segunda-feira, 31 de março de 2008
Poesia
domingo, 30 de março de 2008
Lista dos melhores livros
"Construir uma lista de «10 livros da minha vida»… e ficar a lamentar-me por não poder acrescentar outros tantos! Muitos mais: Safo e as Cantigas de Amigo galaico-portuguesas, os sonetos de Camões e os haikus de Bashô, o Jorge Manrique das Coplas por la Muerte de Su Padre e o Padre António Vieira do Sermão de Santo António aos Peixes. Ou o Stendhal de O Vermelho e o Negro, a Madame Bovary de Flaubert, o Camilo das Novelas do Minho e da trilogia «realista», o Marx do Manifesto, Os Maias de Eça, os contos e aforismos de Oscar Wilde e as Elegias de Duíno de Rilke. Mais os livros nucleares de Pessoa e C.ª heteronímica. E o Lorca, o Cernuda e o Ramón Gómez de la Serna. O Aquilino de O Malhadinhas e a maioria dos contos de Torga. Os livros da adolescência: As Vinhas da Ira do Steinbeck, Um Rapaz da Geórgia de Caldwell, Por quem os Sinos Dobram de Hemingway e mais uns tantos norte-americanos. O Fogo e as Cinzas do Manuel da Fonseca, o Malraux de L’Espoir, o Primo Levi de Se Isto É um Homem. E os poemas de Brecht, Neruda e Paul Celan. O Giorgio Bassani de O Jardim dos Finzi-Contini, o Sartre de As Palavras, o Kerouac de On the Road e o García Marquez dos Cem Anos de Solidão. O Octavio Paz, o Giorgos Seferis e o Drummond. Os Trinta e Três Nomes de Deus de Marguerite Yourcenar. O Roland Barthes de O Prazer do Texto. O Brodsky da Marca de Água. A Directa do Nuno Bragança, o Levantado do Chão do Saramago e o A-Ver-O-Mar de Luísa Dacosta. A Poesia Toda do Herberto Hélder e o Ciclo do Cavalo do Ramos Rosa. Os Olhos de Ana Marta de Alice Vieira, e todos os outros que gostaria de ter incluído na lista: Baudelaire, Michaux e Guillevic, Pavese e Ungaretti, o Cesário, o Pessanha e o Nobre, a Irene Lisboa, a poesia de Sena, Cesariny, Ruy Belo e Eugénio de Andrade, a de Fiama e Luiza Neto Jorge, o Mário de Carvalho de Um Deus Passeando na Brisa da Tarde…). Em suma, os «10 livros de uma vida» nem sempre são as melhores obras que lemos (aos treze lia com desvelo A Família Inglesa do Júlio Dinis e, aos dezassete, lia e relia o Howl and Other Poems de Ginsberg!). Algumas talvez não mereçam sequer uma releitura. Mas, provavelmente, são obras que determinaram mudanças na nossa vida (pelo menos, na nossa vida de leitores). Livros em que nos (re)encontrámos. Ou livros em que nos perdemos – para, em seguida, tomarmos novo rumo. Que é sempre um caminho pontuado por descobertas ao virar de cada esquina. Por isso, quando passarem alguns anos sobre esta lista, os «10 livros da minha vida» serão porventura outros. Ou talvez não. Aí ficam, então, os dez de agora. Sem hierarquia, pela ordem alfabética do apelido do autor.
1. Livro Sexto de Sophia de Mello Breyner Andresen
2. Seis Propostas para o Próximo Milénio de Italo Calvino
3. O Homem dos Lobos e Totem e Tabu de Sigmund Freud
4. Poemas e Prosas de Konstandinos Kavafis
5. Jogo de Espelhos de David Mourão-Ferreira
6. Trabalho Poético de Carlos de Oliveira
7. Em Busca do Tempo Perdido – Do Lado de Swann de Marcel Proust
8. Até Amanhã, Camaradas de Manuel Tiago
9. A Arte de Viver para as Novas Gerações de Raoul Vaneigem
10. Sapato de Fogo e Sandália de Vento de Ursula Wölfel"
Exemplo de escolhas baseadas no impacto histórico são as obras "Gaibéus", de Alves Redol, "na altura, um livro emblemático para o neo-realismo" - o autor escreveu outro "claramente superior", "Barranco de Cegos", sublinha - ou "Retalhos da Vida de Um Médico", uma obra de que Pinto do Amaral gosta menos do que de outras de Fernando Namora, mas o número elevado de edições, as adaptações à televisão e ao cinema tornaram-na incontornável. Há ainda o caso de "A Selva", de Ferreira de Castro, traduzido em diversas línguas e "um dos mais lidos na geração dos nossos pais ou dos nossos avós, embora haja quem tenha muitas reservas quanto ao mérito literário de Ferreira de Castro".
