sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Estrelas em papel - 7ºAno

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Fruto da cooperação entre as disciplinas de Ed. Visual e de Língua Portuguesa, as turmas de 7ºAno expuseram os seus trabalhos de ilustração e de Oficina de Escrita, no âmbito do estudo do conto "A Estrela" de Vergílio Ferreira.
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Aqui ficam algumas imagens:
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quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Feira do Livro Usado

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Colégio Luso-Francês (de 15 a 18 de Dezembro)
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Tem sido comovente assistir à venda dos livros usados. Reunimos mais de 2000 volumes e já vendemos largas centenas em apenas dois dias. É uma experiência surpreedentemente tocante a de ver crianças de 5 anos a pedir aos pais para comprar um livro para ajudar os meninos de Moçambique. Agradecemos o empenho, o carinho e o tempo de todos quantos têm ajudado a tornar esta experiência possível. Neste caso, não podemos de forma alguma falar de lucro ou de dinheiro... pelo contrário, enquanto arrumávamos e catalogávamos e vendíamos, a nossa imaginação atravessava dois oceanos e dois continentes para junto daqueles que ainda não têm o que ler. E esse lucro é inestimável e imensurável...

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Estrelas em papel - 7ºAno

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fotografia retirada do sítio http://www.olhares.com/
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Mais um texto sobre A Estrela de Vergílio Ferreira:


7b


No cimo de uma montanha encontrava-se uma igreja, no cimo da igreja, uma torre, e, no cimo da torre, um galo de ferro que, apesar de não sair do sítio, se movia e vigiava o vale ao sabor do vento. As casas pequenas e brancas que as famílias habitavam estavam dispersas na parte superior do monte. A parte inferior era revestida por longas tiras de vinhas. Uma rua rasgava a montanha, desde a porta da igreja à aldeia mais próxima que ficava, aproximadamente, a onze quilómetros dali.
Já tinha passado, aproximadamente, um ano desde a morte de Pedro, um ano de tristeza entre as pessoas. As suas faces estavam pálidas e frias. As colheitas tinham sido fracas, os animais só emagreciam, as galinhas não punham ovos e o sol só se vira duas ou três vezes. A montanha estava cinzenta como o Inverno, apesar de estarem no Verão. Era estranho como é que a falta de um simples rapaz influenciara tanto a vida quotidiana dos habitantes.
Certo dia, a mãe de Pedro olhou para o céu e viu a estrela que se realçava no imenso escuro, por ser tão brilhante e bonita. Não costumava olhá-la, estava sempre ocupada a trabalhar ou a queixar-se do trabalho. A certa altura, estranhou o aumento gradual da intensidade do brilho da estrela que, realmente, não era normal. Chegou a um ponto que quase a cegara. Da luz, surgiu uma silhueta estranha. Era difícil identificá-la com os olhos semi-cerrados pelo brilho. Acordou num sobressalto e berrou:
- Pedro! Ele estava ali! O brilho! Eu vi. Eu sei que o vi. O nosso filho…
O pai, acordado pelo barulho, perguntou, obviamente, o que é que se passara. Ela, ainda confusa, continuou a dizer que vira o seu filho. Passados alguns segundos, apercebeu-se que fora só um sonho e encostou, muito triste, a cabeça de novo na almofada, mas não adormeceu.
No dia seguinte, a mãe caminhava calmamente pela aldeia. As olheiras destacavam-se no rosto pálido do frio e da tristeza. As pessoas cumprimentavam-na, mas ela não respondia; não por má educação, talvez por estar com sono ou ainda a pensar no sonho da noite anterior.
Na semana a seguir, foi verificar o lume, para não pegar fogo, como na noite em que descobrira quem havia raptado a estrela. Também como nessa noite, viu uma luz vinda por debaixo do quarto de Pedro. Ainda não o tinham arrumado, diziam que não tinham tempo. Na verdade, o que não tinham era coragem para entrar lá outra vez. Contudo, a casa podia a estar a ser assaltada. Então esqueceu o medo e entrou no quarto com um bastão na mão. Foi a maior surpresa do mês, e já tinha tido muitas, quando viu o seu filho a segurar a estrela. Era uma autêntica repetição do passado. A luz saía das mãos do menino que se sentava em cima da sua cama com os lençóis do Pato Donald. De Pedro, só ouviu uma palavra: “Esquece.”. No mesmo momento que sorria para a mãe, desapareceu. Agora, esta não chamou a atenção de ninguém. Quer essa cena tivesse acontecido ou não, ela retirou daí uma mensagem.
Desde então, nunca mais chorou outra vez por Pedro. Na manhã seguinte, as flores desabrocharam, as árvores deram frutos, as vinhas deram uvas e as nuvens afastaram-se, para deixar o sol brilhar, tudo num período de tempo muito curto.

Duarte Magano

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

60ºAniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos

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Hoje, foi esta a nossa Oração da Manhã no Colégio:
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Em nome dos que choram,
Dos que sofrem,
Dos que acendem na noite o facho da revolta
E que de noite morrem,
Com esperança nos olhos e arames em volta.
Em nome dos que sonham com palavras
De amor e paz que nunca foram ditas,
Em nome dos que rezam em silêncio
E falam em silêncio
E estendem em silêncio as duas mãos aflitas.
Em nome dos que pedem em segredo
A esmola que os humilha e os destrói
E devoram as lágrimas e o medo
Quando a fome lhes dói.
Em nome dos que dormem ao relento
Numa cama de chuva com lençóis de vento
O sono da miséria, terrível e profundo.
Em nome dos teus filhos que esqueceste,
Filho de Deus que nunca mais nasceste,
Volta outra vez ao mundo!

José Carlos Ary dos Santos, Kyrie

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Palavras que tocam...

