Ana Lídia, 10A
Lusografias
Montra de palavras. Colégio Luso-Francês.
Domingo, 5 de Fevereiro de 2012
Ler e (re)criar
Ana Lídia, 10A
Quinta-feira, 2 de Fevereiro de 2012
Segunda-feira, 30 de Janeiro de 2012
Ler e (re)criar

Ao longo da leitura, fui descobrindo que esta obra tinha muitos pontos em comum com a minha família. Tal como o meu avô Álvaro, António esteve em Angola, na Guerra Colonial. Ambos deixaram em Portugal as suas amadas e a escrita funcionava como elo de ligação, que era feita através de cartas, postais e aerogramas. A leitura destas cartas mostra-nos o estilo de linguagem utilizada nesta época e a forma como um namorado/um marido se dirigia ou se despedia da sua namorada ou da sua noiva. Nos documentos apresentados, podemos verificar as semelhanças entre a forma como era feita a comunicação nos anos 60 e 70. A distância e a ausência de tecnologias não permitiam outra forma de contacto.
Ofereço-te este cartão de Boas Festas como prova e testemunho dos meus votos a Deus para que tenhas um Natal Feliz e um Ano Novo Próspero.
Acabo de receber o melhor presente de Natal que poderia desejar: o Batalhão vai para Malange, mas os médicos ficam. A crueldade a injustiça disto são de tal modo horríveis, que não vale a pena acrescentar mais nada.Ana Lídia, 10A
Enviado por Auxília Ramos
Domingo, 29 de Janeiro de 2012
Ler e (re)criar

Este romance decorre numa altura em que vigora o Comunismo na URSS, liderado por Iossif Vissarionovitch Djougatchvili, mais conhecido por Estaline. Uma época de repressão intensa, onde quem pretende viver é obrigado a acreditar nos ideais do Partido e que “Estaline tem sempre razão”. Ninguém duvida do poderio deles e tem de obedecer-lhes cegamente. De facto, até tenho conhecimento de jovens que denunciaram os pais por estes criticarem a política dos kolkhozes. São casos extremos, claro, mas o Partido está à frente de tudo e ninguém ousa apontar-lhe o dedo. Em breve, a URSS será uma potência, uma das maiores do Mundo, e poderemos combater contra os monstros capitalistas.
IRMÃOS PROLETÁRIOS DE TODO O MUNDO, UNI-VOS!
O meu nome é Vladimir Franciscovsky e sou Comunista.
I
Mais um calmo dia na Arbat. Escola, Konsomol[1], casa. Minha mãe, Nenka, pediu-me para ir recolher os bens destinados para a semana que começa. Chegaram os cartões de racionamento. Em breve serão abolidos, dizem. Será um ligeiro retorno à diferenciação social? Não percebo por que colocam a hipótese de extinção dos cartões, quando se pretende a união das classes. Como também não percebo que solução arranjarão quando o inverno atingir o Cazaquistão donde chegam os cereais. Para já, não temo estas hipóteses. O camarada Estaline tem dois dedos de testa e sabe que mais vale prevenir que remediar. Não, não temo! Ele é o Grande Pai e só quer o nosso bem.
“Ora, cinco quilos de carne, pão, ovos, um kulitch, samovar, vodca e salame...mais alguma coisa, Chicovsky[2]?”, pergunta Arshavin, o merceeiro.
“É tudo”, afirmei.
Regresso a casa e ajudo minha mãe a arrumar aquilo a que temos direito. Teremos que esconder a vodca, pois, meu pai, Malafeev, transforma-se numa violentíssima pessoa apenas com uma pequena dose.
II
Há três dias, Estaline fez uma visita à minha escola. Sacha Pankratov, meu colega de carteira, deu-lhe as boas vindas em nome de todos e iniciou a conferência. Estaline começou o discurso. Demonstrou-nos as metas do segundo Plano Qinquenal, que consistia no desenvolvimento do setor da indústria ligeira e dos bens de consumo. As coisas parecem estar a mudar. Fico feliz que assim o seja.
No fim da conferência, “propõe-se uma moção de fidelidade ao camarada Estaline”. Deste modo, todos os alunos e professores se levantam e batem palmas, aplaudindo o nosso grande camarada. Durante cinco minutos, persistem os aplausos. Os braços e as mãos começam já a dar desconforto. Mas parará alguém? Pouco provável, muitos são os funcionários do NKVD que nos observam para descobrir quem cede. E, assim, os aplausos sucedem-se durante largos, largos minutos... Pouco antes de chegar ao quarto de hora, o diretor da escola, indivíduo já com os seus sessenta anos, senta-se com um ar exausto.
Desde esse dia, o diretor ainda não foi visto. Fiquei a saber que foi condenado por dez anos, para a Sibéria... motivos que “não interessam à ordem pública”. Enfim, era um senhor simpático. Mas, se o Partido o prendeu, foi porque ele ofendeu em algum aspeto o Povo[3].
III
Sacha e eu fomos chamados à direção do Konsomol. Em princípio, seria uma visita de rotina, visto que, sendo nós membros do comité central, é usual distribuírem-nos tarefas e objetivos. Contudo, esse não era o assunto que nos esperava.
“Sentem-se”, ordenou o velho Dimitri, presidente do Konsomol. “Vou direto ao assunto. As vossas atitudes deixaram-nos boquiabertos. Membros natos do Partido, Comunistas de verdade, ninguém esperava isto da vossa parte”, o seu olhar azul e aguçado tornava-se cada vez mais penetrante como se nos lesse os pensamentos.
“Não sabemos do que falas, Camarada Dimitri”, afirmou Sacha surpreso. Dimitri pareceu ignorá-lo.
“As vossas atitudes causaram divergências dentro do Partido e, para inimigos, bastam-nos os capitalistas!”, rugiu o velho de lá de cima dos seus dois metros.
Farto de procurar respostas no meu pensamento, comecei a sentir-me injustiçado.
“Camarada, já advertimos que não estamos a entender o motivo de tanto alarido. Por favor, informa-nos de forma a melhorarmos as nossas ações e a não voltarmos a prejudicar o Partido, se é que o fizemos”.
“Tivessem pensado nisso antes. De boas intenções está o inferno cheio. Agora saiam. Desiludiram-me a mim, que sempre confiei em vocês, ao camarada Estaline, a todo o Konsomol, enfim, ao povo russo que tanta confiança tem na nossa instituição. E façam o favor de deixar aqui, na minha secretária, os vossos crachás do Partido.” Dimitri ficou a olhar distante para a praça Plotnikov, enquanto nós abandonámos o escritório, estupefactos.