E há escolhas polémicas? "Algumas obras não são muito óbvias. Por exemplo, o romance 'A Origem', de Graça Pina de Morais, é belíssimo, mas sinto que pode ser uma escolha polémica na medida em que não é evidente."
Quanto às obras excluídas, Pinto do Amaral afirma: "Há tantas...! É muito fácil dizer que há livros que poderiam estar aqui e não estão, mas é mais difícil apontar o livro que saía para esse entrar..."
A selecção abre com "A Cidade e As Serras", de Eça de Queirós - obra escrita ainda no século XIX, editada, postumamente, em 1901, mas que Pinto de Amaral quis incluir como homenagem a Eça - e fecha com "Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura", de António Lobo Antunes. Não há antologias colectivas, nem repetições de um mesmo autor - Fernando Pessoa é representado pelo ortónimo e heterónimos. Há, no entanto, uma excepção: Maria Velho da Costa, que está representada com "Maina Mendes", obra "incontornável", e com "Novas Cartas Portuguesas", de que é co-autora com Isabel Barreno e Maria Teresa Horta, "um livro sui generis, ímpar", que "não poderia deixar" de estar na lista.
Poucos são os livros datados do início do século XX, porque a maioria ainda surge colada ao espírito do século anterior. Também não foram incluídas obras de jovens autores (Clara Pinto Correia, nascida em 1960, é a escritora mais nova, representada com "Adeus, Princesa"). "Nos últimos anos houve grandes revelações, e de pessoas muito novas, mas ainda não há distância suficiente", refere Pinto do Amaral.Os textos são curtos, contêm informações essenciais sobre obras e autores, houve alguma preocupação didáctica mas este livro não foi concebido a pensar em eruditos, académicos: o objectivo é a divulgação da literatura portuguesa, quer internacionalmente, quer nacionalmente (a primeira edição, de1400 exemplares, é em português e inglês, está a ser feita uma segunda de mais de quatro mil, e estão previstas edições bilingues em castelhano e francês). "Procurei escrever textos para que o leitor ficasse com uma ideia de cada um dos 100 livros, não tive a preocupação de dar bibliografia acessória, estudos, etc. No fundo, é também um livro lúdico."
terça-feira, 18 de março de 2008
Oficina de Escrita 12ºAno
Pe. António Vieira
Esta é a realidade do presente, do séc. XVII, preconizada por Pe. António Vieira .
Pressuposto: Para interpretar a afirmação de Pe. António Vieira à luz destes tempos actuais é imperativo ultrapassar a visão de Deus como uma entidade suprema - e unicamente Cristã - e encará-lo como uma realidade metafísica e ontológica indissociável do Homem. De outra maneira, é impossível identificar e reconhecer o nosso presente na expressão supracitada.
O mundo em que vivemos é, sem dúvida alguma, um teatro em que cada um de nós desempenha um papel que segue um enredo específico, definido, e quase predestinado, pelos muitos deuses que escolhemos para regerem a nossa vida: sim, porque contrariamente ao referido na afirmação, estes tempos parecem não ser os da Graça de Deus, mas os da Desgraça do Paganismo. Estamos numa era de falsas idolatrias - da adoração do Deus-do-Dinheiro, da veneração exacerbada do Deus-do-Conhecimento, do culto a um Deus-Egocêntrico - , numa época que é de preocupação com o acessório e ilusório e não com o essencial e estrutural.
Estamos cegos.
E deixamos de ser actores nesse teatro que é a vida para sucumbirmos às mãos desses deuses ex-machina, que fazem de nós marionetas, completamente impotentes à sua mercê.
Mas acredito também que, no dizer do André Malraux, “O século XXI será religioso, ou não será”. Acredito que Pe. António Vieira não estava errado em preconizar um tempo em que todos os homens se acolham no regaço de um Deus-Universal. E acredito, acima de tudo, no Homem e na sua capacidade incondicional de amar.