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Destaque do Cabaz de Natal
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«Quando eu morrer não se esqueça de mim». A memória esvai-se. Quero-me lembrar da expressão, do sorriso límpido, de uma beleza despovoada como o deserto. Da tua juventude. Não tinhas vinte anos, isso é seguro. «Não se esqueça de mim!» Lembro-me da combina: «Só quero durar até ao Natal». Porquê o Natal, Deus meu? Tu que irias ter com os anjos todos os dias, e contar coisas da Terra e dos homens, tu que fazes já parte do paraíso e sempre fizeste. «Até ao Natal, doutor», depois pare as torneirinhas que regam as minhas veias, tentando manter o verde da vida, das plan­tas com viço que no meu jardim, à míngua de seiva, soluçam em tons de castanho. «Não se esqueça de mim». Não me esqueço de ti meu menino Jesus feito menina. Tu só querias viver até ao dia em que nasceu aquele que dá sentido às coisas. Porquê meu Deus? Cumpri a minha parte e tu cumpriste a tua. Não mais qui­mioterapia depois do Natal, só a tranquilidade dos que têm fé e sobem, devagarinho, perante nós. «Não se esqueça de mim». Como te posso esquecer? És só uma voz, uma esperança, um fio de coragem, coisa pequena, apenas regato. E no entanto, amo-te como a uma visão, uma miragem que deixasse uma marca de pri­vilégio por ter tocado a tua mão. Tenho a memória exacta do can­cro. Começava no pescoço. Devagarinho subia através da nuca, silencioso, determinado como fera no capim. Penetrava o osso, abria o embrulho que esconde e protege a tua alma, e em tons de branco e cinzento, devagarinho, corroía o cérebro. Primeiro encostou-se, depois embuste, como erva daninha, começou a ali­mentar-se do teu sangue, sorveu a tua vida, entrou sem pedir licença. Conheci-te porque ao tocar o teu íntimo, a doença, cal­cula, fazia-te ver estrelas. Pequeninas, brilhantes e fugazes. Estra­nhas, contudo, porque surgiam durante o dia. «Doutor, não se esqueça de mim». Não me esqueço, nem do remorso pela pirueta de artista amestrado que se enche de orgulho pelo diagnóstico certeiro, ainda que seja o de uma flecha implacável que marca o destino. As estrelas que vê, minha querida, não habitam o céu, são fogo de artifício da doença que a consome. Coisa estranha a epilepsia. O cérebro invadido cria por momentos a ilusão de um firmamento. Eu vou tratá-la, quero dizer, trazer as estrelas à terra e apagá-las com um sopro. Como velas em dia de anos. Ao mesmo tempo, minha querida, apagar a ilusão. Eu próprio bate­rei palmas ao golpe de mágica que faz desaparecer as estrelas como te afastasse, te adiasse o Céu que no fundo desejavas. «Até ao Natal, doutor, e depois, não se esqueça de mim».
Agora, onde estiveres, de certeza que há Mar. Brincas com o Menino Jesus que querias conhecer, a cuja festa de anos não que­rias faltar, menina que espera o nascimento do irmão. Escavam na areia crateras que a maré enche. Ouvem o adeus das ondas e sentem o abraço do seu retorno. De certeza que discorrem sobre coisas de somenos importância, quem sabe disputam pás e anci­nhos, clamando pela Nossa Senhora que ponha ordem naquela disputa. Estou certo que levaste a melhor, e o menino Jesus, a cujos anos não querias faltar, faz carranca e beicinho. Nossa Senhora irá decerto lembrar a generosidade que é necessário te: com quem se convida para os anos.» Deixa a menina brincar». «Só até ao Natal, doutor, e não se esqueça de mim». Não te esqueças tu de mim. Onde estás lembra-te de que cumpri a minha parte, lutei contra a besta que te consumia e de mim te apartava, apa­guei as luzes que pareciam estrelas e criei a ilusão de adiar a eternidade. Como se fosse possível, meu Deus, haver vida para além do Natal.
Nuno Lobo Antunes

Pessoa(s) - 12ºAno

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Ainda Fernando Pessoa (Oficina de Escrita: Pessoa visto pelos alunos)
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Um homem enchapelado e de vestes negras senta-se à secretária de cigarro na mão. Na sua face lê-se uma expressão algo enigmática, e na folha que repousa sobre a mesa adivinha-se um poema. O bigode curto e negro e os óculos de míope inveterado não deixam dúvidas: é Fernando Pessoa. Deixou-nos Almada Negreiros esta imagem de um homem que, ou pelo interesse pela literatura, ou pela força de frequentes encontros casuais com a sua figura e com o seu nome, a todos nos é familiar. De facto, Fernando Pessoa é um nome que desde logo se impõe como sendo pertencente a uma personalidade lapidarmente impressa na literatura e espírito nacionais. Conquanto não tenha conhecido qualquer projecção em vida, tendo sido recebido com desprezo pela maioria do público, Pessoa enfileira hoje, de forma incontestável, entre os maiores poetas de todos os tempos.
Aquilo que sei sobre ele deriva, pois, de uma espécie de consciência nacional, a mesma que me leva a reconhecer a Torre dos Clérigos ou o Mosteiro dos Jerónimos como parte integrante de um património profundamente português. Sei-o múltiplo, ecléctico, paradoxal, anglómano e predicante de ideais de teor patriótico, sebastianista e regenerador. Invejo-lhe a imaginação, e a capacidade de continuamente recriar os mundos quiméricos de que se fazia rodear. Encontro nele uma nova forma de conceber a literatura como linguagem e uma relação desconcertante entre autor e obra, que tanto se aparta da tradicional. Muitos são aqueles que nos seus poemas e romances dão vida a personagens fictícias, delineando-lhes a biografia e a personalidade, mas ninguém como Pessoa se apodera dos caracteres físicos e psíquicos das suas criações, fazendo-os seus. Campos, Caeiro e Reis são personagens que poderiam figurar num qualquer romance, mas a quem Pessoa empresta o corpo e a pena. É sublime poder testemunhar as permanentes metamorfoses a que se submete, é verdadeira poesia!
Seria maluco? Ouve-se por aí dizer que o era, mas quem o não é? “De poeta e louco, todos temos um pouco”: assim postula a sabedoria popular, a mesma a quem tantas vezes ouvimos dizer “Primeiro estranha-se, depois entranha-se!” ou ainda “Tudo vale a pena, quando a alma não é pequena!”.


Inês Homem de Melo Marques
12B

Cabaz de Natal

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Natal é sempre que um homem ler...
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In Memoriam

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Uma homenagem a António Alçada Baptista (duas sugestões de leitura).

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Oficina de Leitura 7ºAno

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Mais um ano, mais uma turma... Textos sobre o conto "A Estrela", de Vergílio Ferreira:



7ºC

Pedro era um rapaz apenas com sete anos de idade e transmitia uma grande capacidade de sonhar e facilidade em entrar num mundo fantástico, como todas as crianças da sua idade. No entanto, vivia numa aldeia sem sonho. As pessoas trabalhavam de dia até tarde e não tinham tempo para reparar nas coisas insignificantes trazidas ao mundo.
À noite punha-se na janela e observava o escuro céu estrelado, tendo reparado na estrela mais viva, mais luminosa nesse mesmo céu. Um certo dia, o protagonista não aguentou mais o facto de a estrela estar no céu e não com ele e o seu processo em busca da estrela torna-se uma obsessão cada vez maior. O menino sobe ao céu e rouba a estrela do firmamento.
A sociedade encarou este facto como um roubo e até o obrigou a colocar a dita estrela no mesmo sítio de onde a despegara, sem qualquer outra explicação. Logo, Pedro fica ainda mais frustrado e a acção assume uma grande tensão dramática. Ao longo da sua ida, a personagem teve que ultrapassar grandes dificuldades, problemas e o julgamento público. Por fim, Pedro cai no meio do chão estendido e regressa ao mundo da realidade sem sonho.
Pode concluir-se então que a força do sonho nem sempre é suficiente para sobreviver...

Helena Rodrigues

O conto de Vergílio Ferreira relata uma história que se passou há muitos anos, numa aldeia.
Pedro era uma criança com apenas sete anos, contudo, já se apercebia que existiam coisas muito bonitas e interessantes à sua volta, como o céu e as estrelas, que não se caracterizam só por serem astros.
Certo dia, à meia-noite, Pedro, sem sono, esgueirou-se de casa pela janela, e foi em direcção à Igreja. Subiu até à torre com intenções de furtar uma estrela, a mais luminosa do céu!
Um velho que habitava na aldeia descobriu o roubo e declarou-o a toda a gente, que se revoltou com tal acto.
Após algum tempo, descobriu-se que tinha sido Pedro o autor do crime. Assim, seu pai, muito frustrado, obrigou-o a repor a estrela. Já no alto da torre, Pedro desequilibra-se, cai e morre.
Mesmo tendo Pedro roubado a estrela, que como todos sabemos é um crime, todos ficaram tristes pelo acidente, uma vez que se tratava de um pequeno rapaz muito sonhador que, com sete anos, viu os seus sonhos desaparecerem para sempre!


