sexta-feira, 8 de junho de 2012

domingo, 20 de maio de 2012

Poesia e(m) companhia

Deixo o interessante trabalho de intermedialidade dos alunos de 10ºano, que associaram à poesia motivos da pintura, música, cinema e da própria poesia...


Poema 1

ANIVERSÁRIO

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui – ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça,
com mais copos,
O aparador com muitas coisas – doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

Álvaro de Campos, 1929



A Desintegração da Persistência da Memória, Salvador Dalí



Poema 2

Adeus
Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
E eu acreditava!
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os teus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os teus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...
já não se passa absolutamente nada.

E, no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos nada que dar.
Dentro de ti
Não há nada que me peça água.
O passado
é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

Eugénio de Andrade

Someone like you, Adèle

Never mind, I'll find someone like you

I wish nothing but the best for you, too

Don't forget me, I beg, I remember you said

Sometimes it lasts in love

But sometimes it hurts instead

Sometimes it lasts in love

But sometimes it hurts instead, yeah.






Poema 3

Eu me perdi na sordidez de um mundo
Onde era preciso ser
Policia agiota fariseu
Ou cocote

Eu me perdi na sordidez do mundo
Eu me salvei na limpidez da terra


Eu me busquei no vento e me encontrei no mar
E nunca
Um navio da costa se afastou
Sem me levar

Sophia de Mello Breyner











Poema 4
Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ei-lo que avança
De costas resguardadas pela minha esperança
Não sei quem é. Leva consigo
Além de sob o braço o jornal,
A sedução de ser seja quem for,
Aquele que não sou.
E vai não sei onde
Visitar não sei quem
Sinto saudades de alguém
Lido ou sonhado por mim
Em sítios onde não estive
Há uma parte de mim que me abandona
e me edifica nesse vulto que
cheio de ser visto por mim
é o maior acontecimento
da tarde de domingo

Ei-lo que avança e desaparece
E estou de novo comigo
sobre o asfalto onde quero estar

Ruy Belo

“Ela Canta Pobre Ceifeira”

Ela canta, pobre ceifeira
Julgando-se feliz talvez;
Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia
De alegre e anónima viuvez,

Ondula como um canto de ave
No ar limpo como um limiar,
E há curvas no enredo suave
Do som que ela tem a cantar.

Ouvi-la alegra e entristece,
Na sua voz à o campo e a lida,
E canta como se tivesse
Mais razões p'ra cantar que a vida.

Ah! canta, canta sem razão!
O que em mim sente 'stá pensando.
Derrama no meu coração
A tua incerta voz ondeando!

Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência disso! Ó céu!
Ó campo! Ó canção! A ciência
Pesa tanto e a vida é tão breve!
Entrai por mim dentro! Tornai
Minha alma a vossa sombra leve!
Depois, levando-me, passai!

Fernando Pessoa, Cancioneiro


Poema 5
De mansinho ela entrou, a minha filha.
A madrugada entrava como ela, mas não
tão de mansinho. Os pés descalços,
de ruído menor que o do meu lápis
e um riso bem maior que o dos meus versos.
Sentou-se no meu colo, de mansinho.
O poema invadia como ela, mas não
tão mansamente, não com esta exigência
tão mansinha. Como um ladrão furtivo,
a minha filha roubou-me a inspiração,
versos quase chegados, quase meus.
E mansamente aqui adormeceu,
feliz pelo seu crime.

Ana Luísa Amaral, “Às Vezes o Paraíso” (1998)

Filme “Crianças Invisíveis”: “Song Song and Little Cat” de John Woo.



Enviado por Auxília Ramos

Ler - maio

terça-feira, 1 de maio de 2012

O poema


Ouvir o poema para poder falar dele. – Nuno Júdice

"Um poema, um verdadeiro poema, no qual todas as palavras estão carregadas de significado, os versos fluem musicalmente e a mensagem se solta numa leitura que privilegia a perceção sensorial, não necessita de auxiliares de leitura, pois tudo o que há a dizer está dito, no que foi efetivamente dito e no que não foi." – Duarte Magano

“Para uma composição ser verdadeiramente um poema, o recetor tem de compreender o que o poeta inscreveu nessa composição, sem que haja necessidade de o discutir, de o comparar.” – Maria Francisca Cunha

“Um poema, na sua essência, não precisa que ninguém o complemente, pois já transmite tudo o que é realmente necessário saber.” – Ana Figueiredo

"Um poema, quando executado na perfeição, é capaz de nos revelar todos os segredos pela palavra, desvendando a sua mensagem oculta." – João Sousa

“Um poema é espelho da alma do leitor. Mas, ao invés de vermos apenas um reflexo, conseguimos observar e explorar, sem desvios, todos os recantos até ao mais ínfimo pormenor. “ – António Pedro


Congresso Internacional Vergílio Ferreira

(Clicar na imagem para aceder à página oficial)

quarta-feira, 25 de abril de 2012

25 de abril

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo

Sophia de Mello Breyner Andresen

segunda-feira, 23 de abril de 2012

domingo, 22 de abril de 2012

Livro(s) do mês - abril



Atração da Flip este ano, a portuguesa lança no Brasil o aclamado romance ‘O retorno’, sobre as perdas de uma família que, como a sua, foi obrigada a deixar Angola em 1975.
O Rui da infância de Dulce Maria Cardoso teve os dois irmãos assassinados durante a guerra de independência de Angola, os nomes citados entre os desaparecidos que todas as noites a rádio listava antes da novela “Simplesmente Maria”. O Rui da literatura de Dulce Maria Cardoso imaginava se o pai, que ficara em Luanda e do qual não tinha notícias, estaria um dia naquela lista que sua irmã ouvia impacientemente todas as noites, antes de “Simplesmente Maria”, na sala de convívio de um hotel cinco estrelas em Estoril, Portugal. O Rui da literatura foi batizado em homenagem ao Rui da infância da escritora portuguesa, que, depois de viver dos 6 meses aos quase 11 anos em Angola, foi obrigada — ela e meio milhão de moradores das colônias de Portugal — a voltar para uma terra onde praticamente não havia estado. Era 1975, fim da guerra de independência de Angola, e uma nova guerra civil estava por vir. Foi nessa época que, a inventar histórias para fazer a vida mais suportável, Dulce decidiu que um dia seria escritora.