Francisco Silva
12ºB
O século XX, acabado há pouco, não gostava nada de Deus. De facto, de há uns séculos para cá que Deus já não serve de razão para a barbárie humana, pelo que foi posto de parte. O século XX viu mais de um milhar de razões para justificar os cem anos mais sangrentos da História – entre genocídios, duas Guerras Mundiais e muitas mais locais, bombardeamentos nucleares, atentados terroristas e privações de liberdades básicas, inúmeras razões foram esgrimidas pelos homens numa tentativa (vã?) de legitimar os seus actos. De todas estas, só uma se revelou verdadeiramente universal. Uma apenas estava sempre presente, e era escondida pelas restantes. Refiro-me ao dinheiro, a riqueza. E a ganância humana não conhece limites, pelo que o século XX viu o crescimento da economia até esta assumir o papel mais importante de qualquer sociedade – o que é comprovado pelo crash da bolsa americana que teve repercussões em todo o Mundo; ou pelas inúmeras guerras cometidas em nome do petróleo e de outros recursos.
No alvorecer do novo século, a Humanidade confronta-se com uma decisão difícil. Uma vez mais, é preciso trocar de razão universal para justificar a barbárie. Desta vez, não é porque a riqueza já não serve para justificar. Não. O Homem tem de olhar a atrocidade como atrocidade, como acto desumano, sem justificação. Tem de parar de se justificar, lavar a cara e deitar mãos à obra. O ser humano já provou ser capaz de cometer os maiores crimes contra a Natureza, contra as sociedades, contra si próprio. E já provou também que consegue redimir-se. Já fechou o buraco da camada de ozono. Já reconstruiu a Europa das cinzas das Guerras Mundiais. Já salvou espécies animais, já usa energias renováveis. Mas esta geração será conhecida como a Geração da Ressaca, se continuar a fazer pouco, a mostrar-se desinteressada, enquanto à sua volta a História se afunda lentamente. Ou então, será a Geração da Recuperação, pronta a resolver qualquer problema, tentando restabelecer a ordem mundial com base em valores morais e éticos. Que se cumpra o V Império!

É esta a magia do “reinventor do Português Moderno”: a capacidade de olhar para dentro de si próprio mais do que outro homem alguma vez ousou e de descobrir, no seu íntimo, infinitas realidades torna-o um ícone da Literatura.
Francisco Silva
12º Ano B
Oficina de Leitura 10º Ano (Diário)
Outra sugestão, para os mais corajosos: um diário muito especial que retrata a visão de um estrangeiro sobre o Portugal salzarista dos anos 40:
Era o único diário de Eliade que, por vontade do autor, só podia ser publicado depois da sua morte e "o único manuscrito", o que criou "dificuldades de transcrição e algumas incorrecções", disse à agência Lusa o tradutor, o jornalista romeno Corneliu Popa.
Trata-se de uma obra de cerca de 300 páginas, publicada pela editora Guerra & Paz, e inclui um estudo de um sobrinho de Eliade, o crítico literário Sorin Alexandrescu, que virá a Portugal em Abril para apresentar o livro.
Mircea Eliade (1907-1986), autor de "O Mito do Eterno Retorno", "Tratado da História das Religiões" e "O Sagrado e o Profano", foi adido de imprensa e adido cultural da embaixada da Roménia em Lisboa entre 1941 e 1945.
O autor estava em Portugal quando terminou a II Guerra Mundial: "Salazar, que tinha cometido a `gaffe` de ordenar luto pela morte de Hitler e tinha sido injuriado na imprensa anglo-americana, corrigiu o erro rompendo as relações com a Alemanha, fechando a Legação e congelando os fundos alemães", anotou Eliade no seu diário, no dia 10 de Maio de 1945.
O escritor romeno conheceu pessoalmente Salazar, que retrata com simpatia ("É menos rígido visto de perto").
Eliade ficou "fascinado" com a poesia de Camões e "o charme indescritível" de Sintra e apreciava "Os Maias", de Eça de Queiroz, realça também o tradutor. Contudo - acrescenta - "o Portugal que ele descreve é um país bastante atrasado, muito rural e até triste".
"Não sei porquê, Portugal parece-me cada vez mais triste. Prestes a morrer. É um passado sem glória", escreveu Eliade no dia 3 de Outubro de 1943.
A passagem do autor por Portugal ficou também marcada pela morte da sua mulher, em 1944.
Fonte: Agência Lusa
quarta-feira, 12 de março de 2008
Oficina de Leitura 10º Ano (Diário)
http://www.youtube.com/watch?v=NMIzhxcXnxA
http://www.youtube.com/watch?v=5Wh-JckS5Rs
http://www.youtube.com/watch?v=2RnSoS6NNlM
Cada endereço corresponde a uma parte diferente.
segunda-feira, 10 de março de 2008
Sugestão de leitura 10ºAno

Acabadinho de sair...
