quinta-feira, 24 de novembro de 2011
sexta-feira, 18 de novembro de 2011
Crónica | 10ºAno
1.
Ao meu tio roubaram-lhe o talento. E nada pior poderia ter acontecido a um poeta, como ele. Um poeta necessita de momentos de inspiração, fluidez com a caneta, capacidade de se abstrair do mundo e escrever o que lhe vem da alma. O meu tio, não possuiu nenhuma dessas qualidades.
Sempre disse que era um poeta, desde pequeno, segundo conta a minha mãe. Diz isso com orgulho, convicção e um brilho fascinante nos olhos, “Eu sou um poeta”. Contudo, logo a seguir, o brilho dos seus olhos desaparece e uma nuvem depressiva surge na sua face, à medida que se apercebe que não tem talento. Acorda dessa ilusão e apercebe-se que nunca escreveu boa poesia.
É pena, porque até acho que daria um bom poeta. Fascina-se com os belos poemas, o ritmo dos versos, a eloquência das palavras. Consegue recitar versos de todos os autores que eu conheço. Fala como um poeta, veste-se como um poeta, pensa como um poeta. Parece-se mesmo com um poeta. A única diferença entre ele e um verdadeiro poeta é que não consegue escrever.
Acho que vai dar aulas duas vezes por semana a uma escola qualquer. De resto, passa o seu tempo em casa, a olhar para o teto, à espera que a inspiração divina lhe traga o poema da sua vida. O poema do qual ele está sempre a falar, que lhe dará projeção e prestígio. “Esse poema”, diz ele, “será o meu legado à humanidade, a minha obra prima que me colocará junto dos grandes poetas universais”.
Assim, ele espera, dia após dia, mês após mês, ano após ano, pelo seu m momento de inspiração. Na minha opinião, por muito que goste dele, esse momento nunca chegará.
Duarte Magano
2.
A Natureza roubou-lhe o talento, mas encheu-o cruelmente com o desejo de escrever boa poesia, deixando no seu coração uma tristeza e frustração profunda por não ser capaz.
Ao meu sonho roubaram-lhe o endereço. Sou confrontado inúmeras vezes com o destino já eleito para mim. O objectivo da minha família é constante: tirar um curso, de preferência medicina, advocacia, etc., para ganhar muito dinheiro e “ser alguém na vida”. Os meus sonhos são condenados, as minhas ambições são esquecidas e o que eu quero para o meu futuro é censurado. Não se trata do que eu quero, mas do que querem para mim. Não me é permitido escolher outro rumo para a minha vida. Ouço constantemente: “um dia ainda me vais dar razão”. Será que sim? Só quero ir ao encontro do meu sonho, não quero que tracem o meu destino, quero ser eu a traçá-lo. Não me é permitido desobedecer, apenas cumprir os meus deveres. Só queria por momentos esquecer tudo, olhar em frente e reflectir acerca do que realmente quero para mim, sem ter receio de olhares desiludidos. Quero ser livre. Talvez seja piloto, para voar para fora das rotas que me querem. Estou perdido. Não sei se devo desobedecer àquilo que cuidadosamente foi previsto para mim, sem ter qualquer voto na matéria, ou se deva libertar-me desta rede de pensamentos e mentalidades. Esta opção não só não é tolerada, como também não pode ser colocada. A minha vida é dominada. Resta-me cumprir esta pena, não tenho armas para combater esta guerra.
Hugo Franco, 10A
3. ACIMA DE TUDO VIVER
Ao meu pai roubaram-lhe a vida. Nunca compreendi. Um dia perguntei, mas ele não falou. Hoje já percebo tudo, o olhar triste que tinha, a voz serena que exprimia.
Era eu ainda pequeno quando o meu pai, segundo o que me relatou a minha mãe, teve um acidente. Dizia-me ela: sabes, o teu pai não pode andar, pelo que tens de ajudá-lo! O meu pai ficou paraplégico e nada aconteceu ao outro condutor. Não compreendi na altura por que ele estava triste, mas agora sei. Percebo o que é olhar para o mundo e não o poder viver, ver os outros e não os acompanhar. Percebo por que estava sempre triste e a razão da sua resignação. Não queria lutar. Compreendo tudo o que sentiu. O meu pai morreu há pouco mais de quatro anos, quando, desistindo da vida, decidiu partir. Ousou sobrepor-se ao poder de Deus e pôs termo à vida. Não o fez sem antes me deixar uma carta escrita sobre o sofrimento que tinha, o desgosto que sentia de não ter podido acompanhar-me nas brincadeiras e nos sonhos. Pena tenho eu de não lhe ter dito que o seu coração era maior que o mundo e que por isso superava tudo.