Seu Rui inventado tem 15 anos e é o narrador de “O retorno”. O romance, celebrado por jornais de Portugal como um dos melhores de 2011, chega ao Brasil no fim deste mês pela Tinta-da-china, editora portuguesa que acaba de aportar por aqui, e que em junho lançará “Os meus sentimentos”, também de Dulce. A autora, que no início de julho participará da décima edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), sempre soube que um dia escreveria sobre a experiência de “retornada”, mas não queria que seus leitores fossem como “aquelas pessoas que abrandam para verem um acidente e se emocionarem”. Após uma antologia de contos e três romances — o primeiro, “Campo de sangue”, foi publicado no Brasil pela Companhia das Letras — ela achou as palavras.

— Costumo dizer que me tornei escritora por causa dos acontecimentos que narro neste livro, mas não queria utilizar essa matéria sem mais. Demorei muito tempo até encontrar uma proposta de reflexão sobre o que ocorreu. E a proposta foi um livro sobre a perda e sobre todas as fases que uma perda tem — conta Dulce, por telefone, de Lisboa.


“Rui é o imperativo do verbo ruir”

Rui perde a casa com roseira, a cadela Pirata, as pitangas e o mar quente, as roupas coloridas, os amigos que vão para o Brasil e a África do Sul. E o pai, que não sabe se volta. Rui ganha o crepúsculo sem fim, um mar tão azul porém gelado, um casaco branco e largo para suportar o frio de sangrar os lábios e o estigma de retornado, compartilhado com outros que vivem um tanto amontoados, fazendo filas para comer, num hotel cinco estrelas pago pelo Instituto de Apoio ao Retorno dos Nacionais. Ali — “o império estava ali, naquela sala, um império cansado, a precisar de casa e de comida, um império derrotado e humilhado, um império de que ninguém queria saber” — fica à espera de outra vida por mais de um ano, dormindo com a irmã e a mãe e repetindo, para ver se acredita: “um quarto pode ser uma casa e este quarto e esta varanda de onde se vê o mar é a nossa casa”:

— Quando estava a escrever percebi que Rui é o imperativo do verbo ruir. Esse era o nome certo. Porque o que eu assisti foi o império ruir. Eu assisti ao monstro em seu movimento de queda final.

‘Portugal nunca exorcizou o império’

Escritora vê seu país sem rumos e cria protagonista adolescente como alguém capaz de redefinir o futuro

Dulce Maria Cardoso nega que tenha escolhido um personagem masculino para fugir do tom autobiográfico. Sabia que de todo modo se procurariam as semelhanças entre o romance e sua própria história — como acontece mesmo quando não há relação alguma. Além de ter crescido “assombrada” pela história do Rui de sua infância — que reencontrou há pouco tempo, por conta de uma entrevista na televisão —, era para ela um desafio pensar na diferença de gênero, que é mais marcante na adolescência, sobretudo quase 40 anos atrás.

O narrador adolescente ainda lhe servia ao propósito de pensar na possibilidade de reconstrução do que ruiu. Rui vai buscando palavras para os silêncios a sua volta, como os da doença da mãe e da ausência do pai. Angola é “lá”, Portugal é “cá”, e a política e a guerra que estão por trás de todas as mudanças em sua vida são “isto”. “Desde que isto começou”, repete o narrador.

— Os países em crise ou em convulsões são como os adolescentes, podem redefinir o que querem para seu futuro. E portanto um país em crise como Portugal foi em 1975, e como infelizmente está a ser outra vez agora, é um país sempre adolescente, porque pode fazer escolhas, haja vontade e sabedoria suficientes, o que neste caso parece não ter havido — afirma Dulce, com uma amargura recorrente em relação à história de Portugal. — Nunca exorcizamos o império. Não pensamos sobre o que fomos, estamos quase sem referências, então dificilmente sabemos do nosso lugar no futuro.


Brasil como lugar mítico, na vida e no romance

Dulce passou muito tempo assim, sem saber de seu lugar no futuro. Saiu de Angola na ponte aérea que durou até 11 de novembro de 1975, dia da independência, para viver com os avós de que não tinha memória em Trás-os-Montes, região onde nascera, no Norte de Portugal. Depois viveu dois anos com os pais, a irmã e outros retornados num hotel em Estoril. Não tem como saber se teria se tornado uma escritora fosse outra sua história, mas acredita que não.

— A realidade foi se tornando insuportável, principalmente porque Trás-os-Montes em 1975 era uma coisa terrível em termos de isolamento. E para mim não foi só perder os amigos, o clima, todos os sabores que eu conhecia. Foi também perder a própria família nuclear — conta. — Eu tornei-me a minha primeira personagem, porque comecei a inventar histórias para meu dia a dia como se estivesse a viver aventuras. Era a única maneira de a realidade me ser suportável. Aprendi a construir personagens sendo eu a primeira, e depois percebi essa coisa maravilhosa de que as histórias iam comigo para todo lado.

Sem livros em casa, Dulce não sabia como dar forma àquelas histórias. Matriculou-se num curso de datilografia, ao lado de senhoras que queriam ser secretárias, e continuou sem saber. Então passou a frequentar bibliotecas, escolhia os livros mais grossos para não ter que ir e voltar a toda hora, e lendo “de forma caótica” descobriu Dostoiévski e estremeceu com “Madame Bovary”, imaginando se aquele enredo poderia acontecer com sua mãe e sua tia. Só depois de se formar em Direito e trabalhar cinco anos como advogada, porém, ela passou a se dedicar inteiramente à escrita.

— Sou uma improbabilidade — brinca.

Bolsas e prêmios aos poucos mudaram as probabilidades. Grande parte de “O retorno” foi escrito com uma bolsa na Alemanha. Quando voltou a Portugal, diz Dulce, o país já estava sob intervenções econômicas, e foi uma coincidência lançar um livro que fala do fim do império português justo no “fim do ciclo do sonho europeu”. Ao falar da descolonização, ela conta uma história que não costuma ser conhecida. Dulce volta e meia recebe mensagens de portugueses que nunca souberam das mais de meio milhão de pessoas que tiveram que sair das colônias de Portugal — de Moçambique, diz ela, houve retornados que já viviam lá havia três gerações.

