quinta-feira, 30 de abril de 2009

"Um poder chamado palavra"

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Ontem recebemos no Colégio o espectáculo de Teatro Poético "Um poder chamado palavra", de Nuno Miguel Henriques (Teatro Azul). O entusiasmo dos alunos foi contagiante. Do princípio ao fim, os poemas cativaram o auditório repleto e atento. Foram vários os poetas que desfilaram pelo cenário: de Sophia a Fernando Pessoa, de Cesário Verde a António Aleixo, de Miguel Torga a Luís de Camões.

Uma iniciativa feliz que revelou aos alunos um outro lado da poesia... Para repetir, sem dúvida!

Revista "Ler" - Maio

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A partir de sábado nas bancas.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Dar@língua 2009

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João Radich, in olhares.com
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O Colégio participou hoje nas Olimpíadas de Língua Portuguesa, Dar@língua, realizadas na Universidade de Aveiro. No total, concorreram vinte e oito alunos, organizados em 14 equipas (7º e 8ºanos). O 7ºAno conseguiu os três lugares do pódio! Parabéns aos alunos (João Sá e Tiago Simões - 7B; Francisca Cunha e Maria Ana Santos; Pedro Alves e Pedro Oliveira - 7A) e à professora (Drª Ascenção Rocha).

quarta-feira, 22 de abril de 2009

23 de Abril - Dia do Livro

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Assinalo esta data com a notícia da inauguração da primeira biblioteca digital mundial. Para aceder ao endereço, basta clicar na imagem retirada do sítio que lhe é dedicado. O espólio disponibilizado é vastíssimo e valioso: desde manuscritos a mapas (e que podem ser aumentados e analisados em pormenor). Vale mesmo a pena dar uma espreitadela... Também lá encontrarão obras e autores portugueses.
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segunda-feira, 20 de abril de 2009

Texto descritivo - Oficina de escrita

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Os alunos do 8ºano pintaram com palavras as seguintes imagens:
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I
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Era uma jovem tarde de Junho. O céu pintado de azul iluminava uma cidade carregada de memórias. O voo inquieto das gaivotas perturbava toda a serenidade daquela tela. Da janela da casa, avistava-se a taciturna paisagem a que o pó de ouro crepuscular concedia uma sensação de infinita e inquebrável perfeição. As casas insondavelmente antigas apreciavam o tumulto do rio que reflectia uma cidade feérica.
Ouvia-se o murmúrio das pequenas ondas que se formavam e avistava-se o longínquo caminhar da noite. À direita, o sol escondia-se nas profundezas do rio. Os barcos percorriam um caminho vagaroso até ao seu destino, como que a apreciar toda a perfeição que envolvia aquele anoitecer. Na paz jamais esquecida e inigualável do céu, as nuvens passeavam. Era um autêntico suspiro de beleza…
Diana Costa, 8A
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II
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A reverberante luz iluminava o cais, repleto de majestosos e pesados barcos, serenos na monotonia das águas. À esquerda, elevavam-se insondavelmente os grandes casarios, carregando o pó de vivências passadas. O rio corria calmamente para o colo das margens, onde mais tarde adormeceria, acompanhado da tristeza rude dos olhos prateados da Lua. À direita, a paisagem era constituída, igualmente, por majestáticos edifícios. As duas margens observavam-se, silenciosamente, invejando a beleza pura de cada uma. Contudo, era notória a melancolia das cores cintilantes, dos sons roucos, do odor das aguas fluviais, dos pesados e difíceis passos dos barcos, sobrevoados por uma ténue nuvem, que não tardava a ser substituída por um manto muito fino de pó de ouro, alcatifado pelas areias constantes. E apenas era necessário uma suave e leve brisa para as fazer dançar esfingicamente. Das águas turvas e verdes-esmeralda do rio emanava uma música de fundo, que todos os seres, por mais insignificantes, admiravam e acompanhavam com uma sublime dança. Tudo estava em sintonia, proclamando a originalidade da orquestra natural.
Francisco Melo, 8A

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III
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Da abóbada celeste suspensa sob as cascatas taciturnas da cidade, a tarde adormecia vagarosamente sob a alegria serena das sombras das árvores. No céu surdo, flutuavam os cardumes alvos de nuvens, lampejando nas águas melancólicas do rio, que escorria sumptuosamente, cortando aquele luxuriante horizonte.
Ao longe, ao longo da vertente, o doce cantar dos pássaros rasgava o silêncio irreal. O Paço, suavemente encaixilhado no cimo da colina, erguia-se extasiadamente, espreitando, indignado, o baloiçar lascivo das folhas dos ramos. A veemência da torre completava a paisagem, repleta de luzes e brilhos que, mirando nos vidros das janelas, reflectiam o tom crepuscular do sol.
Daniela Santos, 8B
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IV
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A manhã despertava da intempérie noturna. A abóbada celeste, imponente e majestosa, erguia-se sobre o extremo do promontório. Lá no alto, o maciço alvo de nuvens reflectia os longos raios de sol, que sumptuosamente interrompiam o lampejar da ondulação. No cimo do cabo, luxuriantes buxos surgiam, lascivamente, completando a vincada vertente. Do infindável horizonte, o mar surgia lançando as suas ondas, pacificamente, até ao areal. O ruído da ondulação ressoava insondavelmente no interior da gruta abrigada nos rochedos, enquanto que as gaivotas caminhavam extasiadamente ao longo da praia, como se uma nova tempestade estivesse prestes a chegar. Os barcos de castanho baloiçavam com as ondas, receosos das suas novas aventuras. O lusco-fusco, evadido das longínquas colinas, emergia serenamente, acordando a ilha…
Daniela Santos, 8B

