Academia é a “pessoa que escreve obras literárias ou científicas”. Isto não sou nem nunca fui bastantemente, ainda que tenha escrevinhado e poetado alguma vez, ou seguido um percurso académico discente e docente, com os respetivos encargos de investigação e redação. Nada que justifique o título.

Mas tinha de aceitar, dada a simpatia e a insistência do convite, bem como a ocasião de homenagear a iniciativa. Era irrecusável e aqui estou, pedindo-vos desculpa pela breve ocupação do tempo. E o que aqui apresento, com adiantada escusa, não é alguma visão geral do momento português no que à vida literária diz respeito - coisa que não saberia fazer -, mas a rápida descrição de algo que tenho mais à mão e ao pé, ou seja da minha própria vida como “corrente”, palavra esta que, no mesmo Dicionário, significa “água que flui, que não está estagnada”.

Pode ter algum interesse, pelo jogo de circunstâncias internas e externas que me canalizaram sessenta e tal anos de vida – o Dicionário junta esse significado de “água canalizada” –, por entre grandes mudanças de civilização e cultura, da minha terra a Lisboa e de Lisboa ao Porto, da Universidade dos anos sessenta – setenta ao que ela é hoje; como ação e interrogação, e, muito especialmente dentro e bem dentro da mais antiga instituição do nosso território, talvez a mais marcante do seu devir, por adesão ou contraste – o catolicismo português.

Uma “corrente”, de facto, e como era o Douro antes das barragens, entre larguezas e estreitezas, entre calmas e rápidos, entre vidas e mortes, músicas e choros, riquezas e misérias, mas correndo sempre para um mar ao fundo. Pelo conjunto das circunstâncias, a corrente da minha vida foi ganhando o meio do rio e do seu fluxo, encontrando-me com outras mais certas e profundas, que verdadeiramente lhe definem o caudal. Um caudal que vem de muito longe, correndo para Ocidente como a nossa história portuguesa, enquanto havia terra a sulcar, treinando-se para lavrar o mar. Uma corrente que nos transporta a todos e, só por isso, também a mim. Esta posso descrever-vos brevemente: será “uma corrente descrita”.

Começou onde geralmente se começa, na família e em duas mulheres viageiras. Uma viajava por dentro e quase só por dentro; outra também por fora, sempre que podia ser, sendo muito menos do que quereria. A minha avó materna viajou neste mundo mais de cem anos e chamava-se “Aurora”; de Lisboa para o Porto e depois novamente, longamente, no sul. A minha mãe nasceu no Porto e foi cedo para o sul onde eu nasceria, ia ela pelos trintas. Chegou aos noventa e cinco e chamava-se “Sofia”.

A minha avó não gostava de viajar por fora. Enviuvou cedo e demorou depois numa quinta pacata, ao ritmo da noite e do dia, do dia e da noite, das estações do ano e dos ciclos agrícolas. Viajava sim por dentro, por dentro da sua grande casa e das constantes reparações que gostava de fazer, reduzindo os países e continentes aos espaços domésticos que remodelava à vez, assim pudesse. Morando numa casa cheia de recordações geracionais, não gostava de velharias, nem se entretinha com elas, aderindo de bom grado às novidades do tempo, viajando com o século - ou entre séculos, pois nascera em 1890 e falava de D. Carlos e D. Manuel II, Afonso Costa ou Sidónio Pais, como nós falamos de personagens de agora. Mas sem saudades pesadas, porque a viagem continuava.

A minha mãe cultivava mais a memória e lembrava espontaneamente episódios históricos. Sobretudo nossos, pois era medularmente patriota, sem ser minimamente chauvinista, bem pelo contrário. E tinha o maior gosto em viajar para fora, assim também pudesse. E pôde pouco, porque se espraiava em atividades domésticas, religiosas, cívicas e culturais; e porque acompanhou dedicadamente os últimos anos do seu marido e da sua longeva mãe. Mas com que alegria – dela e minha – percorremos o país em curtas viagens de verão, ficando eu ainda mais intimamente conjugado entre mátria e pátria. E já nos seus oitenta, aí foi ela contente, como a revejo em fotografias que vão da Noruega à Índia… E ai dos mais novos, bem mais novos até, que não lhe acompanhassem a passada.

Esta a minha “corrente” mais próxima, entre chegadas e partidas, princípios concretos e fins almejados. Uma alusão ainda, do que dizia a minha avó à minha mãe: “ – O que queres tu ver, que não tenhas já aqui: casas, estradas, rios e pontes?”. E também: “Viajar, tendo mesmo de ser, só pela alegria que terei ao voltar para casa”. A minha mãe sorria e largava. Por isso uma se chamava Aurora e a outra Sofia.

Posso entrever nisto mesmo a corrente mais larga do nosso Portugal comum. Digamos que as identificações acontecem geralmente assim, pois ganhamos em casa o que seremos depois, caseiramente aliás. De pequena para grande, assim cantava Camões a “casa lusitana”, não podendo ser doutra maneira. Entre ficar e partir, entre partir e regressar, estamos sempre nós, particularmente nós, os portugueses.

Talvez não tenha sido só por moda “renascente” que se ligou Lisboa a Ulisses, quando a Grécia e as coisas gregas ainda gozavam de “boa imprensa”, muito justificadamente gozavam. Pode ter sido por vislumbrar no lendário viajante antigo o bom emblema dum Portugal que entretanto se fizera assim, partindo, aventurando e regressando…

Há muito que me fizeram pensar deste modo. Apontei-o também, ocasionalmente, como em Portugal e os portugueses (Assírio & Alvim, 2008), ou em Isto realmente somos, os portugueses (In Porquê para quê? Pensar com esperança o Portugal de hoje, Assírio & Alvim, 2010). Tudo por insistência externa ou surpresa minha, mas com alguma aceitação dos outros, que só pode significar coincidência de espíritos e análises. E, isto sim, é culturalmente relevante.

No primeiro dos textos, lembrava a nossa matriz judaica, como “povo da promessa”, que assim mesmo se sentiu messiânico para o mundo. Não é algo exclusivamente nosso, mas foi-o muito especialmente, pela realização geográfica que lhe demos e pela desproporção do feito, de tão poucos para tanto: “Digo, por isso, que a relação que mantemos com Portugal é, fundamentalmente, bíblica. Olhamos Portugal como uma personalidade coletiva portadora de uma alma, no sentido romântico do termo, ainda que referido a algo muito anterior ao Romantismo. E a relação que mantemos com esse gostoso e custoso coletivo vem na esteira de um outro povo, que se descobriu eleito e portador de uma missão universal” (Portugal e os portugueses, p. 10).

No segundo texto, lembrei como António Vieira assinalou o destino prévio de Santo António, muito propositadamente para indicar o nosso. António de Lisboa, entre Portugal, Marrocos e a Itália; António Vieira do Tejo ao Amazonas e do Amazonas ao Tibre, nos seus sermões de Roma; os portugueses sempre, querendo ou não querendo, mas obrigatoriamente assim.