Ele não quis viver e não o condeno. Entendo as suas frustrações, as suas mágoas o seu vazio e a sua falta de esperança, pois, na verdade, a situação que era a dele é agora a minha.
José Diogo Chaves
4. Há dias assim
Ao meu amigo, roubaram-lhe o sonho. Jamais saberei porquê nem como… Planeava viajar por esse mundo fora, sofrer e vencer, conhecer e ser conhecido.
De um dia para o outro, deixou tudo o que estava planeado e, cabisbaixo e melancólico, caminhou até ao mar. Eu estava sempre a seu lado, éramos inseparáveis, amigos para a vida e para a morte. Chegando ao porto dos pescadores, nem sequer abrandou o passo para admirar a azáfama dos que voltavam da faina. Uns levando apenas o suficiente para se sustentarem, outros transportando tudo o que haviam pescado para vender na lota, os pescadores costumavam ser alvo da admiração do meu amigo. Ele ambicionava ser, em parte, como eles, enfrentando os perigos do mar e regressar vitorioso. Um pouco como Ulisses.
Naquele dia, tudo estava cinzento e triste. O meu amigo caminhava, sem parar, sem tirar os olhos da calçada. Chegados à praia, estacou e pôs-se a fitar o mar, contemplando-o em todos os pormenores. A ondulação agitava-se como uma manada de cavalos selvagens, as aves recolhiam a terra, o céu ia escurecendo aos poucos. A tempestade aproximava-se, mas o meu amigo nem estremeceu. As nuvens acumularam-se e foram ficando cada vez mais carregadas. Subitamente, iniciou-se o dilúvio. Eu queria sair dali e ir abrigar-me, mas não abandonei o meu amigo. Parecia que ele queria travar um duelo com a tempestade. A trovoada começou a tocar os seus tambores. O meu amigo continuava ali, imóvel, enfrentando o mar com o olhar.
Após este singular duelo, veio a bonança. O meu amigo vencera. O sol irradiava a terra de novo. O meu amigo, pela primeira vez nesse dia, sorriu. Renascido, voltou para casa, assobiando uma alegre canção capaz de causar inveja à ave mais melodiosa. Há dias assim…
António Pedro, 10A
5.
Ao meu mundo roubaram-lhe a paz. A vivência alegre e livre já vai longe. Agora, ao simples clicar de um comando, a televisão traz-nos notícias tristes. É como o vento ou a frieza da neve que nos invadem e nos mostram o lado insensível da natureza humana.
Outrora não era assim. Possivelmente porque não era tão fácil, não estava tão ao alcance da mão. E era assim que nos ficavam na memória imagens inocentes, ingénuas, cândidas, até.
Mas os tempos mudaram! O ritmo é acelerado, uma corrida infernal em que apenas as catástrofes e a violência se fazem ouvir. É da crise, é do stress... como se todas essas coisas tivessem vida própria para nos atormentar o espírito.
Os tempos já não são de modas!
Andamos ao toque da caixa de televisão que nos traz as notícias. Ao menos, por vezes, há futebol e o Porto ganha. “Venha um copo mais”. O meu amigo do lado esquece tudo, e a tristeza, mesmo que por breves momentos, desaparece. É do tempo!
O tempo tem muitas caras. E valem-nos os intervalos em que chegam notícias boas. E o meu amigo insiste: “ O tempo é como o mar – vem e vai como uma onda”.
Sempre ao alcance de um clique podemos parar, deitar para trás das costas a tristeza e acabar o último copo enquanto o meu colega do lado se entusiasma em mais uma jogada de futebol.
“Vale-nos que o Porto ganha”.
É dos tempos... dos novos tempos!
Gonçalo Magalhães
6.
Ao meu irmão roubaram-lhe a escrita. Rapaz solitário, refugiava-se em si mesmo numa tentativa de escapar à sua vida que, apressada, o arrastava numa rotina frustrante. O meu irmão escrevia. Transcrevia sentimentos, mágoas e angústias, medos e esperanças, alegrias e desilusões, tudo isto num pequeno caderno preto que guardava, por entre aquelas linhas estreitas e direitas, a alma de alguém que, um dia, se havia perdido no seu caminho que fora traçado por outros.