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V
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O céu esmaecido misturava-se com os cardumes de nuvens que esvoaçavam ao encontro da linha perdida do horizonte. Vultos e sombras sussurravam ao ouvido do ténue e azul do firmamento.
Numa mancha imperceptível da palidez do azul, erguiam-se imponentemente colunas de pedra. Caminhava leve e lenta, no seu pesado andar, ao encontro do incomensurável mar, sobre a árdua rocha.
Pequenas rugas das ravinas penetravam no lívido corpo da areia.
Fachadas delapidadas, adormecidas na esperança de poderem sentir o salgado aroma marítimo, afloravam à superfície.
Areias e dunas vestiam e alcatifavam o chão e tingiam os barcos com a cor do crepúsculo.
Barcos sem rumo e sem sonho jaziam na costa e eram como pássaros feridos no seu voo no marulho da alba. As palavras, as cores e as lamentações destinadas a cobri-los, miravam extasiadamente horizonte. Estava tudo envolto no silêncio.
O mar entrelaçava as mãos com o lânguido céu. Vestia o seu manto de poesia bordado a iluminados versos, que insondavelmente atravessam gerações. Mostrava as suas vagas memórias do passado através do clamor e dos reflexos das suas águas.
Esperavam então pelo cair da tarde, para vestirem o seu pó de ouro e descerrarem as névoas como se mãos invisíveis fechassem as cortinas de um palco.
Carlos Braga, 8B
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VI
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Como um rapaz descalço, o rio escorria lento e suave até à foz, onde se perdia com o mar infinito. As casas flutuantes de memórias e recordações apresentavam inúmeras cores de onde trespassava o aspecto antigo e suspeito dos ecos, ruídos, rumores e gritos.
Ao longe, desaparecendo na imensidão do céu azul, no pó de prata das nuvens, erguia-se uma torre, o mais belo monumento da cidade, que dali contemplava o rio verde e turvo, sustendo um suspiro de grande admiração. A feérica cidade era desmedidamente grande e insondavelmente antiga. Para mais realçar a beleza da paisagem, as casas afloravam cada uma mais exuberante que outra. Um barco, como um pequeno punhal, rasgava o rio silencioso, perdendo-se nos sonhos de voltar a navegar.
Fábia Alves, 8A
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VII
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Os tons púrpura e azul no céu formam uma aurora harmoniosa que se agita ligeiramente sobre a cidade, como cortinas de seda. Uma nuvem branca estende-se ao longo do firmamento, criando um véu de paz e serenidade.
Um rio rasga a cidade ao meio; sobre este encontram-se barcos erguendo os seus imponentes mastros para o céu e reflectindo os raios de sol num intenso manto de ouro que afaga a água do rio. Esta, de tons esverdeados, como de um relvado se tratasse, serve de espelho aos barcos e ao céu.
Do lado esquerdo, ergue-se um alto casario amarelo que contempla o seu reflexo difuso na água, uma mancha dourada como as folhas no Outono. Ao fundo surge ainda uma imponente torre que rasga o céu com autoridade, como se quisesse assistir aos barcos que chegam ao rio.
Do lado direito, encontra-se uma poderosa construção de mármore, como a entrada de um palácio com altos portões virados para o rio. A sua continuação desaparece na linha amarelada que traça o horizonte.
Como pintada numa tela, a cidade revela ainda vultos e reflexos indistintos de luz e clareza que transpiram amor e paixão.
Pedro Conde, 8D
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VIII
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Era como uma tela marinha. Os barcos dormindo calma e levemente alcatifavam majestaticamente o rio de cor jade, que, como uma rapariga descalça, corria no seu leito até alcançar o mar. Nas suas margens, nas esplanadas insondavelmente escondidas por trás dos imponentes edifícios que mostravam uma variedade infinita de cores, estavam as pessoas que ao falarem e rirem cortavam, como um pequeno punhal, as águas do rio. À esquerda, erguia-se a grande e antiquíssima torre que cobria o chão grandiosamente.
Desenhada no horizonte está uma viagem com rumo ao país além das vagas. As nuvens com os seus tons de rosicler e branco desvaneciam-se no feérico, magnetizado e esfíngico céu azul da cor do mar.
Maria Pereira, 8A
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IX
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Porto, cidade perpétua, é a mais lânguida e majestosa terra em todo o mapa da pequenez que nos coube.Por ele corre imponente o Doiro, levando em seu leito duro reflexos do casario nobre e incomensurável que se estende para lá da margem, num chão árido e hostil.A luz do crepúsculo penetra nas janelas de cada prédio, cada casa, cada torre…O pó de ouro reluz sob as ruas e os enredos da cidade desconhecida.Erguem-se ao céu os Clérigos, que em todo o seu esplendor, embelezam a paisagem angustiada, que adormece na solidão de uma noite rouca.
Mariana Gradim 8ºD

Eça de Queiroz e "Os Maias" - Oficina de escrita

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A propósito do estudo do tema da Educação em Os Maias, foi pedido aos alunos que se imaginassem na Câmara dos Pares do Reino e respondessem à intervenção do Conde Gouvarinho:
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"Creia o digno par que nunca este país retomárá o seu lugar à testa da civilização se, nos liceus, nos colégios, nos estabelecimentos de instrução, nós outros os legisladores formos, com mão ímpia, substituir a cruz pelo trapézio..."
Eça de Queiroz, Os Maias

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Eolo in olhares.com Mário Fortuna in olhares.com

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Eis o resultado:
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Caríssimos Pares do Reino,
O caloroso debate que vem sendo realizado nesta assembleia, a propósito da introdução da educação física no plano curricular dos alunos portugueses, reduz-se fundamentalmente a uma opção entre dois modelos antagónicos e duas visões contraditórias da educação na vida do indivíduo.
A opção certa, meus caros senhores, é adoptar urgentemente a educação física, contribuindo assim para a regeneração do ensino, sem a qual não haverá salvação possível para a sociedade, nem para o país.
Alguns dizem que só com o ensino dos dogmas ultrapassados da religião poderá o nosso povo chegar à “testa da civilização”. Nada mais enganador! “Mente sã em corpo são” – este foi o lema que impulsionou, de forma categórica, a civilização grega. E foi esta civilização que condicionou e inspirou todas as outras. Influenciou-nos a nós, hoje, volvidos mais de dois mil anos. A ela devemos os jogos olímpicos, evento máximo do desporto mundial. E não se limitaram apenas à parte desportiva; grandes pensadores emergiram e venceram, criando as bases da sociedade moderna. É por tudo isto que afirmo que uma formação geral contribuirá para a prosperidade da nação.
Em segundo lugar, o ensino da religião, como propôs Vossa Ex.ª, apenas concorrerá, e isto é inegável, para a limitação do desenvolvimento filosófico. Ao ensinar aos jovens uma matéria tão dogmática e não discutível, estaríamos a retirar a capacidade crítica e criativa, porventura as maiores das faculdades humanas.
Para concluir, senhores, gostaria apenas que recuássemos até à Idade Média. A religião era a trave mestra da vida em sociedade. O que se conseguiu? Guerras! No desporto não existem guerras, mas sim competição saudável e desejável. Tenhamos a coragem de tomar a decisão certa.
Muito obrigado!
Francisco Pereira, 11C

ContAR(TE) II - 10ºAno

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III
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Cinzento
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Eram já cinco da tarde e as nuvens plúmbeas tinham-se reunido em conselho e, berrando umas com as outras, rasgavam o ar com raios e violavam o som na terra. O palácio pugnava contra as intempéries do vento que assobiava por entre os galhos das árvores nuas, flagelando os seus troncos. Os telhados de colmo eram esfolados pela tormenta e pelo granizo que os queimava, e por todo o lado cheirava a medo.
“ É a morte”- pensou o Czar - “ Estranhamente cheira a morte”. Estava naquela sala há já duas horas, pálido, nervoso, deambulando sem rumo, bêbado de ansiedade, à espera do filho que estava para nascer.
Ouvia, ao longe, gritos lancinantes e quase que podia sentir a respiração das criadas que corriam de um lado para o outro, transportando consigo toalhas e água quente. A parteira havia chegado duas horas antes, vestindo chuva, carregando nas suas mãos esperança. Tinha-lhe comunicado que seria uma entrega difícil, que Natasha, apesar de bela e jovem, não tinha corpo de mãe, mas que tentaria fazer tudo ao seu alcance. E depois partira em direcção ao quarto senhorial.
Inesperadamente, silêncio. O Czar sentia os seus melífluos tentáculos a agarrarem a atmosfera à sua volta, a agarrarem o palácio de surpresa. Tossiu e os tentáculos recuaram. Só então se atreveu a sair da sala e ir ter com a sua esposa. A porta estava entreaberta e deixava escapar para o corredor sombrio, luzes bailarinas, diáfanas.
Entrou e inalou um odor acre, adocicado, a sangue. Na cama, com os lençóis ensopados em dor e seiva rubra, estava Natasha. Suada, segurava nos braços um pedaço de si que a faria imortal. E sorria. Sentiu-se a sorrir também e correu para junto dela, beijando-a levemente na fronte (com cuidado), afastando-lhe, com ternura, os cabelos escorregadios e húmidos.
“ É uma menina” - disse-lhe numa voz cansada, feliz. O Czar afastou então a manta que cobria a criança e aflorou-lhe aos lábios um sorriso. Era bela!
“ Chama-lhe Bella, Alexei. Chama-lhe Bella”- pediu-lhe Natasha, antes de adormecer, derrotada pela perda de algo seu, pelo ganho de algo também seu. Alexei tomou Bella nos braços sem nunca deixar de sentir aquela essência de morte, de infortúnio. Mas estava feliz, desafiava a tormenta a derrotá-lo! Mas ele não sabia (não podia saber) que, um mês depois, iria ser derrotado e a sua alma apunhalada e enterrada juntamente com o cadáver frio da sua esposa, enquanto o seu corpo permaneceria sentado no trono, a governar. Foi nesse mesmo dia que, tomado de um ciúme louco, impôs a lei da clausura à felicidade que proibia todas as formas de alegria, cor e música. A partir desse dia, Minsk seria uma cidade difusa, cinzenta e morta, tal como a sua Imperatriz.