Nem lá nem cá, os retornados eram vistos como exploradores pelos angolanos e como portugueses de segunda categoria pelos da metrópole. Alguns apoiavam a independência do “povo oprimido por cinco séculos”, como diz no livro o tio de Rui, outros consideravam os soldados portugueses traidores, mas todos, de forma geral, faziam de si mesmos uma brutal diferenciação com “os pretos”.

— Se há racismo em Lisboa em 2012, como se pode pensar que em 1975 não havia? Era uma colônia, e portanto havia uma situação desequilibrada de poder. E todos os racismos partem acima de tudo de um grande desequilíbrio. Não era ostensivo como na África do Sul, mas havia um racismo que ainda hoje há, e que talvez seja o mais difícil de combater, que é o racismo de oportunidades — diz Dulce, ressaltando que seu objetivo nunca foi prestar contas, até porque está muito mais preocupada com os racismos e exclusões de hoje do que com os de 1975, com os fins de hoje em Portugal do que com o fim do império.

Naquele tempo de infância, quando o frio de Portugal e as saudades de casa apertavam, Dulce sonhava que sua família poderia ir para o Brasil. No livro, o país aparece como esse espaço de sonho, que ela realizou ao vir ao Rio na Bienal de 2005. Volta em julho a Paraty, ainda com uma ideia mítica de país à sua frente, de um lugar onde “está tudo ainda a acontecer”, enquanto Portugal se mantém “no canto da Europa, sempre a empurrar o horizonte”.

— Toda gente achava que o Brasil era uma repetição do que tínhamos perdido, por causa do clima, da maneira de ser... Depois o Brasil veio a ter conosco através das novelas, por um tempo o Brasil tinha uma grande importância, era muito bem visto e popular por aqui. Infelizmente depois, quando começou a imigração brasileira... já não é tanto — observa.

A Angola, nunca mais voltou:

— Infelizmente, e isso é uma marca do nosso processo de descolonização, Angola ficou entregue a uma guerra civil terrível, que agora já acabou, mas ficou com um regime que não é confiável... O regime angolano faz com que eu não volte lá.
Fica também o link para uma conversa da escritora com Paula Moura Pinheiro: http://camaraclara.rtp.pt/#/arquivo/233/
(Enviado por Auxília Ramos)

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Livro do mês - abril


O livro não foi escrito para amigo, conhecidos, familiares, não foi escrito para o próprio autor, foi escrito para a solidão.
João Tordo guia-nos numa viagem de desconhecimento daquilo que pensávamos que o ser humano poderia ser. De um modo despiedado, descreve tudo aquilo que o homem intimamente é, quando se entrega aos gritos da loucura. Nestas páginas, tudo se reduz à dimensão animalesca, não como justificação para o que de desumano encontramos, mas por essa ser a verdadeira essência o mundo. Lemos o homem em estado bruto, e isso não nos ofende, não produz qualquer onda de admiração. É a constatação de uma realidade que já sabíamos existir no profundo do corpo. Apesar das negações, sempre tomámos o lugar da loucura em nós como seguro.
O homem que perdeu a família num incêndio, já conhecia bem os lugares da solidão, já havia memorizado as entranhas de uma vida desfalcada. Helena amava um homem que enlouquecera dentro de um abrigo, durante a II Guerra Mundial, e que a violava repetidamente.
O caminho para o desprendimento é mais rápido e mais fácil do que aquele que nos prende a ele. É só esperar e a solidão aparece, na maioria das vezes, premeditada para nós, desejada com os dias de sol no inverno. A solidão não é um animal autónomo, não se cria abandonada e se alimenta da vida do homem. Somos nós que lhe entregamos tudo, pomo-nos à sua disposição, sucumbimos perante a sua chegada, e depois não queremos mais sair de um purgatório mental, bem melhor do que o pesadelo que transportamos todos os dias.
O Livro dos Homens sem Luz avança nas prateleiras livre de comentários. Quem o lê sabe que se trata de uma imposição de uma parede de tijolos em redor de cada um.
Diana Falcão
(Texto enviado por Hélder Moreira)


sexta-feira, 6 de abril de 2012

segunda-feira, 26 de março de 2012

Morreu António Tabucchi



Em jeito de homenagem, o artigo de João Céu e Silva, no Diário de Notícias:

A casa onde o escritor Tabucchi morava em Lisboa fica numa rua a descer para o rio Tejo e das suas varandinhas lia-se um romance inteiro apenas com o olhar. Roupas a secar ao sol que só ilumina a rua por inteiro durante muito pouco tempo; janelas de madeira desde o rés-do-chão, de onde os mais sem vergonha podiam roubar um saco de batatas ao marçano só com o esticar do braço; portas emperradas a tapar a vida aos velhos que por ali ainda moram, de onde um pontapé certeiro amolga os carros que as entaipam; passeios tão apertados que só os lingrinhas e as misses ali cabem e uma inclinação que deixava qualquer um a arfar. Era uma casa apropriada para se escrever o romance que se via dessas varandinhas, com um número qualquer pendurado na ombreira de pedra cá em baixo, algo escura ainda no primeiro andar, cuja escadaria dava logo para a sala ampla. O chão de madeira coberto com tapetes rangia um pouco e havia que ter cuidado para não se tropeçar na decoração. O escritor Tabucchi gostava de se sentar num dos sofás e falar, sempre chegado à frente, com receio que a posição colada às costas do móvel interrompesse aquele fluxo de ideias que oferecia quando estava a gostar da conversa. De uma entrevista com ele era certo poder-se fazer duas ou três e guardar ainda umas belas frases para um dia como o de ontem em que foi anunciada a sua morte. Mas não vale a pena revolver a gaveta dos blocos para encontrar a última que me deu porque ainda está muito fresca na memória. Como o escritor Tabucchi falou! Do livro em causa, das traduções, dos outros já escritos e dos ainda por escrever; de pensar em português mas não lhe ser fácil escrever nesta língua; da cultura de Portugal, de Itália e de França; da política de cá e de lá, do processo na justiça com o primeiro-ministro cantor. A rua que agora perdeu um dos seus moradores chama-se Rua do Monte Olivete, onde morava o vizinho que ao abrir a janela lia um romance inteiro na vida que passava por aquela calçada de pedra negra.
João Céu e Silva, in Diário de Notícias

sexta-feira, 23 de março de 2012

"Alma" e dia mundial da poesia












No dia da poesia, fomos ao teatro ver a excelente adaptação cénica do Auto da Alma de Gil Vicente, da responsabilidade de Nuno Carinhas – ALMA.
E no teatro não deixamos de nos cruzar com a poesia, a poesia de Teixeira de Pascoaes, em Deslumbramento e Minha aldeia na Páscoa
Caminhamos com a Alma e assistimos ao milagre, de mundo em mundo, repetido…