Mafalda Reis

Esta magnífica história relatada por Vergílio Ferreira fala-nos de um miúdo com sete anos que tem uma ambição nunca antes vista. De facto, Pedro tenciona possuir uma estrela só sua.
Um dia, à meia-noite, corre pela aldeia fora até chegar à igreja. Aí, põe em evidência que é um rapaz ágil, corajoso e ousado: sobe até ao cimo da torre para roubar a estrela! Porém, um ancião lá da aldeia dá pela falta da mais bela e cintilante estrela. Todas as pessoas se sentem revoltadas e, ao descobrirem o paradeiro da estrela, obrigam Pedro a repô-la no céu. Depois de ter devolvido a estrela ao seu lugar, o jovem rapaz desequilibra-se e morre estatelado no chão.
Todos choram a sua morte. No entanto, é a sua incompreensão face ao sonho de Pedro que causa a morte deste jovem.


Pedro Sá

7ºD

Esta história retrata um rapaz de apenas sete anos que sonhava ter uma estrela. Não era uma estrela qualquer; era a mais bonita. Contudo, conseguiu alcançar o seu sonho.
Tudo começa numa noite, à meia-noite, em que decide subir ao alto da torre para a roubar. Tudo corre conforme o planeado, só que, um dia, um velho contador de histórias descobre o sucedido. Toda a aldeia fica a saber (pequena como era, era fácil…). Ora, o pai de Pedro exige que seja o próprio Pedro a ir repô-la.
O terrível dia chega, o dia fatal para Pedro. Ao tentar descer da torre, escorrega, cai no meio da população e morre.
Todos choram a sua morte e daí em diante nunca mais foi esquecido. Ficou conhecido como o rapaz que sonhava ter uma estrela e que por ela acaba por morrer.
Sofia Soares Almeida


Em A Estrela, narra-se a história simples e cativante de Pedro, uma criança de sete anos que, um dia, à meia-noite, sobe ao alto da igreja da sua aldeia, para roubar uma estrela diferente de todas as outras.
Não era uma estrela qualquer, era simplesmente a estrela mais bonita e brilhante do céu. Porém, o roubo é descoberto por um velho muito velho, e toda a aldeia se revolta contra aquele acto que, assim, defraudara o património comum. Quando se descobre a verdade, o pai de Pedro exige que ele reponha a estrela roubada no seu lugar originário. Contudo, ao restituir a estrela, perante toda a comunidade emocionada, Pedro cai da Torre da Igreja e morre. Aquela estrela singular e o acto de Pedro perdurariam na memória de todos até ao presente.
Ana Isabel



sábado, 22 de novembro de 2008

Europeana - biblioteca multimédia online

Acessível ao público a partir de hoje.
Inaugurada biblioteca multimédia online da Europa com mais de dois milhões de obras




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A biblioteca multimédia online da Europa, "Europeana", está acessível desde hoje ao público, que através da Internet poderá aceder a mais de dois milhões de obras dos 27 Estados-membros da União Europeia.Esta biblioteca virtual conta com livros, mapas, gravações, fotografias, documentos de arquivo, pinturas e filmes do acervo das bibliotecas nacionais e instituições culturais dos 27 Estados-Membros da UE, tendo por exemplo de Portugal a Carta plana de parte da Costa do Brasil, um mapa de 1784.

Acessível, em todas as línguas da UE, através do endereço (www.europeana.eu), a biblioteca multimédia europeia conta com material fornecido por mais de 1000 organizações culturais de toda a Europa, incluindo Museus, como o Louvre de Paris, que forneceram digitalizações de quadros e objectos das suas colecções.
Fonte: Agência Lusa

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Desafios poéticos II - 10ºAno

Desta vez, a partir de um verso de Herberto Helder:





Não sei como dizer-te que a minha voz te procura
Por escuros intermináveis túneis.
Inventar a luz, a razão do meu viver
Encontrar a alma, a razão do meu ser.
Viver a magia da paixão
e refugiar-me no conforto das tuas palavras.
Abraçar cada conselho teu,
intensamente,
e penetrar o coração em cada acto.
É tudo isto, os amigos...
Estender a mão quando alguém cai no chão,
Sorrir a quem está infeliz,
Abraçar quem se encontra mais frágil.
É partilhar segredos,
suspirar tormentas
e mágoas derramadas que suplicam
liberdade àqueles que odeiam, e as deixam suspensas
na imensidão do teu rosto.

10º D/E

Cronicando - 10ºAno

Mais crónicas. Desta vez, do 10ºano. É fruto de uma oficina de escrita em turma, realizada na sequência da análise de uma crónica de Rui Moreira.


Portugal ou “Lisbogal”


A rivalidade entre Lisboa e as restantes cidades do país parece ser intemporal. A constante ocorrência de grandes eventos na capital desde sempre incomodou os portugueses e, em especial, os portuenses que viram, a passos largos, transferidos os poderes para a grande metrópole.
De facto, para o desenvolvimento da capital, os vários governos sempre enveredaram todos os seus esforços na criação de infra-estruturas capazes de suportar essa megacidade, enquanto que o resto do país, pateticamente, continua a assistir, impotente, ao crescimento de um “Lisbogal”.
Presenciamos um novo cerco, desta vez não é Lisboa que está sitiada, mas o resto do país, sufocado pelos caprichos centralistas e centralizadores. É preciso estar atento aos desequilíbrios, porque os lisboetas, pobres “coitados”, são os mais beneficiados. A polémica construção do novo aeroporto na Ota, aliás, em Alcochete, perdão, na Portela + 1, parece ter, afinal, lugar em “Alcochete Jamé” (ainda não se sabe exactamente onde vai ser, apenas se sabe que é para servir Lisboa). A construção de uma sofisticada linha de TGV, que irá servir uma escassa minoria de lisboetas, peço desculpa, portugueses, não faz esquecer o facto de que o governo vai esbanjar milhões de euros, que não deveria dar-se ao luxo de despender.
Se pararmos para reflectir, constatamos que o maior interesse dos dirigentes do país é divulgar, desenvolver e assemelhar Lisboa às outras capitais europeias, esquecendo o resto de Portugal: os montes do Alentejo, as praias do Algarve, as encostas do Douro, berço do famoso vinho do Porto que, um dia destes, por uma iluminada decisão governamental, passará a ter a denominação de “Vinho de Lisboa”.
O contraste entre a megacidade e o resto da “paisagem” não é apenas evidente na diferença das inovações e da qualidade das infra-estruturas. Ele gera, por si só, situações de desequilíbrio, marcadamente perigoso, ao instalar a pobreza, a criminalidade e a discriminação em zonas sobrepovoadas que funcionam como verdadeiros “guetos” sociais.Será que um país que outrora foi um grande império deseja, agora, caminhar para a criação de uma metrópole isolada – “Lisbogal”? Pelo andar da carruagem, qualquer dia estaremos todos fechados em Lisboa (ela também encerrada na sua torre de marfim), onde se acorda quando o governo se levanta e irradia a sua luz, que apenas dá segurança aos sorrisos arrogantes, remetendo o resto do país para o abandono e esquecimento.
10º A
Mãe, posso ser lisboeta? Não é por mim, é por ELA...