Bella corria, fugia da sua aia Irina que lhe vinha infligir (como sempre) duas horas de serviço religioso. Estava cansada disso e por isso fugia. Ouvia os seus passos ecoarem solitários nas galerias pardacentas do palácio, apressados, perdidos, e acabou por entrar na biblioteca. Parou para respirar. Ali Irina não a encontraria. E respirou, apoiando as mãos nos joelhos. A pele alva polvilhada de sardas estava agora tingida de um rosa tímido e o cabelo, em desalinho, formava uma auréola ruiva em redor do seu rosto. Ali, Irina não entrava, pensou. A biblioteca era um local sinistro, envolto em faúlhas de mistério e lendas proibidas.
Estava já mergulhada num mundo quimérico, quando ouviu passos (vazios) e, sobressaltada, pousou o livro. Estava alguém ali, estava alguém na biblioteca e esse alguém estava a vir na sua direcção. Esperou em suspenso até que, virando a esquina, esse alguém se revelou. Vestia cinzento, como todos, e vinha de cabeça baixa.
“ É só um funcionário” pensou, respirando fundo. Foi então que o funcionário ergueu a cabeça e cravou os olhos nos dela, sorrindo.
Eram os olhos mais bonitos que Bella tinha visto! Castanhos, com pinceladas de ouro e brilho, olhos que sorriam, olhos que transbordavam luz e calor: vida. Nunca tinha visto uns olhos assim tão humanos, tão quentes (pareciam que queimavam), estava habituada a olhos empertigados, ausentes, nostálgicos, frios. E o sorriso era lindo, também, limpo, sincero como nunca tinha visto. Era contagiante e deu por si a sorrir tolamente.
“ Olá…” - disse-lhe ele - “ estás perdida?”
“ N…não” - conseguiu articular. Aclarou a voz - “ vim só consultar um livro”
“ Sabes ler?” - inquiriu espantado. Mas rapidamente o seu olhar se desviou para o monograma que estava gravado no vestido cinzento de Bella “ Oh! Sua alteza, não tinha percebido, desculpai!” e fazendo uma leve vénia levou a mão da princesa aos lábios.
“ Não faz mal. Nunca te tinha visto, quem és?”. O rapaz olhou para cima, endireitando-se, no entanto, a sua mão acariciou a dela antes de a largar, ao de leve. “ Guiseppe de Génova. Ao seu serviço, senhora”.
Não sabia bem porquê, mas Bella simpatizou imediatamente com o rapaz, talvez por causa do brilho do seu olhar, talvez pela sua voz doce.
E a partir desse dia, desse encontro fortuito, encontravam-se sempre os dois na biblioteca e Guiseppe levantava-lhe do coração o véu soturno que o oprimia e falava-lhe do mundo para lá das fronteiras de Minsk. Sem se darem conta, como o rio que segue o seu curso natural, foram entregando um ao outro a amizade e mais tarde o amor.