Partilho convosco um olhar poético de um amigo que acredita que, enquanto fazemos poesia, caminhamos e não nos rendemos à morte antecipada:  

é muito tarde e dói-me a alma
o dia trouxe-me uma coroa que não queria, de espinhos –
mas esta alma é forte como os ventos, dura como os diamantes
esta alma não se rende, não se rende nunca
esta alma que é minha, misturada com o sol e com a lua
é como um barco feito de artérias e sangue;
correndo, correndo sempre na linha direta do horizonte
qual funâmbulo
sem medo da queda nem de afogamento
lá longe
onde se junta mar e firmamento –

esta alma não é pura não é branca nem é suja
é uma alma que acredita
e por mais que doa a alma, há sempre caminho
os pés cansados, os dedos moídos e a corrida
e por mais que doa a alma, revela que existe
que é humana e que há vida –


José Ferreira, março 2012

Enviado por Auxília Ramos

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Ainda as "Correntes d'escrita"

A corrente descrita (ou Portugal e os portugueses, em 2008 e depois)

«Onde estamos, afinal? Simbolicamente, não num sítio muito diverso do que era o nosso há vinte anos, mas desta vez e para sempre não sós» (Eduardo Lourenço, Vence, 23 de outubro de 2000)

Agradeço o convite para estar aqui convosco, na 13ª edição do Correntes d’Escritas, embora sinceramente algo me custe, sobretudo por mim. Com o vosso convite, só posso ganhar e ganhar muito. Significa-me um misto de oportunidade e deslocação, não geográfica, que é curta, mas pessoal, por não ser propriamente um escritor. Escritor, que para o Dicionário da Academia é a “pessoa que escreve obras literárias ou científicas”. Isto não sou nem nunca fui bastantemente, ainda que tenha escrevinhado e poetado alguma vez, ou seguido um percurso académico discente e docente, com os respetivos encargos de investigação e redação. Nada que justifique o título.

Mas tinha de aceitar, dada a simpatia e a insistência do convite, bem como a ocasião de homenagear a iniciativa. Era irrecusável e aqui estou, pedindo-vos desculpa pela breve ocupação do tempo. E o que aqui apresento, com adiantada escusa, não é alguma visão geral do momento português no que à vida literária diz respeito - coisa que não saberia fazer -, mas a rápida descrição de algo que tenho mais à mão e ao pé, ou seja da minha própria vida como “corrente”, palavra esta que, no mesmo Dicionário, significa “água que flui, que não está estagnada”.

Pode ter algum interesse, pelo jogo de circunstâncias internas e externas que me canalizaram sessenta e tal anos de vida – o Dicionário junta esse significado de “água canalizada” –, por entre grandes mudanças de civilização e cultura, da minha terra a Lisboa e de Lisboa ao Porto, da Universidade dos anos sessenta – setenta ao que ela é hoje; como ação e interrogação, e, muito especialmente dentro e bem dentro da mais antiga instituição do nosso território, talvez a mais marcante do seu devir, por adesão ou contraste – o catolicismo português.

Uma “corrente”, de facto, e como era o Douro antes das barragens, entre larguezas e estreitezas, entre calmas e rápidos, entre vidas e mortes, músicas e choros, riquezas e misérias, mas correndo sempre para um mar ao fundo. Pelo conjunto das circunstâncias, a corrente da minha vida foi ganhando o meio do rio e do seu fluxo, encontrando-me com outras mais certas e profundas, que verdadeiramente lhe definem o caudal. Um caudal que vem de muito longe, correndo para Ocidente como a nossa história portuguesa, enquanto havia terra a sulcar, treinando-se para lavrar o mar. Uma corrente que nos transporta a todos e, só por isso, também a mim. Esta posso descrever-vos brevemente: será “uma corrente descrita”.

Começou onde geralmente se começa, na família e em duas mulheres viageiras. Uma viajava por dentro e quase só por dentro; outra também por fora, sempre que podia ser, sendo muito menos do que quereria. A minha avó materna viajou neste mundo mais de cem anos e chamava-se “Aurora”; de Lisboa para o Porto e depois novamente, longamente, no sul. A minha mãe nasceu no Porto e foi cedo para o sul onde eu nasceria, ia ela pelos trintas. Chegou aos noventa e cinco e chamava-se “Sofia”.

A minha avó não gostava de viajar por fora. Enviuvou cedo e demorou depois numa quinta pacata, ao ritmo da noite e do dia, do dia e da noite, das estações do ano e dos ciclos agrícolas. Viajava sim por dentro, por dentro da sua grande casa e das constantes reparações que gostava de fazer, reduzindo os países e continentes aos espaços domésticos que remodelava à vez, assim pudesse. Morando numa casa cheia de recordações geracionais, não gostava de velharias, nem se entretinha com elas, aderindo de bom grado às novidades do tempo, viajando com o século - ou entre séculos, pois nascera em 1890 e falava de D. Carlos e D. Manuel II, Afonso Costa ou Sidónio Pais, como nós falamos de personagens de agora. Mas sem saudades pesadas, porque a viagem continuava.

A minha mãe cultivava mais a memória e lembrava espontaneamente episódios históricos. Sobretudo nossos, pois era medularmente patriota, sem ser minimamente chauvinista, bem pelo contrário. E tinha o maior gosto em viajar para fora, assim também pudesse. E pôde pouco, porque se espraiava em atividades domésticas, religiosas, cívicas e culturais; e porque acompanhou dedicadamente os últimos anos do seu marido e da sua longeva mãe. Mas com que alegria – dela e minha – percorremos o país em curtas viagens de verão, ficando eu ainda mais intimamente conjugado entre mátria e pátria. E já nos seus oitenta, aí foi ela contente, como a revejo em fotografias que vão da Noruega à Índia… E ai dos mais novos, bem mais novos até, que não lhe acompanhassem a passada.