Nessa mesma noite, tocaram à porta de minha casa. Minha mãe foi abrir e dois sujeitos altos e robustos penetraram diretamente no meu quarto, de tal maneira que parecia que já lá tinham estado antes, pelo modo como o descobriram no meio de cinco portas.
“NKVD”, afirmou um deles, “não nos tente fazer frente. Estamos aqui em nome do Partido. Pegue numa toalha, numa muda de roupa e em alguns objetos pessoais. Está proibido de se fazer acompanhar de objetos cortantes como lâminas de barba e tesouras. Não nos desobedeça. Pode nunca mais ver a Arbat.”
“Descanse, minha mãe, não se passa nada...”, tentei acalmá-la e penso que a mim mesmo...
IV
“Jantar!”
20:00h. Já me habituei aos rituais da prisão. A comida não é grande coisa e passo bastante frio. Desta vez, são ovos cozidos, pão e um copo de água. Mas, mesmo assim, não é mau de todo. Pelo menos tenho livros, de dois em dois dias há uma distribuição deles. Dostoievski e Tolstoi são, do meu ponto de vista, dos melhores escritores de toda a Rússia.
Soube, por minha mãe, que Pankratov teve o mesmo destino que eu. Enfim, ainda não percebo que mal provocámos ao Partido. Mas, se ele afirma isso, então é legítimo privar-nos a liberdade. O Partido tudo sabe, tudo controla. Nós somos simples peças, não sabemos nada. E, por isso, temos que ser guiados pela sua mão paternal.
V
Às quatro horas dessa noite, fui acordado e obrigado a vestir.
“Alenitchev espera-te, Franciscovsky”.
Alenitchev era considerado um mito por toda a URSS. Apenas visto em fotografias do jornal O Comunista, todos o temiam pela sua fama dentro do Partido. Acusavam-no de arrancar a confissão a pessoas que nem coragem tinham para matar uma mosca.
“Seja o que Deus quiser”, pensei, “estou de consciência tranquila”.
Fui ultrapassando corredores sujos e escuros e penso que subi dois andares. A porta estava aberta e, lá dentro, um olhar de rottweiler esperava-me. Era realmente medonho.
“Porque o fizeste?”, rugiu quase sem me dar tempo de fechar a porta.
“Não sei do que me acusam”, afirmei num sussurro.
“Como podes ter tal descaramento, camarada?! O Partido confiou em ti e traíste-o. E, ainda por cima, juraste defendê-lo em qualquer situação”
“E defendi sempre! Confio no Partido tanto como tu ou como o Camarada Estaline ou...”
“Chega! Não ouses mais falar em vão do nosso Grande Pai. Trabalhamos todos os dias para criar a real situação de igualdade, aquela que vai beneficiar todos e não uma pequena minoria. Tem-te faltado alguma coisa? Comida, cama, roupa lavada? Vives numa área quase de prestígio. Que mais queres tu? Queres trabalho, nós arranjamos; queres ir visitar a tua família a Leningrado, nós ajudamos nas tarifas; queres a tua mãe de saúde, nós comparticipamos nas despesas. Em que é que o Partido te faltou para jurares ser um fiel apoiante e agora o traíres?! Queremos apenas que pagues pelo teu erro, não te faremos mal. Esperemos que tenha sido um devaneio. Levem-no”
No dia seguinte, pressenti qual poderia ser a razão da perseguição. Os cartazes do Konsomol, sim! Como não suspeitei! Eu e Sacha trabalhámos na realização de uns cartazes em conjunto com outros jovens, entre os quais Krivorutchko, do qual se suspeitava não ter grande confiança nos ideais Comunistas. Realmente, aqueles textos eram um pouco ambíguos...
“Preciso de falar com Alenitchev”, disse ao guarda do corredor.
“Impossível”, disse secamente.
“Mas tenho forma de provar a minha inocência!”
“Achas que alguém vai acreditar em ti?! Traíste o Partido, não podes dar a volta a isso. Ignorarão as tuas supostas desculpas”
Aquele Krivorutchko...terá o seu pagamento!
VI
Nunca a minha vida tinha mudado tanto em dez segundos. Com a maior da naturalidade, fui, uma vez mais, acusado de atentado à construção da sociedade socialista e deportado para a Sibéria. Três anos. Três anos sem ver minha querida mãe, a Arbat, os meus amigos Lenka, Nina, Sacha, Varia, Iura, Max, Serafim Katia, Vadim, enfim, tudo o que fez de mim o que sou. Três anos... Três anos após os quais, muito provavelmente, não terei visto para regressar a Moscovo e ficarei excomungado de uma sociedade pela qual dei tudo...
Nota do Autor
Neste pequeno romance, por mim idealizado como recriação da história de Sacha Pankratov, apenas o nome do protagonista, de Krivorutchko e dos amigos são iguais aos da obra. Todos os outros são fictícios. Jovem que vivia na Arbat, Sacha desde novo difundiu os ideais do Partido como um comunista de verdade e até possuía um alto cargo no Konsomol. Contudo, vicissitudes dentro do instituto ditaram a sua sentença. Tal como Franciscovsky, foi preso e julgado por um ato do qual não tinha a noção estar a exercer contra o Partido. Assim, é preso e deportado sem justa causa e não volta a ver a sua querida mãe, a Arbat e os seus grandes amigos.
Esta obra é, indubitavelmente, fenomenal e extremamente bem conseguida por Anatoli Ribakov, pois mostra-nos o terror vivido durante o Estalinismo, através de um alargado número de personagens, muitas delas reais, incluindo o próprio Estaline. O autor, na primeira pessoa do chefe, mostrou a dureza da sua personalidade, os seus pensamentos acerca de elementos do Partido e, inclusive, aspetos da vida privada, como uma ida ao dentista. Ribakov apresenta-nos, assim, o panorama da sociedade soviética repressiva dos anos 30. Muitas das histórias são verídicas, incluindo o assassinato de Kirov, membro do Partido e considerado como um opositor a Estaline (como demonstram vários pensamentos do ditador).
Em suma, “combinando a técnica do romance policial com uma fascinante análise da psicologia do poder de Estaline (e do próprio), o autor traça um extraordinário retrato da primeira geração que cresceu sob o regime comunista. E escreve a obra definitiva sobre o processo que levou um dirigente a aterrorizar toda uma nação”[4].
[1] Abreviatura de Komunistitcheski Soyuz Molodioji - União da Juventude Comunista.[2] Nome carinhoso de Franciscovsky.[3] Com base no excerto de Alenxandre Soljenitsyne, na obra Arquipélago do Gulag.[4] RIBAKOV, Anatoli, “Os Filhos da Rua Arbat”, Círculo dos Leitores, Sinopse
2.