Foi num dia de trovoada que o Czar a chamou. A sala do trono estava afogada em desespero e angústia, com um rei de pedra erguendo-se no meio dela, contemplando a única réstia fugaz de cor do palácio, um quadro da sua tão amada esposa que agora, um pútrido cadáver gélido, o arrastava para o abismo dos loucos. Fazia dezassete anos desde a morte da Imperatriz e era por isso que tinha sido chamada, era por isso que falava com seu pai.
“ Pai” - perguntou-lhe - “Porque é que tudo tem de ser tão triste?”
O Czar virou-se, furioso, e a sua postura impávida tinha desaparecido - “ Isto é assim porque tem de ser, isto é assim porque eu quero e tu não és ninguém, não és nada, para questionares! Agora sai!”
E ela saiu, com as lágrimas pugnando contra as pestanas, desejosas de cair.
Motivados por isto, Bella e Guiseppe, uma semana de pois, saíram para as ruas de Minsk com um bandolim e dançando, rindo e cantando (de mãos dadas) com o espírito tolo de quem está apaixonado, dirigiram-se para o centro da cidade.
Das estreitas veias por onde passavam, assomavam caras pálidas à janela, rostos surpreendidos, assustados, felizes. Mas cedo esse gáudio foi ensombrado pelos soldados que, como bestas cegas, perseguiram os dois amantes até os encurralarem na praça pública. À princesa, com fria indiferença, agarraram-lhe o braço, mas a Guiseppe rasgaram-lhe a camisa quando o apanharam, socando sucessivamente, num fluxo louco, o rosto e o torso do rapaz, abrindo-lhe (a navalha) caminhos de dor no corpo, rios rúbeos de violência e no fim (já saciados) levaram-no para a forca. Passaram-lhe a corda pelo pescoço viscoso de sangue e, sem lhe darem tempo, abriram o alçapão sob o seu corpo.
Os segundos que se seguiram, aos olhos de Bella, demoraram séculos. O peso morto, que de repente se viu sem chão, a cair no nada; as vestes cinzentas, esquecidas a planarem à volta do corpo violado. Um esticão repentino, a corda tesa, dura, e o som horripilante da coluna a quebrar-se como quem quebra um copo, assim, facilmente. No fim, do rosto escorrido em sangue, o olhar vítreo, apagado, fixado, um olhar de medo e de espanto.
Correu para junto dele. Correu para junto dele fugindo dos soldados que a aprisionavam. Sem pensar, guiada por tudo aquilo que tinha escondido no seu coração, Bella passou uma corda áspera à volta do pescoço e saltou para o vazio.
O mesmo som. O mesmo arrepio. A mesma morte.
E assim acabaram dois rebentos livres, mortos na praça pública, ele de vermelho pintado e ela de cinzento vestida com uma única rosa rubra adormecida nos cabelos. Um foco de cor e de dor para o mundo ver. Dois seres tenros, prematuramente ceifados, tão próximos um do outro (quase que se tocam, quando o vento os leva numa dança nupcial), mas ao mesmo tempo tão longe. Morreram por aquilo em que acreditavam.
Ana Cristina Graça, 10E
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IV
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Máxima Urgência
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Sentado na cadeira de rodas observava as sombras que via. Para ele o Mundo tinha-se tornado nisso: um conjunto de sombras e sons.
Rui tinha dezasseis anos, nasceu em Évora e lá viveu, até lhe ter sido diagnosticada uma doença degenerativa que lhe afectava o sistema nervoso. Todos os dias, pensava no dia em que veio a Lisboa pela primeira vez. Foi, talvez, o dia mais importante da sua vida ou, pelo menos, o mais decisivo. Nessa altura, tinha doze anos e tinha vindo a Lisboa para fazer uns exames que o Dr. Saraiva tinha pedido. Lembrava-se que tinha ficado confuso. Ouvia as senhoras de Évora a queixarem-se que demorava muito tempo a receber os resultados dos exames, mas Rui tinha recebido os resultados dos seus, poucas horas depois. Mal receberam os resultados, os pais quiseram regressar imediatamente a Évora, apesar da vontade do filho em querer ficar mais tempo para visitar a capital. Nesse mesmo dia, o Dr. Saraiva anunciou à família que Rui teria de voltar rapidamente a Lisboa para começar com tratamentos. Sofria de uma doença incurável, cujos sintomas poderiam ser minimizados com medicação. Agora percebia a pressa com que foram feitos os tratamentos, pois, a partir desse dia, tudo o que fazia, todos os exames e tratamentos tinham uma etiquetazinha vermelha que dizia “Máxima Urgência”.
Dias depois voltou para Lisboa, foi viver para casa de uma tia, D. Ana, dona de um hotel, numa movimentada rua da cidade. Apesar de todos os tratamentos, poucos meses depois, começou a deixar de sentir algumas partes do corpo. Foi brutalmente atirado para uma cadeira de rodas e, mais tarde, perdeu parte da visão, passando a ver sombras. Dois anos depois do diagnóstico, parou com os tratamentos.
A partir daí nunca mais voltou a sair do hotel da tia. Ao longo dos anos, as visitas de amigos e familiares foram-se tornando cada vez mais espaçadas até que deixaram de existir. Até os pais raramente o vinham visitar. Da varanda do seu quarto sabia o que se passava no Mundo e relembrava como era a sensação de se sentir vivo.
Acordava cedo e, com a ajuda da tia, sentava-se na cadeira de rodas e ia até à varanda. Ficava lá sentado até altas horas da madrugada. Ao longo do dia, ouvia o formigueiro de pessoas que passava na rua, fechava os olhos, inclinava a cara para receber o calor do Sol e ouvia… Ouvia a campainha da loja de fotografia, cada vez que entrava um cliente; ouvia os risos dos grupos de jovens sentados na esplanada do café; ouvia o barulho das árvores e dos pássaros; ouvia as pessoas a correrem de um lado para o outro, apressadas nas suas vidas citadinas. E aqueles momentos de calma em que ouvia faziam-no sentir um pouco mais próximo da vida que tinha em Évora, uma vida calma e em paz…
Rui odiava Lisboa. Odiava aquela pressa, a obsessão pelo tempo (ou pela falta dele); odiava etiquetazinhas vermelhas coladas nos cantos superiores direitos de processos e de documentos; odiava o modo como as pessoas tratavam os assuntos...todos com “Máxima Urgência”!
Para Rui a “Máxima Urgência” só destruía a vida das pessoas mais rápido. Se não fosse a “Máxima Urgência”, os exames demorariam mais tempo a chegar. Se não fosse a “Máxima Urgência”, ele teria vivido mais tempo em Évora. Se não fosse a “Máxima Urgência”, teria passado mais tempo com os seus pais. Se não fosse a “Máxima Urgência” teria conhecido Lisboa e o Mundo. A pressa do Mundo roubou-lhe tempo, roubou-lhe vida.
A ânsia com que as pessoas viviam a vida, a rapidez com que as pessoas passavam umas pelas outras na rua, sem prestarem atenção aos que as rodeiam, revoltavam -no.
Aquelas pessoas tinham tudo. Podiam ver, podiam movimentar-se, a maior parte delas tinha família e amigos que ainda se preocupavam com elas, mas viviam a vida a correr sem repararem no mundo em seu redor. Ele que, ainda jovem, tinha perdido parte da visão e não se conseguia mover, mesmo com essas dificuldades, ouvia e aproveitava o mundo, o máximo possível.
Aproveitava o mundo como podia: de manhã aproveitava o cheiro de pão quente, à hora de ponta aproveitava os risos apressados das crianças a correrem para a escola, no Inverno aproveitava o vento frio que lhe arrefecia o corpo… Aproveitava cada pedacinho de mundo como podia, porque o seu mundo tinha-lhe sido roubado, e tudo por culpa das etiquetazinhas vermelhas de “Máxima Urgência”.
Detestava quando a tia o obrigava a vir mais cedo para dentro, no Inverno, porque achava que o frio lhe fazia mal, pois, para Rui, a melhor coisa que ele podia aproveitar era a madrugada. A madrugada trazia-lhe recordações inesquecíveis de Évora, de quando se levantava cedo (ou seria deitar tarde?) para ir jogar futebol com os colegas da escola. Nessa altura, não havia pressa, nem “Máxima Urgência”, as coisas demoravam o tempo que fosse preciso e ninguém se preocupava com isso. Demorasse o tempo que demorasse. Não havia obsessões com o tempo, ou com etiquetas inúteis, a vida demorava o tempo que a própria vida decidisse, e não o tempo que o Homem decidia que a vida tinha de demorar.
Um dia, o rapaz que sonhava com Évora e odiava o tempo e Lisboa deixou de aparecer na varanda. Ao fim de quatro anos de exames e tratamentos, todos com “Máxima Urgência”, a doença levou a melhor, e Rui morreu.
Mas a agitada rua de Lisboa nem notou o seu desaparecimento. Todos estavam demasiado ocupados nas suas vidas citadinas para reparar que, todos os dias, durante quatro anos, um rapaz ficava a sentir a rua da sua varanda, e muito mais ocupados estavam para reparar que esse rapaz nunca mais aparecera à janela.
Apesar de ninguém reparar no rapaz ou na rua, a rua continuava ali com as suas qualidades, à espera que alguém a descobrisse, como Rui a descobriu, porque, apesar de estar quase submersa pela cidade e pelo seu estilo de vida agitado e turbulento, a rua pode ser um sítio calmo e pacífico.

Rita calisto, 10A
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V
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O velho silêncio
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Aquela rua era provavelmente a mais movimentada, mas o que a enchia não eram os velhos cambaleantes, nem as velhas caprichosas, era antes aquele eco de silêncio que se difundia e passava incólume pelas casas. Apareceu de repente à minha frente Joaquim Albernaz da padaria, dois ou três dias depois da tragédia, contando tudo o que se tinha passado na minha ausência.
– Foi o Faustino que fez luz! Que aquele velho nunca foi muito de grandes conversas aqui com a gente da padaria, isso já eu sabia. Agora que o velho era mágico… Ele até podia ter dito, que aposto que muita gente pagava para assistir àquelas maluquices. Este velho vai morrer sozinho, que não há maneira de conversar com ele, menina. Então, depois da morte da mulher é que piorou. Nem o dom que Deus lhe deu soube partilhar com a gente.
Era uma das poucas raparigas daquela rua e sempre achei os velhos seres enigmáticos por fazerem segredo das coisas mais insignificantes, talvez pelo receio de que os liberte daquela solidão a que, a pouco e pouco, se vão habituando. O senhor Albernaz foi trabalhar e eu continuei então pela rua abaixo. Ao longe, lá estava o velho Faustino, ali, quieto, enquanto o silêncio se sentava à sua frente. Parecia que a dor o consumia e os segredos o sufocavam ao longo dos dias que ali permanecia, sem nunca conversar com ninguém.
No dia seguinte, já o sol tinha nascido, quando olhei através da janela. Lá estava o velho, outra vez, imóvel e tranquilo. Desci as escadas e arrisquei tentar falar com ele, na esperança de que, sem querer, algum segredo fosse revelado naquele momento. Da sua boca saíam palavras doces, mas o tom de voz denunciava a amargura que sentia e que o remetia para a sua solidão. Perguntei-lhe então se sabia alguma coisa sobre uma luz que tinha aparecido há alguns dias atrás.
Faustino apenas afirmou:
– Desde que a Laurentina morreu que já não trovoava nesta cidade… E ela sempre dizia que a trovoada é ira dos mortos.
Com medo que mais alguma palavra lhe escoasse pela boca, o velho fechou-se, de novo, no seu silêncio. De súbito, o arco--íris revelou-se no horizonte e uma lágrima brotou da sua face enrugada. Neste momento, os seus olhos falavam. Faustino parecia perder-se no amor que ainda sentia pela vida e, vendo a amargura a arder, afastou-se e caminhou, caminhou numa ida sem fim.

