quarta-feira, 4 de junho de 2008

Oficina de escrita - 10ºAno

O prometido é devido... Aqui deixo os melhores textos produzidos neste período, na oficina de escrita, e que só hoje tive hipótese de postar.








Memória de Viagem I

Argentina

Durante a nossa vida, fazemos várias viagens e passamos por vários sítios, mas apenas alguns têm o dom de nos marcar irreversivelmente. Exemplo disso foi a minha viagem a Buenos Aires.
Parti com entusiasmo, já que a Argentina, o país azul celeste, sempre me fascinou. Quando aterrei no aeroporto de Ezeiza, a vontade de conhecer e viver aquela cidade era tanta, que senti a principal metrópole argentina sufocada pela minha vontade e entusiasmo.
Ao sair do aeroporto, localizado a trinta minutos do centro de Buenos Aires, já senti aquele agradável aroma a tango que me invadiu as narinas e despertou a minha veia argentina. Defendo há muito tempo que todos temos um pouco de cada nacionalidade e de cada país e naquele momento, a minha veia argentina estava bem saliente e marcada na minha pele que já ganhava outra cor, devido ao sol argentino, que brilha de maneira diferente, com mais intensidade.
No aeroporto apanhei um táxi que me levou ao meu hotel, em frente ao emblemático edifício do Congresso argentino, no centro da cidade-bailarina. Pelo caminho, reparei em todos os pormenores e pessoas, nas estradas e nas placas que indicavam o caminho para o meu sonho, nas árvores, naquele azul celestial que marcava toda a paisagem e no supracitado sol. As pessoas causaram-me um sentimento de inveja. Passavam apressadamente por sítios fantásticos que eu me sentia deleitado por poder contemplar. É normal no ser humano não dar valor àquilo que tem.
Fiz o “check-in”, subi apressadamente e abri a porta do quarto 156, e depois de um banho para retemperar forças da viagem e da emoção de estar em Buenos Aires, saí para começar a minha visita àquela cidade mágica. Mal coloquei o pé na calçada argentina, senti uma sensação de liberdade indescritível. Nunca experimentei a sensação de ir ao Paraíso mas certamente não será muito diferente daquilo que eu senti.
Durante três dias, absorvi uma cidade com quase 3 milhões de habitantes e vi e senti a cultura pela primeira vez, ora na Recoleta onde fiz compras, ora no bairro de San Telmo onde vivi grandes noites, ora no bairro de Palermo onde corri nos magníficos jardins pintados de verde, como se a cidade fosse uma tela de Picasso. Soube como era possível misturar grandes edifícios com casas pobres e degradadas, sem que a cidade perdesse com isso e senti também que aquela gente era feliz mas não tanto como eu fui naqueles dias.
No último dia, visita obrigatória ao bairro de La Boca, onde passei pelo Caminito, rua que mistura casas rústicas, de todos os tipos, feitios e cores e onde assisti ao super jogo do futebol argentino, o apaixonante Boca Juniors “versus” River Plate, as duas equipas de Buenos Aires. Quando parti de Portugal já levava uma admiração pelo Boca mas posso dizer que saí da Argentina com o azul e o amarelo (cores do clube) na palete de cores do meu coração.
Nas últimas horas e enquanto assistia ao par Ramón e Paloma a dançar o tango num dos bares do bairro de San Telmo, pensei em Sophia e na sua frase: “Há cidades acesas na distância”.
João Barros 10ºD