Habitualmente, tudo o que escorre é de cima para baixo e o dinheiro não constitui excepção. Escorrega sempre de norte para sul. E quem faz referência ao dinheiro não pode excluir outros factores que são indispensáveis ao desenvolvimento e crescimento de uma cidade como Lisboa.
Vejamos, a título de exemplo, o que acontece com a oferta de actividades culturais. Tudo converge à capital. Até os cavalos parecem preferi-la: “Cavália” tem estadia única em Lisboa, no Passeio Marítimo de Algés. “Pobres” lisboetas, tão martirizados pelo fascínio da centralização! Todos os caminhos vão dar a Lisboa, mas apenas um passa pelo Porto. E quem do Porto quiser apreciar estas acrobacias cavalares (ou outras) sempre poderá utilizar o mediático TGV… Nem que tenha que o ir apanhar a Madrid.
Lisboa abraça o dia com um sorriso de superioridade. Lisboa basta-se com banquetes e regala-se em festas sumptuosas. Lisboa vibra numa montanha russa de oportunidades e emoções sociais. Lisboa passeia-se narcisistamente.
O Porto refugia-se na sombra da insignificância, face a tamanho espelho nacional. O Porto recolhe as migalhas e tenta manter-se com o pouco que lhe é dado. O Porto continua ocupado na manutenção dos “carris” que asseguram a adrenalina.
Afinal, o que existe assim de tão único na capital para além de ela ser isso mesmo, a capital?! Exceptuando os pastéis de Belém e os fados do Bairro Alto, que mais tem Lisboa que outra cidade do país não a possa igualar? Não será também o vinho do Porto uma iguaria nacional?! Se casássemos o “pastelinho” com o cálice de vinho do Porto… não refinaríamos o nosso paladar? Porém, insistimos em privilegiar alguns sabores em detrimento de outros.
Lisboa continua a pugnar pelo estatuto de metrópole. O “Gil” ficou-se por Lisboa, o CCB impôs a sua volumetria e o aeroporto já lá fez a sua reserva. Não estará para breve a estreia de um novo bilhete de identidade nacional? Um bilhete de identidade que descrimine o resto do país, reafirmando a importância da “República Lisboeta”? Não estaremos nós, com estas permanentes clivagens e descriminações, a criar uma nova geração que, dentro em breve, exija o carimbo de cidadão lisboeta?
Não levará muito tempo até que as crianças questionem: Mãe, posso ser lisboeta?
10º D/E

domingo, 16 de novembro de 2008

Vieira, António o Padre


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Em ano vieirino, a Companhia de Teatro Garranus proporcionou aos alunos de 11ºAno (e não só...) um momento teatral dedicado a Padre António Vieira. O Colégio homenageou assim um dos maiores nomes da literatura portuguesa, ou como lhe chamou Fernando Pessoa, o "Imperador" da Língua Portuguesa. Ficam algumas imagens:
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segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Desafios poéticos - 10ºAno

Mais turmas. Mais anos. Deixo o resultado da actividade "desafios poéticos", dinamizada pelo e no 10ºD/E, e que consistiu em produzir, em grupo, textos poéticos a partir do primeiro verso de um poema. O primeiro poeta escolhido foi José Rui Teixeira:

Havia uma menina sentada
No horizonte do mundo novo.
Segredava mistérios ao sol
Sobre a alegria do mundo
E o sabor das amoras,
Sentidos no alto daquela colina.
Via o céu de mil cores,
Saltava de estrela em estrela,
Até que chegou à lua
Que lhe iluminou a vida
E lhe aqueceu o coração.
Aceso de desejo e paixão.

Nos teus olhos a paz e em teus lábios o desespero.
Olhos incendiados de raiva, coração recheado de carinho.
Com cabelos de ouro ao vento,
Com a boca cheia de palavras falsas,
Oh como eu amo esse doce e puro ar
Sem o qual me é impossível viver!
Um coração perdido por entre um labirinto sem fim
E todo o carinho ficou então a sós com a nostalgia.

10ºD/E

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Um projecto para e pela Lusofonia

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imagem retirada de www.booksforafrica.com


O 8ºA lançou as bases de um projecto dedicado a Moçambique e às crianças moçambicanas. Livros usados em troca de sorrisos... A ideia original é de uma universidade inglesa (Books for Africa).




sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Oficina de Escrita - 8ºAno (Crónica)