Maria Santos, 10A
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VI...
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Parada
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- Senhoras e senhores, convosco, o incrível, o inigualável, o soberano Bernard.
Cigarro na boca, sentada ao espelho. Cigarro não já na boca, no cinzeiro. A mão na gaveta, à procura do seu bigode. Uns segundos, uns minutos.
- Senhoras e senhores, o fantástico domador de bestas.
Uma ponta de pincel, um risco na pestana direita, um retoque nas bochechas.
- Madame Sullimann, minha bela, estará surda? Chamei Bernard, o magnífico… Mas vejo que está pronta, ou deveria dizer pronto?
Deu um sorriso escondido no chapéu que tinha na cabeça. Levantou-se, cigarro na boca, cigarro não já na boca, outro mais no cinzeiro. Ouviu.
- Senhoras e senhores, Bernard, o soberbo.
Abriu a cortina e atirou a mão para a sua pose. Olhou em volta, os focos impediam-na de ver a plateia, mas conseguia sentir-lhe o cheiro a êxtase, os sons de espanto ao abrir da jaula. Um som de temor, um atenuar da lucidez ao abrir da jaula. As cortinas tornaram-se negras, os palhaços borraram os sorrisos. A Fera, quieta, num jogo de paciência, com um riso abafado. A Fera numa luxúria e esplendor que levam um homem à loucura.
Um movimento após outro, uma resposta atrás de outra. Os olhares, silenciosos, provocadores. O crepúsculo já no horizonte e a plateia num alvoroço. Os olhos dele a desvanecerem, os da Fera, incansáveis.
(Um brinquedo no palco, uma marioneta quase destruída, então!)
Uns segundos, uns minutos e o chicote no chão, a fronteira a ruir. Um sopro gélido que só se sente no último susto, no último momento. A Fera, permanecia altiva, confiante, desejante de o ver rebaixar-se; e os olhos dele não podiam mais desviar-se daquele poço de loucura. Assim, caiu como quem flutua na água, à espera de um salvamento apertado, arriscado, submetendo-se a todo o seu poder. E os palhaços invadiram o palco, e, com eles, as bailarinas, trapezistas, contorcionistas, numa algaraviada. O público gritava e dançava com a parada. Deleitava-se com o espectáculo e contorcia-se de prazer. E Bernard deitado, e a Fera, de olhos encantadores, oferecia a face aos seus lábios.

Ana Luísa Gomes, 10E
...
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VI

VII
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Uma retrospectiva do sentido da vida
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-"Sabes que as luzes acabarão por te levar a casa!"
-"Que dizes, irmão?"
-"Nada."
-"Nunca dizes nada."
-"Não tenho tempo para o fazer."
-"Eu arranjo-te."
-"Não pode ser, estou ocupado."
-"A fazer o quê, irmão?"
-"Observando as pessoas. Procurando um sentido para a vida."
-"Oh meu velho amigo, não te preocupes com isso... Eu ofereço-te um pouco do meu, queres?"
-"Do teu quê? Do teu sentido de vida? Não quero, aposto que é cá um cliché..."
-"Que dizes?"
-"Nada."
-"Ai não, desta vez disseste alguma coisa!"
Caminham clandestinos do tempo, passeiam-se aqueles que procuram algo para fazer e não percebem que a beleza daquele lugar é suspender os problemas do quotidiano. Onde tudo resplandece no infinito.
-"Olha-me aqueles dois?!"
-"Que tem, irmão?"
-"Esses não andam à procura do sentido da vida de certeza..."
-"Se calhar já o encontraram."
-"Porque é que eu não encontro o meu? Já estive mais perto, sabes... Estive tão perto, que pensei até tê-lo encontrado."
-"O que aconteceu irmão?"
-"Fugiu."
-"Para onde?"
-"Não sei!"
-"Por que fugiu?"
-"Deixei-o escapar."
-"Porquê, irmão? Era algum pássaro?"
-"Não, meu pateta. Era platónico."
-"E por isso fugiu?"
-"Não, fugiu, porque eu não me entreguei por completo. Porque o ignorei e assumi como garantido."
Outros vão passando. Garantindo a sua presença num jardim que acolhe quem precisa de um pouco de paz e harmonia. De luz na sua vida. De esperança.
-"E aqueles, irmão?"
-"Quais?"
-"Os que se abraçam e caminham de mãos dadas."
-"O que é que tem?"
-"O que é que achas, irmão?"
-"Não sei, diz-me tu."
-"Eu cá acho que descobriram a alegria do mundo. "O sabor das amoras."
-"E o que é isso?"
-"O que é isso, irmão?"
-"Sim, o que significa?"
-"Para mim?"
-"Pode ser..."
-"Para mim, irmão, transmite-me o sentido da vida."
Depois desse dia, escreveste-me uma carta, irmão. Tinhas encontrado o sentido da vida. Tinhas finalmente encontrado a alegria do mundo, "o sabor das amoras" que há tanto aguardavas por saborear. Não a li. Ainda.
Faz hoje um ano que me fugiste, irmão. Um ano que deixámos de ensinar a nossa perspectiva de vida um ao outro. Que deixámos de nos abraçar, de caminhar de mãos dadas, em espírito que fosse. Ainda o faço, sabes?"
"Meu amigo, descobri a alegria do mundo. E esteve sempre tão perto.
Obrigada por seres o sentido da minha vida."
Obrigada, irmão, por me teres demonstrado o bem que as pessoas fazem. A paz que elas transmitem. A ajuda que prestam. Obrigada.
As luzes acabaram por me guiar a casa, irmão.
Ana Catarina Monteiro, 10E

quarta-feira, 15 de abril de 2009

"Frei Luís de Sousa" nos dias de hoje



Em Oficina de Escrita, os alunos adaptaram textos do domínio transaccional e funcional, nomeadamente a reclamação, ao contexto e à acção da obra de Almeida Garrett. Pedia-se sobretudo criatividade. Eis alguns exemplos:
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1.
............................................Manuel de Sousa Coutinho
............................................R. Luís de Camões
............................................2003-743 Almada

28 de Agosto de 1599

Exmº Sr. Dr. Anastácio Barbosa
Director Geral da Companhia de Seguros Paz De Alma
Companhia de Seguros Paz De Alma
1990-503 Lisboa


Venho por este meio proceder ao relato de uma situação profundamente desagradável ocorrida no meu Palácio, em Almada. Neste sentido, procederei de forma sucinta à descrição dos factos:

1) No dia 28 de Julho deste ano, decorreu um terrível incêndio na minha residência, tornando-a inabitável para mim e para a minha família;
2) Após este facto, desloquei-me à vossa companhia, no mesmo dia, no sentido de dar ocorrência do sucedido. O vosso funcionário Anacleto Lopes da Silva prometeu-me enviar um avaliador para constatar os danos causados pelo incêndio, o mais rápido possível;
3) Desde esta data (28/07/1599) não compareceu ninguém para a supracitada avaliação, nem voltei a ser contactado pela vossa companhia para justificação de tal facto;
4) Ontem, dia 28 de Agosto, um mês depois do ocorrido, tomei a iniciativa de me voltar a deslocar a Lisboa para assegurar os vossos serviços, uma vez que achei estranho não me terem voltado a contactar;
5) Já na companhia, fui atendido pelo funcionário Armindo Meireles que me alertou para o facto de não existir um registo da ocorrência.
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Face à exposição dos factos supracitados, importa proceder à seguinte análise:
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1) Considero o vosso comportamento e procedimento utilizados de uma inqualificável incompetência e desrespeito pelo vosso leal cliente;
2) O procedimento correcto da vossa parte seria terem enviado de imediato um avaliador para que se procedesse à realização das burocracias necessárias para a indemnização, além de que deveriam ter disponibilizado alojamento temporário para mim e para a minha família;
3) Os danos causados pelo vosso procedimento incorrecto são significativos e profundamente penalizantes:
a) Despesas causadas pela deslocação à Companhia, em Lisboa;
b) Perda de valores incalculáveis (jóias de família, obras de arte, vasta biblioteca e todas as posses de um passado na Ordem de Malta);
c) Profundo transtorno pessoal e monetário em termos de alojamento, numa casa antiga, há muito não habitada e com uma renda consideravelmente elevada;

Dada a incorrecção verificada e a profunda falta de respeito pelos interesses envolvidos, exijo uma indemnização não só pelo incêndio que devastou o meu lar, mas também pelos danos referidos em 3).