A 22 de maio de 1670, Vieira ainda dizia o seguinte, de Santo António, dele mesmo e de nós todos: “Bem pudera Santo António ser luz do mundo, sendo de outra nação; mas uma vez que nasceu português, não fora verdadeiro português se não fora luz do mundo, porque o ser luz do mundo nos outros homens é só privilégio da Graça; nos Portugueses é também obrigação da natureza” (cit. in Porquê e para quê?, p. 15).

Era preciso algum arrojo para dizer tal coisa num sermão pregado tão fora. Mas isso nunca faltou a Vieira, mesmo para insinuar que os portugueses, para brilharem em todo o lado, nem esperariam pela graça… E hiperboliza, em Santo António e por nós todos: “Saiu como luz do mundo e saiu como português. Sem sair ninguém pode ser grande […]. Assim o fez o grande espírito de António, e assim era obrigado a o fazer, porque nasceu português” (ibidem, p. 16). Ou ainda: “Por isso nos deu Deus tão pouca terra para o nascimento, e tantas para a sepultura. Para nascer, pouca terra; para morrer, toda a terra; para nascer, Portugal; para morrer, o mundo” (ibidem).

Nisto era expansão natural; mas com o grave revês de não suportarem tanta luz, uns dos outros e ao perto. Mais: natureza tão luminosa em si mesma, além de irresistivelmente expansiva, seria inevitavelmente exilada, para se reencontrar à larga. Daí que escrevesse no ano seguinte, sempre em Roma: “… assim como Santo António foi obrigado a deixar Portugal, para ser Português, assim foi necessário que se tirasse dentre os Portugueses, para ser tão grande homem, e tão grande santo como foi” (ibidem, p. 17). Até aqui o tom parece heroico; mais abaixo, o remate nem tanto: “… luzir português entre portugueses, e muito menos luzir com a sua luz, é cousa muito dificultosa na nossa terra. Com a luz alheia vi eu lá luzir alguns; mas com a própria, […] nem santo António, quanto mais os outros” (ibidem). E a aceitação geral deste juízo, que quase adivinho em todos, evidencia bem que ainda somos nós, agora aqui, os portugueses.

Ao que vai dito, acrescentarei algo, dantes ou depois de Vieira. Como é o caso do célebre poema em que D. Dinis ironiza com os provençais, que trovavam muito bem, mas só pela primavera; sinal de que a “coita”, o cuidado amoroso, não era tão grande neles como no próprio. Vale a pena citá-lo: “Proençaes soen mui bem trobar / e dizem eles que é com amor; / mais os que trobam no tempo da frol / e nom em outro, sei eu bem que nom / am tam gram coita no seu coraçom / qual m’eu por mha senhor vejo levar”.

É um trecho muito coincidente com o que os portugueses pensam em geral de si mesmos. Recebem de fora as modas e os motivos – como era então o caso do canto provençal -, mas tudo se mergulha aqui noutra fundura, com os significados agridoces que sempre acrescentamos às saudades.

Recortado pela espada dum rei meio-borgonhês, expandido pela visão dum príncipe meio-inglês, regenerado de oitocentos para novecentos por vagas meio-francesas, quando não francesas de todo, das militares e políticas às literárias e ideológicas, Portugal foi e é ainda uma importação inculturada, nunca tendo terra nem recursos para ser doutro modo.

Isto mesmo poderíamos dizer também de outros e até generalizar. Mas a nossa geografia terminal ou o grande cais em que nos (re)tornámos, trouxeram-nos tanta terra e tanto mar que ganhámos esta atual condição de pátria de todos e ninguém – ou de ninguém para renascer de todos. Creio que Vieira e Pessoa aceitariam a caracterização. Sendo aqui profético o Romeiro de Garrett (Frei Luís de Sousa), como Portugal perdido e no entanto ali, quase pedindo um reconhecimento que o salvasse, passando do “ninguém” que se chamava ao merecido “alguém” que o despertasse, muito merecidamente despertasse. Estamos nisto tão perto dos últimos versos da Mensagem pessoana: “ … (que ânsia distante perto chora? / Tudo é incerto e derradeiro. / Tudo é disperso, nada é inteiro. / Ó Portugal, hoje és nevoeiro… / É a Hora!”.

Sim, saberiam trovar os poetas provençais, mas aqui trovava-se sempre; poderiam outros fazer algo em suas terras, mas daqui só se podia adivinhar tudo; poderiam outros manter grandes impérios, mas aqui só do nada se renasceria enfim.

Portugal culturalmente é uma teima, como geograficamente é uma praia, feita cais de partir e chegar, chegar e partir. Não é esta uma realidade unívoca, longe disso, e nem sempre foi positivamente considerada. Não foi só o século XIX que avaliou em baixa o desprezo da terra pelas miragens do mar. Do século XVI chegam-nos os lamentos bem reais de Sá de Miranda, por Lisboa nos despovoar os campos ao cheiro da canela das Índias. Ou as increpações poéticas do Velho do Restelo, contra as trocas do certo pelo incerto e do longe em vez do perto, por poder ou ganância, como não é de mais evocar em contraponto: “Ó glória de mandar! Ó vã cobiça / Desta vaidade a quem chamamos fama! / Ó fraudulento gosto que se atiça / C’uma aura popular que honra se chama! / Que castigo tamanho e que justiça / Fazes no peito vão que muito te ama! / Que mortes, que perigos, que tormentas, / Que crueldade nele experimentas!” (Os Lusíadas, IV, 95).

Todos com razão certa e sabida. Mas teríamos certamente desaparecido, se não tivéssemos partido.

As coisas são diferentes agora, até onde o podem ser no mesmo povo e língua. Diferentes demais para que uma “forma mentis” de há seis décadas – voltando à corrente pessoal – as possa facilmente perceber. Porque se trata de “cultura”, e não apenas de mais informação, embora marcada pelo acrescento desta. Cultura, como aquilo que sabemos antes de aprender tudo o mais e continuamos a saber depois de esquecermos tudo o resto. Isso mesmo que faz cada um do seu tempo, mesmo que o calendário nos faça conviver enquanto estamos, diversos por dentro mas sincrónicos por fora.

Refiro-me a uma experiência de há poucos dias, que me despertou tal sentimento. Assistia a uma conferência sobre impossibilidades e possibilidades de emprego jovem. Intervenientes vários, todos entre os vinte e os trinta anos, com licenciaturas e mestrados. Um gestor, entre o Porto e Londres, agora cá sem deixar de estar lá, casado com uma psiquiatra e entusiasmado com o que faz e sobretudo inova. Uma jovem bióloga, inteiramente votada à cura da doença de Alzheimer, e por isso passando de escolas portuguesas para inglesas, mas voltando à sua terra com a frequência que as viagens aéreas de baixo custo hoje permitem: tem de estar lá, mas não deixa de vir cá. Um jovem empresário que, por maior expansão, se mudou daqui para Curitiba, onde está com a esposa e já três filhos, deslocando-se no Brasil como nos desafiava a viver na Europa, isto é, continentalmente. Este e o seguinte – um jovem produtor cinematográfico, a trabalhar em Londres com sucesso – intervinham diretamente no debate através do Skype...