Comissão das lágrimas são memórias do período pós guerra colonial, de uma perspetiva mais pessoal, e que encontra as verdadeiras perdas de cada um. Cristina batalha com uma vida de loucura que a arrastou para uma clínica psiquiátrica. Tem memórias vagas daquilo que a sua família passou em África. “Família” não no sentido de amor e compaixão, mas, sim, no sentido abruto, numa ligação entre pessoas que somente passa pela genética e de um homem preto a quem chama pai, mas que na verdade não o é. Esse preto que “não [tem] país, não [tem] um sítio, não [tem] um coração, [tem] um tambor que não para.”
Mais importante do que as personagens disfuncionais que aqui encontramos, será talvez a escrita poética da obra. Lobo Antunes fala-nos através de vários narradores, que gritam desespero. Palavras frias que retratam a infelicidade, e, como se não fosse possível escrever de uma forma que mais se assemelhasse à dor humana, ainda nos deparamos com dilacerações textuais. Vive-se uma paranoia, reavivam-se memórias que se repetem constantemente, para demonstrarem o quão confusas são as mentes daqueles que vivem na imaginação do autor. São “flashes” que exigem ser rapidamente registados; é uma voz que guia o leitor ao longo de todo o livro. Mas fica muito por dizer. Apenas percebemos que Simone ou Alice é uma mãe que se debate com a patologia da filha, que sofreu de abusos, que dormia na mesma cama de um marido por quem sentia um nojo incomensurável. Aquilo que sabemos é que não há regresso de certos locais da mente, e que aqueles que perfazem o livro encontram-se já num lugar distante.
Andamos a juntar as peças de várias vidas que nunca tiveram um sentido, somos nós que percorremos o labirinto, só para chegar à conclusão de que estão destinadas a ser o que sempre foram. Pedaços, restos.
Simone é atormentada por dores no joelho. Perseguem-na em todo o livro e essa dor constante vem apenas enfatizar que a personagem é escrava das suas acutilantes memórias que parecem penetrar-lhe o joelho com agulhas. E, afinal, são simplesmente dores de alma.
Lobo Antunes não quis que o livro fosse uma estória. E não o é, por um único momento.
Diana Falcão
Enviado por Hélder Moreira
Segunda-feira, 2 de Janeiro de 2012
Ler - janeiro
Quinta-feira, 29 de Dezembro de 2011
Reinterpretar os clássicos
Porto, 20 de janeiro de 1806
Com saudade. Sempre sua,
Mariana.
Daniela Santos, 11º C
.
Espero que tudo esteja bem em Londres, que a tua vida seja a projeção dos planos que sempre tiveste para o futuro. Um destino bem delineado, com todas as linhas traçadas e todos pormenores meticulosamente pensados e repensados. Espero que a tua filha esteja com saúde e que continue a ser a pequena menina ajuizada que fora em criança. Mas não espero uma coisa: não espero que o teu casamento seja maravilhoso, não espero que sejas feliz presa a um homem que nem sequer amas. Não espero que esse senhor que dizes ser delicado e atencioso para contigo seja aquilo que aspiraste ter na vida. E digo-te mais: em muitos momentos, senti inveja desse homem que se deita contigo e contigo acorda todos os dias. Sei que ao leres isto não ficarás incrédula. Sei que não irás ficar surpreendida e, obviamente, nunca irias demonstrar tal sentimento. Afinal, as tuas ações respondem apenas a um guião, não sofrem de irreverência. Nunca tiveste um imprevisto, pois não? Não. Tenho a certeza de que nunca irias permitir tal evento. E, diz-me a verdade, amas realmente alguém? É que eu já amei tantas mulheres na minha vida. Sinto que o meu coração já viajou por muitos lugares. E, mesmo assim, nunca te esqueci. Em dia algum apaguei o teu sorriso da memória, um sorriso camuflado pela frieza que te acompanha. Em dia algum deixou de ecoar a tua voz na minha cabeça. Em dia algum se evadiu a tua esbelta imagem dos meus arquivos mentais. E sabes o que é mais curioso? É que a razão por que nunca te esqueci é porque nunca encontrei outra alma feminina que me atraísse pelo seu irreverente desprendimento ao mundo e àqueles que a rodeiam. Escrevo-te isto para te dizer que vou casar. Agora, sim, pressinto que ficaste perturbada com esta revelação. Encontrei uma mulher que nada tem a ver contigo, é doce como todas as manhãs de primavera, de uma beleza extraordinariamente comum, e é com ela que pretendo viver até ao resto dos meus dias. Preciso de paz e serenidade, aquilo que nunca me poderias ter dado. E, a partir de agora, nunca poderás. Não acho que isso te entristeça, acredito que nada disto te deixará perturbada. O que sinto é a tua revolta interior, por te saberes trocada por uma mulher que em tudo se inferioriza á tua altivez, por saberes que não a amo como te amo a ti, e mesmo assim já não és mais a minha escolha. Querida Clarissa, já nos conhecemos há tantos anos, e nunca te disse que a tua postura arrogante perante as situações e as pessoas que te acompanham só resultaram em algo de que irás aperceber no fim da tua vida. Irás morrer sozinha e abandonada, irás tornar-te escrava da tua insolência. Peço-te, sinceramente, que sejas feliz e que faças o mesmo pelos outros. E gostava de ter percebido mais cedo que, mesmo que me tivesses dado uma oportunidade para estar a teu lado, nunca te teria feito feliz. Nunca ninguém fez, nunca ninguém o fará.
Diana Falcão, 11ºD
...
3.