Tinha bastante curiosidade sobre o caderninho e admirava o meu irmão por saber que ali estavam escritas as mais belas palavras. Queria ser como ele. Escrever e ser reconhecido por isso. Fazer algo de que realmente gostava. Ainda me recordo de todas as vezes em que me chamava e, num murmúrio sentido, recitava pequenos excertos do que escrevia. E no fim perguntava-me o que achava. Eu, hipnotizado pela profundidade e encanto das palavras, afirmava que era a melhor coisa do mundo. E ele, afagando-me os cabelos, sorria. Dizia-me que, de alguma forma, era isto que o fazia sentir-se verdadeiramente feliz.
Um dia, a escrita desapareceu. Como, ninguém sabe. Num dia estava lá, repousada, segura. No outro, pura e simplesmente havia sumido. O meu irmão procurou-a, desesperadamente. Uma busca infrutífera, que o fez derramar uma triste e solitária lágrima. Tal como ele.
Ao meu irmão roubaram-lhe a escrita. Mas tiraram-lhe a alma. A simplicidade das palavras, a sua verdade e transparência. Tudo isto havia sumido para sempre. Os raros sorrisos, a ténue alegria quando recebia um elogio, coisas tão pequenas que faziam tanta diferença. E até isso lhe tiraram. Levei-o à praia. E nem uma simples expressão colocou. Continuou ali, fechado no seu mundo, numa tentativa desesperante de se soltar das correntes que o amarravam. E não conseguiu. Portanto ali ficamos, olhando o mar que, suavemente, transmitia a calma e a paz, até ao horizonte, que nos mostrava a linha de pensamento vazia que ocupava o meu irmão.
Ao meu irmão roubaram-lhe a escrita. E a mim, roubaram-me o meu irmão.
Beatriz Valongo
7.A Face oculta do mar
Desde então, nunca mais voltei ao cinema. É uma espécie de homenagem aos dias maravilhosos que passei com ele a ver filmes, numa sala exígua para tanta felicidade.
No entanto, não desanimo. Acredito que o poderei reencontrar no fim do meu filme da vida. A tela apaga-se, as portas fecham-se. E eu, lentamente, começarei a subir, até alcançar o meu pai e poder concretizar esse desejo inacabado, promessa não cumprida.
Sei que pouco ou nada sei acerca da morte do meu pai e dos seus fiéis companheiros, pescadores inseparáveis. Na verdade, apenas conheço o local e responsável pela sua morte e o nome do barco em que seguia. Mar e Douro, respectivamente.
Ah, o mar! Capaz de proporcionar tão bons momentos e ao mesmo tempo de desmoronar uma vida, ruir uma família. Ele, naquele dia, mostrou a sua face oculta, bipolaridade desconhecida. Porém, não guardo rancor, mas nunca mais voltarei a nadar nas suas águas, pois embora saiba que foi um acto involuntário, não posso perdoar quem deflagrou esse acontecimento fatídico.
Agora, sempre que olho para o mar, vejo-o de maneira diferente, com desprezo e desilusão, se bem que seja a mesma água salgada e o mesmo cheiro a maresia.
Observo o horizonte durante horas a fio, esperando que algo ou alguém renasça das águas traiçoeiras do mar. Aguardo pela vinda do meu pai, que me dê a mão como costumava fazer, para nos dirigirmos ao cinema prometido.
Talvez ele espere que faça o mesmo: que termine o meu filme da vida e que me dirija ao Céu, já que parece que o caminho inverso é impossível.
Eu espero pela sua vinda, ele espera pela minha ida, mas o que ambos queremos é a oportunidade de nos reencontrarmos,
Talvez um dia mais tarde, quem sabe?
João Silveira, 10A
8.
Ao meu pai roubaram-lhe a alma. Nunca me contaram como aconteceu verdadeiramente. Disseram-me, apenas: um dia o teu pai foi para o mar; havia uma grande tempestade. No entanto, quando regressou a terra firme, era tarde de mais. Penso nisso todos os dias. Penso nisso quando trato do meu irmão e o meu pai lá não está. Também penso nisso quando passo pela lota e o cheiro a peixe me invade o nariz. Também penso nisso quando olho para o mar. Penso nisso todos os dias, a toda a hora.