Deixo as palavras do autor, retiradas de www.asa.pt
Gabriel García Márquez
O Amor em Tempos de Cólera
Motivação para a leitura. Mesmo sabendo que o livro é sempre melhor...
domingo, 9 de março de 2008
Explora novos mundos. Lê.
sexta-feira, 7 de março de 2008
Aviso à navegação
O mesmo se passa com o Secundário. Alterações no Exame Nacional de Português de 12ºAno. Para os interessados, deixo também o endereço:http://www.gave.min-edu.pt/np3content/?newsId=164&fileName=IE_portugues_639_08.pdf
Um soneto muito especial... 10ºAno
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já foi coberto de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.
E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.
quinta-feira, 6 de março de 2008
Há barcas no cais...

. Caracterização do Frade
Também os seus elementos cénicos são pouco próprios de um homem de igreja, revelando o seu carácter cortesão e a subversão moral deste suposto homem santo. A espada e o escudo, bem como a Moça, representam os pecados que o Frade cometeu e os votos que quebrou.
Apresentando como argumentos de defesa a sua (falsa) devoção (“com tanto salmo rezado?”) e o seu próprio estatuto religioso (“E est’hábito no me val?”), o Frade não é sequer digno das palavras do Anjo, para quem a própria presença de Florença constitui um insulto à fé cristã. O Diabo recorre à ironia e ao sarcasmo com frequência nesta cena (“Devoto padre marido”), expressando bem a euforia que sempre o acompanha quando detecta potenciais candidatos ao fogo infernal.
A linguagem desta personagem está carregada de termos religiosos, No entanto, o seu comportamento é totalmente mundano, revelando dissolução moral e relaxação dos costumes.
Durante toda a cena, é possível observar os vários tipos de cómico. O cómico de linguagem é introduzido ora pelo Parvo (“Furtaste o trinchão, frade?”), ora pelo Diabo, que criticam com ironia e humor as acções do Frade em vida. O cómico de situação e de carácter é perceptível durante a lição de esgrima, quando a personagem brame a sua espada e revela um carácter folião e divertido.
Esta cena e esta personagem constituem, como é aliás apanágio de Mestre Gil, uma crítica feroz ao Clero de então (“Eles fazem outro tanto”). Note-se, por fim, a simbologia do nome da Moça (Florença), que remete para a cidade italiana e para o país da Reforma.

Brízida Vaz apresenta como elementos cénicos “as moças que vendia” e um armário, que traduzem os seus pecados: a prostituição, o roubo (“furtos alheos”), a feitiçaria (“três arcas de feitiços”) e a mentira (“seiscentos virgos postiços”, “três almários de mentir”, “dois coxins de encobrir”). O facto de trazer o armário consigo denota uma certa esperança na continuidade da sua actividade post-mortem.
A linguagem utilizada por esta personagem é extremamente ambígua. Por um lado, recorre ao vocabulário religioso, de forma hipócrita e descarada, proclamando-se “apostolada”, “angelada e martelada”, ou seja, uma mártir, comparável a Santa Úrsula pelas moças que “converteo”; por outro lado, adopta um registo de sedução (perante o Anjo): “meus olhos”, “Anjo de Deos, minha rosa”, “meu amor, minhas boninas / olho de perlinhas finas”, tentando criar uma certa proximidade com o interlocutor e persuadi-lo a deixá-la embarcar.
Nesta cena, é notória a ausência de argumentos de acusação, o que pode ser justificado pelo facto de a própria personagem os referir no seu discurso (“eu sô aquela preciosa / que dava as moças a molhos, / a que criava as meninas / pêra os cónegos da Sé…”). Visto o Anjo recusar embarcá-la na Barca Divinal, dirige-se ao Arrais do Inferno, sendo bastante bem recebida pelo último. Note-se, finalmente, como se alarga nesta cena a crítica ao clero (“a que criava as meninas / pera os cónegos da Sé”).
Bárbara Pereira
Gil Vicente evidencia, nesta cena, que quem quer desfrutar dos prazeres carnais e materiais jamais poderá desfrutar dos espirituais: “entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que seguem por ele” (Mateus, 7: 13)
Pedro Cardoso

. Caracterização do Judeu
Tentaria igualmente aliciar o Fidalgo (“Ao senhor meirinho apraz? / Senhor meirinho, irei eu?”), o que denota que seria prática corrente a obtenção de favores da nobreza a troco de dinheiro.
Nem as imprecações que lança (“lodo, chanto, fogo, lenha”) conseguem descomprometer o Judeu da sua condição de pecador.
É Joane, na sua intervenção marcada pelo cómico de linguagem, que acusa o Judeu de ter roubado, profanado e desrespeitado o jejum (“mijou nos finados”, “comia a carne da panela / no dia de Nosso Senhor”), alertando para a sua falsa vivência religiosa.