Espero que para a segurança e a justiça em Portugal, a vossa companhia, como uma das mais prestigiadas no país, melhore os serviços que prestam aos cidadãos.
Sem outro assunto de momento, subscrevo-me com elevada consideração,
.....................................................................................................................Manuel de Sousa Coutinho
Sara Guedes e Maria Gaspar
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2.
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.......................................................Telmo Pais
.......................................................Casa da Doroteia
.......................................................1934-503 Almada
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Exmº Sr. Romeiro (D. João de Portugal)
Cavaleiro da batalha de Alcácer Quibir
5907-541 Alcácer Quibir
África
Email: jojoport@alcacerquibir.com
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Venho por este meio expor uma situação, profundamente desagradável, da qual fui vítima, ocorrida no Acto III, cena V. Deste modo, procederei de forma sucinta à descrição pormenorizada dos factos:
1) No dia 25 de Novembro deste mesmo ano, fui surpreendido por um vulto, que se identificou como “Ninguém”;
2) Quando finalmente demonstrou a sua verdadeira identidade, como sendo o meu amo, apesar de surpreso e feliz, não consegui esconder a minha perplexidade perante o acontecido;
3) Na passada segunda feira, dia 2 de Dezembro, decidi visitá-lo para demonstrar a minha insatisfação perante o sucedido;
4) Nesta visita, apesar da vossa afectividade no princípio da nossa conversa, este sentimento foi-se convertendo num rancor e desejo de vingança sob a família Coutinho.
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Face à exposição dos factos apresentados:
1) Considero o vosso comportamento e procedimento de um desrespeito inqualificável pela minha pessoa e por D. Madalena, uma vez que podia ter recorrido aos meios de comunicação existentes para alertar a sua chegada;
2) Deveria ter tido mais consideração pela moral da família Coutinho, principalmente por D. Maria, uma vez que se encontrava débil;
3) Não deveria culpar D. Madalena pelo seu segundo casamento, pois ela esperou muito tempo pela sua chegada e nunca o julgou morto;
4) Já que não deu sinal de vida, podia ao menos ter a decência de nos mandar recursos monetários para saldar as várias dívidas inerentes à manutenção da sua casa.
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Os danos causados pelo vosso procedimento são significativos e profundamente penalizantes:
1) Morte de Maria;
2) O meu despedimento;
3) Morte espiritual de D. Madalena e Manuel de Sousa Coutinho;
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Tendo em conta o sucedido, gostava de deixar claro que tomarei as seguintes atitudes:
1) Envio de uma queixa detalhada e devidamente sustentada para a Associação de Desaparecidos de Almada;
2) Envio de uma queixa detalhada e devidamente sustentada ao Prior de Benfica;
3) Envio de uma queixa detalhada e devidamente sustentada à Segurança social;
4) Divulgação deste assunto no Jornal Medieval;
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Agradeço desde já a atenção disponibilizada. Com elevada consideração,
..................................................................................................................Telmo Pais
Ana Rodrigues e Cláudia Chaves
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3.
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............................................Madalena de Vilhena
............................................Rua dos Agouros, 13
............................................1013 – 130 Almada
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Exmº Sr Constantino Aldegundes
Director da Polícia do Reino
Polícia do Reino
Rua da Tapada, 1
1990 – 503 Lisboa
Reino de Portugal
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Venho por este meio proceder ao relato de uma situação profundamente lamentável e irreparável, que derivou da incompetência dos vossos serviços. Neste sentido, procederei de forma sucinta à descrição dos factos:
1) No dia 4 de Agosto de 1578 travou-se a Batalha de Alcácer Quibir, no continente africano, na qual o meu primeiro esposo, D. João de Portugal, participou.
2) Nessa Batalha, D. João de Portugal foi dado como desaparecido.
3) Assim, recorri aos serviços de V. Ex.ª, com o intuito de o encontrar.
4) Foi-me então dada a certeza de que iriam fazer o necessário para o encontrar.
5) Ao fim de sete anos (ano de 1585), V. Ex.ª mandou suspender as buscas, ordenando que os seus colaboradores regressassem ao Reino, apesar de não terem cumprido a sua missão.
6) Contrapus a vossa decisão, contudo, não obtive resposta por parte de V. Ex.ª.
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Face à exposição dos factos supracitados, importa proceder à seguinte análise:
1) Considero a vossa atitude e procedimentos utilizados de uma inqualificável incompetência e desrespeito pela minha pessoa.
2) Os danos causados pelo vosso procedimento incorrecto revelaram-se significativos e profundamente trágicos:
a) Após os sete anos de espera e consequente mentalização da possibilidade do falecimento de D. João de Portugal, decidi refazer a minha vida e casei-me com o Exm. Manuel de Sousa Coutinho.
b) Em 1586, tivemos a nossa primeira filha.
c) No dia 4 de Agosto de 1599, ano que corre, apareceu na minha residência D. João de Portugal.
d) Após este episódio, a nossa vida ficou arruinada e tanto eu como Manuel de Sousa Coutinho nos vimos na obrigação da tomada do hábito.
Assim, concluo que tudo isto se deveu à falta de empenho e de competência de V. Ex.ª.
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Espero que, para o bem do Reino, V. Ex.ª e os seus assessores melhorem a qualidade dos serviços que prestam.
Sem outro assunto de momento, subscrevo-me com elevada consideração,
................................................................................. Madalena de Vilhena (Setembro de 1599)
Marcelo Guedes e Teresa Andrade
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4.
...
.....................................................D. João de Portugal
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....................................................Lisboa
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Lisboa 13 de Fevereiro de 1585

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Ex. Mo Senhor Arsénio Mattos
Director geral dos serviços administrativos do reino de Portugal
Lisboa
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Venho por este meio proceder ao relato do que considero ser uma grave falha dos serviços administrativos do reino, a que V. Ex. preside e coordena. Neste sentido procederei de forma breve, mas rigorosa à exposição dos factos:
1. No dia 4 de Agosto do ano de 1578, com a Graça de Deus e por amor à pátria, combati ao lado d’El Rei D. Sebastião na batalha de Alcácer Quibir;
2. Nesta baralha, fui feito prisioneiro, tendo permanecido em cativeiro durante vinte anos;
3. No final deste período, constatei para minha surpresa que tinha sido dado como morto nos serviços administrativos que V. Ex. preside e coordena.
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Face ao exposto importa proceder à seguinte análise:
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1. Considero a vossa actuação e todos os procedimentos utilizados insuficientes e pouco rigorosos;
2. O procedimento correcto da vossa parte seria averiguar com todos os meios ao alcance de V. Ex. a existência de um corpo, ou a prova da morte através de relatos de testemunhas;
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Dada a incorrecção cometida e profunda falta de respeito, informo, para os devidos efeitos, que procederei da seguinte forma
a) Envio de queixa detalhada e devidamente fundamentada para o Rei;
b) Envio de queixa detalhada e fundamentada para as mais altas instâncias da igreja cristã / católica de Roma;
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Espero que, para o bem da nação, os serviços prestados por V. Exas. melhorem de forma significativa.
Não tendo outro assunto a tratar, no memento, subscrevo-me em cordiais saudações:
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......................................................................................................D. João de Portugal