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O típico português
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Em Oficina de Escrita, os alunos redigiram, em estaleiro e em conjunto, uma crónica sobre o típico português. Longe vão os tempos do Zé Povinho, mas há traços que nunca mudam... Aqui fica o resultado por turma:
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8A
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O Zé, como típico português que é, há já nove séculos que segue a tradição remota, arcaica e ancestral de comodismo, falta de cultura, ignorância, materialismo e de sedentarismo.
O sagaz lusitano é um espécime em vias de extinção na bela Europa… Ao contrário dos europeus, que já abandonaram a letargia, nós aparentemente optámos por esse rumo.
Somos provincianos e pacóvios, irremediável e eternamente atrasados. Vivemos num qualquer bairro de subúrbio, nos arredores de uma qualquer cidade, de uma qualquer Chelas, Bobadela, Amadora, Ermesinde…Moramos num T3+1, recheado com plasmas, LCD’s, consolas, sistemas de som, computadores Magalhães, frigoríficos, microondas, máquinas de lavar e secar… Tudo pago a prestações…Tudo pago recorrendo ao mesmo crédito pessoal das férias do Algarve ou da viagem a Palma de Maiorca. Tudo pago recorrendo ao mesmo crédito pessoal utilizado para pagar as prestações do Punto Gt e das roupas D&G da Maria e da Tânia Vanessa.
O verdadeiro português ou é Presidente da Junta, ou vive do subsídio de desemprego ou do rendimento social da inserção. O verdadeiro português não suporta trabalhar; vive a arrastar-se pela tasca, pelo centro comercial e apodrecendo no sofá a ver o jogo (sempre acompanhado da fiel cerveja e do fatal cigarro). Aliás, o verdadeiro português só abandona o sofá, após o euromilhões, por razões de estado e de força maior: ou porque é obrigado a deslocar-se vagarosamente ao frigorifico(a Maria não está…), ou porque o Olivais do seu coração joga em casa nesse fim-de-semana.
Só então, ao Domingo, pega no seu Punto, liga o GPS pago a prestações, sintoniza o relato e faz-se à estrada, de braço de fora, palito no canto da boca, barriga a roçar o volante, pronto para insultar o próximo e assobiar (vomitando um piropo) a “brasa” que está a atravessar a rua.
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8B
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Portugal, esse “Portugal tão português”, “à beira-mar plantado”, produz e exporta o que de melhor possui: a ignorância, a falta de cultura, o fracasso, o fanatismo pelo futebol, os “Morangos com açúcar”, o conservadorismo, o consumismo e o comodismo.
O típico português gasta 50.000€ num Mercedes em segunda mão (pago a prestações, claro!), mas não compra o kit de primeiros socorros, porque, segundo ele, é muito caro...
Para o típico português, Domingo sem shopping, não é Domingo. Isto porque no Domingo vai tudo ao shopping, até o cão e a sogra. O cão fica na mala a salivar e cheio de calor à espera do dono. A sogra fica na zona da alimentação, entretida a folhear revistas cor-de-rosa.
O típico português faz os 2 km de casa ao emprego e do emprego a casa de carro e sempre com GPS, para o caso de se perder.
No café, na tasca, na rua, o típico português é o primeiro a criticar o governo, entre o jogo de futebol, a imperial e a sueca. No entanto, jamais lhe passa pela cabeça exercer o seu direito de voto ou queixar-se oficialmente. Aliás, em dia de eleição, o típico português é o campeão da abstenção. Ou está na praia, ou está no shopping
O típico português está sempre nos últimos lugares dos rankings europeus e nos primeiros lugares da corrupção, da crise, do alcoolismo, da obesidade, etc., etc. .
O típico português tem todos os filhos baptizados, comungados, crismados… sem nunca ter posto os pés na igreja!
Ao Sábado à tarde vemos todos estes típicos portugueses (que por acaso somos todos nós…) na praia, com o seu farnel na berma da estrada, a petiscar salgadinhos, panadinhos e coxinhas de frango.
Tudo isto se deve, afinal, à falta de algo que a nossa pequena massa cinzenta lusitana desconhece por completo: cultura...
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8D
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O típico português acorda tarde e a más horas. Arrasta-se até à cozinha, mas pelo caminho tropeça invariavelmente nos trapos espalhados pelo corredor.
Delicia-se com tosta do pão do dia anterior, enquanto assiste ao telejornal no plasma comprado a prestações. Vibra durante 20 minutos com as notícias da selecção nacional, que já conhecia d' A Bola. Em seguida, deleita-se com mais 20 minutos de drama, de tragédia, de horror: desastres de viação, incêndios, assaltos, carjacking, assassínios, corrupção, etc, etc.
Já vestido, tendo desistido de se barbear, deixa o seu T2 pago a prestações e dirige-se à tasca do Zeca. Com o equipamento da selecção, “Ronaldo” nas costas, manchas de suor e nódoas de gordura passeando pela t-shirt de manga cavada, o colar de ouro refulgindo no pescoço; emborca a sua imperial e traga uns tremoços…
Regressa a casa, percorrendo os longos e remotos 2 km no seu Punto (pago a prestações, claro!), de jantes especiais BBS, com a preciosa e indispensável ajuda do GPS (não vá perder-se, devido aos litros a mais!). Pelo caminho, vai palitando os restos, cofiando o bigode e coçando a sua colossal “barriga de cerveja”.
Depois de insultar os transeuntes distraídos e os condutores com que se cruza, estaciona cuidadosamente o carro, certificando-se de que os larápios do bairro não lhe levem as relíquias (o último CD do Tony Carreira, o rosário de Nossa Senhora de Fátima, o pirilampo mágico, a bandeira de Portugal do Euro 2004, já descolorida, as toalhas de praia que forram os estofos, o colete reflector, o peluche e o cachecol da selecção…).
Como verdadeiro lusitano, passa a tarde inteira a atrofiar no sofá, alimentando a obesidade mórbida e ansiando pelo jogo da noite, enquanto a Maria prepara o jantar.
O dia atribulado e cansativo termina finalmente e o típico português, aliviado, suspira, já na cama: “Abençoado subsídio de desemprego e viva o rendimento social de inserção!”.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Concurso de sites e blogues sobre Inês de Castro

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O concurso “Inês de Castro” está na Internet desde segunda-feira para lançar um desafio: fazer o melhor site ou blogue sobre o romance de D. Pedro e D. Inês de Castro. O prazo para as inscrições termina em Março de 2009, numa competição destinada a alunos dos ensinos básico e secundário.
A ideia é reinventar a famosa lenda sobre a paixão do príncipe de Portugal, futuro rei D. Pedro I, por Inês de Castro, filha de um mordomo do rei de Castela. A trágica história – que terminou com o assassinato de Inês, a mando do rei Afonso IV, pai de D. Pedro – serve agora de cenário à competição, numa iniciativa da Fundação Inês de Castro, em parceria com o Plano Nacional de Leitura.
Os sites e blogues – que poderão ser criados por um ou mais alunos – terão de ser acompanhados por, pelo menos, um professor e deverão incluir textos da autoria dos concorrentes. Também poderão ser incluídos outros textos, bem como imagens, vídeos e sugestões de leitura.
As inscrições estão abertas até 27 de Março, altura em que as propostas serão avaliadas para premiar os melhores. Os vencedores recebem, para além de Ipods e Ydreams, um cheque-livros e um fim-de-semana num hotel (Algarve, Coimbra ou Porto).Para poderem concorrer, os alunos têm que estar inscritos no Clube de Leituras e preencher uma ficha de inscrição no site do Plano Nacional de Leitura.
in Público

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Prémio Nobel da Literatura 2008

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O Prémio Nobel da Literatura de 2008 foi atribuído a Jean-Marie Gustave Le Clézio. A Academia Sueca caracteriza o autor francês de 68 anos como “um escritor da ruptura, aventura poética e êxtase sensual, explorador de uma humanidade mais além e na base da civilização reinante”.
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Nascido a 13 de Abril de 1940 em Nice, no Sul de França, Jean-Marie Gustave Le Clézio é um dos nomes cimeiros da literatura francesa contemporânea. Detentor de um estilo clássico e refinado, assinou um vasto catálogo de mais de 50 romances, contos, ensaios, novelas e mesmo traduções de mitologia ameríndia. A obra de Le Clézio evoca as viagens e os contactos com diferentes culturas, sobretudo da América Latina e de África. Espiritual, a literatura do escritor de Nice privilegia os temas do paraíso perdido e a crítica ao materialismo do Ocidente. “O ponto central da obra do escritor desloca-se cada vez mais na direcção de uma exploração do mundo da infância e da própria história familiar”, sublinha a Academia Sueca.
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Le Clézio é formado em Letras e trabalhou na Universidade de Bristol, em Londres. Aos 23 anos foi distinguido em França com o Prémio Renaudot pelo ensaio “Le procès-verbal”. Em 1967, após uma experiência de ensino nos Estados Unidos, partiu para a Tailândia em serviço militar. Acabaria por ser expulso depois de denunciar a prostituição infantil, rumando então ao México. Entre 1970 e 1974, Le Clézio viveu junto de índios do Panamá. Durante os anos de 1970, trabalhou no Instituto da América Latina.
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Fonte: RTP

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Ainda Fernando Pessoa...