Quando deambulo pelas ruas da aldeia, procuro o riso, o cheiro, a figura do meu pai. Olho para todos os homens: altos, baixos, gordos, magros, mas nenhum é o meu pai.
O meu pai dava vida à casa. Todos os dias, depois de jantar, ele tocava no seu velho violino para mim e para o meu irmão. Nós deliciávamo-nos a ouvir aquela doce melodia. Outras vezes, limitava-se a cantar ou a contar histórias de quando estivera na Guerra Colonial. Agora, tudo é diferente. Não temos ninguém que nos aconchegue à noite, nem que nos conte belíssimas histórias, pois eu e o meu irmão somos órfãos de mãe e de pai. A minha mãe falecera quando o meu irmão mais novo nascera.
No tempo em que o meu pai ainda não tinha partido, ele costumava levar-me ao cimo do pontão para observamos o mar. Costumava dizer:
- Filha, o mar é muito belo, mas esconde muitos perigos. Nunca tentes inferiorizá-lo.
Hoje penso muito no seu conselho. Se havia alguém que tentava inferiorizar o mar era o meu pai. Todos os dias, independentemente do seu estado, ele nele se aventurava. Fazia-se de corajoso, mas nesta luta de forças, quem saiu vencedor foi o mar.
Ana Lídia Ferreira Neves
Trabalhos enviados por Auxília Ramos
domingo, 6 de novembro de 2011
segunda-feira, 31 de outubro de 2011
O admirável mundo do livro

Clicar na imagem, para aceder ao vídeo.
O poder é teu. Sem quaisquer barreiras, o LIVRO proporciona-te o poder de decidires: quem ganha e quem perde, quem é o bom e quem é o vilão, e ainda o perfil de cada uma das personagens. Tu defines o cenário, as personagens e o desenlace, pelo que tens todos os ingredientes para ótimos momentos.
Sem precisar de energia e sem quaisquer complicações técnicas, o LIVRO não está exposto a qualquer tipo de vírus ou qualquer problema de hardware, sendo constituído por materiais duradouros, simples e, para juntar à “mistura”, totalmente recicláveis, não apresentando quaisquer características nocivas para o ambiente.
Tu decides, da forma que te apetecer.
Embarca neste novo movimento e prova o sabor do LIVRO, por ti próprio. Vem conhecer o mundo da imaginação!
Tiago Simões, Tiago Vasconcelos, 10º ano C
(Enviado por Auxília Ramos)
Tratamento técnico da Coleção das Artes Cénicas
domingo, 16 de outubro de 2011
quinta-feira, 6 de outubro de 2011
Oficina de escrita em Barcelona
«Paga-me um café e conto-te
a minha vida.»
lufadas de ar
fugidas contra o granito.
A história do gato
que adormeceu sobre laranjeiras
agitação tremenda
de amar.
«Paga-me um café se me contares
o teu amor.»
Sara Cardoso
...
2.Poema realizado em grupo (cinco pessoas) a partir de uma obra de uma das exposições visitadas na Caixa Fórum. O grupo escolheu uma obra de Pierre Huyghe. A “técnica” utilizada para a elaboração do texto foi a discussão de ideias sobre o que a obra representava para cada um, seguida da redação conjunta do poema.
Cordas.
Danças com a ingenuidade
de quem domina o mundo.
Baloiços em flor. Gastas
todos os nós
todos os degraus
Como se as cordas não fossem mais
do que pautas.
Deixa somente a música.
Lembra-te:
as teias são
crianças deitadas no sal.
terça-feira, 4 de outubro de 2011
"Ode Marítima" em novo espaço de animação artística
O porto de Leixões exibe uma renovada barreira de contentores animados graficamente pelo designer Francisco Providência. Os antigos contentores, cuja pele enferrujada agredia o ambiente, conferem a Matosinhos e, mais particularmente, a esta zona portuária, um novo rosto, cirurgicamente intervencionado por uma equipa de “artistas”, dos quais se distingue uma ex-aluna do colégio, Marina Soares Francisco.
A “Ode Marítima” do heterónimo pessoano Álvaro de Campos (engenheiro naval) foi motivo de inspiração para o novo visual do porto de Leixões, enquanto espaço de partida e chegada.
Intervenções artísticas desta natureza animam esteticamente as nossas cidades e promovem o enriquecimento cultural dos seus habitantes. É motivo para dizer a arte (também) está no porto de Leixões! Visitem-no!
