sábado, 3 de maio de 2008

Menção Honrosa em Concurso Literário

A Ana Filipa Redondo, do 10ºD, obteve uma Menção Honrosa num Concurso Literário. Deixo, com orgulho, o texto, como forma de homenagem:



O bom amigo de Maria

Eu era um livro, só mais um conjunto de páginas com uma capa, que nem sequer bonita era, igual a tantos outros.
Houve um tempo em que era mesmo somente mais um livro pousado na estante da sala de alguém, esquecido no tempo e coberto de pó. E não tinha eu tudo para ser um dos livros da fila da frente, frequentemente retirado e lido como se fosse a primeira vez? Afinal fora escrito por Eça de Queirós, era “Contos”, e fazia parte do programa escolar no 9ºano, e sabia-o porque a filha do Senhor Ferreira comentou várias vezes que só estava a ler aquela "seca" por ter sido obrigada pela senhora Professora de Português (ela dissera “stôra”, mas eu prefiro não ir nessas modernices). Portanto, além de não ser um livro muito requisitado, era também uma "seca".
Não sei onde os jovens de hoje em dia vão buscar estas novas palavras, que nem nos dicionários constavam. O meu amigo Laranja, alcunha baseada na cor da sua vistosa capa, que é um dicionário do século XIX, dizia, quando ainda estávamos na mesma fila, que nas suas páginas a palavra "seca" não tem o mesmo significado de "maçada".
Mas a Joana não gostou das histórias que lhe tinha para contar e rapidamente me abandonou no fundo da estante dos seus livros, deixando à minha frente biografias de gente famosa e outros livros do género “Como deixar teu cabelo perfeito”. E assim era antes a minha vida.
Num dia condenado a ser mais um da minha triste existência, fui subitamente acordado por uma forte luz. Já não via tanta luz desde que Joana tinha terminado as suas aulas de Português sobre os meus contos e isso sucedera-se há dois longos anos. Escondi as minhas páginas o mais que pude atrás da grossa capa que me protegia, tal como uma tartaruga na sua carapaça. Senti alguém a mexer nos livros à minha volta até que uma pequenina mão me retirou do meu triste lugar e me pousou no seu colo.
Tinha cinco anos e era a filha mais nova do Senhor Ferreira, o filho do homem que me tinha comprado. O longo cabelo liso caía sobre a minha capa à medida que a sua cabeça se debruçava para me ver melhor. O primeiro pensamento que tive quando vi Maria foi o perigo que o pó acumulado em mim constituía para o seu lindo cabelo.
Começou a folhear-me e conseguia sentir novamente a alegria de ser aberto, tocado por alguém. Os seus dedos pequeninos percorriam as minhas páginas sem parar muito tempo e comecei a perguntar-me o que ela procurava. Era evidente que ainda não sabia ler e os seus olhos abriam-se cada vez mais a cada página passada. Mais tarde aprendi a admirar aqueles grandes olhos, sempre curiosos, a observar tudo e todos.
Fechou-me, mas não da maneira descuidada e até zangada da irmã, mas com uma leveza que até a mim me surpreendeu. Transportou-me cuidadosamente nas suas mãos até à porta da biblioteca, onde eu havia passado a maior parte do meu tempo até ser, como costumava pensar, raptado por Joana. Bateu duas vezes e uma grossa voz respondeu do outro lado. Soube logo quem lá ia encontrar.
Lá estava o Senhor Ferreira, entre montes e montes de folhas cheias de cálculos complicados que até eu, um livro tão vivido, não conseguia decifrar. Era contabilista e trabalhava numa grande empresa em Lisboa, mas só lá ia uma vez por mês, já que morava em Tomar. Quando ainda me encontrava na biblioteca, ouvia-o muitas vezes tratar dos seus assuntos por telefone ou pela internet, o que sempre achei muito suspeito. Naõ era eu que confiava num homem que via uma vez por mês!...
Lá entrámos, eu ainda bem guardado entre as mãos e o peito dela, e Maria dirigiu-se ao pai. Acabava por ser um quadro caricato, pois ela quase se tinha de pôr em bicos de pés para o ver, ainda mais entre tanto papel.
-Papá?
-Diz Maria, mas rápido, que o pai está cheio de trabalho!
Típico do Senhor Ferreira. Para ele o trabalho estava acima de tudo, e nem o olhar doce da filha mais nova mudava essa atitude.
-Eu encontrei este livro no quarto da Joana e queria perguntar-te se o posso levar para o meu quarto.
O pedido era tão estranho, que ele até levantou os olhos do livro que estava a estudar, com um ar confuso. Também não estava a perceber bem o que se passava. Para que é quê uma criança de cinco anos iria quer um livro como eu, que nem imagens tinha?
-Por que é que o queres? Ainda não sabes ler, filha.
-Pois não, mas tem uma capa bonita e... e.... oh pai, deixa!
Ainda desconfiado, o senhor Ferreira lá anuiu e com um gesto despachou a filha, dizendo que tinha mesmo de acabar aquele livro.