Assim, o Diabo consente a passagem do Judeu, marginalizando-o, no entanto, pois “era mui ruim pessoa” e iria “à toa”, com “o cabrão na trela”.
Mestre Gil denuncia, portanto, a marginalização de que eram alvo os judeus, deixando Semifará de fora, mesmo que do Inferno.
António Cerejo

. Caracterização do Corregedor e do Procurador
Chega então o Procurador, carregado de livros que, como no caso do Corregedor, demonstram a continuidade dos seus crimes, além do seu conhecimento e estatuto intelectual. Demonstram ambos uma intimidade extrema quando se vislumbram, comprovando a sua cumplicidade até nos crimes – "Bejo-vo-las mãos, Juiz!". Também o Procurador não tem consciência da inevitabilidade da sua situação, crendo que o Demo está zombando ("Jogatais de zombador?") E surge depois uma das mais importantes críticas da cena, a falsa religiosidade das personagens. O Demo avisa-os de que iram para o Inferno, e o Procurador responde em tom muito seguro que não esperava a morte e por isso não se tinha confessado. Logo o Corregedor afirma que confessou todos os seus pecados, mas tudo quanto roubou encobriu ao confessor. E após este discurso de confissão, ainda está certo da sua salvação, o que revela a sua hipocrisia.
Por fim, a crítica do Anjo e do Parvo tem por base o “peso” dos pecados dos "filhos da ciência", pelo que não embarcaram na Barca da Glória. Ambos resignar-se-ão no final da cena e com Brízida Vaz, conhecida sua, embarcam para a Terra dos Danados…
Ana Isabel Costa

Mestre Gil introduz nesta cena um enforcado que morreu condenado devido à vida pecaminosa que levou. Como elementos cénicos, traz um “burel” e um “baraço”, denunciadores da sua condição de supliciado e criminoso.
Na verdade, o protagonista apresenta-se como uma personagem ingénua, pois acreditou no discurso erróneo de salvação proferido por Garcia Moniz (“diz que os feitos que eu fiz/ me fazem canonizado”).
Dócil e volátil, após reconhecer a perfídia de quem o julgou, continua crédulo (“mil latins/ mui lindos”), mas já triste e resignado (“E ele leva a devação / que há-de tornar a jentar… / Mas quem há-de estar no ar” e “Não me falou em ribeira / nem barqueiro, nem barqueira,/ senão logo ó Paraíso”), apresentando-se uma vítima da sua própria condenação, já que se insere numa classe marginalizada, razão pela qual o Arrais dos Céus não entra em cena (o enforcado já tinha sido condenado em vida).
Embora simples e vulnerável, revela, tal como a maioria das personagens anteriores, uma falsa religiosidade (“eram horas dos finados / e missas de São Gregório”).
Em suma, Gil Vicente, no seguimento da cena anterior, pretende denunciar as falhas da justiça terrena, alargando a crítica à classe jurídica, já que a verdadeira e única justiça é a divina.
Ana Lúcia Rebelo
. Caracterização dos Quatro Cavaleiros
Com uma entrada triunfal em cena, “cantando” um hino apoteótico, os Quatro Cavaleiros provam que a salvação apenas é alcançada pela fé (“pelo qual Senhor e acrescentamento de Sua santa fé católica morreram em poder dos mouros”). Além disso, a cena propõe a santificação da guerra (“Absoltos a culpa e pena per privilégio que os que assi morrem têm”).
Convictos da entrada na Barca de Glória, recorrem a uma linguagem exortativa e alegre, dirigindo-se desde logo ao batel divinal, “passando per diante do batel dos danados”, sem se deterem e quase ignorando o Diabo.
O Arrais do Inferno, perplexo com tal actuação, acaba por se submeter aos Cavaleiros, que falam com altivez e dignidade (“Vós, Satanás, presumis? / Atentai com quem falais!”), afirmando que “quem morre por Jesu Cristo / não vai em tal barca como essa!”).
Por fim, caminham até ao Arrais Sagrado, que os recebe e os defende (“que morrestes pelejando / por Cristo, Senhor dos Céos!”; “quem morre em tal peleja / merece paz eternal).
“E assi embarcaram”, salvos pela fé e corroborando a máxima da doutrina cristã “Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor de justiça, porque deles é o reino dos Céus".
Finalmente, acrescente-se apenas que esta cena parece assumir-se como moralidade do próprio Auto: “neste rio está a ventura / de prazeres ou dolores!”.
Ana Lúcia Rebelo