Auxília Ramos
domingo, 2 de outubro de 2011
domingo, 25 de setembro de 2011
Livro do mês - setembro
Inédito de Saramago publicado em outubro
domingo, 18 de setembro de 2011
António Lobo Antunes no Teatro São Luiz

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O jardim de inverno do São Luiz, mergulhado na poalha de luz do crepúsculo, encheu-se de mesas atentas e de um silêncio nervoso e suspenso. Num ambiente intimista e informal, que contou com a presença do escritor homenageado, Maria Alzira Seixo conduziu a conversa sobre a obra e os temas antonianos.
Phillip Rothwell referiu-se, na sua intervenção, à importância da memória nas crónicas e nos romances de Lobo Antunes. Segundo este investigador, a imaginação do autor é uma forma de organização da própria memória. De facto, embora parta de um campo referencial autobiográfico, o escritor parece despersonalizar-se e apagar a noção de individualidade da escrita, desconstruindo-se, numa temporalidade íntima que se converte em intemporalidade e desejo de posteridade. Um dos aspetos mais interessantes que o especialista fez notar prende-se com a omnipresença da imagem do relógio, numa intrigante reconfiguração do próprio texto e confirmando a suspeita de que a memória é a principal matéria da narração.
Seguiu-se João Lobo Antunes, irmão do escritor, que se deteve especialmente sobre o caráter autopatográfico do livro Sôbolos rios que vão. É uma narrativa, quase tchekhoviana, da doença que enfrentou em 2009, urdida ao longo de uma diacronia caótica, de coerência tensa, abundante em personagens e em alusões autobiográficas. O herói é o narrador que se refugia nas memórias da infância, nos fragmentos do património familiar. Neles encontra a principal matéria para a rede metafórica sobre a qual se funda a linguagem do romance. João Lobo Antunes, o médico, ressalta o poder de imagens como a do "ouriço", a que o autor recorre para se referir ao "cancro", ou a da "peça teatral" para designar a doença, ou ainda a do "nevoeiro" para a anestesia. Metáforas biológicas inusitadas e inaugurais. Conclui, comparando António, o irmão mais velho, a Ulisses e a D.Quixote, e a doença à viagem. Depois de errar durante muito tempo, Ulisses regressa a Ítaca e a Penélope, encontrando finalmente o porto tranquilo...
Maria Alzira Seixo, por seu turno, centrou-se na exegese literária, desenvolvendo o topos da vacilação/proliferação. De ressonância camiliana, a linguagem antoniana é um terreno fértil em mutação, em hesitação. O discurso abre brechas, a sintaxe afetiva é notória: frases curtas, suspensas, cortadas, apenas completadas nas páginas seguintes; um labirinto que requer a paciência e sageza do leitor. A investigadora e especialista destaca, como obra-prima, Boa tarde às coisas aqui em baixo, a prova de que Lobo Antunes soube ler bem os clássicos e reinterpretá-los, inovando.
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domingo, 11 de setembro de 2011
"Bartolomeu Lourenço de Gusmão - o padre inventor"
“Três, se não quatro, vidas diferentes tem o padre Bartolomeu Lourenço, e uma só apenas quando dorme, que mesmo no sonho foi o padre que sobe ao altar e diz canonicamente a missa, se o académico tão estimado que vai incógnito el-rei ouvir-lhe a oração por trás do reposteiro, no vão da porta, se o inventor da máquina de voar ou dos vários modos esgotar sem gente as naus que fazem água, se esse outro homem conjunto, mordido de sustos e dúvidas, que é pregador na igreja, erudito na academia, cortesão no paço, visionário e irmão de gente mecânica e plebeia em S. Sebastião da Pedreira, e que torna ansiosamente ao sonho para reconstruir uma frágil, precária unidade, estilhaçada mal os olhos se lhe abrem, nem precisa estar em jejum como Blimunda.” (Memorial do Convento, 33ª edição, Caminho).