Apesar da pouca atenção dispensada pelo pai, Maria saiu da biblioteca com um sorriso na cara e foi a saltitar que se encaminhou para o jardim. Era esta a parte mais bonita da casa, o jardim.
Lembro-me como se fosse ontem do dia em que cheguei à casa dos Ferreira, e desde essa altura que não se tinha modificado muito. Continuava a ser um antigo palacete rodeado de campo, mas não demasiadamente longe da cidade, como notei quando ia na pasta de Joana para a escola. Tinha vários quartos e a cozinha ainda era daquelas que possuía uma copa. A casa no seu conjunto era uma beleza, mas o jardim chegava a ser um sonho.
Grande, com uma fonte no meio e uma vista incrível, era um excelente sítio para se ler. Era aí que o senhor Ferreira, pai do actual dono da casa ou, como eu digo, o meu senhor Ferreira, passava o seu tempo de leitura. A mim levou-me muitas vezes e sempre que me lembrava destes tempos sentia novamente o que era ser importante para alguém.
Foi para esse mesmo jardim que Maria me levou, passados tantos anos. As suas mãos eram parecidas com as do avô, diferindo, obviamente, no tamanho. Tinha os dedos finos e suaves e, ao virar as páginas, não dobrava as folhas. Parecia sempre que uma brisa tinha passado e, acidentalmente, a folha se tinha virado.
Sentou-se debaixo do enorme chorão que se encontrava num dos extremos do jardim e, estranhamente, aproximou-me do seu nariz.
-Tens um cheiro diferente dos outros livros que já cheirei, mas diferente é bom, sabias? Toda a gente diz que eu sou diferente, mas eu não me importo, porque se isso quer dizer que não sou como a minha irmã, tudo bem. Já viste o que era conseguir chegar à idade dela e ser assim? Nem valia lutar por isso.
Não percebia por que falava comigo, mas o sentido das suas palavras era-me muito claro. Se eu tivesse leucemia, lutasse para viver mais anos e acabasse como Joana também pensaria que não valia a pena.
Ah, ainda não vos tinha dito, pois não? Prefiro nem me lembrar muito deste facto, põe-me sempre deprimido e custa a passar.
Foi diagnosticada leucemia a Maria logo aos quatro anos, mas nem o precoce diagnóstico a podia ajudar muito. Desde essa altura que toma medicação e vai ao hospital regularmente. Há tempos em que está muito bem, outros em que, subitamente, tem uma quebra e é levada para o hospital.
Ainda me lembro dos dias em que o avô de Maria me lia enquanto pesadas lágrimas lhe escorriam pela cara, e era sempre quando a menina tinha de ficar no hospital.
Estava tão absorvido nestes pensamentos, que nem tinha reparado que Maria continuava a falar.
-... e eu sei que não sei ler, mas sabes que eu ouvi na televisão que um livro é um bom amigo, por isso resolvi que precisava mesmo era de um livro. Podia querer brincar com crianças da minha idade, pensas tu, mas já estou farta que elas pensem que eu não consigo participar nas mesmas brincadeiras que elas. Não, prefiro um amigo que me ouça. Sabes que as crianças da minha idade não gostam muito de falar. Também é verdade que não há muito a dizer sobre a nossa vida, mas isso é porque nós ainda somos muito novos e não conhecemos o mundo, como dizia o meu avô. Eu queria conhecer o Mundo; se pudesse, viajava para aquelas terras de que o avô falava nas histórias que me contava. Não sei se ele alguma vez te contou alguma, se calhar sim porque ele passava muito tempo contigo, não era? Reconheci-te logo. E o avô tinha bom gosto, és um bom livro. A tua capa é muito bonita e tens um cheiro mesmo fixe. Se calhar não é a palavra ideal para descrever o teu cheiro mas não sei bem o que dizer. Nunca nenhum dos meus livros cheirou assim. E tu não tens imagens, só palavras. Eu ainda não sei ler, mas sei uma palavra que aparece muitas vezes em ti. Sabes qual é? É "loira". O avô estava sempre a chamar-me isso e eu um dia pedi-lhe para me mostrar como se escrevia e decorei!
Tinha uma felicidade tão inocente no rosto, que até dava vontade de chorar, se conseguisse.
Maria falava, falava e o facto de eu não poder responder não parecia importar. Pelo contrário, referiu muitas vezes que falar comigo era a melhor parte do dia e que era um óptimo ouvinte.
Contou-me imensa coisa. Entre os seus repetidos ‘sabes’ e ‘quês’ descobri que foi procurar um livro à estante não só pelo que ouviu na televisão, mas também porque queria ver se decorava mais algumas palavras. O seu desejo de ler era tão grande como o medo de não ter tempo para o fazer. Repetia várias vezes que podia não chegar a ter tempo de ir à escola, que quando menos esperasse podia ir ter com o avô. Era a sua maneira de se referir à morte e várias vezes me interroguei se tinha sido boa ideia contar tanta coisa a Maria. Concordo que ela devia saber algumas coisas sobre a sua doença, mas o conhecimento total sobre as consequências que daí advinham surpreendiam-me. Ela também sabia, por exemplo, que dentro de pouco tempo iria deixar de ter cabelo e apercebi-me pela sua voz que era uma das coisas acerca da doença que mais lhe custava.