António Duarte e Francisco Pereira

domingo, 12 de abril de 2009

ContAR(TE) I - 10ºAno

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Recebi alguns contos produzidos a partir de obras de Juan Muñoz, após a exposição no Museu de Serralves - JUAN MUÑOZ, UMA RETROSPECTIVA - que os alunos de 10º ano visitaram. O desafio foi lançado a partir do mote - Muñoz, "um contador de histórias" - e os alunos contaram, com palavras, histórias que o artista contou com as suas esculturas.
Dado que se tratam de textos mais longos, publicá-los-ei gradualmente, dois a dois. Aqui ficam os primeiros:
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I
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Um Ventríloquo em busca de companhia
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Mais um dia de montagem de obras-primas no Museu de Serralves, no Porto. Desta vez, Juan Moñoz. Uma noite típica de Verão faz o sol desvanecer, as estrelas aparecer, juntamente com as luzes da cidade e alguma neblina que começa a pairar nos jardins. Chega a hora do segurança do Museu dar a sua volta, fazendo-se acompanhar de uma grande lanterna que lhe ilumina o caminho, apontando-a para todos aqueles objectos sem cor, sem expressão, mas todos com forma humana. Todos lhe pareciam imóveis, sem vida, de olhos “cosidos”, no entanto, o senhor sentia-se observado. Todas as noites, tentava fazer a sua ronda com um passo precipitado até à porta de saída, pois aquelas esculturas intimidavam-no bastante, principalmente quando o Museu se encontrava sem ninguém.
Bem, de facto, o vigilante tinha razão para se sentir apavorado junto das obras de arte, uma vez que, quando todos saíam e as luzes do museu se apagavam, os pequenos homenzinhos de Juan Muñoz esticavam as pernas, terminavam com os gestos suspensos, desciam dos pedestais, tiravam as máscaras, pousavam os tambores e tomavam conta das salas desertas. Creio eu que se sentavam em círculos para jogarem às cartas, corriam pelos corredores, faziam equilibrismo nos cabos que sustentam as duas figuras suspensas e jogavam às escondidas. Alguns chinesinhos cinzentos de Many Times continuavam juntos em pequenos grupos, provavelmente conspirando sobre graves revoluções, e o anão, com ar de boneco de ventríloquo, saltava da prateleira de Wasteland e ficava ensaiando minúsculos passos de dança no pavimento geométrico, esperando que Muñoz lhe oferecesse o conforto de um par, pois era ele quem mais se sentia só. Diante das visitas sorria, demonstrava o seu ar maroto, chegando até a parecer que estava a fazer troça dos visitantes, uma vez que, devido ao pavimento da sala onde este se encontrava, era criada uma ilusão de óptica que fazia com que a escultura não aumentasse à medida que dela se aproximavam. Durante o dia, exibia a sua faceta de escultura feliz, no entanto, à noite, era excluído das brincadeiras e tentava, por isso, divertir-se sozinho a imaginar o dia em que Juan Muñoz criaria uma companheira para si, também com aspecto de boneca de ventríloquo, pois, na sua opinião, na estante em que se encontrava, ainda cabia mais uma escultura.
Numa dessas noites, o ventríloquo tentou, mais uma vez, arranjar companhia para uma dança, ou para uma brincadeira, mas estavam todos demasiado ocupados para lhe prestarem atençao. Todos tinham já os seus amigos escolhidos e ninguém estava interessado em ter mais uma companhia. Isto deixou, mais uma vez, o Boneco muito melancólico e abandonado, e, por isso, durante a noite, tomou uma decisão: na noite seguinte, iria fugir do Museu de Serralves em busca do seu criador, Juan Muñoz.
E assim foi. Após a saída do vigilante, o ventríloquo pôs os pés ao caminho, com um destino desconhecido, uma vez que não sabia do paradeiro do seu criador. A última vez que o viu tinha sido em 1987, data em que foi criado Wasteland, obra de arte da qual ele fazia parte.
Após vários e longos dias a andar a pé ou apanhando boleia, sorrateiramente, em carros, carroças, aviões e até bicicletas, chegou a Ibiza, pois tinha ouvido os seus colegas da sala ao lado comentarem qualquer coisa sobre Juan Muñoz ter ido lá passar umas férias. Cada vez estava mais perto de encontrar o seu criador, e por isso aumentava também a excitação de lhe conseguir pedir uma companhia para si...
Quando o ventríloquo passeava pelas ruas de Santa Eulária des Riu, durante uma noite escura, um jornal já velho e gasto pelos sapatinhados das pessoas voou na sua direcção e o boneco leu a notícia da primeira página: “Juan Muñoz morre com 48 anos, de ataque cardíaco, na sua casa de Verão em Santa Eulária”. Após esta breve leitura, uma lágrima escorreu pelo seu rosto (sim, as esculturas também choram), caindo sobre a folha de jornal. A sua oportunidade de ter alguém para lhe fazer companhia tinha ido por água abaixo... mas não foi só por isso que o Boneco estava triste, ele não era assim tão egocêntrico. Ele chorou, pois o seu pai, aquele que lhe dera vida, acabara de falecer. O seu mundo parecia ter desabado, tudo à sua volta parecia agora estagnado.
Mas logo pensou que os seus colegas ainda não deveriam saber desta novidade e, muito triste, tentou regressar a Portugal. Demorou vários dias... Desta vez, o caminho de volta ao Museu parecia-lhe mais comprido e mais cansativo, pois agora transportava consigo a angústia de ter perdido para sempre o seu criador.
Ao chegar a Serralves, os seus amigos abraçaram-no e beijaram-no, pois tinham sentido a falta dele. Embora ele nunca estivesse com ninguém, aquele museu sem ele perdia alguma da sua vida, perdia algum encanto, perdia alguma da magia...E, por isso, todos, muito preocupados, perguntavam, em uníssono, por onde tinha andado aquele tempo todo. O Boneco explicou-lhes a razão da sua ausência, sem avisar ninguém, e contou-lhes o que tinha descoberto durante essa longa viagem...
Dizem que a principal característica das esculturas de Juan Muñoz é a maior parte delas não ter uma expressão facial, mas, naquele momento, todas as faces pálidas se tornaram frias e carregadas de tristeza pela morte do “pai”... todas ganharam naquele momento a mesma expressão de melancolia. Todos se abraçaram e se apoiaram mutuamente.
Daí em diante, à noite, depois da visita do vigilante, juntam-se todos, sem excluírem ninguém, e, assim, o ventríloquo nunca mais pensou em arranjar uma companheira de estante.
Ana Margarida Ferreira Rodrigues, 10ºD
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II
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Viragem
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Pousei o primeiro pé, respirei pela primeira vez aquele ar, quente, pesado, meio empoeirado, e vi à minha volta as imagens dos postais e dos livros do turismo. Era igual, parecia um cenário, pronto para a representação e para acolher as palmas no final, um cenário do qual eu fazia parte.
Estava em Herat, no longínquo Afeganistão.
Percorri as ruas da cidade, eram grandes as avenidas e não havia contraste entre as cores do passeio e da estrada, era tudo feito de terra, dum pó cinzento, sombrio e sujo.
Á medida que continuava, crescia dentro de mim um desconforto, uma saudade de casa, uma lágrima no canto do olho, que disfarçava com um sorriso de curiosidade, e me roía por dentro. Cada vez mais me sentia um estranho, um turista de saco às costas e máquina na mão, à espera dum momento perfeito para guardar.
Continuei o caminho até entrar numa espécie de mercado ou de bazar, um túnel coberto por um tecto em arco, pintado por uma cor sem nome e por um laranja já envelhecido, que fazia um padrão. Para o iluminar, havia candeeiros, suspensos por uma só corda, que nos passavam tangentes à cabeça e produziam uma luz ténue e amolecida. Os vendedores de turbantes balbuciavam palavras estranhas numa voz grave e forte que me fazia estremecer e trocar os passos, que pareciam querer parar, ficar imóveis, não queriam ultrapassar a barreira do diferente.
Os meus olhos prendiam-se entre as mulheres cobertas por trapos escuros, normalmente pretos ou cinzentos carregados, cores de noite. Eram vultos, figuras fantasmagóricas que circulavam sem cara, sem identidade. Já me ia esquecer dos cânticos, gritos ofegantes, desesperados, que ressoavam em toda a cidade, indo até ao mais íntimo recanto e que serviam de aviso para a hora de culto na mesquita.
O sol começava a esconder-se e a cidade ia-se enfeitando de sombras, que me atacavam. Eram dirigidas a mim, eu sei que eram.
Acelerei o passo para deixar de ver o que me rodeava, para que todo aquele espaço passasse por mim como um filme em que eu não era o protagonista.
De repente, choquei com um velho, de barbas grisalhas, mais esbranquiçadas, com uma pele morena marcada pelas rugas que se acentuavam principalmente no contorno dos olhos e no limiar dos lábios, marcas de riso com certeza, que ainda agora não escondia
Parei, fiquei imóvel, não tive coragem de desenhar um “ desculpe” ou um “está tudo bem” - e mesmo que a tivesse não o saberia dizer. O homem percebeu, notou logo que eu era estrangeiro, e não hesitou em lançar um sorriso acompanhado por um quase fechar dos olhos que lhe enrugava todo o rosto.
Meio envergonhado, arrisquei um passo para trás, virei-me lentamente, aproveitando todo o conforto que um sorriso pode dar, e continuei a caminhar… senti os passos guiarem-me e não mais o mapa que levava na mão. E a terra que pisava já não era cinzenta, mas sim de um tom entre o amarelo e o laranja, as vozes dos comerciantes já não me magoavam, e às mulheres já lhes via os olhos…
Voltei a percorrer o bazar e já não era eu o estranho, já não era eu o turista da máquina na mão, esse eram os outros, que por ali passavam uma primeira vez.
Teresa Freitas, 10ºA