É assim que, em Memorial do Convento, Saramago nos apresenta a figura de Bartolomeu Lourenço de Gusmão como o “padre voador” que, apesar de ser considerado louco (e “de louco todos temos um pouco”), não abandonou o seu sonho de voar – “Tenho sido a risada da corte e dos poetas, um deles, Tomás Pinto Brandão, chamou ao meu invento coisa de vento que se há-de acabar cedo, se não fosse a protecção de el-rei não sei o que seria de mim, mas el-rei acreditou na minha máquina e tem consentido que, na quinta do duque Aveiro, a S. Sebastião da Pedreira, eu faça os meus experimentos” (Memorial do Convento, 33ª edição, Caminho, p.64). Mais adiante, no romance, o narrador recria o real, através da sua imaginação criadora e relembra o voo experimental da passarola, ao mesmo tempo que se apropria da voz do seu inventor – “e assim pôde ver afastar-se a terra a uma velocidade incrível, já mal se distinguia a quinta, logo perdida entre colinas, e aquilo além, que é, Lisboa, claro está, e o rio, oh, o mar, aquele mar por onde eu, Bartolomeu Lourenço de Gusmão, vim por duas vezes do Brasil, o mar por onde viajei à Holanda, a que mais continentes da terra e do ar me levarás tu, máquina, o vento ruge-me aos ouvidos, nunca ave alguma subiu tão alto, se me visse el-rei, se me visse aquele Tomás Pinto Brandão que se riu de mim em verso, se o Santo Ofício me visse, saberiam todos que sou filho predilecto de Deus, eu sim, eu que estou subindo ao céu por obra do méu génio, por obra também dos olhos de Blimunda, se haverá no céu olhos como eles, por obra da mão direita de Baltasar, aqui te levo, Deus, um que também não tem a mão esquerda, Blimunda, Baltasar, venham ver, levantem-se daí, não tenham medo.” (p.198)
Foi, recentemente, lançado no Brasil o livro “Bartolomeu Lourenço de Gusmão - o padre inventor” que reúne documentação manuscrita existente na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra sobre o referido sacerdote e cientista, bem como documentos da sua própria autoria. A edição exibe fac-símiles desses vários documentos e textos sobre o notável físico português Carlos Fiolhais.
Para alargar os conhecimentos sobre a recente obra publicada e a história deste padre inventor, podem aceder ao link:
quarta-feira, 24 de agosto de 2011
Sugestões de leitura
Foi há alguns meses que ouvi falar, pela primeira vez, de Rentes de Carvalho, em conversa com uma amiga a quem lhe tinha sido “apresentado” o escritor, pelo crítico de cinema Mário Augusto. Confesso que, na altura, fiquei curiosa com o que me contou sobre a sua prosa, mas o tempo foi meu inimigo e só em férias iniciei a descoberta do autor. Não perco tempo em apresentações. Os mais curiosos podem “googlar” o nome do escritor e facilmente acedem à sua identidade civil e literária. Interessa-me mais despertar a atenção para um conjunto de pequenas narrativas que integram a sua última publicação – “Os lindos braços da Júlia da farmácia”.
Curiosamente, o título da obra é o título do mais breve conto desta colectânea que se caracteriza por uma série de narrativas que revelam o essencial sobre Rentes de Carvalho – um brilhante contador de histórias. São histórias que têm por base memórias de vida, não esquecendo o seu lado ficcional. Como diz o próprio autor numa entrevista – “Mas eu minto muito. Desde miúdo que minto como o diabo, ninguém deve acreditar em mim. As minhas confissões são uma chapa de aço. De vez em quando surpreendo-me porque sei que estou a mentir a mim próprio, e acho graça.”
Verdades ou mentiras, ao lermos “Os lindos braços da Júlia da Farmácia”, viajamos por Trás-os-Montes, pelo Minho (com uma breve incursão na festa de S. Bento de Seixas!), conhecemos os meandros da vida dos amantes do jogo ou dos contrabandistas das margens do rio Minho, sorrimos com pormenores de uma infância na província, comovemo-nos com memórias nas quais se sente “o delicado equilíbrio que [ele] mantém entre a realidade e a fantasia.” , revisitamos outros romancistas (Eça de Queirós), lembramos o incêndio do Chiado, em Lisboa, aventuramo-nos por outras cidades europeias…
O restante, descubram vocês! Boa leitura!
quarta-feira, 27 de julho de 2011
valter hugo mãe emociona-se em Paraty
Vale a pena ver até ao fim... aqui.