Quando me coube a mim concluir algo, foi para constatar que o ficar e o partir se equacionam agora de modo muitíssimo diferente do que ainda há poucos anos nos caracterizava em geral. Mentalmente, ficámos marcados com os êxitos (alguns) e os traumas (muitos) das emigrações forçosas para o Brasil de Oitocentos ou para a França e Alemanha de há meio século e depois. Atualmente, sem com isso descuidar a indispensável viabilidade interna para as novas gerações, somos realmente surpreendidos por novidades grandes que, em termos de comunicação e informação, alteram profundamente as vidas, os trabalhos e as mentes.

E é por tanto ineditismo que o nosso tradicional “a ver vamos” ganha hoje outro palco e outro sonho, atualizando os versos de Sophia: “Navegavam sem o mapa que faziam / […] No silêncio das zonas nebulosas / Trémula a bússola tateava espaços / Depois surgiram as costas luminosas / Silêncios e palmares frescor ardente / E o brilho do visível frente a frente” (Navegações, VI).

Aliás, um dos jovens intervenientes no debate dizia que o trabalho português era geralmente apreciado “lá fora”, em especial pela capacidade de improvisar e resolver problemas inesperados. Dizia até que a anglofonia não tinha tradução exata para o nosso plebeíssimo “desenrascanço”. Mais uma originalidade lexical, para juntarmos ao que se diz sobre a “saudade”. E é possível que entre estas duas originalidades, tão prática uma, tão poética a outra, vá singrando a barca portuguesa, nas partidas e regressos que hoje somos.

É esta a corrente que me leva e tão singelamente vos descrevo. Vou singrando, entre auroras e sofias. Vamos.

D. Manuel Clemente

Bispo do Porto, vice-presidente da Conferência Episcopal Portuguesa

Conferência de abertura do Correntes d'Escritas 2012, Póvoa de Varzim, 23.2.2012


(Enviado por Auxília Ramos)

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Exposição "Fernando Pessoa, plural como o universo"

Exposição sobre Fernando Pessoa na Gulbenkian

De 10 de fevereiro a 30 de abril, a Fundação Calouste Gulbenkian recebe a exposição "Fernando Pessoa, Plural como o Universo", concebida e organizada pela Fundação Roberto marinho e pelo Museu da Língua Portuguesa de São Paulo, onde foi inaugurada em agosto de 2010, tendo depois sido mostrada, em março de 2011, no Centro Cultural Correios, do Rio de Janeiro.

O objetivo da exposição é oferecer o vastíssimo painel de uma vida-obra e de uma obra-vida, confrontando o visitante, etapa por etapa, com um relato dos acontecimentos biográficos na sua íntima relação com a formação e a criação literária do poeta.

A exposição tem uma forte componente multimédia e interativa: filmes, vozes e sons, poemas ditos, páginas de livros e poemas que, com um só toque do visitante, se alternam e desfolham. Inclui ainda documentos inéditos, pinturas e alguns objetos que nunca foram expostos em Portugal.

Paralelamente, e em colaboração com a Casa Fernando Pessoa, são realizadas atividades complementares, entre as quais um programa educativo que inclui visitas-jogo, visitas orientadas e oficinas de escrita e teatro, para escolas e grupos organizados.

Deixo alguns links úteis:




E o testemunho de Guilherme d'Oliveira Martins:


Fernando Pessoa, Plural como o Universo

A exposição «Fernando Pessoa, Plural como o Universo», no âmbito do Ano do Brasil em Portugal, resulta de uma iniciativa do Museu da Língua Portuguesa com o apoio das Fundações Roberto Marinho e Calouste Gulbenkian e apresenta-nos o multifacetado autor português como um dos símbolos do século XX. Os seus escritos são uma oportunidade extraordinária para compreendermos a relação do poeta com o mundo e a sua intuição genial para no-la revelar a partir de diversas perspetivas e personalidades.

 
SINGULAR LEITURA DO UNIVERSO

Fernando Pessoa representa o seu tempo de um modo singularíssimo, ligando a leitura do universo à circunstância de ser português – esse curioso casamento entre a história de um povo que o escritor procura interpretar e uma reflexão cosmopolita e universalista, que assume com todas as consequências, é uma característica única, que torna fascinante a leitura de uma obra caleidoscópica, que não pode ater-se a uma cultura particular. Contudo, sem ser redutora, a perceção da identidade própria é feita à luz de uma consciência universalista. Como disse Eduardo Lourenço no fecho do seu imprescindível «Pessoa revisitado», o poeta «foi uma espécie de aparição fulgurante descida das brumas culturais alheias ao nosso desterro azul, para nele inscrever em portuguesa língua o mais insubornável poema jamais erguido à condição exilada dos homens na sua própria pátria, o universo inteiro». Assim se podem entender os paradoxos e as contradições que tantas vezes encontramos e que mais não são do que a aceitação de que uma cultura é sempre complexa e heterogénea, abarcando elementos diversos. Estamos perante a imperfeição de que fala Lourenço, que exige sempre a abordagem de diversos caminhos, sobretudo evidente numa cultura como a portuguesa, nascida originalmente numa finisterra de múltiplas presenças e depois espalhada pelo mundo como cultura de várias línguas e língua de várias culturas. A relação entre o ortónimo pessoano e os principais heterónimos (Caeiro, Reis, Campos e Soares) corresponde, assim, a uma curiosa representação da pluralidade do universo. A modernidade de Pessoa tem, no fundo, a ver com essa projeção, que nos leva ambiguamente ao conceito de Quinto Império – incompreensível sem referência a Vieira, o imperador da língua portuguesa, e sem ligação à espiritualidade da comunicação. Em vez de um projeto de domínio temporal, estamos diante da exigência de um diálogo, em busca da diferença. No entanto, diálogo obriga a que cada um e cada cultura se afirmem tal como são, sem a tentação de se dissolverem mutuamente. Por isso mesmo Caeiro, Campos ou Reis são profundamente diferentes, e Fernando Pessoa, ele mesmo, tem uma perspetiva própria e diferente sobre a vida e o mundo.