Esta a minha “corrente” mais próxima, entre chegadas e partidas, princípios concretos e fins almejados. Uma alusão ainda, do que dizia a minha avó à minha mãe: “ – O que queres tu ver, que não tenhas já aqui: casas, estradas, rios e pontes?”. E também: “Viajar, tendo mesmo de ser, só pela alegria que terei ao voltar para casa”. A minha mãe sorria e largava. Por isso uma se chamava Aurora e a outra Sofia.

Posso entrever nisto mesmo a corrente mais larga do nosso Portugal comum. Digamos que as identificações acontecem geralmente assim, pois ganhamos em casa o que seremos depois, caseiramente aliás. De pequena para grande, assim cantava Camões a “casa lusitana”, não podendo ser doutra maneira. Entre ficar e partir, entre partir e regressar, estamos sempre nós, particularmente nós, os portugueses.

Talvez não tenha sido só por moda “renascente” que se ligou Lisboa a Ulisses, quando a Grécia e as coisas gregas ainda gozavam de “boa imprensa”, muito justificadamente gozavam. Pode ter sido por vislumbrar no lendário viajante antigo o bom emblema dum Portugal que entretanto se fizera assim, partindo, aventurando e regressando…

Há muito que me fizeram pensar deste modo. Apontei-o também, ocasionalmente, como em Portugal e os portugueses (Assírio & Alvim, 2008), ou em Isto realmente somos, os portugueses (In Porquê para quê? Pensar com esperança o Portugal de hoje, Assírio & Alvim, 2010). Tudo por insistência externa ou surpresa minha, mas com alguma aceitação dos outros, que só pode significar coincidência de espíritos e análises. E, isto sim, é culturalmente relevante.

No primeiro dos textos, lembrava a nossa matriz judaica, como “povo da promessa”, que assim mesmo se sentiu messiânico para o mundo. Não é algo exclusivamente nosso, mas foi-o muito especialmente, pela realização geográfica que lhe demos e pela desproporção do feito, de tão poucos para tanto: “Digo, por isso, que a relação que mantemos com Portugal é, fundamentalmente, bíblica. Olhamos Portugal como uma personalidade coletiva portadora de uma alma, no sentido romântico do termo, ainda que referido a algo muito anterior ao Romantismo. E a relação que mantemos com esse gostoso e custoso coletivo vem na esteira de um outro povo, que se descobriu eleito e portador de uma missão universal” (Portugal e os portugueses, p. 10).

No segundo texto, lembrei como António Vieira assinalou o destino prévio de Santo António, muito propositadamente para indicar o nosso. António de Lisboa, entre Portugal, Marrocos e a Itália; António Vieira do Tejo ao Amazonas e do Amazonas ao Tibre, nos seus sermões de Roma; os portugueses sempre, querendo ou não querendo, mas obrigatoriamente assim.

A 22 de maio de 1670, Vieira ainda dizia o seguinte, de Santo António, dele mesmo e de nós todos: “Bem pudera Santo António ser luz do mundo, sendo de outra nação; mas uma vez que nasceu português, não fora verdadeiro português se não fora luz do mundo, porque o ser luz do mundo nos outros homens é só privilégio da Graça; nos Portugueses é também obrigação da natureza” (cit. in Porquê e para quê?, p. 15).

Era preciso algum arrojo para dizer tal coisa num sermão pregado tão fora. Mas isso nunca faltou a Vieira, mesmo para insinuar que os portugueses, para brilharem em todo o lado, nem esperariam pela graça… E hiperboliza, em Santo António e por nós todos: “Saiu como luz do mundo e saiu como português. Sem sair ninguém pode ser grande […]. Assim o fez o grande espírito de António, e assim era obrigado a o fazer, porque nasceu português” (ibidem, p. 16). Ou ainda: “Por isso nos deu Deus tão pouca terra para o nascimento, e tantas para a sepultura. Para nascer, pouca terra; para morrer, toda a terra; para nascer, Portugal; para morrer, o mundo” (ibidem).

Nisto era expansão natural; mas com o grave revês de não suportarem tanta luz, uns dos outros e ao perto. Mais: natureza tão luminosa em si mesma, além de irresistivelmente expansiva, seria inevitavelmente exilada, para se reencontrar à larga. Daí que escrevesse no ano seguinte, sempre em Roma: “… assim como Santo António foi obrigado a deixar Portugal, para ser Português, assim foi necessário que se tirasse dentre os Portugueses, para ser tão grande homem, e tão grande santo como foi” (ibidem, p. 17). Até aqui o tom parece heroico; mais abaixo, o remate nem tanto: “… luzir português entre portugueses, e muito menos luzir com a sua luz, é cousa muito dificultosa na nossa terra. Com a luz alheia vi eu lá luzir alguns; mas com a própria, […] nem santo António, quanto mais os outros” (ibidem). E a aceitação geral deste juízo, que quase adivinho em todos, evidencia bem que ainda somos nós, agora aqui, os portugueses.

Ao que vai dito, acrescentarei algo, dantes ou depois de Vieira. Como é o caso do célebre poema em que D. Dinis ironiza com os provençais, que trovavam muito bem, mas só pela primavera; sinal de que a “coita”, o cuidado amoroso, não era tão grande neles como no próprio. Vale a pena citá-lo: “Proençaes soen mui bem trobar / e dizem eles que é com amor; / mais os que trobam no tempo da frol / e nom em outro, sei eu bem que nom / am tam gram coita no seu coraçom / qual m’eu por mha senhor vejo levar”.

É um trecho muito coincidente com o que os portugueses pensam em geral de si mesmos. Recebem de fora as modas e os motivos – como era então o caso do canto provençal -, mas tudo se mergulha aqui noutra fundura, com os significados agridoces que sempre acrescentamos às saudades.

Recortado pela espada dum rei meio-borgonhês, expandido pela visão dum príncipe meio-inglês, regenerado de oitocentos para novecentos por vagas meio-francesas, quando não francesas de todo, das militares e políticas às literárias e ideológicas, Portugal foi e é ainda uma importação inculturada, nunca tendo terra nem recursos para ser doutro modo.