E, já agora, a entrevista com Judite de Sousa (clicar para aceder).
quarta-feira, 6 de julho de 2011
sábado, 18 de junho de 2011
segunda-feira, 13 de junho de 2011
domingo, 12 de junho de 2011
David Mourão-Ferreira
quinta-feira, 2 de junho de 2011
domingo, 22 de maio de 2011
Diário(s) - 10ºAno
Os textos apresentados primam pela diversidade de propostas oferecidas, mesmo quando a identidade fictícia é a mesma. Tudo resulta da capacidade de abandonarmos momentaneamente a nossa linguagem, para sermos, momentaneamente, outros – e assim crescermos em compreensão daqueles que nos rodeiam.
...
1.
Querido Diário,
Tenho andado aos encontros e pisadelas por cima de mim mesmo. As palavras já não me respondem. E, sabes, as pessoas também são as palavras que usam. Por isso, de que me serve elaborar uma longa e inútil lista do que eu sou ou do que julgo ser? Eu sou eu embora já não seja eu, porque o que fui foi. Mas… São as palavras que me servem de espelho. Só nelas posso desvendar a minha face. Voltem! Falem comigo! Abracem-me! Façam-me feliz! Levem-me onde quiserem. Quero-vos! Por agora, o meu único trabalho é não entristecer. Finjo. Sou poeta e só sei fingir. Onde estará o valor das palavras que se dizem leais e, depois, se traduzem em traição?
Possivelmente, este episódio sorumbático da minha vida justifica-se pelo facto de ter brincado com ela e depois a ter perseguido. Cheguei a atirá-la ao ar e depois transformei-a, deixa-a escapar e voltei a capturá-la, cobria-a de fantasia e dei-lhe asas de paradoxo.
Quero voltar ao tempo em que os meus dedos se sentiam cansados (de tanto escrever) e só lhes apetecia viver – o cérebro desligava-se e eu gozava a vida exclusivamente pelos sentidos.
Sabes que mais? A minha prioridade é ser e não parecer. Aqui está a minha alma preta, a minha alma escrita.
Diana Balbino, 10ºD
2.
Sinto que, hoje, as trevas estão comigo e me levaram o que de melhor tenho. Como quem me arranca o coração, a minha inspiração esvaiu-se em sangue. Que dor esta… Sem qualquer propósito, encontro-me num espaço amplo sem oásis à vista. Estático no tempo. Entristeço-me como folhear das páginas brancas da minha criatividade. Sem justificação aparente, identifico-me com esse isolamento fictício em que vivo. No meu deserto preenchido. Que as intempéries me desviem de caminhos tortuosos e me conduzam a bons portos. Que os ventos me agitem e me acordem quando a minha imaginação for assolada por pesadelos. E que as estrelas, na noite silenciosa, me acompanhem e sejam a minha inspiração para dar corpo a estas folhas puras.
Filipa Barbosa, 10ºE
Já passaram quase três semanas e eu lembro-me de todos os pormenores como se tudo tivesse ocorrido há apenas 5 minutos. É como se desde então desperdiçasse todos os meus segundos a reviver aquele momento, aquele exíguo momento que transformou a minha vida. É terrível!
O pânico que senti enquanto rasgava o ar, a insegurança após o acordar, o pudor que todos aqueles olhares atribulados causaram em mim ao me verem prostrada no chão. São agora instantes enclausurados em mim. E o medo de adormecer, de mergulhar mais uma vez nestas recordações, permanece, assíduo e inalterável, todas as noites, sem excepção.
Mas hoje, pela primeira vez, arrisquei. Arrisquei voltar a fazer aquilo de que mais gosto, na esperança de recuperar o meu mundo e terminar com este pesadelo. Porém, enquanto elevava, vagarosamente, o meu corpo do solo, aquelas imagens reapareciam na minha mente, o meu coração acelerava e o terror invadia-me. Fracassei. Mais uma vez. E começo a acreditar que se torna cada vez mais inatingível a reconquista da minha vida. Sinto o meu mundo a converter-se numa utopia. E tudo isto está a desmoronar-me e a conduzir-me a um universo de questões para as quais não encontro resposta.
O que será de mim se não conseguir superar este drama? O que farei o resto do meu tempo? Longe daquele trapézio, sinto-me envolta num vácuo que me consome. Serei capaz de alguma vez voar sobre este nefasto episódio que se interpôs entre mim e a minha verdadeira vida? Ou terá sido esta queda algo mais do que um pavoroso sobressalto?
Daniela Santos, 10ºC
Para quem escrevo? Ou melhor… Porque escrevo sobre mim, quando tenho a perfeita noção de que não sou tema para um bestseller?