Querido diário,
Sabes como são aqueles momentos de indecisão entre saltar o abismo ou manter os pés em terra firme? Aquele sentimento de angústia a dominar o teu ser? Pois, eu hoje sinto-me assim… Penso que as pessoas só dão valor a algo quando o perdem. E o mesmo se aplica a mim! Nunca imaginei que um nariz fosse um elemento tão fulcral na minha vida. Agora que me separei dele, já compreendo a sua relevância. Sim, de facto, hoje o meu dia foi diferente. Acordei cedo, uma vez que os pássaros já entoavam as suas melodias matinais e, lentamente, pois não queria abandonar o conforto da cama, levantei-me para mais um dia neste mundo gélido. Porém, quando me encontrei à frente do espelho, petrifiquei. Por uns momentos, esfregava os olhos, e voltava a paralisar. Faltava alguma peça naquele “puzzle” de beleza humana…. O nariz! Aquele importante pormenor desaparecera ou desertara por algum motivo desconhecido… No entanto, a minha vida teve de continuar, com ou sem face completa. Mas como sair à rua sem que ninguém repare? Como falar com alguém sem que se indague sobre o que se sucedeu? Perante tantos dilemas e sem respostas que os solucionassem, decidi manter a rotina e avançar rumo ao desconhecido. Saí à rua, e a brisa atacou aquele incógnito espaço da minha cara. Aconcheguei-me no cachecol e continuei o meu caminho, passo a passo. Entrei numa pastelaria e pedi algo para me aquecer. O cachecol formou uma barreira entre mim e o café e, por isso, tive de o retirar. Não, não podia permitir que alguém me visse naquele estado. Paguei o café que não bebi e abandonei o estabelecimento. Refugiei-me em casa, com receio de que alguém me visse naquela abominável figura. Mantive-me encarcerado todo o dia, espreitando o mundo pela pequena janela do meu quarto. É impressionante como algo supérfluo, que por vezes tomamos por certo, nos prende a uma realidade na qual não queremos vaguear. Deixamos de ser independentes para vivenciar cada momento das nossas vidas com normalidade. Ficar sem nariz tirou-me a minha independência. E eu julgava-me dono do meu nariz!
Kavaliov
...
...
4.
Crítica Literária
Uma Abelha na Chuva

Carlos Oliveira publicou esse livro, Uma Abelha na Chuva, no ano de 1953. O enredo baseia-se na relação estéril de um casal: D.Maria os Prazeres de Alva Sancho Silvestre e Álvaro Rodrigues Silvestre. A ação desenrola-se na aldeia de Montouro, durante um outono chuvoso, e é no decorrer da mesma que o leitor se apercebe de que Carlos Oliveira lança fortes críticas às injustiças existentes na sociedade e nas relações humanas do Portugal do século XX. É de notar a originalidade no começo deste romance: Álvaro Silvestre dirige-se à “Comarca” (jornal local) para implorar a publicação da sua confissão sobre todos os delitos que tinha cometido. Porém, essa confissão acaba por não ser publicada graças à entrada de D. Maria dos Prazeres. Durante o resto da narrativa, todas as personagens que entram em cena neste romance acabam, basicamente, por sentenciar os acontecimentos do dia a dia. D. Maria dos Prazeres, esposa de Álvaro Rodrigues Silvestre, foi, sem dúvida, a personagem que mais me marcou. Amargurada e descontente com o rumo que a sua vida tomou, vive constantemente infeliz e desejando outra vida para si. Nota-se, desde logo, que não nutre qualquer tipo de amor pelo seu marido e está, desde sempre, no casamento por obrigação. Sendo filha de fidalgos arruinados, a sua única alternativa era casar com um homem de uma família abastada. E assim foi. Para além disso, com o passar dos anos, um dos seus maiores desejos não se concretizou. D. Maria dos Prazeres nunca teve o seu tão desejado filho, aumentando, assim, o seu sentimento de fúria para com Álvaro. Durante a narrativa, são claros os seus sonhos com outros homens que cobiçava, no entanto, isto acontecia pelo simples facto de se demonstrar uma figura carente. Contudo, embora D.Maria dos Prazeres pense o contrário, Álvaro gostava realmente dela, algo que se vai revelar no final do livro. Na minha opinião, neste livro, as personagens desenvolvem uma espécie de metamorfose, pois as características que as definem no início do livro diferem das do fim. É, de facto, uma obra escrita com uma grande subtileza por parte de Carlos Oliveira. Será que toda a gente é quem parece? Para descobrir até à última linha…
Maria Inês Castro, 11º C

Segunda-feira, 26 de Dezembro de 2011
Natal no mundo
É um impulso divino que irrompe pelo interior da história
Uma expectativa de semente lançada
Um alvoroço que nos acorda
para a dicção surpreendente que Deus faz
da nossa humanidade
O Natal não é ornamento: é fermento
Dentro de nós recria, amplia, expande
O Natal não se confunde com o tráfico sonolento dos símbolos
nem se deixa aprisionar ao consumismo sonoro de ocasião
A simplicidade que nos propõe
não é o simplismo ágil das frases-feitas
Os gestos que melhor o desenham
não são os da coreografia previsível das convenções
O Natal não é ornamento: é movimento
Teremos sempre de caminhar para o encontrar!
Entre a noite e o dia
Entre a tarefa e o dom
Entre o nosso conhecimento e o nosso desejo
Entre a palavra e o silêncio que buscamos
Uma estrela nos guiará
José Tolentino Mendonça
Sábado, 17 de Dezembro de 2011
Valter Hugo Mãe
Fosse quem fosse, não era quem eu pensava que ele fosse, era antes alguém que, procurando um fundo de "coragem" no seu auditório (ao qual insistia em que colocasse questões), o conquistou e cativou, motivando, pelo menos a mim, pessoalmente, não só à leitura dos seus livros, mas também ao desenvolvimento da escrita (nem que fosse, em último caso, por meio de aparelhos eletrónicos).
Ouvir as palavras de Valter Hugo Mãe foi uma enorme oportunidade, na medida em que conheci uma nova realidade e me motivou para, mais uma vez, "encher os meus bolsos de textos" e papéis espalhados por todo o lado, com ideias que simplesmente me vieram à cabeça.
Sara Martins, 11E
Apesar da contrafactualidade conferida pelo conjuntivo, a verdade é que leitura do autor arrasta realmente consigo a necessidade de aprender a falar de outra maneira. Aliás, se pensarmos bem, qualquer metáfora que associasse a escrita de Valter Hugo Mãe a um fenómeno atmosférico se mostraria apta para a descrever. Um furacão, uma erupção, um sismo… Não são estes, afinal, apenas símbolos extraídos do mundo natural que visam colmatar as insuficiências concetuais para descrever o cavalgar de uma escrita que produz efeitos devastadores sobre qualquer solidez que a linguagem humana possa, aparentemente, oferecer? Dir-se-á que ensinar o leitor a pronunciar as sílabas de uma língua nova é apanágio de toda a boa escrita. E no entanto, em Valter Hugo Mãe, a procura pelo novo parece ser algo essencial – adjacente a uma modificação profunda do discurso da língua-mãe –, como um instinto genuíno que o guia na destruição e reconversão das formas, o que, aliás, se insinua desde os primeiros textos. O uso das minúsculas, o alinhamento tão estranho dos poemas à esquerda e à direita da página, o vocabulário radicalmente oscilante entre o erudito e o rasteiro não seriam já modos de perguntar à língua portuguesa o que, através dela, podemos dizer de novo?