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Tomo a liberdade de trancrever o post de ontem de José Saramago, no seu blogue, sobre Fernando Pessoa. É dos grandes textos sobre o drama pessoano:


"Era um homem que sabia idiomas e fazia versos. Ganhou o pão e o vinho pondo palavras no lugar de palavras, fez versos como os versos se fazem, como se fosse a primeira vez. Começou por se chamar Fernando, pessoa como toda a gente. Um dia lembrou-se de anunciar o aparecimento iminente de um super-Camões, um camões muito maior que o antigo, mas, sendo uma pessoa conhecidamente discreta, que soía andar pelos Douradores de gabardina clara, gravata de lacinho e chapéu sem plumas, não disse que o super-Camões era ele próprio. Afinal, um super-Camões não vai além de ser um camões maior, e ele estava de reserva para ser Fernando Pessoas, fenómeno nunca visto antes em Portugal. Naturalmente, a sua vida era feita de dias, e dos dias sabemos nós que são iguais mas não se repetem, por isso não surpreende que em um desses, ao passar Fernando diante de um espelho, nele tivesse percebido, de relance, outra pessoa. Pensou que havia sido mais uma ilusão de óptica, das que sempre estão a acontecer sem que lhes prestemos atenção, ou que o último copo de aguardente lhe assentara mal no fígado e na cabeça, mas, à cautela, deu um passo atrás para confirmar se, como é voz corrente, os espelhos não se enganam quando mostram. Pelo menos este tinha-se enganado: havia um homem a olhar de dentro do espelho, e esse homem não era Fernando Pessoa. Era até um pouco mais baixo, tinha a cara a puxar para o moreno, toda ela rapada. Com um movimento inconsciente, Fernando levou a mão ao lábio superior, depois respirou fundo com infantil alívio, o bigode estava lá. Muita coisa se pode esperar de figuras que apareçam nos espelhos, menos que falem. E porque estes, Fernando e a imagem que não era a sua, não iriam ficar ali eternamente a olhar-se, Fernando Pessoa disse: “Chamo-me Ricardo Reis”. O outro sorriu, assentiu com a cabeça e desapareceu. Durante um momento, o espelho ficou vazio, nu, mas logo a seguir outra imagem surgiu, a de um homem magro, pálido, com aspecto de quem não vai ter muita vida para viver. A Fernando pareceu-lhe que este deveria ter sido o primeiro, porém não fez qualquer comentário, só disse: “Chamo-me Alberto Caeiro”. O outro não sorriu, acenou apenas, frouxamente, concordando, e foi-se embora. Fernando Pessoa deixou-se ficar à espera, sempre tinha ouvido dizer que não há duas sem três. A terceira figura tardou uns segundos, era um homem daqueles que exibem saúde para dar e vender, com o ar inconfundível de engenheiro diplomado em Inglaterra. Fernando disse: “Chamo-me Álvaro de Campos”, mas desta vez não esperou que a imagem desaparecesse do espelho, afastou-se ele, provavelmente tinha-se cansado de ter sido tantos em tão pouco tempo. Nessa noite, madrugada alta, Fernando Pessoa acordou a pensar se o tal Álvaro de Campos teria ficado no espelho. Levantou-se, e o que estava lá era a sua própria cara. Disse então: “Chamo-me Bernardo Soares”, e voltou para a cama. Foi depois destes nomes e alguns mais que Fernando achou que era hora de ser também ele ridículo e escreveu as cartas de amor mais ridículas do mundo. Quando já ia muito adiantado nos trabalhos de tradução e poesia, morreu. Os amigos diziam-lhe que tinha um grande futuro na sua frente, mas ele não deve ter acreditado, tanto assim que decidiu morrer injustamente na flor da idade, aos 47 anos, imagine-se. Um momento antes de acabar pediu que lhe dessem os óculos: “Dá-me os óculos” foram as suas últimas e formais palavras. Até hoje nunca ninguém se interessou por saber para que os queria ele, assim se vêm ignorando ou desprezando as últimas vontades dos moribundos, mas parece bastante plausível que a sua intenção fosse olhar-se num espelho para saber quem finalmente lá estava. Não lhe deu tempo a parca. Aliás, nem espelho havia no quarto. Este Fernando Pessoa nunca chegou a ter verdadeiramente a certeza de quem era, mas por causa dessa dúvida é que nós vamos conseguindo saber um pouco mais quem somos."

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Pessoa(s) - 12ºAno

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Fernando Pessoa (ante)visto pelos alunos
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O Lusografias alargou novamente o seu âmbito a outras turmas e respectivas professoras. É a vez do 12ºano. Em Oficina de Escrita, foi solicitado aos alunos que antecipassem e tentassem sondar a dimensão e a alma de Fernando Pessoa. Eis o resultado:
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Repudiei sempre que me compreendessem. Ser compreendido é prostituir-me. Prefiro ser tomado a sério como o que não sou, dizia.

A complexidade física e poética de Fernando Pessoa sempre acompanhou a imagem que guardo daquele que é o maior poeta português do século XX. Uma sufocante sede de normalidade, que tentou saciar toda a sua vida, em vão. O entendimento (demasiado) profundo da alma e da realidade do Homem racionalizou-lhe o coração e consciencializou-lhe a ingenuidade.

Penso, logo existo, diria Descartes? Ah! Pessoa viveu a pensar e levou uma existência despercebida na sociedade do seu tempo. Foi um rasgo desintegrado de genialidade. Levou uma vida social apagada, excluído biologicamente pela anormalidade pensante do seu coração.

Eu sempre o imaginei sozinho. Num quarto despido e impessoal, no centro de Lisboa. Uma secretária. Uma garrafa e papel, onde se buscava em heterónimos e em palavras. Onde racionalizava sentimentos e procurava, em vão, a felicidade ingénua da inconsciência. E ele fascina-me sempre e, de cada vez que o leio, aumenta em mim a vontade de o conhecer intrinsecamente, por dentro. De sentir exactamente o que Pessoa sentia. De perceber o que foi para ele sentir-se ser desconforme, ao querer renegar o que tantos procuram alcançar durante toda a vida - o entendimento profundo da alma e do Homem.
Mas não. Fernando Pessoa não se prostituiu. Jamais.

Inês Viterbo 12ºD


Num outro momento, os alunos partiram de uma citação de António José Saraiva:

“Fingir a dor que deveras sente: este enunciado resume o problema essencial da literatura. A dor sentida é a realidade, o seu fingimento é a literatura.”, António José Saraiva, in “Ser ou não ser arte”




Lisboa, 15 de Setembro de 1910

Desiludo-me. Por muita razão que tenhas quando me dizes que “a palavra é a arma mais poderosa de todas”, apercebo-me de que há dores que não se dizem. Mesmo tendo eu esse “domínio manipulador das palavras”, de que me falavas.
Tudo isto é um fingimento. A literatura é fingimento. As palavras são insuficientes – morrem na praia do que sinto – e todos estes floreados, a mim, parecem-me fictícios, não atingem plenamente a expressividade que quero dar-lhes. E que “sujeito poético” fingido que eu devo ser, não?
Ora essa! Não compreenderão o que digo, porque não me compreendem e, portanto, não sentem a minha dor. Talvez reinventem a dor inventada de um sujeito poético que não passa de uma invenção deles!
E se eles não sentem a dor que eu senti, meu caro amigo, nem sequer a que passei para o papel, de que se trata tudo isto, então? De um fingimento. Que nunca atingirá a pureza do sentimento original. Por minha culpa – que alimento este desejo de racionalizar-me -, por culpa das palavras – que não se bastam -, e por culpa deles – que querem compreender-me.