A CONSIDERAÇÃO DOS MITOS

«Desejo ser um criador de mitos, que é o mistério mais alto que pode obrar alguém da humanidade» - afirmou Pessoa. E António Quadros disse que «mais perto andaremos do pensamento de Fernando Pessoa» se virmos os heróis da «Mensagem» como «protagonistas de um macromito, com seus símbolos e cifras, o mito do Regresso ao Paraíso, dentro do qual se desenvolvem os micromitos de um Portugal – eleito de Deus, em ação profunda no duplo plano do ideal cavaleiresco e do inconsciente coletivo nacional…». Ora, os mitos permitem interrogar as raízes e o desenvolvimento de uma identidade, e essa abordagem crítica abre as portas para a superação de uma mera lógica defensiva ou retrospetiva. Nesse sentido, compreende-se que os amigos presencistas de Pessoa tenham lamentado a publicação da «Mensagem» antes do outro manancial poético do autor. O poeta não deixou de concordar junto de Adolfo Casais Monteiro, mas preferiu falar de um momento crítico de «modelação do subconsciente nacional». Mas será Eduardo Lourenço, ainda ele, quem melhor articulará a necessidade crítica da consideração dos mitos pessoanos com a interrogação de Antero de Quental sobre «as causas da decadência dos povos peninsulares», com a obrigação crítica da geração de 1870 e em especial de Oliveira Martins, com a vontade de renascimento de «A Águia» e com o ensaísmo seareiro. A heterodoxia do autor de «O Labirinto da Saudade» tem a ver, afinal, com a recusa das escolas dominantes ou dos grupos instalados, mas sobretudo pretende obter liberdade para seguir a necessidade crítica não acomodada à lógica positivista – de modo a partir dos mitos, a fim de poder compreender a sociedade e a cultura na riqueza das suas idiossincrasias. Afinal, Pessoa dissera sobre «Orpheu» a Cortes-Rodrigues que tinha como objetivo «agir sobre o psiquismo nacional», trabalhando-o por «novas correntes de ideias e emoções», sendo uma espécie de «ponte por onde a nossa Alma passa para o futuro». Eis por que motivo qualquer leitura superficial ou unívoca da obra pessoana pode conduzir num sentido redutor e incapaz de a compreender. Alberto Caeiro, o mestre, assume o panteísmo naturalista. Diz Campos: «O meu mestre Caeiro não era um pagão: era o paganismo». «Passa a árvore e fica dispersa pela Natureza. / Murcha a flor e o seu pó dura sempre. / Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre a que foi sua. / Passo e fico, como o Universo». Ricardo Reis afirma a nostalgia dos deuses gregos e romanos, Álvaro de Campos é o cantor da civilização mais moderna. Fernando Pessoa procura transcender, reunir, completar («seria um pagão, se não fosse um novelo embrulhado para o lado de dentro»). Segundo Quadros trata-se de uma catarse, pela qual podemos, a um tempo, encontrar o poeta em toda a sua riqueza interior multifacetada, bem como entendê-lo em toda a sua capacidade de se revelar numa ascese emancipadora. Anselmo Borges fala do «seu balancear constante, triturante, paradoxal e contraditório entre a Presença e a Ausência».

O ENTENDIMENTO DOS SÍMBOLOS

Há um pequeno texto de Fernando Pessoa, em «Sobre Portugal», que trata do provincianismo. Muitas vezes tem sido referido e citado, talvez como um juízo definitivo, que não é. Do que se trata é da definição de uma atitude crítica contrária do conformismo. «O provincianismo consiste em pertencer a uma civilização sem tomar parte no desenvolvimento superior dela – em segui-la pois mimeticamente, com uma subordinação inconsciente e feliz. A síndroma provinciana compreende, pelo menos, três sintomas flagrantes: o entusiasmo e a admiração pelo progresso e pela modernidade; e, na esfera mental superior, a incapacidade da ironia». O poeta pensa na necessidade de haver escóis, de haver uma aristocracia comportamental, de se cultivar a abertura e o cosmopolitismo, de superar uma tripla camada de negativismo: a decadência, a desnacionalização e a degenerescência. Não importará tanto ver circunstancialmente o que significa cada uma destas preocupações. A ilusão do progresso ilimitado, a tentação de não cuidar do futuro, o fatalismo e a indiferença – tudo isso está em causa. E o certo é que a ironia ganha uma especial importância. É fundamental sermos capazes de nos vermos projetados no espelho da crítica. A poesia encarrega-se de perscrutar diversos caminhos. Mais do que encontrar soluções, que não cabem à arte, trata-se de iluminar e de ajudar a ver. Impõe-se, porém, cuidar do entendimento dos símbolos, o que obriga à consideração, segundo Pessoa, da simpatia, da intuição, da inteligência, da compreensão e do conhecimento transcendente. Tem o intérprete de sentir simpatia pelo símbolo. Tem de ser capaz de ver o que está para além dele. Tem de saber interpretá-lo. Tem de o entender. E tem de apreender o seu sentido e significado. Eis por que a criação cultural se torna fundamental, por contraponto às ilusões do provincianismo…
Guilherme d’Oliveira Martins

(Enviado por Auxília Ramos)

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Ler e (re)criar

Mais um trabalho de recriação literária, no âmbito da motivação para o estudo do texto poético. Os alunos, tomando contacto com a primeira manifestação literária do lirismo português, escolheram uma cantiga de amigo e imaginaram, a partir dela, uma página de diário ou uma carta, dada a natureza biográfica e intimista das cantigas de amigo galego portuguesas.

  1.
Pois nossas madres van a San Simon
de Val de Prados candeas queimar,
nós, as meninhas, punhemos de andar
con nossas madres, e elas enton
queimen candeas por nós e por si
e nós, meninhas, bailaremos i.

Nossos amigos todos lá irán
por nos veer, e andaremos nós
bailando ante eles, fremosas en cós,
e nossas madres, pois que alá van,
queimen candeas por nós e por si
e nós, meninhas, bailaremos i.

Nossos amigos irán por cousir
como bailamos, e podem veer
bailar moças de bon parecer,
e nossas madres pois lá queren ir,
queimen candeas por nós e por si
e nós, meninhas, bailaremos i.

Pêro de Viviaez, CV 336, CBN 698

 
Portus Cale, 1 de fevereiro de 1342

Querida prima Josefa,

Antes de mais, queria pedir-te perdão pelo incumprimento da minha promessa. Assim que te mudaste para Barcara Augusta, jurámos manter contacto, porém, só agora te escrevo esta carta para te contar todas as novidades e reatar a nossa relação. Tenho estado muito ocupada a tratar das nossas terras e a fazer os vestidos para a Rainha, pelo que não tenho tido oportunidade para te escrever.

Como sabes, no domingo passado, festejou-se o São Simão de Val de Prados, uma romaria muito conhecida por ser um importante ponto de peregrinação. Eu e as minhas amigas fomos à festa, acompanhadas das nossas mães, já que é impensável ir a qualquer lado que seja sem a supervisão da mãe. No entanto, as nossas intenções eram bem distintas. Enquanto as mães pretendiam rezar e cumprir as promessas que haviam feito, acendendo velas aos santos, eu e as minhas amigas tínhamos uma outra intenção, encontrar os rapazes.

Como também sabes, ainda estou solteira e este facto atormenta-me um pouco. Bem, mas, se refletirmos um pouco, posso afirmar que na teoria estou solteira, mas na prática não...

Não estava com grande ânimo para ir à romaria, uma vez que tenho tido muito trabalho e tenho andado estafada. No entanto, o facto de pensar que iria encontrar aquela pessoa que me acelera o coração, restabeleceu-me, de imediato, as forças. Dançar diante dele para me exibir não é coisa que se faça, eu sei bem, mas as minhas amigas incentivaram-me a fazê-lo. Será que fiz mal em dar um passo em frente?

Fico a aguardar uma resposta e espero que também me contes novidades.

Despeço-me com muito respeito e carinho,
Carlota Esteves

Ana Lídia, 10A


2.



Ai madre, ben vos digo,
mentiu-mi o meu amigo,

sanhuda lh’ and’ eu.

,


Do que mh ouve jurado

pois mentiu per seu grado,

sanhuda lh’ and’ eu.
,


Non foi u ir avia,

mais ben des aquel dia

sanhuda lh’ and eu.

,


Non é de mi partido,

mais, por que mi há mentido,

sanhuda lh’ and’ eu.