sábado, 11 de abril de 2009

Do mundo dos livros II: tradição e revolução

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Uma nova livraria em Lisboa. O espaço de uma antiga padaria, na Rua do Século, transformou-se na Livraria Alêtheia, de Zita Seabra.
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E, sinais dos tempos, há cada vez mais adeptos dos e-books. A Google disponibiliza já grandes clássicos para download, a custo zero, no sítio www.books.google.com.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Roteiro Queirosiano: visita de estudo - 11ºAno










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Tomei a liberdade de retirar as imagens do Grémio Literário do sítio on-line dedicado a esta instituição. As restantes fotografias foram-me enviadas pela Drª Isabel Maia. Aguardo com expectativa as fotoreportagens dos alunos, que aqui espero vir a publicar.
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“Lisboa é Portugal. Fora de Lisboa não há nada. O país está todo entre a Arcada e S. Bento.”
Eça de Queiroz, Os Maias
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Visita de Estudo - 11A, 11B, 11C e 11D/E (25 e 26 de Março de 2009)
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Percorrer a Lisboa queirosiana é percorrer o espaço simultâneo da fantasia e da realidade. Encontrámos Eça no Chiado, ouvimos a sua voz inconfundível, deliciámo-nos com os traços impressivos das suas personagens. Perseguimos Carlos da Maia pela Rua Ivens, assistimos ao seu desencanto e ao marasmo nacional. Olhámos a janela de Maria Eduarda e passámos pelo Teatro da Trindade. Em cada esquina, em cada rua, um eco de Os Maias, o grito feérico da ficção e do sonho.
Trajámo-nos a preceito para um sarau moderno, descemos a São Carlos. Passeámos na Pena, saboreámos as queijadas que Cruges esquecera. Rimos de Dâmaso e do seu "chique a valer". Fomos aos Restauradores e ao Rossio. O mesmo azul-ferrete da obra, o mesmo clima suave, o mesmo sol macio a bater no lajedo faiscante. Descansámos sob o olhar cansado e secular de Camões. E, finalmente, penetrámos na atmosfera culta e silenciosa do Grémio Literário. Fomos recebidos aí pelos vultos de Garrett e Herculano, que nos esperavam no jardim. Despedimo-nos. E, de monóculo em riste, Eça murmurou-nos: Sobre a nudez forte da verdade, o manto diáfano da fantasia.

Do mundo dos livros

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Todos os dias, por "higiene mental", visito alguns blogues sobre livros, leitura, edição e escrita. Sou leitora assídua de dois deles: o Ler, da revista Ler, e o Ciberescritas, de Isabel Coutinho, jornalista do Público, que assina a coluna homónima.
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Já me tinha referido ao primeiro, quando a Ler voltou às bancas sob a direcção de Francisco José Viegas. Aproveito para deixar a capa de Abril:
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Procurarei fazer o mesmo todos os meses a partir de agora.
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Quanto ao segundo, já lia com interesse a coluna que Isabel Coutinho assina desde 1996 no Público. Refiro-o hoje a propósito de um colóquio organizado pela Casa Fernando Pessoa, sobre a escritora brasileira Clarice Lispector (clique para saber mais).
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Uma das comunicações era de Carlos Mendes de Sousa, da Universidade do Minho, cuja investigação foi dedicada em grande parte a esta autora. Por coincidência, meu professor de Literatura Brasileira e responsável pela minha devoção literária por Lispector. Lembro-me bem do impacto que a primeira leitura teve em mim, ao revelar um "tipo" diferente de feminismo, rodeado por uma aura de mistério quase místico e, simultaneamente, pelo contacto feroz com realidade e a imanência da mulher.
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As minhas primeiras leituras foram Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, Maçã no escuro e A hora da estrela. Mas foi o primeiro que mais me fascinou e marcou...
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Foi através do Ciberescritas que acedi à única entrevista concedida por Clarice, em 1977, antes da morte:
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segunda-feira, 6 de abril de 2009

Livro(s) do mês - Abril

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Depois de «Bilhete de Identidade», Maria Filomena Mónica escreve «Passaporte», um livro sobre as suas viagens e incursões pelo mundo. Com «Bilhete de Identidade» (Alêtheia Editores, 2005), Maria Filomena Mónica alcançou grande sucesso e suscitou grande polémica pela forma desassombrada como descreveu o seu passado e relatou a sua vida até 1976, tendo sido a primeira a fazê-lo na sociedade portuguesa.

domingo, 5 de abril de 2009

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Livro(s) do mês - Abril

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O novo romance de Chico Buarque. E o primeiro capítulo aqui.
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Francisco Buarque de Hollanda nasceu no Rio de Janeiro, em 1944. Cantor e compositor, publicou as peças Roda viva [1968], Calabar [1973], Gota d’água [1975] e Ópera do malandro [1979]; a novela Fazenda modelo [1974] e os romances Estorvo [1991], Benjamim [1995] e Budapeste [2003]
Para mais informações:
www.chicobuarque.com.br
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quinta-feira, 2 de abril de 2009

Livro(s) do mês - Abril

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As velas ardem até ao fim, Sándor Márai

Um pequeno castelo de caça na Hungria, onde outrora se celebravam elegantes saraus e cujos salões decorados ao estilo francês se enchiam da música de Chopin, mudou radicalmente de aspecto. O esplendor de então já não existe, tudo anuncia o final de uma época. Dois homens, amigos inseparáveis na juventude, sentam-se a jantar depois de quarenta anos sem se verem. Um, passou muito tempo no Extremo Oriente, o outro, ao contrário, permaneceu na sua propriedade. Mas ambos viveram à espera deste momento, pois entre eles interpõe-se um segredo de uma força singular...
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Sándor Márai (n.1900, Hungria) passou um período de exílio voluntário na Alemanha e em França durante o regime de Horthy, nos anos 20, até que abandonou o seu país emigrando para os EUA, em 1948, com a chegada do regime comunista. A subsequente proibição da sua obra na Hungria fez cair no esquecimento quem nesse momento era considerado um dos escritores mais importantes. Foi preciso esperar até à queda do regime comunista, para que este extraordinário escritor fosse redescoberto no seu país e no mundo inteiro.