Foi dando resposta a todas estas questões que Valter Hugo Mãe, de um modo tão próximo e tão informal, falou ao pequeno grupo que com ele se encontrou no auditório do colégio, na tarde do dia 7 de dezembro. Tendo como ponto de partida a poesia “desalinhada” na página, Valter, pela mão dos iniciados na sua escrita literária, recordou a sua estada em Paraty, no FLIP, falou do seu recente projeto de ajuda solidária ao serviço de Pediatria do HSJ, no Porto – Os quatro tesouros – peregrinou pelos seus romances e, sobretudo, fascinou e comoveu com uma irreverência que se estende à sua criação como artista plástico. Utilizando uma outra linguagem, as capas dos seus romances são jogos de uma criatividade concetual que podem passar despercebidas ao incauto leitor. Mas quem lê Valter Hugo Mãe não se pode descuidar e tem que estar atento a tudo – às palavras, às formas, ao jogo que os títulos dos seus romances se atrevem a (re)inventar - o remorso de mil homens, o filho de baltasar sarapião, a máquina dos trabalhadores, o apocalipse do nosso reino, a máquina de fazer mil homens…
Auxília Ramos e Hélder Moreira
Sábado, 10 de Dezembro de 2011
Texto descritivo - 8ºano

Sinto o devaneio das cores e luzes cintilantes, confundido na minha cabeça, e quando volto a mim encontro apenas uma simples mas complexa razão: o teu sorriso. Esse sorriso que desperta no meu olhar a vontade incontrolável de te ver; esse sorriso que não depende do tempo ou do espaço, mas de um instante que floresce dentro do teu ser.
E assim, digo, é na fragilidade do meu sentimento triste e esquecido que tu sorris.
Ana Filipa Braga
Vejo no teu sorriso o fresco sopro das manhãs. Quando sorris, iluminas as trevas de uma vida sem sentido. O teu sorriso é uma leve luz que envolve e me eleva à pureza de praias desertas. Ele é como uma onda que sussurra doces melodias, que me embalam sob a fria e rude noite. Sinto no teu sorriso uma carícia de mãe, que me consola debaixo da tempestade. No teu sorriso, nascem brancas margaridas, campos verdes e céu azul; é como um rio de Sol que corre dentro de mim. O teu sorriso amanhece sobre as trevas de um mundo confuso.
Sara Cunha
Sobre esta página em branco, tento descrever o teu sorriso. Um sorriso que desaparece no nevoeiro e que leva consigo a luz do amanhecer. Vejo e não vejo o teu sorriso translúcido que se resguarda no âmago do meu pensamento. Por vezes, viso uma luz por entre esta confusão e escuridão. Porém, por mais que tente pensar o teu estonteante sorriso, não consigo, pois outra imagem me ocupa a mente – uma outra chama, cada vez mais intensa. E agora que penso, afinal aquela luz com que pensava não era tua, mas de outro ser há muito esperado…
Gonçalo Maria
Refugio-me na minha essência a pensar no teu sorriso que brota da mais inocente pétala que esvoaça pelos ares e poisa no meu coração. A sua simplicidade faz-me voar até horizontes proibidos, e eu tropeço no sentimento perdido que desponta no teu rosto. O teu sorriso eleva-me à incomensurabilidade de um leve halo místico de pura e plena Natureza que soergue no meu corpo e trespassa o meu âmago. É como uma rosa que floresce entre a imensidão das trevas e cintila, comprometendo o meu olhar a todo o teu ser, porém totalmente entregue, fitando o fogo invisível que deixa transparecer o teu Sorriso.
Ricardo Seca
(Textos enviados por Hélder Moreira)
Domingo, 4 de Dezembro de 2011
Livro do mês - dezembro
A análise da poesia de José Rui Teixeira apresenta-nos com clareza a consciência que se vem agudizando, sobretudo, nas antologias do final do século passado (década de 90) e nos primeiros anos do século XXI (nomeadamente, sob a organização de Jorge Reis-Sá, Ricardo Nunes e Manuel de Freitas), de que a Pós-modernidade se caracteriza por uma menor capacidade de inovação e de ruptura e uma certa tendência para a recuperação e regresso a programas estéticos do romantismo e simbolismo. A dita «poesia nova» ou «novíssima» (para enfatizar que a sua criação é de agora mesmo) só o é, em termos periodológicos e cronológicos, e não enquanto categoria epistemológica. Só pode ser encarada como novidade, no sentido em que toda a palavra poética é uma palavra nova e inaugural, conduzindo alquimicamente à verdade e ao Absoluto.
Sem que haja propriamente a noção de «geração literária», a poesia contemporânea pauta-se pela diversidade de discursos, pela segmentação e heterogeneidade, separando-se, por isso, do Modernismo e das Vanguardas, revelando uma postura mais nihilista e pessimista face à cultura e ao tempo. Esta espécie de alienação alimentada por um «pensamento frágil» (Lyotard e Vattimo) e a pluralidade são precisamente argumentos da Pós-modernidade.
Por outro lado, desenha um movimento de ênstase e de ênfase no sentido (Mircea Eliade), de mergulho na interioridade e de revalorização da experiência. Ressurge, novamente, a instância enunciadora e a subjetividade que lhe é inerente. Desta forma, a linguagem passa a interpretar a própria experiência, o próprio corpo, a própria interioridade, e acentua-se a tensão emocional do poema. Talvez por isso se possa afirmar estarmos perante uma poesia figurativa ou da experiência, pelo regresso anunciado ao lirismo figurativo, mais próximo da pintura.
Em José Rui Teixeira, este itinerário do silêncio e da solidão faz-se através do tema da morte. Partindo do pressuposto de que a morte revela a verdadeira condição humana, o poeta consagrará a sua escrita como estética do medo e metáfora dessa mesma morte. Algumas aporias foram levantadas: como representar a morte na obra de arte, se esta não foi diretamente vivenciada? Qual a relação entre a mulher, símbolo de fertilidade, e a morte? Ora, a escrita representa para o poeta a oportunidade de mortificação e de experiência de morte; além disso, a perda da figura materna permite-lhe, pela memória, recuperar e duplicar a dor sentida pela ausência e pelo vazio. Deste modo, é pela morte que o sujeito poético acede à reflexão metafísica e existencial, tomando o seu mundo interior como referência. A abertura fenomenológica só se consubstancia através da errância e do vazio. Uma outra leitura possibilita resolver a segunda aporia: a morte simboliza o profundo desejo de reintegração no ventre materno, a angústia da castração e a tensão libidinal acumulada.