PERO GARCIA BURGALÊS


Mãe,



Nem acreditará! Sabe o meu amigo? Aquele que iluminou os meus dias mais sombrios, que foi o meu oásis no deserto da solidão? Sim, é esse mesmo em que está a pensar. Ele mentiu-me!

Ando furiosa com o mundo, comigo e com Deus! Jurou-me ser honesto e, agora, traiu a minha confiança! Odeio este sentimento de indignação. Odeio sentir-me não merecedora da sua verdade. Sabe, não me irrita o facto de ter partido, irrita-me, sim, ter mentido sobre para onde ia.

Já não sei nada dele desde aquele dia. Ando preocupada, mas, sempre que me recordo dele, a raiva reaparece.

Preciso de si e das suas palavras tranquilizadoras para a minha alma. Responda-me o quanto antes, por favor.


Da sua querida filha,

Bianca



Enviado por Auxília Ramos


quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Ler e (re)criar

  Mais um trabalho de (re)criação literária, desta vez de uma aluna do 10ºano, na sequência do segundo contrato de leitura, dedicado aos textos memorialistas, diarísticos, epistolares e biográficos.

 Os documentos apresentados testemunham e ilustram a leitura intertextual do livro de Lobo Antunes "D’este viver aqui neste papel descripto" – Cartas da Guerra  e o seu cruzamento com o espólio familiar da aluna Ana Lídia Neves, através de cartas, memórias e fotografias. A prova de que os livros ganham vida dentro de nós...

  Aqui ficam as suas próprias palavras:

   No âmbito do segundo “Contrato de Leitura”, foi-nos sugerida a leitura de livros com registos diarísticos e memorialísticos. Assim sendo, a minha escolha incidiu sobre o livro de António Lobo Antunes, D’este viver aqui neste papel descripto – Cartas da Guerra.

   Ao longo da leitura, fui descobrindo que esta obra tinha muitos pontos em comum com a minha família. Tal como o meu avô Álvaro, António esteve em Angola, na Guerra Colonial. Ambos deixaram em Portugal as suas amadas e a escrita funcionava como elo de ligação, que era feita através de cartas, postais e aerogramas. A leitura destas cartas mostra-nos o estilo de linguagem utilizada nesta época e a forma como um namorado/um marido se dirigia ou se despedia da sua namorada ou da sua noiva.  Nos documentos apresentados, podemos verificar as semelhanças entre a forma como era feita a comunicação nos anos 60 e 70. A distância e a   ausência de tecnologias não permitiam outra forma de contacto.


 *


17-12-1961
Minha querida noiva,



Ofereço-te este cartão de Boas Festas como prova e testemunho dos meus votos a Deus para que tenhas um Natal Feliz e um Ano Novo Próspero.



Minha querida assino com toda a consideração e estima.



Com um aperto de mão.
O teu noivo,



Álvaro dos Santos Ferreira



                       
*

                  22-12-1971



Meu Amor,



Acabo de receber o melhor presente de Natal que poderia desejar: o Batalhão vai para Malange, mas os médicos ficam. A crueldade a injustiça disto são de tal modo horríveis, que não vale a pena acrescentar mais nada.



A propósito do Natal, minha Paulinha Boghese, o João e a Lídia, ou inversamente, mandaram-me um cartão de Boas Festas.



Desculpa-me, mas nem consigo escrever. Perdoa-me.



Muitos beijos do teu marido que te adora.



António

Ana Lídia, 10A
Enviado por Auxília Ramos




domingo, 29 de janeiro de 2012

Ler e (re)criar

Dois trabalhos de (re)criação da leitura: primeiro é um mini-romance em forma de diário a partir da leitura de Os Filhos da Rua Arbat. O outro é um artigo de apreciação crítica sobre Comissão das Lágrimas, de António Lobo Antunes.


1.

..

Este romance decorre numa altura em que vigora o Comunismo na URSS, liderado por Iossif Vissarionovitch Djougatchvili, mais conhecido por Estaline. Uma época de repressão intensa, onde quem pretende viver é obrigado a acreditar nos ideais do Partido e que “Estaline tem sempre razão”. Ninguém duvida do poderio deles e tem de obedecer-lhes cegamente. De facto, até tenho conhecimento de jovens que denunciaram os pais por estes criticarem a política dos kolkhozes. São casos extremos, claro, mas o Partido está à frente de tudo e ninguém ousa apontar-lhe o dedo. Em breve, a URSS será uma potência, uma das maiores do Mundo, e poderemos combater contra os monstros capitalistas.
IRMÃOS PROLETÁRIOS DE TODO O MUNDO, UNI-VOS!
O meu nome é Vladimir Franciscovsky e sou Comunista.

I
Mais um calmo dia na Arbat. Escola, Konsomol
[1], casa. Minha mãe, Nenka, pediu-me para ir recolher os bens destinados para a semana que começa. Chegaram os cartões de racionamento. Em breve serão abolidos, dizem. Será um ligeiro retorno à diferenciação social? Não percebo por que colocam a hipótese de extinção dos cartões, quando se pretende a união das classes. Como também não percebo que solução arranjarão quando o inverno atingir o Cazaquistão donde chegam os cereais. Para já, não temo estas hipóteses. O camarada Estaline tem dois dedos de testa e sabe que mais vale prevenir que remediar. Não, não temo! Ele é o Grande Pai e só quer o nosso bem.
“Ora, cinco quilos de carne, pão, ovos, um kulitch, samovar, vodca e salame...mais alguma coisa, Chicovsky
[2]?”, pergunta Arshavin, o merceeiro.
“É tudo”, afirmei.
Regresso a casa e ajudo minha mãe a arrumar aquilo a que temos direito. Teremos que esconder a vodca, pois, meu pai, Malafeev, transforma-se numa violentíssima pessoa apenas com uma pequena dose.

II
Há três dias, Estaline fez uma visita à minha escola. Sacha Pankratov, meu colega de carteira, deu-lhe as boas vindas em nome de todos e iniciou a conferência. Estaline começou o discurso. Demonstrou-nos as metas do segundo Plano Qinquenal, que consistia no desenvolvimento do setor da indústria ligeira e dos bens de consumo. As coisas parecem estar a mudar. Fico feliz que assim o seja.
No fim da conferência, “propõe-se uma moção de fidelidade ao camarada Estaline”. Deste modo, todos os alunos e professores se levantam e batem palmas, aplaudindo o nosso grande camarada. Durante cinco minutos, persistem os aplausos. Os braços e as mãos começam já a dar desconforto. Mas parará alguém? Pouco provável, muitos são os funcionários do NKVD que nos observam para descobrir quem cede. E, assim, os aplausos sucedem-se durante largos, largos minutos... Pouco antes de chegar ao quarto de hora, o diretor da escola, indivíduo já com os seus sessenta anos, senta-se com um ar exausto.
Desde esse dia, o diretor ainda não foi visto. Fiquei a saber que foi condenado por dez anos, para a Sibéria... motivos que “não interessam à ordem pública”. Enfim, era um senhor simpático. Mas, se o Partido o prendeu, foi porque ele ofendeu em algum aspeto o Povo
[3].

