
A escritora Ana Luísa Amaral visitou-nos, a convite dos professores Hélder Moreira e Alexandra Martins. Falou de poesia, de clássicos da literatura, da sua forte ligação com a palavra...
Deixamos o poema que leu, como só ela o sabe fazer, e duas fotos que testemunham a sua presença.
Passado
Ah
velha sebenta
em
que escrevia as minhas composições de Francês
“Mes
Vacances”: gostei muito das férias
je suis allée à la plage (com
dois ee,
o
verbo ètre pede concordância), j’ai beaucoup
nagé
e depois terminava com o sol a pôr-se
no
mar e ia ver gaivotas ao dicionário
As
correcções a vermelho e o Passé Simple,
escrever cem vezes nous fûmes
vous fûtes ils fúrent
as
tardes de sol
e
Madame Denise que dizia Toi ma petite
com
ar de sargento e a cara zangada a fazer-se
vermelha
(tenho glóbulos a mais, faites attention)
e
o olhar que desmentia tudo
em
ternura remplit
E
as regras decoradas e as terminações
verbais
a i s, a i s, a i t,
a
hora de estudo extra e o sol de fim de tarde
a
filtrar-se pelas carteiras,
a
freira a vigiar distraída em salmos
eu
a sonhar de livro aberto
once upon a time there was
a little boy
e
as equações de terceiro grau a uma
incógnita
Ah
tardes claras em que era bom
ser
boa, não era o santinho nem o rebuçado
era
a palavra doce a afagar-me por dentro,
as
batas todas brancas salpicadas de gouache
colorido
e o cinto azul que eu trazia sempre largo
assim
a cair de lado à espadachim
As
escadas de madeira rangentes
ao
compasso dos passos, sentidas ainda
à
distância de vinte anos,
todas
nós em submissa fila a responder à chamada,
“Presente”
parecia-me então lógico e certo
como
assistir à oração na capela e ler as Epístolas
(De
São Paulo aos Coríntios:
Naquele
tempo...),
tem
uma voz bonita e lê tão bem, e depois
mandavam-me
apertar o cinto para ficar
mais
composta em cima do banquinho,
à
direita do padre
E
o fascínio das confissões,
as
vozes sussurradas na fina teia de madeira
castanha
a esconder uma falta,
o
cheiro do chão encerado e da cera das velas
e
quando deixei de acreditar em pecados
e
comecei a achar que as palavras não prestam
e
que era inútil
inútil
a teia de madeira
Ah
noites de insónia à distância de vinte anos,
once upon a time there was
a little boy
and he went up on a
journey
there was a little girl,
une petite fille
e
o passé simple, como parecia simples o passado
Au clair de la lune
mon ami Pierrot
Prête-moi ta plume
pour écrire un mot
Escrever
uma palavra
uma
só
ao
luar
a
pedir concordância como uma carícia
Elles
sont parties,
les
mouettes
1 comentário:
Olá, colega
Também sou professora de Português. Para preencher o vazio que sentia no campo da formação, decidi fazer doutoramento.
Presentemente sou aluna do Instituto de Educação da Universidade de Lisboa.
Comecei uma investigação que se baseia na tese de que o desenvolvimento da identidade profissional dos professores de Português se tem apoiado no uso das tic. Neste momento, trabalho um capítulo (da tese) que tem por temática o uso pedagógico dos blogues. O trabalho que alguns professores têm desenvolvido foi a minha inspiração para a investigação.
Primeiramente, o pedido de ajuda vai no sentido de solicitar autorização para poder estudar o seu blogue, de acordo com uma grelha que elaborei para o efeito.
Numa segunda fase, pergunto se seria possível conceder-me uma entrevista.
Se entender conhecer o projeto de tese na sua totalidade, também o posso enviar, uma vez que já está aprovado.
Muito obrigada
Maria da Conceição Leitão
Escola Secundária de Alves Redol
conceicaoleitao@esar.edu.pt
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