Este último aspecto remete-nos para o papel da mulher nesta obra. Verificamos que há uma íntima relação entre mulher e morte. Mais uma vez, estamos no campo do dilema: como explicar que mulher e morte coincidam semanticamente? Assistimos a uma forte tensão entre a figura da mãe e a da mulher violentamente erotizada, entre a mulher que gera e alimenta e a mulher amante. Quer num caso, quer noutro, temos, mais uma vez, a relação com a morte. A suposta fertilidade de semas como “ventre”, “útero” e “sangue” remete, nesta poesia, para a ideia de vazio e de morte; na verdade, o homem só vive plenamente quando está dentro do útero e, portanto, o útero e o ventre contemplados de fora são símbolos do nada e da aniquilação. O mesmo acontece com as referências explícitas à sexualidade: o homem é expulso do corpo da mulher, com o mesmo ímpeto com que esta dá à luz e expele a criança. Fora da mulher, inicia-se a morte, há só morte.
Outro dos traços da sua obra é a sistemática citação da narrativa bíblica e a contribuição para uma "mitologia do sagrado", como apontou Fernando Guimarães. Em articulação com os evangelhos, o poeta procede a uma profunda reflexão escatológica, elegendo a sua poesia como “lugar de um conjunto de intuições teológicas”. Numa declarada atitude pós-moderna, José Rui Teixeira aproxima a religião da cultura. Através do mito, a realidade revela a sua essência (ontofania e epifania) e o sagrado torna-se a própria realidade. Enquanto religação, a religião surge aqui como símbolo de envolvimento do poeta com o sagrado e com o absoluto (teofania) e a mitificação como forma de conhecimento.
Paradoxalmente, encontramos poemas seus que soam como autênticos salmos e litanias e, simultaneamente, outros, que, numa operação de desconvencionalização dos símbolos bíblicos, se instituem como imagens-choque e autêntica subversão e dessacralização dos evangelhos. O sagrado é, assim, vislumbrado à luz do humano, do profano, não deixando, por isso, de ser menos sagrado; bem pelo contrário, encontrado o rosto humano (e feminino) de Deus, o poeta refaz a leitura bíblica através da recomposição mitológica, em que a sexualidade e o erotismo ( e a partir daí o resgate da mulher) são caminho de sacralidade. É todo um programa inaugural que abandona a visão do homem à semelhança de Deus e, num percurso inverso, passa a medir Deus (deus) à semelhança do homem.
Também em relação à linguagem e estilo se aplica aquilo que se concluiu sobre a tendência pós-moderna desta poesia, ao retomar e dar continuidade aos programas estéticos do romantismo e do simbolismo. De facto, verifica-se um tom melancólico e nostálgico, próprio da sensibilidade neo-romântica e uma certa predileção pela morte enquanto tema e semantema.
O vocabulário inusitado contribui para uma inegável e original renovação lexical, alterando a dicção poética tradicional. As imagens perturbadoras, e em certo sentido surreais, povoam um discurso extremamente pictórico e sugestivo que é produzido por múltiplas vozes (polifonia aliás enfatizada pelo recurso ao discurso direto e à inclusão objetiva de um interlocutor omnipresente). Destacamos, ainda, a expressividade das metáforas e dos símiles que perpetuam a rede temática (da morte).
A sintaxe concisa obedece à estrutura tradicional e apenas a pontuação parece perpassar a transgressão, ao esquecer intencional e sugestivamente o ponto de exclamação e de interrogação, deixando ao leitor um papel ativo na vivência emocional da entoação poética.
Finalmente, encerramos com as palavras de Miriam Reyes, ao posfaciar a edição de Assim na Terra , que parecem alcançar o enigma insondável desta poesia que “abre os olhos na escuridão”:
“Porque lo que escribimos es luz refractada. Es cierto, no puedo explicaros lo que he visto, también para leer hay que hundir la cabeza y abrir los ojos en la oscuridad”.
Domingo, 27 de Novembro de 2011
Ainda a feira do livro
Richard Zimler regressou ao CLF, na passada quinta-feira. Acabado de chegar da Polónia, para onde viajara numa peregrinação editorial, com um notório cansaço, mas com o mesmo entusiasmo de quem vibra com leitores mais jovens, o escritor partilhou com todos os presentes a profunda emoção que sentiu ao visitar, pela primeira vez, a cidade natal dos seus avós, ao entrar na casa que lhes pertencera e que resistira à destruição do exército nazi, ao percorrer as mesmas ruas onde o seu avô correra e brincara… Uma indizível comoção contagiou o silêncio do auditório.
Interpelado pelos alunos sobre o seu mais recente romance “Ilha Teresa”, Richard Zimler falou sobre Teresa e Angel, os dois adolescentes que, desenraizados do seu país de origem, reagiram, cada um à sua maneira, a uma nova vida na “big Apple”.
Confessando uma inegável simpatia por Teresa, o romancista deixou-se contagiar por essa cumplicidade, colando-se perfeitamente à pele da protagonista. Interrogado sobre a eventual dificuldade na passagem de um percurso de raízes históricas, como acontece em “Os anagramas de Varsóvia”, para o percurso próprio de uma adolescente irreverente, sarcástica e intolerante, Richard Zimler simplesmente referiu que esse processo esteve, à partida, facilitado pela sua igual condição de “emigrante” – “a vida de Teresa é a minha vida ao contrário”.
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Quinta-feira, 24 de Novembro de 2011
Sexta-feira, 18 de Novembro de 2011
Crónica | 10ºAno
1.
Ao meu tio roubaram-lhe o talento. E nada pior poderia ter acontecido a um poeta, como ele. Um poeta necessita de momentos de inspiração, fluidez com a caneta, capacidade de se abstrair do mundo e escrever o que lhe vem da alma. O meu tio, não possuiu nenhuma dessas qualidades.
Sempre disse que era um poeta, desde pequeno, segundo conta a minha mãe. Diz isso com orgulho, convicção e um brilho fascinante nos olhos, “Eu sou um poeta”. Contudo, logo a seguir, o brilho dos seus olhos desaparece e uma nuvem depressiva surge na sua face, à medida que se apercebe que não tem talento. Acorda dessa ilusão e apercebe-se que nunca escreveu boa poesia.
É pena, porque até acho que daria um bom poeta. Fascina-se com os belos poemas, o ritmo dos versos, a eloquência das palavras. Consegue recitar versos de todos os autores que eu conheço. Fala como um poeta, veste-se como um poeta, pensa como um poeta. Parece-se mesmo com um poeta. A única diferença entre ele e um verdadeiro poeta é que não consegue escrever.