Fernando Pessoa (por Inês Viterbo)

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Ainda Machado de Assis...

Recebi, por mail, um texto interessante sobre Machado de Assis, enviado pela Drª Auxília Ramos:



É quase impossível passar hoje por uma livraria brasileira sem notar o destaque dado a um escritor que muitos em Portugal apenas conhecem de nome. Não se trata de Jorge Amado nem de Graciliano Ramos. O homem que tem obras em todas as vitrines usava óculos e bigode. Era filho de uma lavadeira açoriana e de um pintor mulato, por sua vez filho de escravos. Chamava-se Machado de Assis (1839–1908) e há uma quase unanimidade da crítica em apreciá-lo como o maior escritor de sempre da grande nação sul-americana. Harold Bloom considera-o «até hoje, o supremo escritor de origem negra». Agora, que se assinala o centenário da sua morte, ocorrida a 29 de Setembro, há escaparates inteiros com os seus livros. Há exposições nas bibliotecas. Por toda a cidade do Rio de Janeiro, onde Machado nasceu, viveu e morreu, há cartazes e bonecos de pano que o representam e chamam a atenção para as suas muitas reedições, biografias e estudos.
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Machado viveu momentos de grandes mudanças. Viveu o fim da escravatura no Brasil e a implantação da República. Protagonizou a transição do romantismo literário para o realismo. Nesse percurso, criticou o romance Primo Basílio, de Eça de Queirós, vindo-se depois a arrepender de outras críticas ao escritor português. Na realidade, Machado foi homem de poucas polémicas, preferindo intervir pela subtileza da sua criação literária — onde há muito a ler, nas linhas e nas entrelinhas.
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Entre as formas de homenagem que os brasileiros escolheram há a reposição de uma peça de teatro quase desconhecida — a última do escritor. É a Lição de Botânica (1908), uma farsa em que um cientista rigoroso tenta evitar uma jovem enamorada, por achar que não há espaço no seu coração para dois amores. Dividido entre a ciência e a paixão, queria resistir à segunda para melhor se dedicar à primeira. Imagina-se que perderá a batalha.
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Na Casa de Ciência da Fundação Instituto Oswaldo Cruz, um extraordinário estabelecimento de investigação científica na periferia do Rio de Janeiro, a farsa é representada para deleite dos espectadores jovens. No final discute-se a visão de Machado, que insistia na necessidade de concórdia entre a razão e a emoção.
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Se esta peça de teatro é uma das obras menos conhecidas de Machado, já a segunda discutida pelos brasileiros neste âmbito de comentário científico é uma das mais lidas — e uma das mais consideradas. Trata-se do conto ou novela O Alienista (1882), em que um alienista, ou seja, um médico de loucos, resolve tratar por métodos pretensamente científicos todos os habitantes da sua cidade. Ao longo das cinquenta páginas da ficção, Machado ridiculariza a pretensão cientifista então em voga no Brasil.
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Os positivistas brasileiros, que tiveram um papel determinante na implantação da república em 1889, eram seguidores do filósofo francês Auguste Comte e pretendiam gerir a sociedade e moldar a mente humana por métodos ditos científicos. Era a ambição de tudo submeter ao racionalismo extremo, que transforma o desejo de progresso na recusa da diferença.
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Se o leitor não conhece Machado de Assis, O Alienista é uma obra excelente para começar. Daí siga directamente para os romances mais conceituados: Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba e Dom Casmurro. Mas se quer uma opinião pessoal, não perca, sobretudo, o extraordinário Memorial de Aires...
«Expresso» de 27 de Setembro de2008.
Nuno Crato

domingo, 28 de setembro de 2008

Machado de Assis - Centenário

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Encontrei na Revista Ler a referência a este sítio dedicado ao escritor brasileiro Machado de Assis. Assinala-se hoje o centenário da sua morte, no Rio de Janeiro, a 29 de Setembro de 1908.
Se clicarem na imagem têm acesso ao sítio.




Machado de Assis é o fundador da cadeira número 23 da Academia Brasileira de Letras, tendo ocupado por mais de dez anos a sua presidência. Foi, aliás, o seu primeiro presidente.
O crítico norte-americano Harold Bloom considerou-o um dos cem maiores génios da literatura de todos os tempos (chegando ao ponto de considerá-lo o melhor escritor negro da literatura ocidental), ao lado de clássicos como Dante, Shakespeare e Cervantes.




De origens humildes e órfão desde tenra idade, Machadinho (como era chamado no colégio) foi vendedor, doceiro, tipógrafo e autodidacta. Tornar-se-ia um dos maiores intelectuais do país, ainda muito jovem. Em São Cristóvão, conheceu a senhora francesa Madamme Gallot, proprietária de uma padaria, cujo forneiro lhe deu as primeiras lições de francês, que acabou por falar fluentemente, tendo traduzido o romance Os Trabalhadores do Mar, de Victor Hugo, na juventude.Também aprendeu inglês, chegando a traduzir poemas deste idioma, como O Corvo, de Edgar Allan Poe. Posteriormente, estudou alemão.

Em 1855, aos quinze anos, estreou-se na literatura, com a publicação do poema "Ela" na revista Marmota Fluminense. Colaborou intensamente nos jornais, como cronista, contista, poeta e crítico literário, tornando-se respeitado como intelectual antes mesmo de se firmar como grande romancista. Machado conquistou a admiração e a amizade do romancista José de Alencar, principal escritor da época.

A sua obra, incialmente influenciada pelo Romantismo, viria, numa fase seguinte, a enveredar pelo Realismo. Memórias Póstumas de Brás Cubas marcaria precisamente a introdução daquela corrente no Brasil. O livro, extremamente ousado, é escrito por um defunto e começa com uma dedicatória inusitada: "Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas Memórias Póstumas" .






Destaco ainda a minha primeira leitura do autor, Dom Casmurro. É impossível, enquanto leitor, ficar indiferente à escrita maleável e inteligente de Assis (discípulo de Eça) e ao charme das olheiras de Capitu, uma das personagens.
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É um nome fundamental e incontornável que aconselho vivamente. Aproveito este centenário para, em jeito de homenagem, exortar a ler literatura da lusofonia, tão injusta e frequentemente afastada dos programas e dos manuais e tão preconceituosa e estranhamente rejeitada e ignorada pelos alunos.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

O que andamos a ler - 11ºAno Oficina de Leitura





Oficina de Leitura dedicada ao Brasil e a Padre António Vieira

terça-feira, 16 de setembro de 2008

O Caderno de Saramago



Notícia de um novo endereço na blogosfera: um blogue de José Saramago, dinamizado pela Fundação homónima. Muito pessoal, é nítido o cunho do Nobel que, após um período de fragilidade, mantém a mesma irreverência de sempre...
Deixo a mensagem de abertura, de hoje:


"Quando em Fevereiro de 1993 nos instalámos em Lanzarote, conservando sempre a casa de Lisboa, meus cunhados María e Javier, que já ali viviam há alguns anos, junto a Luis y Juanjo, recém-chegados, ofereceram-me um caderno que deveria servir de registo dos nossos dias canários. Punham uma só condição: que de vez em quando fizesse menção das suas pessoas. Nunca escrevi nada no tal caderno, mas foi desta maneira, e não por outras vias, que nasceram os Cadernos de Lanzarote, que durante cinco anos veriam a luz. Hoje, sem esperar, encontro-me numa situação parecida. Desta vez, porém, as causas motoras são Pilar, Sérgio e Javier, que se ocupam do blog. Disseram-me que reservaram para mim um espaço no blog e que devo escrever para ele, o que for, comentários, reflexões, simples opiniões sobre isto e aquilo, enfim, o que vier a talhe de foice. Muito mais disciplinado do que frequentemente pareço, respondi-lhes que sim, senhor, que o faria desde que não me fosse exigida para este Caderno a assiduidade que a mim mesmo havia imposto nos outros. Portanto, pelo que isso possa valer, contem comigo."