Tornei-me quase como o seu diário. Sabia o que Maria mais gostava e o que mais a irritava. Sabia os seus medos e desejos. Sabia que amava a mãe, que tinha imensas saudades do avô e que se sentia triste por o pai nunca ter tempo para brincar com ela. Sabia que não se dava bem com a irmã e que não percebia como ela se podia queixar tantas vezes da escola, quando o que Maria mais queria era poder ir para uma e aprender “coisas sobre o Mundo”, eram as suas palavras. Sabia que nunca tinha visto o mar e que era um dos seus maiores desejos. Cheguei também a saber que adorava observar o céu à noite e que acreditava uma das estrelas ser o avô, tal como o Sol, quando lhe batia na cara, era ele a dizer-lhe olá ou a consola-la quando se sentia triste.
Maria tinha uma sensibilidade que nem pessoas cinquenta anos mais velhas tinham. Via o Mundo de uma maneira muito própria e curiosa. Observava tudo o que se passava, abrindo muito os olhos quando alguma coisa a espantava, tal como vez quando me abriu pela primeira vez.
Um ano passou desde aquele dia em que fui retirado da estante poeirenta, e Maria foi para a escola aprender a ler e escrever. Ficou desiludida quando viu que nem um mês, nem dois, nem três chegaram para ela conseguir perceber as minhas histórias. Mesmo que conseguisse, acho que nunca lhe diria que eu era um livro demasiado complicado para a idade dela. Liguei-me ainda mais a Maria do que ao meu Senhor Ferreira, e não queria que ela desistisse de mim.
Era uma relação de dar e receber. A menina tirou-me da solidão, das filas de trás esquecidas da estante. Devolveu-me a luz do dia e a alegria de ser folheado mesmo que, neste caso, não fosse para ser lido. Para Maria eu era o ouvinte que, entre as pessoas, ela nunca conseguiu encontrar. Era o bom amigo a que o comentador da televisão se referira.
Normalmente, ia com ela para o hospital, quando tinha consultas ou ficava internada. Quando era transportada de emergência não a acompanhava imediatamente, mas ao outro dia vinha-me sempre alguém buscar à mesinha de cabeceira dela.
Houve um dia, sensivelmente dois anos depois de conhecer Maria, em que ninguém me veio buscar. Passou um dia, dois, uma semana, duas semanas... e nada. Comecei a temer o pior e a confirmação chegou-me pela voz de uma das empregadas da casa que contava à outra como estavam o patrão e a patroa depois da morte da filha mais nova.
Fiquei em choque, com o pensamento totalmente paralisado. Não podia ser possível. A minha Maria não podia ter morrido, não era verdade. Apesar de parte de mim já estar à espera desta notícia, sempre tinha continuado a ter esperança de ver Maria entrar de repente no quarto a reclamar que ninguém me tinha levado para perto dela no hospital.
Nesse momento, foi o meu fim. Meses depois comecei a lembrar os sonhos que Maria não tinha cumprido. Nunca viu o mar, nunca foi a um parque infantil, nunca conseguiu fazer um grande amigo na escola, nunca foi a uma visita de estudo, por causa das consultas no hospital, e, acima de tudo, nunca conseguiu compreender as histórias que as minhas páginas contavam.
Voltei a ser um livro esquecido no tempo e nas filas mais escondidas das estantes da casa dos Ferreira e nunca mais vi a luz do sol, nem o magnífico jardim, nem o sorriso inocente de Maria.
Ana Filipa Redondo

5 comentários:

Filipa Redondo disse...

Boa noite professora !

Obrigado pela homenagem. Foi um conto que me deu muito prazer escrever e é sempre bom ver o nosso esforço reconhecido.
Concorri por insistência da minha mãe e dos colegas dela e acabou por ser uma boa ideia. Agora tenho em casa um diploma de reconhecimento e muita vontade de voltar a concorrer e, acima de tudo, escrever mais e melhor!

Obrigado mais uma vez pelo espaço que me foi "dedicado" :)

nuno correia disse...

Que texto belíssimo.
Parabéns Filipa :)

Marcelo disse...

É um texto lindíssimo e ao mesmo tempo tocante...
Parabéns Filipa e continua.

P.S.: Parece que a nossa turma tem muitos grandes autores escondidos.

Mariana disse...

Gostei muito do seu texto. Um texto que, para além de ser uma homenagem comovente ao livro, é também um testemunho de que os livros deixam memórias e têm memória. Parabéns, Filipa! Continue com essa vontade enorme de "escrever mais e melhor".

Auxília Ramos

Joana Dias disse...

Está fantástico. A Filipa tem mesmo um dom muito especial, para escrever.

:) parabéns.