III
Sacha e eu fomos chamados à direção do Konsomol. Em princípio, seria uma visita de rotina, visto que, sendo nós membros do comité central, é usual distribuírem-nos tarefas e objetivos. Contudo, esse não era o assunto que nos esperava.
“Sentem-se”, ordenou o velho Dimitri, presidente do Konsomol. “Vou direto ao assunto. As vossas atitudes deixaram-nos boquiabertos. Membros natos do Partido, Comunistas de verdade, ninguém esperava isto da vossa parte”, o seu olhar azul e aguçado tornava-se cada vez mais penetrante como se nos lesse os pensamentos.
“Não sabemos do que falas, Camarada Dimitri”, afirmou Sacha surpreso. Dimitri pareceu ignorá-lo.
“As vossas atitudes causaram divergências dentro do Partido e, para inimigos, bastam-nos os capitalistas!”, rugiu o velho de lá de cima dos seus dois metros.
Farto de procurar respostas no meu pensamento, comecei a sentir-me injustiçado.
“Camarada, já advertimos que não estamos a entender o motivo de tanto alarido. Por favor, informa-nos de forma a melhorarmos as nossas ações e a não voltarmos a prejudicar o Partido, se é que o fizemos”.
“Tivessem pensado nisso antes. De boas intenções está o inferno cheio. Agora saiam. Desiludiram-me a mim, que sempre confiei em vocês, ao camarada Estaline, a todo o Konsomol, enfim, ao povo russo que tanta confiança tem na nossa instituição. E façam o favor de deixar aqui, na minha secretária, os vossos crachás do Partido.” Dimitri ficou a olhar distante para a praça Plotnikov, enquanto nós abandonámos o escritório, estupefactos.
Nessa mesma noite, tocaram à porta de minha casa. Minha mãe foi abrir e dois sujeitos altos e robustos penetraram diretamente no meu quarto, de tal maneira que parecia que já lá tinham estado antes, pelo modo como o descobriram no meio de cinco portas.
“NKVD”, afirmou um deles, “não nos tente fazer frente. Estamos aqui em nome do Partido. Pegue numa toalha, numa muda de roupa e em alguns objetos pessoais. Está proibido de se fazer acompanhar de objetos cortantes como lâminas de barba e tesouras. Não nos desobedeça. Pode nunca mais ver a Arbat.”
“Descanse, minha mãe, não se passa nada...”, tentei acalmá-la e penso que a mim mesmo...

IV
“Jantar!”
20:00h. Já me habituei aos rituais da prisão. A comida não é grande coisa e passo bastante frio. Desta vez, são ovos cozidos, pão e um copo de água. Mas, mesmo assim, não é mau de todo. Pelo menos tenho livros, de dois em dois dias há uma distribuição deles. Dostoievski e Tolstoi são, do meu ponto de vista, dos melhores escritores de toda a Rússia.
Soube, por minha mãe, que Pankratov teve o mesmo destino que eu. Enfim, ainda não percebo que mal provocámos ao Partido. Mas, se ele afirma isso, então é legítimo privar-nos a liberdade. O Partido tudo sabe, tudo controla. Nós somos simples peças, não sabemos nada. E, por isso, temos que ser guiados pela sua mão paternal.

V
Às quatro horas dessa noite, fui acordado e obrigado a vestir.
“Alenitchev espera-te, Franciscovsky”.
Alenitchev era considerado um mito por toda a URSS. Apenas visto em fotografias do jornal O Comunista, todos o temiam pela sua fama dentro do Partido. Acusavam-no de arrancar a confissão a pessoas que nem coragem tinham para matar uma mosca.
“Seja o que Deus quiser”, pensei, “estou de consciência tranquila”.
Fui ultrapassando corredores sujos e escuros e penso que subi dois andares. A porta estava aberta e, lá dentro, um olhar de rottweiler esperava-me. Era realmente medonho.
“Porque o fizeste?”, rugiu quase sem me dar tempo de fechar a porta.
“Não sei do que me acusam”, afirmei num sussurro.
“Como podes ter tal descaramento, camarada?! O Partido confiou em ti e traíste-o. E, ainda por cima, juraste defendê-lo em qualquer situação”
“E defendi sempre! Confio no Partido tanto como tu ou como o Camarada Estaline ou...”
“Chega! Não ouses mais falar em vão do nosso Grande Pai. Trabalhamos todos os dias para criar a real situação de igualdade, aquela que vai beneficiar todos e não uma pequena minoria. Tem-te faltado alguma coisa? Comida, cama, roupa lavada? Vives numa área quase de prestígio. Que mais queres tu? Queres trabalho, nós arranjamos; queres ir visitar a tua família a Leningrado, nós ajudamos nas tarifas; queres a tua mãe de saúde, nós comparticipamos nas despesas. Em que é que o Partido te faltou para jurares ser um fiel apoiante e agora o traíres?! Queremos apenas que pagues pelo teu erro, não te faremos mal. Esperemos que tenha sido um devaneio. Levem-no”
No dia seguinte, pressenti qual poderia ser a razão da perseguição. Os cartazes do Konsomol, sim! Como não suspeitei! Eu e Sacha trabalhámos na realização de uns cartazes em conjunto com outros jovens, entre os quais Krivorutchko, do qual se suspeitava não ter grande confiança nos ideais Comunistas. Realmente, aqueles textos eram um pouco ambíguos...
“Preciso de falar com Alenitchev”, disse ao guarda do corredor.
“Impossível”, disse secamente.
“Mas tenho forma de provar a minha inocência!”
“Achas que alguém vai acreditar em ti?! Traíste o Partido, não podes dar a volta a isso. Ignorarão as tuas supostas desculpas”
Aquele Krivorutchko...terá o seu pagamento!

VI
Nunca a minha vida tinha mudado tanto em dez segundos. Com a maior da naturalidade, fui, uma vez mais, acusado de atentado à construção da sociedade socialista e deportado para a Sibéria. Três anos. Três anos sem ver minha querida mãe, a Arbat, os meus amigos Lenka, Nina, Sacha, Varia, Iura, Max, Serafim Katia, Vadim, enfim, tudo o que fez de mim o que sou. Três anos... Três anos após os quais, muito provavelmente, não terei visto para regressar a Moscovo e ficarei excomungado de uma sociedade pela qual dei tudo...

Nota do Autor

Neste pequeno romance, por mim idealizado como recriação da história de Sacha Pankratov, apenas o nome do protagonista, de Krivorutchko e dos amigos são iguais aos da obra. Todos os outros são fictícios. Jovem que vivia na Arbat, Sacha desde novo difundiu os ideais do Partido como um comunista de verdade e até possuía um alto cargo no Konsomol. Contudo, vicissitudes dentro do instituto ditaram a sua sentença. Tal como Franciscovsky, foi preso e julgado por um ato do qual não tinha a noção estar a exercer contra o Partido. Assim, é preso e deportado sem justa causa e não volta a ver a sua querida mãe, a Arbat e os seus grandes amigos.
Esta obra é, indubitavelmente, fenomenal e extremamente bem conseguida por Anatoli Ribakov, pois mostra-nos o terror vivido durante o Estalinismo, através de um alargado número de personagens, muitas delas reais, incluindo o próprio Estaline. O autor, na primeira pessoa do chefe, mostrou a dureza da sua personalidade, os seus pensamentos acerca de elementos do Partido e, inclusive, aspetos da vida privada, como uma ida ao dentista. Ribakov apresenta-nos, assim, o panorama da sociedade soviética repressiva dos anos 30. Muitas das histórias são verídicas, incluindo o assassinato de Kirov, membro do Partido e considerado como um opositor a Estaline (como demonstram vários pensamentos do ditador).
Em suma, “combinando a técnica do romance policial com uma fascinante análise da psicologia do poder de Estaline (e do próprio), o autor traça um extraordinário retrato da primeira geração que cresceu sob o regime comunista. E escreve a obra definitiva sobre o processo que levou um dirigente a aterrorizar toda uma nação”
[4].
[1] Abreviatura de Komunistitcheski Soyuz Molodioji - União da Juventude Comunista.[2] Nome carinhoso de Franciscovsky.[3] Com base no excerto de Alenxandre Soljenitsyne, na obra Arquipélago do Gulag.[4] RIBAKOV, Anatoli, “Os Filhos da Rua Arbat”, Círculo dos Leitores, Sinopse



Francisco Melo



2.