Podem consultar o blogue aqui.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Regresso(s)...


Em tempo de regresso, deixo o texto de quem regressa infinitamente pela memória. A Francisca escreveu um testemunho emocional e emocionado, marcado pela despedida de um espaço que a viu crescer... É uma homenagem sentida e profundamente humana ao Colégio.

"Estar aqui, na minha missa final do 12º ano, é estranho. Surreal, diria mesmo.
Quando somos pequenos há coisas que parecem tão distantes, e esta é uma delas.
Construímos casas de legos parece que desde sempre, e um dia chegam à nossa beira, dizem-nos: 'és finalista', e é suposto aceitá-lo como se não fosse nada, como se não tivéssemos quase obrigatoriamente de partir daqui para uma faculdade, um mestrado, daí para um emprego, uma casa que não seja de legos e uma família.
Enchemos o peito de ar e pensamos: 'e agora?'.

O ano passado andei uns tempos angustiadíssima a pensar no que será daqui para a frente, (sim, porque este ano não há tempo nem para pensar).
Passeio pelos corredores desta casa desde os meus 5 anos.
Gosto de cumprimentar todas as funcionárias quando vou a correr para as aulas, quando era pequena e ficava cá até tarde as senhoras da cozinha davam-me sempre um pão com manteiga. Sei que as funcionárias do bar me vão perguntar como ando se num dia de maior cansaço ficar mais abatida, e não desisto de agarrar a Celeste mesmo quando ela resmunga e diz que não gosta de beijinhos. Tive o privilégio de trocar correspondência com amigos que também são professores, desde a primária até agora, e a espantosa sorte de conhecer pessoas com histórias incríveis, desde vigilantes, passando por irmãs, até professores que tratam os alunos, antes de mais, como seres capazes de uma evolução humana.
E há também histórias que nos marcam, ouço professores e funcionários falar de alunos antigos, sei que irão falar de nós e de outros que nos seguem, e que um dia falaremos deles aos nossos filhos.

Para este ofertório trouxe os meus cadernos da primária. Quando em pequenos os pais nos lêem histórias de embalar percebemos que é importante aprender a ler para traduzir alguns dos mais inexplicáveis segredos do mundo. As palavras têm o dom da eternidade, e quando o aprendemos há uma porta que se abre para países de muito longe.

Sei da primária que os dias eram curtos, a professora afectuosa e preocupada e que a melhor hora do dia era definitivamente a do almoço, porque me sentava à mesa com os meus melhores amigos. (Mais tarde percebi que isso é 'partilhar o pão'.)
Depois de saber ler comecei a aprender o sentido de nos dizermos cristãos; mais tarde voltaram a ensinar-mo e só então percebi que se trata de o descobrir todos os dias.

Não me canso de ter comigo aqueles que me viram crescer verdadeiramente de perto.
Quando me pediram para trazer os meus cadernos fui procurá-los, e depois peguei neles com cuidado, (é estranho segurar em objectos assim), e página a página, procurei textos que me dissessem alguma coisa. Encontrei um do meu 2º ano que tinha como título: 'Falo dos meus amigos.' E por incrível que pareça, das cinco pessoas de quem falava, uma nem me lembro de quem era (se estiveres por aí aparece, Ana Margarida), outra, não voltei a ver depois do 4º ano. Mas os três restantes são, ainda hoje, os meus melhores amigos, e considero um privilégio poder tê-los a meu lado.
Sei que com muitos de vocês isto também aconteceu, é uma das consequências de habitar um lugar tanto tempo como nós, acabamos por habitar também as pessoas e com algumas criam-se laços inquebráveis.

Tenho muita gente que me diz que são demasiados anos – que dizer? É mesmo uma casa.

Depois, temos coisas que apesar de muito concretas ganham, sem querer, o valor de ícones. Falo da nespereira carregada de frutos no verão, do túnel de rosas, da casa pequenina da quinta com as cadeirinhas encostadas à parede desde que me lembro ou das escadarias do palacete, húmido e solene, onde os passos ecoam mais e o piano às vezes se ouve.
Há uma árvore especial, a japoneira do campo que antigamente era de areia.
Lembro-me disto tão bem. As flores em tons de rosa e branco, as folhas verdes. Os ramos grandes o suficiente para não quebrar e pequenos que bastasse para os subirmos. Quando começava a ficar calor o chão enchia-se de flores e uma sombra deliciosa apoderava-se daquele sítio, os risos, os nossos risos, o perfume, subíamos pelos ramos e sentíamo-nos maiores a ver o mundo de um sítio mais distante.

Hoje somos nós, deste sítio, a espreitar o mundo que nos parecia tão distante, em cima de um galho qualquer mais forte que nos vai segurando.
O modo como as flores apodreciam no outono fazia-me pensar no verão seguinte, mas um dia, não sei bem como, voltei a subir e o meu corpo já não cabia.

Há momentos como este, em que compreendemos que há lugares em que já não cabemos, lugares de onde é preciso partir.

Gosto de pensar nas memórias como raízes. Gosto de pensar em nós como sementes.
Se algum dia aqui voltar pergunto-me se não me chegarão a aparecer os risos das crianças no recreio mesmo que não esteja lá ninguém, se não voltarei a ver-nos naqueles dias felizes, em que subíamos às árvores e esperávamos pela hora da refeição, sem tempo para mais.
Espero por estes sítios como se espera voltar a casa.
E se calhar tudo isto nem faz tanto sentido assim, mas há coisas que não se explicam, há cheiros e risos que não se esquecem, há abraços que queimam para sempre e palavras demasiado densas por dentro de todas as recordações.

A verdade é que há momentos tão bons que nos deixam uma espécie de estigma aflitivo, como se soubéssemos para sempre que voltar atrás é voltar às mesmas pessoas.

'E agora?'
Agora, há passos que temos de dar, foi para isso que nos preparámos ao subir às árvores e partilhar o pão, porque há sempre algo a conquistar e pão a partilhar com alguém.

Entretanto há sítios a que forçosamente regressaremos, e mesmo que não chegue a faculdade ou o emprego ou a família, há sempre uma casa à nossa espera. Nem que seja a das nossas memórias afectivas.
Nem que seja Sião."

Francisca