Acho que vai dar aulas duas vezes por semana a uma escola qualquer. De resto, passa o seu tempo em casa, a olhar para o teto, à espera que a inspiração divina lhe traga o poema da sua vida. O poema do qual ele está sempre a falar, que lhe dará projeção e prestígio. “Esse poema”, diz ele, “será o meu legado à humanidade, a minha obra prima que me colocará junto dos grandes poetas universais”.
Assim, ele espera, dia após dia, mês após mês, ano após ano, pelo seu m momento de inspiração. Na minha opinião, por muito que goste dele, esse momento nunca chegará.
Duarte Magano
2.
A Natureza roubou-lhe o talento, mas encheu-o cruelmente com o desejo de escrever boa poesia, deixando no seu coração uma tristeza e frustração profunda por não ser capaz.
Ao meu sonho roubaram-lhe o endereço. Sou confrontado inúmeras vezes com o destino já eleito para mim. O objectivo da minha família é constante: tirar um curso, de preferência medicina, advocacia, etc., para ganhar muito dinheiro e “ser alguém na vida”. Os meus sonhos são condenados, as minhas ambições são esquecidas e o que eu quero para o meu futuro é censurado. Não se trata do que eu quero, mas do que querem para mim. Não me é permitido escolher outro rumo para a minha vida. Ouço constantemente: “um dia ainda me vais dar razão”. Será que sim? Só quero ir ao encontro do meu sonho, não quero que tracem o meu destino, quero ser eu a traçá-lo. Não me é permitido desobedecer, apenas cumprir os meus deveres. Só queria por momentos esquecer tudo, olhar em frente e reflectir acerca do que realmente quero para mim, sem ter receio de olhares desiludidos. Quero ser livre. Talvez seja piloto, para voar para fora das rotas que me querem. Estou perdido. Não sei se devo desobedecer àquilo que cuidadosamente foi previsto para mim, sem ter qualquer voto na matéria, ou se deva libertar-me desta rede de pensamentos e mentalidades. Esta opção não só não é tolerada, como também não pode ser colocada. A minha vida é dominada. Resta-me cumprir esta pena, não tenho armas para combater esta guerra.
Hugo Franco, 10A
3. ACIMA DE TUDO VIVER
Ao meu pai roubaram-lhe a vida. Nunca compreendi. Um dia perguntei, mas ele não falou. Hoje já percebo tudo, o olhar triste que tinha, a voz serena que exprimia.
Era eu ainda pequeno quando o meu pai, segundo o que me relatou a minha mãe, teve um acidente. Dizia-me ela: sabes, o teu pai não pode andar, pelo que tens de ajudá-lo! O meu pai ficou paraplégico e nada aconteceu ao outro condutor. Não compreendi na altura por que ele estava triste, mas agora sei. Percebo o que é olhar para o mundo e não o poder viver, ver os outros e não os acompanhar. Percebo por que estava sempre triste e a razão da sua resignação. Não queria lutar. Compreendo tudo o que sentiu. O meu pai morreu há pouco mais de quatro anos, quando, desistindo da vida, decidiu partir. Ousou sobrepor-se ao poder de Deus e pôs termo à vida. Não o fez sem antes me deixar uma carta escrita sobre o sofrimento que tinha, o desgosto que sentia de não ter podido acompanhar-me nas brincadeiras e nos sonhos. Pena tenho eu de não lhe ter dito que o seu coração era maior que o mundo e que por isso superava tudo.
Ele não quis viver e não o condeno. Entendo as suas frustrações, as suas mágoas o seu vazio e a sua falta de esperança, pois, na verdade, a situação que era a dele é agora a minha.
José Diogo Chaves
4. Há dias assim
Ao meu amigo, roubaram-lhe o sonho. Jamais saberei porquê nem como… Planeava viajar por esse mundo fora, sofrer e vencer, conhecer e ser conhecido.
De um dia para o outro, deixou tudo o que estava planeado e, cabisbaixo e melancólico, caminhou até ao mar. Eu estava sempre a seu lado, éramos inseparáveis, amigos para a vida e para a morte. Chegando ao porto dos pescadores, nem sequer abrandou o passo para admirar a azáfama dos que voltavam da faina. Uns levando apenas o suficiente para se sustentarem, outros transportando tudo o que haviam pescado para vender na lota, os pescadores costumavam ser alvo da admiração do meu amigo. Ele ambicionava ser, em parte, como eles, enfrentando os perigos do mar e regressar vitorioso. Um pouco como Ulisses.
Naquele dia, tudo estava cinzento e triste. O meu amigo caminhava, sem parar, sem tirar os olhos da calçada. Chegados à praia, estacou e pôs-se a fitar o mar, contemplando-o em todos os pormenores. A ondulação agitava-se como uma manada de cavalos selvagens, as aves recolhiam a terra, o céu ia escurecendo aos poucos. A tempestade aproximava-se, mas o meu amigo nem estremeceu. As nuvens acumularam-se e foram ficando cada vez mais carregadas. Subitamente, iniciou-se o dilúvio. Eu queria sair dali e ir abrigar-me, mas não abandonei o meu amigo. Parecia que ele queria travar um duelo com a tempestade. A trovoada começou a tocar os seus tambores. O meu amigo continuava ali, imóvel, enfrentando o mar com o olhar.
Após este singular duelo, veio a bonança. O meu amigo vencera. O sol irradiava a terra de novo. O meu amigo, pela primeira vez nesse dia, sorriu. Renascido, voltou para casa, assobiando uma alegre canção capaz de causar inveja à ave mais melodiosa. Há dias assim…
António Pedro, 10A
5.
Ao meu mundo roubaram-lhe a paz. A vivência alegre e livre já vai longe. Agora, ao simples clicar de um comando, a televisão traz-nos notícias tristes. É como o vento ou a frieza da neve que nos invadem e nos mostram o lado insensível da natureza humana.
Outrora não era assim. Possivelmente porque não era tão fácil, não estava tão ao alcance da mão. E era assim que nos ficavam na memória imagens inocentes, ingénuas, cândidas, até.
Mas os tempos mudaram! O ritmo é acelerado, uma corrida infernal em que apenas as catástrofes e a violência se fazem ouvir. É da crise, é do stress... como se todas essas coisas tivessem vida própria para nos atormentar o espírito.
Os tempos já não são de modas!
Andamos ao toque da caixa de televisão que nos traz as notícias. Ao menos, por vezes, há futebol e o Porto ganha. “Venha um copo mais”. O meu amigo do lado esquece tudo, e a tristeza, mesmo que por breves momentos, desaparece. É do tempo!