Isto mesmo poderíamos dizer também de outros e até generalizar. Mas a nossa geografia terminal ou o grande cais em que nos (re)tornámos, trouxeram-nos tanta terra e tanto mar que ganhámos esta atual condição de pátria de todos e ninguém – ou de ninguém para renascer de todos. Creio que Vieira e Pessoa aceitariam a caracterização. Sendo aqui profético o Romeiro de Garrett (Frei Luís de Sousa), como Portugal perdido e no entanto ali, quase pedindo um reconhecimento que o salvasse, passando do “ninguém” que se chamava ao merecido “alguém” que o despertasse, muito merecidamente despertasse. Estamos nisto tão perto dos últimos versos da Mensagem pessoana: “ … (que ânsia distante perto chora? / Tudo é incerto e derradeiro. / Tudo é disperso, nada é inteiro. / Ó Portugal, hoje és nevoeiro… / É a Hora!”.

Sim, saberiam trovar os poetas provençais, mas aqui trovava-se sempre; poderiam outros fazer algo em suas terras, mas daqui só se podia adivinhar tudo; poderiam outros manter grandes impérios, mas aqui só do nada se renasceria enfim.

Portugal culturalmente é uma teima, como geograficamente é uma praia, feita cais de partir e chegar, chegar e partir. Não é esta uma realidade unívoca, longe disso, e nem sempre foi positivamente considerada. Não foi só o século XIX que avaliou em baixa o desprezo da terra pelas miragens do mar. Do século XVI chegam-nos os lamentos bem reais de Sá de Miranda, por Lisboa nos despovoar os campos ao cheiro da canela das Índias. Ou as increpações poéticas do Velho do Restelo, contra as trocas do certo pelo incerto e do longe em vez do perto, por poder ou ganância, como não é de mais evocar em contraponto: “Ó glória de mandar! Ó vã cobiça / Desta vaidade a quem chamamos fama! / Ó fraudulento gosto que se atiça / C’uma aura popular que honra se chama! / Que castigo tamanho e que justiça / Fazes no peito vão que muito te ama! / Que mortes, que perigos, que tormentas, / Que crueldade nele experimentas!” (Os Lusíadas, IV, 95).

Todos com razão certa e sabida. Mas teríamos certamente desaparecido, se não tivéssemos partido.

As coisas são diferentes agora, até onde o podem ser no mesmo povo e língua. Diferentes demais para que uma “forma mentis” de há seis décadas – voltando à corrente pessoal – as possa facilmente perceber. Porque se trata de “cultura”, e não apenas de mais informação, embora marcada pelo acrescento desta. Cultura, como aquilo que sabemos antes de aprender tudo o mais e continuamos a saber depois de esquecermos tudo o resto. Isso mesmo que faz cada um do seu tempo, mesmo que o calendário nos faça conviver enquanto estamos, diversos por dentro mas sincrónicos por fora.

Refiro-me a uma experiência de há poucos dias, que me despertou tal sentimento. Assistia a uma conferência sobre impossibilidades e possibilidades de emprego jovem. Intervenientes vários, todos entre os vinte e os trinta anos, com licenciaturas e mestrados. Um gestor, entre o Porto e Londres, agora cá sem deixar de estar lá, casado com uma psiquiatra e entusiasmado com o que faz e sobretudo inova. Uma jovem bióloga, inteiramente votada à cura da doença de Alzheimer, e por isso passando de escolas portuguesas para inglesas, mas voltando à sua terra com a frequência que as viagens aéreas de baixo custo hoje permitem: tem de estar lá, mas não deixa de vir cá. Um jovem empresário que, por maior expansão, se mudou daqui para Curitiba, onde está com a esposa e já três filhos, deslocando-se no Brasil como nos desafiava a viver na Europa, isto é, continentalmente. Este e o seguinte – um jovem produtor cinematográfico, a trabalhar em Londres com sucesso – intervinham diretamente no debate através do Skype...

Quando me coube a mim concluir algo, foi para constatar que o ficar e o partir se equacionam agora de modo muitíssimo diferente do que ainda há poucos anos nos caracterizava em geral. Mentalmente, ficámos marcados com os êxitos (alguns) e os traumas (muitos) das emigrações forçosas para o Brasil de Oitocentos ou para a França e Alemanha de há meio século e depois. Atualmente, sem com isso descuidar a indispensável viabilidade interna para as novas gerações, somos realmente surpreendidos por novidades grandes que, em termos de comunicação e informação, alteram profundamente as vidas, os trabalhos e as mentes.

E é por tanto ineditismo que o nosso tradicional “a ver vamos” ganha hoje outro palco e outro sonho, atualizando os versos de Sophia: “Navegavam sem o mapa que faziam / […] No silêncio das zonas nebulosas / Trémula a bússola tateava espaços / Depois surgiram as costas luminosas / Silêncios e palmares frescor ardente / E o brilho do visível frente a frente” (Navegações, VI).

Aliás, um dos jovens intervenientes no debate dizia que o trabalho português era geralmente apreciado “lá fora”, em especial pela capacidade de improvisar e resolver problemas inesperados. Dizia até que a anglofonia não tinha tradução exata para o nosso plebeíssimo “desenrascanço”. Mais uma originalidade lexical, para juntarmos ao que se diz sobre a “saudade”. E é possível que entre estas duas originalidades, tão prática uma, tão poética a outra, vá singrando a barca portuguesa, nas partidas e regressos que hoje somos.

É esta a corrente que me leva e tão singelamente vos descrevo. Vou singrando, entre auroras e sofias. Vamos.

D. Manuel Clemente

Bispo do Porto, vice-presidente da Conferência Episcopal Portuguesa

Conferência de abertura do Correntes d'Escritas 2012, Póvoa de Varzim, 23.2.2012


(Enviado por Auxília Ramos)

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Exposição "Fernando Pessoa, plural como o universo"

Exposição sobre Fernando Pessoa na Gulbenkian

De 10 de fevereiro a 30 de abril, a Fundação Calouste Gulbenkian recebe a exposição "Fernando Pessoa, Plural como o Universo", concebida e organizada pela Fundação Roberto marinho e pelo Museu da Língua Portuguesa de São Paulo, onde foi inaugurada em agosto de 2010, tendo depois sido mostrada, em março de 2011, no Centro Cultural Correios, do Rio de Janeiro.

O objetivo da exposição é oferecer o vastíssimo painel de uma vida-obra e de uma obra-vida, confrontando o visitante, etapa por etapa, com um relato dos acontecimentos biográficos na sua íntima relação com a formação e a criação literária do poeta.