...

As guerras mais difíceis de vencer são as que travamos com nós mesmos, quando nos começamos a perder e já não há quem possa restaurar aquilo que um dia fomos.
Comissão das lágrimas são memórias do período pós guerra colonial, de uma perspetiva mais pessoal, e que encontra as verdadeiras perdas de cada um. Cristina batalha com uma vida de loucura que a arrastou para uma clínica psiquiátrica. Tem memórias vagas daquilo que a sua família passou em África. “Família” não no sentido de amor e compaixão, mas, sim, no sentido abruto, numa ligação entre pessoas que somente passa pela genética e de um homem preto a quem chama pai, mas que na verdade não o é. Esse preto que “não [tem] país, não [tem] um sítio, não [tem] um coração, [tem] um tambor que não para.”
Mais importante do que as personagens disfuncionais que aqui encontramos, será talvez a escrita poética da obra. Lobo Antunes fala-nos através de vários narradores, que gritam desespero. Palavras frias que retratam a infelicidade, e, como se não fosse possível escrever de uma forma que mais se assemelhasse à dor humana, ainda nos deparamos com dilacerações textuais. Vive-se uma paranoia, reavivam-se memórias que se repetem constantemente, para demonstrarem o quão confusas são as mentes daqueles que vivem na imaginação do autor. São “flashes” que exigem ser rapidamente registados; é uma voz que guia o leitor ao longo de todo o livro. Mas fica muito por dizer. Apenas percebemos que Simone ou Alice é uma mãe que se debate com a patologia da filha, que sofreu de abusos, que dormia na mesma cama de um marido por quem sentia um nojo incomensurável. Aquilo que sabemos é que não há regresso de certos locais da mente, e que aqueles que perfazem o livro encontram-se já num lugar distante.
Andamos a juntar as peças de várias vidas que nunca tiveram um sentido, somos nós que percorremos o labirinto, só para chegar à conclusão de que estão destinadas a ser o que sempre foram. Pedaços, restos.
Simone é atormentada por dores no joelho. Perseguem-na em todo o livro e essa dor constante vem apenas enfatizar que a personagem é escrava das suas acutilantes memórias que parecem penetrar-lhe o joelho com agulhas. E, afinal, são simplesmente dores de alma.
Lobo Antunes não quis que o livro fosse uma estória. E não o é, por um único momento.
Diana Falcão

Enviado por Hélder Moreira

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Ler - janeiro

Feliz 2012! Com boas leituras...



E, já agora, vale a pena espreitar a página da revista Ler, totalmente renovada.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Onde vais, Valter Hugo Mãe?







Reinterpretar os clássicos

1.




Porto, 20 de janeiro de 1806


Não sei ao certo por que razão lhe escrevo esta carta, se já não está comigo. Cinco meses e dezasseis dias passaram e o sentimento que me invadiu o coração no momento em que o Senhor Simão me leu naquela carta que tinha partido demora-se no meu peito… ainda mais porque o tiraram de mim e eu estava longe! O Senhor Simão parece cada vez mais desolado. As notícias da menina Teresa são escassas, e já nem o brilho da abóbada que o alumia, nem o luar que ele respira, lhe alimentam a ânsia de chegar ao dia em que poderá sair daquele cárcere e a voltar a senti-los além daquelas grades. Costumava ir todas as noites procurar as suas estrelas no céu, com o pensamento em Teresa, que, segundo o que me contara, mantinha o apaixonado ritual. Mas não é cumprida a promessa há já três luas. E eu, que guardo em mim todo o amor que não posso viver com aquele que me chama “irmã”, não sei mais o que fazer para o esperançar… Ah, meu pai, se estivesse aqui como me poderia ajudar! … Só quero o bem daquele que amo. E se de tal feito só a bela fidalga é capaz, então eu rezo para que os dois amantes trespassem todos os embargos e consigam, finalmente, proteger-se um ao outro. Mas nem as minhas preces à Virgem Santíssima parecem ser ouvidas… No entanto, de algo tenho a certeza, meu pai: meu coração assim o diz. Este amor a que assisto é incurável. Simão e Teresa, ainda que as suas famílias não o consintam, amam-se incondicionalmente. Eternamente. E seja qual for o fado desta paixão, no fim terei a certeza que Simão amou, se perdeu e morreu amando. E que este é um verdadeiro amor de perdição. Ainda a refletir a fim de conseguir animar o Senhor Simão, suscitou-me, na manhã de domingo, quando atravessava o largo diante de cadeia da Relação aqui da cidade, a lembrança da menina Rita Castelo Branco, predileta irmã do Senhor Simão. Pobre rapariga! Deve estar tão receosa pelo mano, sem receber qualquer boa-nova… Lembrei-me de a convidar a visitar o parente, ainda que profanando a religiosa vontade de seu pai, o mestre Domingos Botelho. Mas como é situação demasiado arrojada, hesitei em comunicar-lhe a fantasia. Ainda assim, tal pensamento não terá sido em vão, pelo que me ocuparei a partir de agora de meditar sobre a ideia que, se bem sucedida, alegrará, com certeza, o Senhor Simão. Está já a aproximar-se o soar do sino. Está já a aproximar-se o momento de voltar para perto do homem que por amores morrerei. Faz-me falta, meu pai. Sem si, tenho apenas um fim: acompanhar Simão até ao seu último suspiro. Embora o que mais me apoquenta seja a incerteza dos rumos até ao desfecho deste romance. Ainda assim, acredito que o pai tenha ido ao encontro da Virgem Santíssima e que esteja a seu lado a olhar por mim e pelos dois apaixonados.
Com saudade. Sempre sua,

Mariana.
Daniela Santos, 11º C
.