O tempo tem muitas caras. E valem-nos os intervalos em que chegam notícias boas. E o meu amigo insiste: “ O tempo é como o mar – vem e vai como uma onda”.
Sempre ao alcance de um clique podemos parar, deitar para trás das costas a tristeza e acabar o último copo enquanto o meu colega do lado se entusiasma em mais uma jogada de futebol.
“Vale-nos que o Porto ganha”.
É dos tempos... dos novos tempos!
Gonçalo Magalhães
6.
Ao meu irmão roubaram-lhe a escrita. Rapaz solitário, refugiava-se em si mesmo numa tentativa de escapar à sua vida que, apressada, o arrastava numa rotina frustrante. O meu irmão escrevia. Transcrevia sentimentos, mágoas e angústias, medos e esperanças, alegrias e desilusões, tudo isto num pequeno caderno preto que guardava, por entre aquelas linhas estreitas e direitas, a alma de alguém que, um dia, se havia perdido no seu caminho que fora traçado por outros.
Tinha bastante curiosidade sobre o caderninho e admirava o meu irmão por saber que ali estavam escritas as mais belas palavras. Queria ser como ele. Escrever e ser reconhecido por isso. Fazer algo de que realmente gostava. Ainda me recordo de todas as vezes em que me chamava e, num murmúrio sentido, recitava pequenos excertos do que escrevia. E no fim perguntava-me o que achava. Eu, hipnotizado pela profundidade e encanto das palavras, afirmava que era a melhor coisa do mundo. E ele, afagando-me os cabelos, sorria. Dizia-me que, de alguma forma, era isto que o fazia sentir-se verdadeiramente feliz.
Um dia, a escrita desapareceu. Como, ninguém sabe. Num dia estava lá, repousada, segura. No outro, pura e simplesmente havia sumido. O meu irmão procurou-a, desesperadamente. Uma busca infrutífera, que o fez derramar uma triste e solitária lágrima. Tal como ele.
Ao meu irmão roubaram-lhe a escrita. Mas tiraram-lhe a alma. A simplicidade das palavras, a sua verdade e transparência. Tudo isto havia sumido para sempre. Os raros sorrisos, a ténue alegria quando recebia um elogio, coisas tão pequenas que faziam tanta diferença. E até isso lhe tiraram. Levei-o à praia. E nem uma simples expressão colocou. Continuou ali, fechado no seu mundo, numa tentativa desesperante de se soltar das correntes que o amarravam. E não conseguiu. Portanto ali ficamos, olhando o mar que, suavemente, transmitia a calma e a paz, até ao horizonte, que nos mostrava a linha de pensamento vazia que ocupava o meu irmão.
Ao meu irmão roubaram-lhe a escrita. E a mim, roubaram-me o meu irmão.
Beatriz Valongo
7.A Face oculta do mar
Desde então, nunca mais voltei ao cinema. É uma espécie de homenagem aos dias maravilhosos que passei com ele a ver filmes, numa sala exígua para tanta felicidade.
No entanto, não desanimo. Acredito que o poderei reencontrar no fim do meu filme da vida. A tela apaga-se, as portas fecham-se. E eu, lentamente, começarei a subir, até alcançar o meu pai e poder concretizar esse desejo inacabado, promessa não cumprida.
Sei que pouco ou nada sei acerca da morte do meu pai e dos seus fiéis companheiros, pescadores inseparáveis. Na verdade, apenas conheço o local e responsável pela sua morte e o nome do barco em que seguia. Mar e Douro, respectivamente.
Ah, o mar! Capaz de proporcionar tão bons momentos e ao mesmo tempo de desmoronar uma vida, ruir uma família. Ele, naquele dia, mostrou a sua face oculta, bipolaridade desconhecida. Porém, não guardo rancor, mas nunca mais voltarei a nadar nas suas águas, pois embora saiba que foi um acto involuntário, não posso perdoar quem deflagrou esse acontecimento fatídico.
Agora, sempre que olho para o mar, vejo-o de maneira diferente, com desprezo e desilusão, se bem que seja a mesma água salgada e o mesmo cheiro a maresia.
Observo o horizonte durante horas a fio, esperando que algo ou alguém renasça das águas traiçoeiras do mar. Aguardo pela vinda do meu pai, que me dê a mão como costumava fazer, para nos dirigirmos ao cinema prometido.
Talvez ele espere que faça o mesmo: que termine o meu filme da vida e que me dirija ao Céu, já que parece que o caminho inverso é impossível.
Eu espero pela sua vinda, ele espera pela minha ida, mas o que ambos queremos é a oportunidade de nos reencontrarmos,
Talvez um dia mais tarde, quem sabe?
João Silveira, 10A
8.
Ao meu pai roubaram-lhe a alma. Nunca me contaram como aconteceu verdadeiramente. Disseram-me, apenas: um dia o teu pai foi para o mar; havia uma grande tempestade. No entanto, quando regressou a terra firme, era tarde de mais. Penso nisso todos os dias. Penso nisso quando trato do meu irmão e o meu pai lá não está. Também penso nisso quando passo pela lota e o cheiro a peixe me invade o nariz. Também penso nisso quando olho para o mar. Penso nisso todos os dias, a toda a hora.
Quando deambulo pelas ruas da aldeia, procuro o riso, o cheiro, a figura do meu pai. Olho para todos os homens: altos, baixos, gordos, magros, mas nenhum é o meu pai.
O meu pai dava vida à casa. Todos os dias, depois de jantar, ele tocava no seu velho violino para mim e para o meu irmão. Nós deliciávamo-nos a ouvir aquela doce melodia. Outras vezes, limitava-se a cantar ou a contar histórias de quando estivera na Guerra Colonial. Agora, tudo é diferente. Não temos ninguém que nos aconchegue à noite, nem que nos conte belíssimas histórias, pois eu e o meu irmão somos órfãos de mãe e de pai. A minha mãe falecera quando o meu irmão mais novo nascera.
No tempo em que o meu pai ainda não tinha partido, ele costumava levar-me ao cimo do pontão para observamos o mar. Costumava dizer:
- Filha, o mar é muito belo, mas esconde muitos perigos. Nunca tentes inferiorizá-lo.
Hoje penso muito no seu conselho. Se havia alguém que tentava inferiorizar o mar era o meu pai. Todos os dias, independentemente do seu estado, ele nele se aventurava. Fazia-se de corajoso, mas nesta luta de forças, quem saiu vencedor foi o mar.
Ana Lídia Ferreira Neves
Trabalhos enviados por Auxília Ramos