A exposição tem uma forte componente multimédia e interativa: filmes, vozes e sons, poemas ditos, páginas de livros e poemas que, com um só toque do visitante, se alternam e desfolham. Inclui ainda documentos inéditos, pinturas e alguns objetos que nunca foram expostos em Portugal.

Paralelamente, e em colaboração com a Casa Fernando Pessoa, são realizadas atividades complementares, entre as quais um programa educativo que inclui visitas-jogo, visitas orientadas e oficinas de escrita e teatro, para escolas e grupos organizados.

Deixo alguns links úteis:




E o testemunho de Guilherme d'Oliveira Martins:


Fernando Pessoa, Plural como o Universo

A exposição «Fernando Pessoa, Plural como o Universo», no âmbito do Ano do Brasil em Portugal, resulta de uma iniciativa do Museu da Língua Portuguesa com o apoio das Fundações Roberto Marinho e Calouste Gulbenkian e apresenta-nos o multifacetado autor português como um dos símbolos do século XX. Os seus escritos são uma oportunidade extraordinária para compreendermos a relação do poeta com o mundo e a sua intuição genial para no-la revelar a partir de diversas perspetivas e personalidades.

 
SINGULAR LEITURA DO UNIVERSO

Fernando Pessoa representa o seu tempo de um modo singularíssimo, ligando a leitura do universo à circunstância de ser português – esse curioso casamento entre a história de um povo que o escritor procura interpretar e uma reflexão cosmopolita e universalista, que assume com todas as consequências, é uma característica única, que torna fascinante a leitura de uma obra caleidoscópica, que não pode ater-se a uma cultura particular. Contudo, sem ser redutora, a perceção da identidade própria é feita à luz de uma consciência universalista. Como disse Eduardo Lourenço no fecho do seu imprescindível «Pessoa revisitado», o poeta «foi uma espécie de aparição fulgurante descida das brumas culturais alheias ao nosso desterro azul, para nele inscrever em portuguesa língua o mais insubornável poema jamais erguido à condição exilada dos homens na sua própria pátria, o universo inteiro». Assim se podem entender os paradoxos e as contradições que tantas vezes encontramos e que mais não são do que a aceitação de que uma cultura é sempre complexa e heterogénea, abarcando elementos diversos. Estamos perante a imperfeição de que fala Lourenço, que exige sempre a abordagem de diversos caminhos, sobretudo evidente numa cultura como a portuguesa, nascida originalmente numa finisterra de múltiplas presenças e depois espalhada pelo mundo como cultura de várias línguas e língua de várias culturas. A relação entre o ortónimo pessoano e os principais heterónimos (Caeiro, Reis, Campos e Soares) corresponde, assim, a uma curiosa representação da pluralidade do universo. A modernidade de Pessoa tem, no fundo, a ver com essa projeção, que nos leva ambiguamente ao conceito de Quinto Império – incompreensível sem referência a Vieira, o imperador da língua portuguesa, e sem ligação à espiritualidade da comunicação. Em vez de um projeto de domínio temporal, estamos diante da exigência de um diálogo, em busca da diferença. No entanto, diálogo obriga a que cada um e cada cultura se afirmem tal como são, sem a tentação de se dissolverem mutuamente. Por isso mesmo Caeiro, Campos ou Reis são profundamente diferentes, e Fernando Pessoa, ele mesmo, tem uma perspetiva própria e diferente sobre a vida e o mundo.

A CONSIDERAÇÃO DOS MITOS

«Desejo ser um criador de mitos, que é o mistério mais alto que pode obrar alguém da humanidade» - afirmou Pessoa. E António Quadros disse que «mais perto andaremos do pensamento de Fernando Pessoa» se virmos os heróis da «Mensagem» como «protagonistas de um macromito, com seus símbolos e cifras, o mito do Regresso ao Paraíso, dentro do qual se desenvolvem os micromitos de um Portugal – eleito de Deus, em ação profunda no duplo plano do ideal cavaleiresco e do inconsciente coletivo nacional…». Ora, os mitos permitem interrogar as raízes e o desenvolvimento de uma identidade, e essa abordagem crítica abre as portas para a superação de uma mera lógica defensiva ou retrospetiva. Nesse sentido, compreende-se que os amigos presencistas de Pessoa tenham lamentado a publicação da «Mensagem» antes do outro manancial poético do autor. O poeta não deixou de concordar junto de Adolfo Casais Monteiro, mas preferiu falar de um momento crítico de «modelação do subconsciente nacional». Mas será Eduardo Lourenço, ainda ele, quem melhor articulará a necessidade crítica da consideração dos mitos pessoanos com a interrogação de Antero de Quental sobre «as causas da decadência dos povos peninsulares», com a obrigação crítica da geração de 1870 e em especial de Oliveira Martins, com a vontade de renascimento de «A Águia» e com o ensaísmo seareiro. A heterodoxia do autor de «O Labirinto da Saudade» tem a ver, afinal, com a recusa das escolas dominantes ou dos grupos instalados, mas sobretudo pretende obter liberdade para seguir a necessidade crítica não acomodada à lógica positivista – de modo a partir dos mitos, a fim de poder compreender a sociedade e a cultura na riqueza das suas idiossincrasias. Afinal, Pessoa dissera sobre «Orpheu» a Cortes-Rodrigues que tinha como objetivo «agir sobre o psiquismo nacional», trabalhando-o por «novas correntes de ideias e emoções», sendo uma espécie de «ponte por onde a nossa Alma passa para o futuro». Eis por que motivo qualquer leitura superficial ou unívoca da obra pessoana pode conduzir num sentido redutor e incapaz de a compreender. Alberto Caeiro, o mestre, assume o panteísmo naturalista. Diz Campos: «O meu mestre Caeiro não era um pagão: era o paganismo». «Passa a árvore e fica dispersa pela Natureza. / Murcha a flor e o seu pó dura sempre. / Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre a que foi sua. / Passo e fico, como o Universo». Ricardo Reis afirma a nostalgia dos deuses gregos e romanos, Álvaro de Campos é o cantor da civilização mais moderna. Fernando Pessoa procura transcender, reunir, completar («seria um pagão, se não fosse um novelo embrulhado para o lado de dentro»). Segundo Quadros trata-se de uma catarse, pela qual podemos, a um tempo, encontrar o poeta em toda a sua riqueza interior multifacetada, bem como entendê-lo em toda a sua capacidade de se revelar numa ascese emancipadora. Anselmo Borges fala do «seu balancear constante, triturante, paradoxal e contraditório entre a Presença e a Ausência».