Memória de Viagem II

Cabo-Verde

“Há cidades acesas na distância” e há cidades que se apagam no esquecimento. Sal, em Cabo Verde, é uma delas.
Estava-se em pleno Agosto e uma maresia abrasadora atravessava a multidão enraivecida, desesperada, que tentava sair daquele minúsculo espaço por uma minúscula porta.
Sentado no autocarro, observo o olhar fixo dos adultos e depois observo as crianças, que com o seu toque inocente se sentam na relva a observar o céu, limpo e azul, sem caixas cinzentas nem placas metálicas a taparem-lhes a vista, não, só eles e o céu.
Continuo a minha viagem no banco de trás, encostado à janela. O cheiro a maionese polui-me as narinas impedindo a passagem do aroma proveniente das salinas. Uma vista deslumbrante sobre os montes virgens onde não habitava vivalma… Erguiam-se grandes estátuas brancas, imponentes na altura, uma neve falsificada que dava frescura ao cenário tórrido.
Já é noite, estou na varanda de um bar e um miúdo inglês exclama de emoção: “ Look mommy, I´ve never seen so many helicopters in my life”. A mãe carinhosamente sorri e tenta explicar que aqueles holofotes são estrelas, puros pedaços de terra suspensos no céu que reflectem a luz do sol.
Estou nesta ilha há quatro dias e, tal como eu, muitos outros turistas ainda não saíram da praia.
O meu pai, um curioso apreciador de paisagens, decide levar-nos à cidade em si, uma cidade sem luxos e com cheiro a lagosta pairando nas ruas. Visitámos vários locais, incluindo um que me despertou a atenção. Era uma simples rua, cujos passeios eram placas sobrepostas, com pavimento feito de terra e pedras das obras - um ambiente assustador que violava as sensíveis palmas dos pés pretos. Uma rua pobre, uma rua cinzenta, que contrastava com o sereno e saudável mar.
Era a minha antepenúltima noite e preparei-me para a aventura que se avizinhava. Posso afirmar que tive a melhor refeição de sempre; uma lagosta que sabia a mar, pescada no próprio dia nos mares de Cabo Verde.
O sabor salino fez-me recordar fotografias mentais de paisagens que gravei na minha mente. Estava no paraíso.
Amanhã parto para o Porto, mas hoje foi sem dúvida o dia mais emocionante: uma viagem de moto - quatro à volta da ilha. Comigo ao volante, a areia movia-se rapidamente em rodopios de valsa. Após ver tubarões e tartarugas, parei a mota e sentei-me com o meu pai numa confortável duna. Ao nosso lado, uma carcaça de tartaruga gigante completava aquele cenário magnífico, digno de fotografia. As ondas quentes subiam a montanha de areia atrevendo-se a molhar-me os pés, o sol dançava com o ventre num remexido ciclone de sabores e cheiros. À ida para o hotel acelero a fundo e maravilho-me com a imagem virgem da paisagem: toneladas de areia preenchem o mar onde nenhum tom de verde se avista.
Luís Ramos, 10ºC






Auto-retrato I

Foco-me no espelho… Nos olhos castanhos e perdidos mais especificamente. Serei mesmo eu, ou será algum retrato daquilo que eu sou? É estranho olhar para mim sabendo que aquele sou mesmo eu… Mas pedi à imaginação que me retratasse. Já não sou só eu afinal.
Vejo-me sereno e sorridente e o branco dos meus dentes contrasta com a tez morena que preenche todo o oval rosto. O meu sedoso cabelo castanho assemelha-se a um mar de terra que acolhe a testa marcada pelo acne juvenil. Nesta parede arredondada sobressaem as pensativas sobrancelhas que colidem com um pequeno e arrebitado nariz, lembrando a junção do rio e do mar. Os meus lábios sinceros e misteriosos criam um sorriso atrevido e sorrateiro, que coabita com as maçãs delicadas do rosto. No final do rosto esguio, ergue-se o queixo arredondado e pequeno e o pescoço tímido.
Marcelo Guedes, 10ºD


Auto-Retrato II

O reflexo olha para mim, observa-me; uma expressão séria e serena, talvez um pouco curiosa, mas sempre neutra. O cabelo cor de carvalho, quieto e estabilizado, está pousado numa cabeça quase esférica.
Da cara do meu reflexo, dois olhos avelã fitam-me, em castanho vivo, coroados por duas modestas sobrancelhas ligeiramente arqueadas. Olhos vivos e penetrantes. A testa bem exposta, ladeada por duas têmporas arredondadas e doridas. Um nariz robusto absorve e expulsa o ar de forma ruidosa (pois naquele dia estava eu engripado). Uma boca roxa e carnuda sorri entre dois “parênteses” formados pela tez nívea. As maçãs, suaves e vincadas, definidas incisivamente nos flancos do rosto, convergem num queixo pequeno, onde por vezes uma barbicha se pendura. O pescoço, rígido, suporta a cabeça como uma coluna dórica, conectando-a ao centro de dois ombros médios. A pose, ora nervosa, ora calma, avisa o próximo sobre o meu estado de espírito – e até a mim.
David Conceição, 10ºE


1 comentário:

Marcelo Guedes disse...

Obrigado por ter publicado o meu retrato :)