No entanto, escrevo. Escrevo para ninguém… Escrevo da mesma forma que falo, com o único objectivo de me expressar e com uma única diferença: quando falo, as quatro paredes que me rodeiam ouvem-me. Escrevo, porque quero passar o mais velozmente possível o pouco tempo que ainda me resta… Não vale a pena poupar os segundos ou fazê-los render, porque é inútil e só tornaria esta espera ainda mais sofrida e miserável.
Não quero tornar a minha escrita enfadonha, mas as circunstâncias forçam-me a contar-vos como cheguei até aqui. Prometo que serei breve nos relatos. – Meu Deus! Sinto-me como se tivesse enlouquecido. Afinal de contas, é como se estivesse a conversar com um amigo imaginário. – Mas prosseguindo: Há um ano, eu e um grande amigo meu, Jack Smith, chefiávamos um escritório de advogados quando nos surgiu um novo cliente, pedindo que o ilibássemos de umas acusações graves que o identificavam como cabecilha de uma rede de tráfico de órgãos (como era óbvio, as acusações eram verdadeiras) e, infelizmente, o Jack envolveu-se demasiado no caso, acabando morto e eu incriminado pela sua morte.
Tal como o meu pai havia dito, nunca devia ter partido de Los Angeles.
No entanto, e para vos ser sincero, não me sinto revoltado ou deprimido por estar aqui sozinho, por não ter notícias da minha família, por me sentir injustiçado, ou por saber que vou morrer amanhã… Esse tempo de fúria e de tumulto já lá vai; há muito que me conformei com a morte. Já passei por todas as fases que possam imaginar: já questionei a minha existência; já me perguntei porque estudei tantos anos para defender outros seres humanos, se ninguém se deu ao trabalho de acreditar na minha inocência; e também passei dias e dias a pensar: “Porquê eu?” Com tantas pessoas no mundo, porque tenho de ser eu a sofrer?
Pensei em tudo, porque tive tempo… muito tempo! Mas agora já nada me afecta, as minhas lágrimas secaram, congelaram, simplesmente deixaram de cair.
Confesso-vos: só existe um pensamento que é capaz de derreter todo o frio em que me transformei, e só existe uma lembrança capaz de me manter nesta condição de ser humano. É ao lembrar-me dela, da minha noiva, que o meu coração dispara. Era capaz de passar as últimas horas da minha vida a pensar no sorriso, na voz e nos olhos dela… Se pelo menos amanhã eu pudesse ter a oportunidade de só por mais uma vez, uma só vez, tentar decifrar todo o mistério nos seus olhos, eu seria feliz.
Aqui, sozinho, sem ela, eu congelei.
O meu nome é William Parker e, sem ela, morrerei amanhã.
Bianca de Magalhães, 10ºD
segunda-feira, 9 de maio de 2011
terça-feira, 3 de maio de 2011
Matilde - "Felizmente há luar!"

Esboça-se assim uma personagem que reúne fragmentos de coragem, de justiça, que deseja um movimento inquietantemente sincero e grita liberdade. Uma personagem a quem o amor por amor ilude, e faz dos ideais nobremente defendidos, vigaristas que balançam ora para lá, ora para cá - " Não seria mais humano, (...), ensiná-los, de pequeninos, a viverem em paz com a hipocrisia do Mundo". Perde (por momentos) a vontade de acreditar em valores honrosos, porque foram eles que fecharam as portas da cela em S.Julião da Barra. Mas não é por isso que perde a voz e grita: " O meu homem, o meu homem". Perde a vergonha, para que outros governadores do reino a utilizem contra ela, e suplica clemência. Mas continua: " O meu homem, o meu homem". Desafia o Deus que a terra criou "pois que vá abrir as do forte de S.Julião da Barra, se é capaz", dispõe-se a mendigar, pede ao povo o que um dia o povo lhe pediu a ela, chora. Mas continua: " O meu homem, o meu homem". Ouviu chamarem-lhe amante. Assistiu à morte aproximar-se e aprendeu que ela não lhe trazia o fim, mas lhe dava o braço do General, um olhar à saia verde, e um início de mudança.
Matilde de Melo, mulher do General Gomes Freire de Andrade, perdeu quase tudo (e não foi na guerra), mas entre a violência dos homens.
Teresa Stingl




