2




Cara Clarissa,
Espero que tudo esteja bem em Londres, que a tua vida seja a projeção dos planos que sempre tiveste para o futuro. Um destino bem delineado, com todas as linhas traçadas e todos pormenores meticulosamente pensados e repensados. Espero que a tua filha esteja com saúde e que continue a ser a pequena menina ajuizada que fora em criança. Mas não espero uma coisa: não espero que o teu casamento seja maravilhoso, não espero que sejas feliz presa a um homem que nem sequer amas. Não espero que esse senhor que dizes ser delicado e atencioso para contigo seja aquilo que aspiraste ter na vida. E digo-te mais: em muitos momentos, senti inveja desse homem que se deita contigo e contigo acorda todos os dias. Sei que ao leres isto não ficarás incrédula. Sei que não irás ficar surpreendida e, obviamente, nunca irias demonstrar tal sentimento. Afinal, as tuas ações respondem apenas a um guião, não sofrem de irreverência. Nunca tiveste um imprevisto, pois não? Não. Tenho a certeza de que nunca irias permitir tal evento. E, diz-me a verdade, amas realmente alguém? É que eu já amei tantas mulheres na minha vida. Sinto que o meu coração já viajou por muitos lugares. E, mesmo assim, nunca te esqueci. Em dia algum apaguei o teu sorriso da memória, um sorriso camuflado pela frieza que te acompanha. Em dia algum deixou de ecoar a tua voz na minha cabeça. Em dia algum se evadiu a tua esbelta imagem dos meus arquivos mentais. E sabes o que é mais curioso? É que a razão por que nunca te esqueci é porque nunca encontrei outra alma feminina que me atraísse pelo seu irreverente desprendimento ao mundo e àqueles que a rodeiam. Escrevo-te isto para te dizer que vou casar. Agora, sim, pressinto que ficaste perturbada com esta revelação. Encontrei uma mulher que nada tem a ver contigo, é doce como todas as manhãs de primavera, de uma beleza extraordinariamente comum, e é com ela que pretendo viver até ao resto dos meus dias. Preciso de paz e serenidade, aquilo que nunca me poderias ter dado. E, a partir de agora, nunca poderás. Não acho que isso te entristeça, acredito que nada disto te deixará perturbada. O que sinto é a tua revolta interior, por te saberes trocada por uma mulher que em tudo se inferioriza á tua altivez, por saberes que não a amo como te amo a ti, e mesmo assim já não és mais a minha escolha. Querida Clarissa, já nos conhecemos há tantos anos, e nunca te disse que a tua postura arrogante perante as situações e as pessoas que te acompanham só resultaram em algo de que irás aperceber no fim da tua vida. Irás morrer sozinha e abandonada, irás tornar-te escrava da tua insolência. Peço-te, sinceramente, que sejas feliz e que faças o mesmo pelos outros. E gostava de ter percebido mais cedo que, mesmo que me tivesses dado uma oportunidade para estar a teu lado, nunca te teria feito feliz. Nunca ninguém fez, nunca ninguém o fará.

Até sempre,Peter Walsh
Diana Falcão, 11ºD
...


3.





Sampetersburgo, 25 de março

Querido diário,
Sabes como são aqueles momentos de indecisão entre saltar o abismo ou manter os pés em terra firme? Aquele sentimento de angústia a dominar o teu ser? Pois, eu hoje sinto-me assim… Penso que as pessoas só dão valor a algo quando o perdem. E o mesmo se aplica a mim! Nunca imaginei que um nariz fosse um elemento tão fulcral na minha vida. Agora que me separei dele, já compreendo a sua relevância. Sim, de facto, hoje o meu dia foi diferente. Acordei cedo, uma vez que os pássaros já entoavam as suas melodias matinais e, lentamente, pois não queria abandonar o conforto da cama, levantei-me para mais um dia neste mundo gélido. Porém, quando me encontrei à frente do espelho, petrifiquei. Por uns momentos, esfregava os olhos, e voltava a paralisar. Faltava alguma peça naquele “puzzle” de beleza humana…. O nariz! Aquele importante pormenor desaparecera ou desertara por algum motivo desconhecido… No entanto, a minha vida teve de continuar, com ou sem face completa. Mas como sair à rua sem que ninguém repare? Como falar com alguém sem que se indague sobre o que se sucedeu? Perante tantos dilemas e sem respostas que os solucionassem, decidi manter a rotina e avançar rumo ao desconhecido. Saí à rua, e a brisa atacou aquele incógnito espaço da minha cara. Aconcheguei-me no cachecol e continuei o meu caminho, passo a passo. Entrei numa pastelaria e pedi algo para me aquecer. O cachecol formou uma barreira entre mim e o café e, por isso, tive de o retirar. Não, não podia permitir que alguém me visse naquele estado. Paguei o café que não bebi e abandonei o estabelecimento. Refugiei-me em casa, com receio de que alguém me visse naquela abominável figura. Mantive-me encarcerado todo o dia, espreitando o mundo pela pequena janela do meu quarto. É impressionante como algo supérfluo, que por vezes tomamos por certo, nos prende a uma realidade na qual não queremos vaguear. Deixamos de ser independentes para vivenciar cada momento das nossas vidas com normalidade. Ficar sem nariz tirou-me a minha independência. E eu julgava-me dono do meu nariz!
Kavaliov

Fábia Alves, 11ºC
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...
4.

Crítica Literária

Uma Abelha na Chuva




Carlos Oliveira publicou esse livro, Uma Abelha na Chuva, no ano de 1953. O enredo baseia-se na relação estéril de um casal: D.Maria os Prazeres de Alva Sancho Silvestre e Álvaro Rodrigues Silvestre. A ação desenrola-se na aldeia de Montouro, durante um outono chuvoso, e é no decorrer da mesma que o leitor se apercebe de que Carlos Oliveira lança fortes críticas às injustiças existentes na sociedade e nas relações humanas do Portugal do século XX. É de notar a originalidade no começo deste romance: Álvaro Silvestre dirige-se à “Comarca” (jornal local) para implorar a publicação da sua confissão sobre todos os delitos que tinha cometido. Porém, essa confissão acaba por não ser publicada graças à entrada de D. Maria dos Prazeres. Durante o resto da narrativa, todas as personagens que entram em cena neste romance acabam, basicamente, por sentenciar os acontecimentos do dia a dia. D. Maria dos Prazeres, esposa de Álvaro Rodrigues Silvestre, foi, sem dúvida, a personagem que mais me marcou. Amargurada e descontente com o rumo que a sua vida tomou, vive constantemente infeliz e desejando outra vida para si. Nota-se, desde logo, que não nutre qualquer tipo de amor pelo seu marido e está, desde sempre, no casamento por obrigação. Sendo filha de fidalgos arruinados, a sua única alternativa era casar com um homem de uma família abastada. E assim foi. Para além disso, com o passar dos anos, um dos seus maiores desejos não se concretizou. D. Maria dos Prazeres nunca teve o seu tão desejado filho, aumentando, assim, o seu sentimento de fúria para com Álvaro. Durante a narrativa, são claros os seus sonhos com outros homens que cobiçava, no entanto, isto acontecia pelo simples facto de se demonstrar uma figura carente. Contudo, embora D.Maria dos Prazeres pense o contrário, Álvaro gostava realmente dela, algo que se vai revelar no final do livro. Na minha opinião, neste livro, as personagens desenvolvem uma espécie de metamorfose, pois as características que as definem no início do livro diferem das do fim. É, de facto, uma obra escrita com uma grande subtileza por parte de Carlos Oliveira. Será que toda a gente é quem parece? Para descobrir até à última linha…
Maria Inês Castro, 11º C




5. (Clicar na imagem, para ver o vídeo)