O ENTENDIMENTO DOS SÍMBOLOS

Há um pequeno texto de Fernando Pessoa, em «Sobre Portugal», que trata do provincianismo. Muitas vezes tem sido referido e citado, talvez como um juízo definitivo, que não é. Do que se trata é da definição de uma atitude crítica contrária do conformismo. «O provincianismo consiste em pertencer a uma civilização sem tomar parte no desenvolvimento superior dela – em segui-la pois mimeticamente, com uma subordinação inconsciente e feliz. A síndroma provinciana compreende, pelo menos, três sintomas flagrantes: o entusiasmo e a admiração pelo progresso e pela modernidade; e, na esfera mental superior, a incapacidade da ironia». O poeta pensa na necessidade de haver escóis, de haver uma aristocracia comportamental, de se cultivar a abertura e o cosmopolitismo, de superar uma tripla camada de negativismo: a decadência, a desnacionalização e a degenerescência. Não importará tanto ver circunstancialmente o que significa cada uma destas preocupações. A ilusão do progresso ilimitado, a tentação de não cuidar do futuro, o fatalismo e a indiferença – tudo isso está em causa. E o certo é que a ironia ganha uma especial importância. É fundamental sermos capazes de nos vermos projetados no espelho da crítica. A poesia encarrega-se de perscrutar diversos caminhos. Mais do que encontrar soluções, que não cabem à arte, trata-se de iluminar e de ajudar a ver. Impõe-se, porém, cuidar do entendimento dos símbolos, o que obriga à consideração, segundo Pessoa, da simpatia, da intuição, da inteligência, da compreensão e do conhecimento transcendente. Tem o intérprete de sentir simpatia pelo símbolo. Tem de ser capaz de ver o que está para além dele. Tem de saber interpretá-lo. Tem de o entender. E tem de apreender o seu sentido e significado. Eis por que a criação cultural se torna fundamental, por contraponto às ilusões do provincianismo…
Guilherme d’Oliveira Martins

(Enviado por Auxília Ramos)

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Ler e (re)criar

Mais um trabalho de recriação literária, no âmbito da motivação para o estudo do texto poético. Os alunos, tomando contacto com a primeira manifestação literária do lirismo português, escolheram uma cantiga de amigo e imaginaram, a partir dela, uma página de diário ou uma carta, dada a natureza biográfica e intimista das cantigas de amigo galego portuguesas.

  1.
Pois nossas madres van a San Simon
de Val de Prados candeas queimar,
nós, as meninhas, punhemos de andar
con nossas madres, e elas enton
queimen candeas por nós e por si
e nós, meninhas, bailaremos i.

Nossos amigos todos lá irán
por nos veer, e andaremos nós
bailando ante eles, fremosas en cós,
e nossas madres, pois que alá van,
queimen candeas por nós e por si
e nós, meninhas, bailaremos i.

Nossos amigos irán por cousir
como bailamos, e podem veer
bailar moças de bon parecer,
e nossas madres pois lá queren ir,
queimen candeas por nós e por si
e nós, meninhas, bailaremos i.

Pêro de Viviaez, CV 336, CBN 698

 
Portus Cale, 1 de fevereiro de 1342

Querida prima Josefa,

Antes de mais, queria pedir-te perdão pelo incumprimento da minha promessa. Assim que te mudaste para Barcara Augusta, jurámos manter contacto, porém, só agora te escrevo esta carta para te contar todas as novidades e reatar a nossa relação. Tenho estado muito ocupada a tratar das nossas terras e a fazer os vestidos para a Rainha, pelo que não tenho tido oportunidade para te escrever.

Como sabes, no domingo passado, festejou-se o São Simão de Val de Prados, uma romaria muito conhecida por ser um importante ponto de peregrinação. Eu e as minhas amigas fomos à festa, acompanhadas das nossas mães, já que é impensável ir a qualquer lado que seja sem a supervisão da mãe. No entanto, as nossas intenções eram bem distintas. Enquanto as mães pretendiam rezar e cumprir as promessas que haviam feito, acendendo velas aos santos, eu e as minhas amigas tínhamos uma outra intenção, encontrar os rapazes.

Como também sabes, ainda estou solteira e este facto atormenta-me um pouco. Bem, mas, se refletirmos um pouco, posso afirmar que na teoria estou solteira, mas na prática não...

Não estava com grande ânimo para ir à romaria, uma vez que tenho tido muito trabalho e tenho andado estafada. No entanto, o facto de pensar que iria encontrar aquela pessoa que me acelera o coração, restabeleceu-me, de imediato, as forças. Dançar diante dele para me exibir não é coisa que se faça, eu sei bem, mas as minhas amigas incentivaram-me a fazê-lo. Será que fiz mal em dar um passo em frente?

Fico a aguardar uma resposta e espero que também me contes novidades.

Despeço-me com muito respeito e carinho,
Carlota Esteves

Ana Lídia, 10A


2.



Ai madre, ben vos digo,
mentiu-mi o meu amigo,

sanhuda lh’ and’ eu.

,


Do que mh ouve jurado

pois mentiu per seu grado,

sanhuda lh’ and’ eu.
,


Non foi u ir avia,

mais ben des aquel dia

sanhuda lh’ and eu.

,


Non é de mi partido,

mais, por que mi há mentido,

sanhuda lh’ and’ eu.

PERO GARCIA BURGALÊS


Mãe,



Nem acreditará! Sabe o meu amigo? Aquele que iluminou os meus dias mais sombrios, que foi o meu oásis no deserto da solidão? Sim, é esse mesmo em que está a pensar. Ele mentiu-me!

Ando furiosa com o mundo, comigo e com Deus! Jurou-me ser honesto e, agora, traiu a minha confiança! Odeio este sentimento de indignação. Odeio sentir-me não merecedora da sua verdade. Sabe, não me irrita o facto de ter partido, irrita-me, sim, ter mentido sobre para onde ia.

Já não sei nada dele desde aquele dia. Ando preocupada, mas, sempre que me recordo dele, a raiva reaparece.

Preciso de si e das suas palavras tranquilizadoras para a minha alma. Responda-me o quanto antes, por favor.


Da sua querida filha,

Bianca



Enviado por Auxília Ramos